| Parte Final do 'Diário de Che na Bolívia' |
| 7 de Outubro Cumprem- se os onze meses de nossa ação guerrilheira sem complicações, bucolicamente, quando às 12h30, uma velha, pastoreando suas cabras, passou por onde estávamos acampados. Não nos deu nenhuma notícia fidedigna sobre os soldados. Só nos deu informações sobre os caminhos e disse que estávamos a uma hora de Figueras. Às 17h30, Inti, Aniceto e Pablito foram à casa da velha, que tem uma filha doente e outra meio anã; deram a ela 50 pesos para que não dissesse ma palavra, mas com poucas esperanças de que cumprisse essa promessa. Saímos às 17 horas. Às 2 paramos para descansar, pois era inútil seguir avançando. O exército deu uma rara informação ( que os guerrilheiros captaram no rádio) sobre a presençá de 250 homens em Serrano para impedir a passagem dos guerrilheiros cercados em número de 37, dando a zona de nosso refúgio entre o rio Acero e o Oro. A notícia parece diversionista. Essas foram as últimas anotações do Diário de Che na Bolívia. No dia 9, aprisionado, via -se de frente com o tenente - coronel Selich, boliviano e descendente de iugoslavos, anticomunista ferrenho. Tiveram um breve diálogo, anotado assim por Selich: "Eu lhe disse que nosso Exército não era o que ele tinha imaginado e ele retrucou que tinha sido ferido e que uma bala destruíra o cano de sua carabina e que, nessas circunstâncias, não tivera alternativa senão se render (...)" "Comandante, acho que o senhor está um tanto deprimido. Será que o senhor pode me explicar por que estou com esta impressão? " disse Selich a Che "Eu fracassei" , respondeu Che. "Está tudo terminado e é por essa razão que me vê neste estado." Selich perguntou então a Che por que havia escolhido lutar na Bolívia e não no seu "próprio país". Che se esquivou da pergunta, mas reconheceu que "talvez tivesse sido melhor". Quando Che passou a elogiar o socialismo como a melhor forma de governo para os países latino - americanos, Selich o interrompeu. "Preferiria que não nos referíssemos a esse tópico", disse o oficial, afirmando que, de qualquer maneira, a Bolívia estava "vacinada contra o comunismo". Acusou Che de ter "invadido" a Bolívia e assinalou que a maioria dos seus guerrilheiros era de "estrangeiros". Segundo Selich, Che então olhou para os corpos de Antonio e Arturo. "Coronel, olhe para eles. Esses rapazes tinham tudo que poderiam querer em Cuba, e, no entanto, [vieram até aqui] para morrer como cachorros." "Calculo que Benigno esteja gravemente ferido desde a batalha de La Higuera [de 26 de Setembro] , na qual morreram Coco e outros. O senhor pode me dizer, Comandante, se ele ainda está vivo?" "Coronel, tenho memória muito ruim. Não me lembro nem sei como responder à sua pergunta." "O senhor é Cubano ou Argentino?" "Sou cubano, argentino, boliviano, peruano, equatoriano, etc (...) O senhor entende." "O que levou a resolver operar em nosso país? " "O senhor não vê o estado em que vivem os camponeses?", perguntou Che de volta. "São quase como selvagens, vivendo num estado de pobreza que deprime o coração, tendo apenas um aposento no qual dormem e comem, sem roupas para vestir, abandonados como animais (...)." "Mas o mesmo acontece em Cuba" , replicou Selich. "Não, isso não é verdade", retrucou Che. "Não nego que ainda existe pobreza em Cuba, porém lá os camponeses têm uma idéia de progresso, enquanto o boliviano vive sem esperança. Tal como nasce, morre, sem jamais ver melhoras em sua condição humana." "Qual o senhor acha que foi a razão do seu fracasso? Acho que foi a falta de apoio dos camponeses." "Pode haver algo de verdade, mas a verdade é que se deveu à eficaz organização do partido político de Barrientos, isto é, seus corregidores e prefeitos políticos, que se encarregaram de avisar o exército de nossos movimentos." O diálogo termina com uma pergunta de Selich sem uma resposta de Guevara:"Por que o senhor não conseguiu recrutar mais elementos nacionais, tais como os camponeses da zona?" Por fim, no dia 9 de Outubro de 1967, aos 39 anos de idade, Che Guevara estava morto. * * Para maior detalhes sobre a morte de Che Guevara, consulte a parte da Biografia |