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SAN LUIS DE OTAVALO, EQUADOR, 6ª feira, 9 de Maio de 2003

 

DIA DA VIAGEM N°  1046
CHEGADA AO OTAVALO 5ª, 2 de Maio, 14:30 hs.
QUILÔMETROS JÁ FEITOS EM EQUADOR 171,82 km
DIAS EM EQUADOR  15
QUILÔMETROS TOTAIS PERCORRIDOS (contando do dia de partida (o DIA 1: 26/06/2000), de Ushuaia, Argentina) 16.191,51 km

 

Oi amigões! Com certeza acreditavam que eu já estava em América Central, mas estou muito longe dali, mais precisamente 1.600 km ao sul da Cartagena num povoado chamado Otavalo, um local muito particular, famouso pelo seu mercado dos sábados que, acreditem, é impressionante: esse dia vocês encontram as ruas todas cheias de pontos de venda ao ar livre; o pessoal chega com a sua mercaderia dos povos pertinhos e também de locáis tão longes como o Peru. No povoado mega-mercado encontra-se tudo, dos ovos que você precisa para seu café da manhã aos artesanatos indigenas mais finos. E, com certeza, esse dia chegam também os ônibus cheios de gringos com seus bolsos carregados de preciosos doláres para gastar.

Do Equador preciso falar que é um dos países de maior hospitalidade que ter conhecido: nas ruas dos povoados respira-se paz; o pessoal caminha pelas ruas sossegado sem se preocupar muito. Fiquei muito surpreendido ao entrar nas lojas e ver que quase o mundo todo é amável (e isso que entrava procurando contribuições!), que aceitavam meu papel aonde pede-se apoio econômico para minha viagem, e que a maioria ajudavam com alguns doláres... falei doláres? É mesmo: em Equador a moeda foi sempre o Sucre, mas faz uns anos que o goberno decidiu cambiar direitamente pela moeda dos Estados Unidos, e agora você pode ver as notas verdinhas em qualquer lugar. Não se se isso é bom, mas ter olhado muitos equatorianos que grunhem sua rejeição.

Ah! e falando das contrubuições, em Colômbia o apoio foi impressionante, senão ver o  quadro embaixo com os resultados da coleta nesse país, que sirviu para viver os sete meses que fiquei lá.

CONTRIBUIÇÔES RECEBEDAS EM COLÔMBIA

Quantidade de colaboradores. 715
Contribuições totáis mostradas em U$S. 490,89
Contribuição média por pessoa mostradas em U$S. 0.67

Agora vou contar-lhes porqué estou tão longe do meu percurso, pois mesmo deberia me encontrar em Costa Rica ou Nicaragua.

 

LUTANDO CONTRA A LEI DE MURPHY

Eu estava do mais sossegado em Cartagena, Colômbia, procurando meios (dinheiro, é claro) para passar ao Panamá, quando recebi um e-mail doutro ciclista argentino (que também estava percorrendo América de bicicleta) onde falava que ele tentou entrar em Panamá e não foi aceitado, simplesmente porque não tinha 1.000 doláres no seu bolso... O cara retornou à Colômbia muito bravo com a sua viagem fregada. Então, senhoras e senhores, compreendi que era verdade que eu precisava desse dinheiro para entrar ao Panamá e portanto, considerando a minha situação econômica (só tinha 40 doláres no bolso), decidi me retirar para o sul: soldado que fuje vive para outra guerra (ou é fusilado, depende a sorte). E foi assim que tornei 180°, atravessando a Colômbia toda, até chegar aonde agora estou:

 

Em azul o percorrido feito pelo Equador e em vermelho o percorrido planejado.

 

Em Equador ingressei o 25 de abril e posso ficar até o 25 de julio, portanto procurarei percorrer o país o  necessario para virar também equatoriano ( é bom que saibam que que agora não sou somente argentino, também sou uruguaio, brasileiro, venezolano e colombiano), e também aproveitar para procurar fundos para saltar daqui ao Panamá ou outro país da América Central de avião ou barco, e continuar mesmo a minha viagem ao norte. 

Mas antes de seguir falando do pouco que conheço o Equador, vou fazer um flashback da Colômbia:

O senhor que esta comigo, Rodrigo Hernández Falla, da cidade de Sincelejo, Colômbia, patrocinou-me com uma câmara fotográfica automática ( a minha quebrou na Guajira, pelo ar salgado do mar). Graças a ele agora posso proseguir compartilhando as minhas imagens da viagem.

Em Colômbia fiquei sete meses, e percorri da Guajira à Cartagena e dali a Ipiales (divisa com o Equador), passando pelas cidades de Sincelejo, Montería, Medellín e Cali. Infelizmente tive que deixar o país apressadamente  porque exedi o tempo permitido (6 meses) e fui multado. Mas, após pagar, as autoridades permitiram mais um mês para poder sair do país, que apenas alcançou para atravessá-lo do Caribe ao Equador de bicicleta (tive que pegar ônibus de cali a Ipiales).  

Colômbia tem fama de ser um país perigoso, cheio de narcotraficantes, guerrilheiros e paramilitares mas, na verdade, o 99% do pessoal são pacíficos e só desejam trabalhar e viver suas vidas em paz. Foi por isso que pedalar as rodovias colombianas foi para mim um prazer e uma grande honra. Não encontrei problemas, mas sim encontrei muito apoio dos colombianos. 

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Nesta seqüencia de imagens vê-se a segunda sessão de manutenção da bicicleta. Foi na cidade de Montería, Colômbia. A primeira foto mostra ao mecânico começando seu trabalho.

 

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Logo após, ante meu desespero, posso olhar a minha bicicleta virada innumeráveis pedaços enquanto chegam aos meus ouvidos os doidos risos do mecânico.

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Finalmente, na foto estou com o Gabriel, o dono da bicicletaria "Cicloenergía", e com os mecanicos: vocês podem olhar a minha bicicleta novinha, porque eles trocaram o 70%  das peças por novas... a pobre bicicleta pedia isso faz tempo! Pois a última manutenção foi em Jacarezinho, Paraná.

São muitas as boas lembranças da Colômbia que ficarão sempre grabadas no meu coração: a música colombiana, os povoados como Taganga, na beira do mar Caribe, com seus barquinhos de pescadores...e Catalina, a bióloga marinha que conheci em La Guajira.

Foram muitos os meses que ficamos juntos, e ademais de a gente se conhecer, compartilhei seu trabalho ajudando e aprendendo. Ainda a gente esta em contatos, apesar da distância, e acho que a nossa história ainda não terminou.

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Algumas imagens com bombeiros. Deles muitas vezes recebi um apoio muito grande: nesta foto estou com os bombeiros da cidade de Montería.

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Tulcán é a cidade capital do estado do Carchi, em Equador, e é a primeira cidade que cheguei entrando de Colômbia. Aqui apresento o  corpo de bombeiros de Tulcán, aonde fiquei uns dias.

E agora quero contar-lhes dum encontro especial com uma família colombiana muito especial...

 

UMA FAMÍLIA MUITO NORMAL

Eu econtrava-me pedalando sossegado demais pelas rodovias equatorianas, quando de repente ouvo que alguém esta me chamando, então fico detido e olho, e não posso acreditar o que meus olhos estão me mostrando: quatro sujeitos, dois masculinos e duas femininas, ao lado de dois veículos de dois rodas que semejavam naves terrestres das que poderiam ser usadas num mundo pos-nuclear... mas eles na verdade eram meus colegas! O nome do chefe de família é Ramón, a sua esposa é Xandy e seus filhos Hedisa (18 anos) e Esteban (16). Fazia três anos que estavam percorrendo América (o Brasil, Bolivia, Peru e Equador). O casal viajaba numa bicicleta dupla e os filhos noutra, as duas bicicletas bem carregadas, e agora eles estavam voltando a sua pátria colombiana... mas não achem que eles já estavam cansados de viajar! Já eles têm seus próximos planos feitos e são, após ficar un tempo em casa, sair a pedalar Centroamérica.

De esquerda à direita: Hedisa, Ramón, Xandy e Esteban. A gente ficou falando mais duma hora trocando dados, histórias e técnicas de sobrevivência: eles para sobreviver fazem apresentações de teatro para coletar fundos nas cidades pelas quáis passam.

Antes de eles ir embora deram para mi um papel com un relato curto feito por um conhecido escritor argentino, e falaram que eu leia o relato mais tarde. À noite, após ter chegado à cidade de Ibarra e já confortávelmente ubicado no corpo de bombeiros, começei a ler o relato e terminei chorando como uma criança. O relato chama-se "Instantes" e escrevi para vocês ao lado, acho que com muitos erros gramaticáis porque não é fácil traduzir a Jorge Luis Borges. Leiam, da para ler.

Instantes 

Se eu puder viver novamente a minha vida, na próxima cometeria mais erros, seria mais tonto do que ter sido, de fato poucas coisas tomaria com seriedade. Seria menos higiênico, viveria mais riscos, faria mais viagens, olharia mais pôr-do-sol, subiria mais montanhas, nadaria mais rios, conheceria mais locáis que nunca ter conhecido, gostaria mais sorvetes e menos favas, teria mais problemas reáis e menos imaginários.

Eu fui uma dessas pessoas que viveu, viveu com prudência e prolíficamente os minutos todos da sua vida. Com certeza que tive momentos de alegria. Mas se eu puder voltar, trataria de ter só bons instantes. Mas se não sabem disso esta feita a vida, só de instantes. Eu era um dissos que nunca vai a parte nenhuma sem termômetro, um guarda-chuva e um pára-quedas.

Se eu puder voltar a viver começaria a caminhar descalço ao princípio da primavera e seguiria assim até fins do outono. Faria mais voltas em carrosel, olharia mais amanheceres e brincaria com mais crianças, se eu tiver ainda a vida diante. Mas já podem ver, tenho 85 anos e se que estou me morrendo...

Jorge Luis Borges.

Falou pessoal! Ter chegado o momento (o instante...) de me despedir, mas não sem antes falar mais duas coisas.

Têm duas questões que o pessoal pergunta-me constantemente: uma delas é quantos pneus já vou trocando nesta viagem. A minha resposta é sempre igual: não se (mas prometo contá-los!). E a outra questão é se não tenho saudade da minha terra...

Eu só posso falar que, apesar dos nossos problemas tudos, os argentinos talvez não fizemos as coisas tão terríveis em casa. Primeiro, quando começei a viagem, eu pensava que o pessoal de afora odiava à gente porque, segundo eles, os argentinos pensavam que eles são os melhores do mundo... Mas logo após vi que a realidade era outra, olhando que muitas pessoas viravam alegres quando eu falava que sou argentino. Nas cidades de Medellín e Pereira, em Colômbia, percorrendo as ruas e passando perto dos bares, ouvia os tangos de Carlos Gardel (nos bares todos!), e entrando nessos locáis respirava-se o ar de Buenos Aires. Em Colômbia e Venezuela, olhava-se muito pessoal com franelas do teme de Boca Juniors (não é o meu teme de futebol, mas mesmo assim ficava feliz), com a publicidade da cerveja Quilmes nas costas (uma cerveja tão boa como a brasileira, dou fé!). E ligar o televisor e olhar as publicidades argentinas na televisão pelo cabo (podem se imaginar, na outra ponta da América do sul?).

O qué posso eu dizer? Na verdade, olhar isso todo faz que tenha muita saudade e ao mesmo tempo sentir-se em casa.

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Aqui pertinho da cidade de Medellín. A foto foi tomada por um dos numerousos soldados que vigiam as rodovias colombianas para evitar atentados dos guerrilheiros. Atrás pode-se ver umas centinelas. 

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De Ipiales e logo após duns quilômetros cheguei à divisa Colômbia - Equador. As autoridades equatorianas carimbaram meu passaporte e deram para mi os três meses de permanência sem perguntar siquer (belleza!), não sem antes olhar a minha bicicleta com muita curiosidade.

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Os sapatos que olham aqui foram um presente do Robson. Ele e a sua família são meus amigos de Brasilia. Os sapatos são marca Hi-Tec, eram usados mas em boas condições. O Robson falou que para ele foi impossível destruí-los, e afirmou que eu não poderia. Mas o pobre Robson não conhecia meu segundo nome: "Destruir". A entropia governa a minha vida... 

Têm novidades para os cybernautas: mudei a parte de apresentação do meu portal, e agora vocês poderão olhar uma seção aonde falarei semanalmente aonde caralho estou; vai ser só uma coisa rapidinha, só uma foto e algumas palavras para poder dar informação certinha e não estar atualizando o portal de a quatro ou cinco meses. para conhecer como ficou, entrar em apresentação. E para o pessoal que quiser deixar suas mensagens ou comentários, sempre tem o Livro de mensagens.

Até mais irmãos, e não falo irmão num sentido de religião, pois o mundo e muito grande e religiões têm muitas. Por exemplo, eu acredito no deus pagão Baal (?). 

É brincadeira!


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