2. Características do espaço da Internet.
Como características do espaço da Internet
podemos pontuar algumas suposições, mas de fato, reconhecemos que as trocas
de influências entre espaço e indivíduos podem modificar as interpretações
sobre as características do mesmo. As características que serão vistas aqui
serão: descentralidade, auto-organizante, multiplicidade, seletividade,
velocidade de renovação, espaço de fuga, espaço para elite, democrático
, espaço de elaboração de eus, de distância e invisibilidade e escrita.
Muitas destas noções se apresentam entrelaçadas e dependentes umas das outras,
como também outras são aparentemente contraditórias, mas são todas características
visíveis dentro do espaço da Internet e que em muito contribuem para a formação
do contexto onde se dá a sociabilidade por mim estudada. A primeira característica
é a descentralidade. Consideramos o espaço da Internet, imaginando-o como
uma extensão dos tipos de espaços construídos contemporaneamente, como sendo
sem centros ; isto significa dizer sem uma organização centralizadora de
nenhuma natureza: estatal, privada ou mesmo convencional (e nesta categoria
se incluem as tradicionais de qualquer natureza). Os agrupamentos (ou conexões)
de indivíduos parecem se dar em diversas "direções" diferentes e sem nenhuma
critério além das vontades (intenções) dos indivíduos . Essas "direções",
como veremos mais adiante, parecem ser melhor compreendidas através do conceito
de afinidades e seus derivados, como as inter-afinidades. Dessa descentralidade
podemos inferir a formação de inúmeros sub-espaços ou micro-espaços afinitários,
que, de acordo com estatísticas recentes crescem e também desaparecem na
mesma proporção em que aumentam o número de usuários da Internet. (Folha
de SP-30/08/99) É como diz André Lemos (1996): "A Internet é um espaço auto
organizante, mas não é organizado". Os agrupamentos, afinidades, identificações,
os espaços parecem fluir veloz e dinamicamente. E, mais ainda, "o que permanece
das origens contraculturais da rede é a informalidade e a capacidade auto-reguladora
de comunicação..." (grifo nosso) (Castells, 1999: 381) É esta capacidade
auto-reguladora que nos induz a pensar o espaço da Internet como auto organizante,
pois não parece haver um centro produtor da Internet, apenas um contínuo
meio inter-conectado de diversos nós. Entretanto, existem críticos dessa
noção auto-reguladora da Internet, que supõem na verdade um controle da
tecnologia, do comércio e da expressão (monitoria de conteúdos) por parte
de grandes corporações e governos mais austeros; no entanto, isto não parece
eliminar o caráter rizomático de desenvolvimento, talvez menos livre, pré-orientado,
mas não totalmente controlável. Veremos mais sobre isso adiante quando abordarmos
a característica espaço democrático. Como vimos, um fator muito importante
no espaço da Internet parece ser as escolhas dos indivíduos (vontades e
intenções). Espaço de interações sociais diversas; a sua segmentação possível
desdobra os vários espaços de interação, quase ilimitado pela sua não possibilidade
de organização externa rígida ("auto organizante"). Disso, podemos elaborar
mais duas características interligadas. A primeira delas é a Internet já
vista como "espaço público" contemporâneo e que, pela sua multiplicidade
e descentralidade, impele (ou proporciona) o indivíduo a realizar uma maior
seletividade naquilo que deseja realizar (no nosso caso, o mais importante,
as atividades de socialização, isto é, a busca de semelhantes ou de iguais
para partilhar afinidades afetivas ). Logo, multiplicidade de possibilidades
de atividades, de informações, de referências, símbolos, signos e de conexão
com outros signos a partir destes (interconexão) e seletividade das atividades
a realizar são as duas características. O fato de ter enviado 800 questionários
e ter recebido de volta apenas 42 respondidos evidencia o dado do espaço
da Internet ser realmente múltiplo, como está sendo afirmado, e que seus
usuários precisam escolher o que querem fazer, isto é, selecionar atividades
em meio a um caos múltiplo de escolhas possíveis. Ou, como prevê Castells:
"...a capacidade da rede é tal que a maior parte do processo de comunicação
era, e ainda é, grandemente espontâneo, não-organizado e diversificado na
finalidade e adesão. (...) A comercialização do espaço cibernético estará
mais próxima da experiência histórica das ruas comerciais (feira livre)
que dos shopping centers espalhados na monotonia dos subúrbios anônimos."
(1999: 379) Seria um retorno ao caos do "espaço público" só que dentro do
espaço "encastelado" e "seguro" da Internet. Ainda sobre esta multiplicidade
que parece caracterizar o espaço da Internet, ela se refere também ao intenso
fluxo de informação nele existente. Uma multiplicidade que leva uma fluência
de um novo imaginário coletivo (novos símbolos e novas formas de cognição)
somente possível a partir do partilhamento deste mesmo fluxo de informações
por muitos usuários que trocam afinidades muito além do que somente mensagens.
"Esportistas, artistas, gays, lésbicas e bissexuais, deficientes, negros,
mulheres, capoeristas, punks, darks, skin-heads, neonazistas, torcidas de
futebol, sambistas, roqueiros, góticos, adolescentes, naturalistas e nudistas,
idosos, pacifistas, comunistas, necrófilos, pedófilos, sadomasoquistas,
índios americanos, rastafaris, motoqueiros, corredores, e toda a infinidade
de categorias que se possa imaginar são encontráveis na Net." (Amaral, 1998,
on line) E isso apenas como ilustração. Uma outra definição também bastante
ilustrativa sobre o espaço da Internet dada por Pierre Lévy, demonstra esta
multiplicidade de informações e de atividades possíveis: "Ela contém o equivalente
a livros, discos, programas de rádio, revistas, jornais, folhetos, curriculum
vitae, videogames, espaços de discussão e de encontros, mercados, tudo isso
interligado, vivo, fluido." (1999: 91-92) Uma outra característica do espaço
da Internet é a velocidade de renovação, tanto tecnológica quanto simbólica.
"...a velocidade de transformação é em si mesma uma constante - paradoxal
- da cibercultura." (Lévy, 1999: 27) Algo que afeta o cotidiano dos usuários
num processo constante de aprendizado e superação; no entanto o caráter
de constante renovação também caracteriza as interações que acontecem na
Internet, uma noção que será levada até a nossa etnografia, onde será visto
que a sustentação da noção de coletividade também depende de uma constante
renovação (de membros, de hábitos, de afinidades, etc.). Mudanças e renovações
são parte dos processos de identidade de qualquer forma de cultura, no entanto,
no espaço da Internet, o que é acrescentado é a velocidade das mudanças,
o que teoricamente não daria espaço para a construção da própria noção de
uma cultura, por isso o uso destacado do termo "paradoxal" por Pierre Lévy
ao falar sobre o assunto; e é essa velocidade que sempre estará presente
na maioria dos processos construídos a partir do espaço da Internet; é algo
presente em sua origem: relacionamentos que começam e acabam rápidos, empresas
que surgem e somem rapidamente, heróis que ascendem e decaem rapidamente,
mas também são características exemplares da nossa contemporaneidade, então
talvez seja algo apenas mais potencializado pelo espaço da Internet, mas
desde antes presente na cultura ocidental. Diante do que foi afirmado sobre
as características do espaço da Internet até aqui, podemos formular mais
duas; ambas tendo origem nos aspectos econômicos e no processo de "encastelamento"
que vem sendo explorado. A Internet como espaço para elite e também como
espaço de fuga. De fato, "embora realmente esteja revolucionando o processo
de comunicação e por meio dele a cultura em geral, a CMC (Comunicação Mediada
por Computadores) é uma revolução que se desenvolve em ondas concêntricas
nos níveis de educação e riqueza mais altos e provavelmente incapaz de atingir
grandes segmentos da massa sem instrução, bem como países pobres." (Castells,
1999: 383-4) A argumentação de Castells é pertinente para a hipótese de
característica do espaço da Internet que apresentamos, mas não podemos deixar
de notar o desenvolvimento do processo de expansão da Internet no mundo,
pois, mesmo que por razões puramente comerciais de grandes corporações,
a Internet também se expande entre camadas e países mais pobres; o que isso
pode significar positiva ou negativamente não se pode saber. Pessoas respondendo
ao questionário on line, quando perguntadas com que tipo de classificação
sobre a Internet concordavam, marcavam, muitas vezes, tanto a opção espaço
para elite, quanto a opção espaço democrático. Por enquanto, o espaço da
Internet parece ser de elite (não muito rigorosa), pois as limitações de
acesso a um computador ainda são grandes em boa parte da população. Sobre
este aspecto espaço democrático devemos ainda abordar algumas outras noções.
Diante da descentralidade já vista e desta democracia possível: "A Internet
possui um potencial incrível de democratização do conhecimento uma vez que
é uma rede sem centro, onde cada um de nós é um nó." (Pellanda e Pellanda,
1999, on line) Demonstrando a crença, quase sempre acadêmica, de que a Internet
é um espaço onde todos que têm acesso podem interagir e participar da multiplicidade
(de símbolos e de informações); por exemplo: participando de fóruns, trocando
experiências, criticando posições, etc. O espaço da Internet, em redes de
informação com possibilidade de acesso em massa, permitiria que cada usuário
se tornasse, pelo menos potencialmente, um disponibilizador de informação,
cuja validade não é exatamente o centro de sua observação principal, isto
é, qualquer um poderia publicar o que quisesse, inclusive informações falsas;
o importante seria o potencial democrático em questão. No entanto, outros
pontos de vista críticos também levantam suas vozes a esse respeito. Lawrence
Lessig, pensador americano, em entrevista para o encarte Mais do Jornal
Folha de São Paulo de 5/03/2000 diz: "A liberdade de expressão e a privacidade
na Internet estão sendo seriamente ameaçadas por interesses comerciais.
(...) ...o ciberespaço está se tornando um espaço muito menos livre que
no passado. O que está causando isso é primordialmente o interesse comum
do governo e do comércio em fazer do ciberespaço um lugar onde é mais fácil
rastrear as pessoas, monitorar seu comportamento..." (5-6). E na mesma publicação
o articulista Simsom Garfinkel diz: "A própria tecnologia existe num cruzamento
entre ciência, mercado e sociedade." (11). O que nos faz pensar que a multiplicidade,
o fluxo de informações e a expansão de usuários na Internet dá realmente
a oportunidade de certos núcleos especializados de tirarem o máximo de proveito
(invasão de privacidade, monitoria de hábitos, controle de conteúdos, etc.)
de uma grande maioria de usuários médios do espaço da Internet. Mesmo assim
ainda é uma tarefa muito difícil devido a magnitude potencial deste espaço
e algo ainda não mensurável. É um movimento de expansão ambivalente, ou
melhor "rizomático", e "expansão não é sinônimo de massificação, muito menos
de democratização." (Revista Carta Capital, Nº106, Setembro/1999: 65) O
que ainda faz recordar da questão do espaço para elite, pois, ainda na mesma
publicação é dito: "...a renda familiar mediana dos internautas está algo
acima de 20 salários mínimos, valor que ainda é mais de cinco vezes maior
que a renda média do País." (65) Enfim demonstrando que o espaço da Internet
é apenas mais um, cheio de contradições e problemas a serem constantemente
revistos e repensados. E quanto ao espaço da Internet ser espaço de fuga
diz Castells: "Cada vez mais temerosas de contágio e agressão pessoal, os
indivíduos procuram alternativas para expressar sua sexualidade e, em nossa
cultura de super-estimulação simbólica, a CMC com certeza oferece avenidas
para a fantasia sexual principalmente porque a interação não é visual, e
as identidades podem ser ocultadas." (Castells, 1999: 385) Veremos mais
adiante que uma outra característica está envolvida aqui, a invisibilidade,
mas o centro aqui neste ponto é o fato do espaço da Internet se tornar um
refúgio para pessoas que não se sentem mais seguras para se relacionar com
os outros "diretamente" (face-a-face) e, nesse caso específico apresentado
por Castells, para pessoas que desejam realizar fantasias sexuais também
de uma posição segura, o que mantém o mesmo questionamento da fuga. Dos
indivíduos que freqüentam o espaço da Internet e que responderam o questionário
on line, muitos demonstraram familiaridade com essa noção de fuga dentro
das interações no espaço da Internet: fuga da violência urbana, fuga de
compromissos ou, simplesmente fuga de uma auto aparência julgada inadequada
(feia). Retornando a analogia sobre a ponte, extraída de Simmell, e a Internet
sendo espaço de saída de eus e entrada de outros, podemos formular uma outra
característica da mesma: dá a possibilidade da "formulação" (atuação) de
muitos eus por parte dos indivíduos e como derivação disso a possível construção
de muitos nós, em contra partida, dá a oportunidade de se encontrar com
muitos outros. Podemos interligar esta característica com a multiplicidade
já mencionada, e também com a seletividade, pois deverá haver, dentro da
amplitude de escolhas e choques entre eus e outros, alguns critérios para
que os indivíduos procurem (escolham) certos lugares (sub-espaços) e certos
outros (semelhantes?, iguais?, diferentes?, - depende das intenções do indivíduo)
em detrimento de outros lugares ou outros outros. Investigaremos esses possíveis
critérios (de escolha, de intenção e de motivação) no capítulo seguinte.
Dessa última característica, podemos ainda elaborar as seguintes: a principal
ferramenta presente no espaço da Internet para elaboração dos eus é a escrita
(forma simbólica específica que leva a troca de interpretações ligadas a
esta forma de comunicação ), o que já deve suscitar diversas variáveis com
relação as formas de representação comuns neste espaço; e que será investigado
mais a fundo na última parte deste capítulo, pois esta forma particular
e diferencial de expressão do eu pode ser de grande importância para a compreensão
da sociabilidade no espaço da Internet. Enquanto a comunicação mediada por
computador se desenvolve tecnologicamente (textos, sons, imagens, etc.),
as formas de linguagem (expressão e interpretação) são também alteradas,
pois a velocidade dos processos mediadores (o espaço onde ocorre a interação)
afeta os processos codificadores e decodificadores. Muito da escrita no
espaço da Internet parece se aproximar da fala , por causa da velocidade
das interações, com cada vez mais contrações, aproximações e abreviações;
afastando-se, por exemplo, da linguagem através de cartas, onde parece haver
maior elaboração ainda na escrita. "Para alguns analistas, a CMC, especificamente
o correio eletrônico (e-mail), representa a vingança do meio escrito, o
retorno à mente tipográfica e a recuperação do discurso racional construído.
Para outros, ao contrário, a informalidade, espontaneidade e anonimato do
meio estimula o que chamam de uma nova forma de "oralidade", expressa por
um texto eletrônico. Se pudermos considerar tal comportamento como escrita
informal e não-burilada, em interação de tempo real, na modalidade de um
bate-papo sincronista (um telefone que escreve...), talvez possamos prever
a emergência de um novo veículo, misturando formas de comunicação que antes
eram separadas em diferentes domínios da mente humana." (Castells, 1999:
386) No entanto, a forma de expressão (especificamente escrita) no espaço
da Internet traz apenas as características inerentes à sua época e local,
não determina sua qualidade, apenas sua diferença. E enfim, a possibilidade
de se manter distante e até certo ponto invisível em relação aos interlocutores.
Uma das características da "conexão" é não precisar estar "próximo" corporeamente
(Martin-Barbero, 1998), no entanto a sensação de proximidade não parece
deixar de existir no espaço da Internet; só que mantida as medidas de segurança
já mencionadas: distância e invisibilidade. Relativizamos esta distância,
pois ela pode ter dois níveis: o primeiro, que é o mais elementar, é o fato
das pessoas não estarem face-a-face. O segundo nível se refere a possível
interpretação (simbólica e sensível) dos indivíduos de que as distâncias
foram "vencidas" através da Internet (visto desse ponto de vista como meio
de comunicação integrador - não deixando de lado a carga ideológica deste
tipo de afirmação). No entanto, nenhum destes níveis parece interferir no
fato de que os usuários da Internet, pelo menos a priori e num primeiro
momento de conexão com outros, não estão expostos diretamente aos outros,
o que nos faz retornar à característica invisibilidade, que se relaciona
com a característica dos muitos eus possíveis de serem elaborados por um
mesmo indivíduo. Fica-se "protegido" ("encastelado") ao mesmo tempo em que
parece se querer "sair", se socializar. O estranho (o outro/diferente) não
pode ser ameaça já que não está "próximo" diretamente (como na rua). Curiosamente,
uma das formas de ameaça que pode ser sentida no espaço da Internet é a
contaminação dos computadores por vírus (dentre outras coisas prejudiciais
que um especialista - hackers - pode fazer). Logo, o indivíduo se sente
protegido ou não no espaço da Internet? A esta pergunta veremos que há mais
variação do que consenso; as motivações e intenções dos usuários da Internet
é que levam a estados interpretativos de maior ou menor segurança, mas invariavelmente
vê-se o espaço como diferenciado no aspecto segurança ou auto exposição.
Veremos mais profundamente estas noções e categorias quando fizermos a nossa
construção do perfil do usuário ideal do espaço da Internet no capítulo
IV.
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