2.1. Motivações.
Richard Sennett (1970; 1976) nos apresenta
um contexto urbano em que se tenta "purificar" os locais de socialização,
transformando-se os espaços públicos (espaço de encontro/choque entre diferentes)
em espaços de concentração de semelhantes. As ruas se tornaram espaços de
passagem, de ansiedade; espaços onde se dá a "desatenção civil" e "com franca
deterioração da esfera pública, no que tange às possibilidades de interação
social marcada pela diversidade." (Frúgoli, 1995: 18) Os shopping centers
são ótimos exemplos desse tipo de espaço público contemporâneo. Eles "constituem...
'cidade dentro da cidade', reproduzindo em seu interior uma atmosfera idealizada,
procurando banir os atores sociais 'desviantes'; vêm se tornando importantes
pontos de lazer para vários grupos sociais, sobretudo jovens, que criam
no espaço diversas formas de sociabilidade." (Frúgoli, 1995: 94) Templos
de sociabilidade encastelada (individualista), protegida, segura e consumista.
A intrínseca relação entre os espaços de interação shopping centers e a
sociabilidade contemporânea nos é vivamente revelada quando lembramos que
o grupo Galera ZAZ pesquisado tem como um de seus mais importantes pontos
de encontro um shopping. Por outro lado, Manuel Castells (1999) desenvolve
uma noção de "guetos ricos", referindo-se à elitização dos espaços que faz
com que os contatos com a diferença praticamente não mais existam, havendo
somente contatos com o semelhante, ou mesmo com o igual. Que é também o
que Sennett diz sobre o fim dos espaços públicos, isto é, ricos e pobres
não se misturam e classe média também não, pois tenta imitar os ricos, se
"encastelando" em condomínios fechados e shopping centers, como vimos, num
processo de aversão ou indiferença em relação ao Outro (processo que surgiu
e cresceu junto com as grandes cidades modernas). Este processo está dentro
de um contexto onde "a interconexão tece um universal por contato" (Lévy,
1999) mediado pela tecnologia. Um tipo de universo não total, heterogêneo
e múltiplo, onde se constrói uma proximidade simbolicamente interpretada
pelos indivíduos através dos mediadores eletrônicos/tecnológicos. "Uma trama
cultural que desafia nossas noções de cultura e de cidades, os marcos de
referências e compreensão forjados sobre a base de identidades nítidas,
de fortes enraizamentos e demarcações claras." (Martín-Barbero, 1998: 53,
o grifo é meu) Dentro deste processo de encastelamento, aparentemente coerente
com a realidade de grandes cidades, como Salvador, onde os shoppings vivem
cheios e nas ruas as pessoas se cruzam tentando não se olhar (a "desatenção
civil"), a sociabilidade protege os indivíduos do desenraizamento, da sensação
de não pertencimento. Vejamos então que motivações constróem a sociabilidade
contemporânea. Segundo Michel Maffesoli (1996), para superar a institucionalização
e a racionalização da sociedade moderna, dá-se um processo subterrâneo de
sociabilidade através do hedonismo e da afirmação das subjetividades. Esse
processo seria motivado pela necessidade de pertencimento afetivo que emerge
no interior dos indivíduos. Uma necessidade de "efervescência", de "estar
junto" , mas sem compromisso, já que na verdade o que é obrigatório (trabalho,
regras, etc.) já é realizado na superfície; daí ser um movimento subterrâneo.
Esse movimento seria potencializado pelas mídias eletrônicas modernas. Ainda
segundo Maffesoli (1987), presenciaríamos hoje, uma renovada busca por pertencimento
nos indivíduos. A ausência de um todo moral que identifique o indivíduo,
o faz procurar preencher-se através de laços emocionais, de interesse não
institucional. O autor fala de uma necessidade de "proximidade", que faz
com que o "individualismo contemporâneo" se converta em redes de grupos
por afinidade, de caráter efêmero, mas emocional. Possibilidades de socialização
diante da multiplicidade simbólica atual. Então, o que dá sentido não é
mais a subsistência, é o acessório afetivo (arte, lazer, prazer...), que
tem seu sentido existencial em ato, enquanto está sendo atualizado em toda
sua carga de emotividade coletiva. A expressão pessoal de fantasias é apresentado
como uma das motivações para o crescimento das redes telemáticas (a Internet
é uma dessas redes; a maior de todas). Castells diz sobre o Minitel Francês
(rede eletrônica de informações instalada na França): "...motivo importante
para a difusão do uso do Minitel: a apropriação do meio, pelo povo francês,
para sua expressão pessoal." (1999: 368) Seria algo que preencheria a mais
o cotidiano do cidadão comum com conteúdos afetivos e lúdicos. Um novo espaço
público inserido no espaço íntimo dos indivíduos. Não seria um substituto
de outros espaços de sociabilidade, apenas um a mais. Como uma moda, foi
temporário, fazendo parte do ethos contemporâneo que tem também como características
o lúdico e o efêmero (Maffesoli, 1996). No fragmento: "Comunidade de idéias,
preocupações impessoais, estabilidade da estrutura que supera as particularidades
dos indivíduos, eis aí algumas características essenciais do grupo que se
fundamenta, antes de tudo, no sentimento partilhado. (...) ...o indivíduo
não pode existir isolado, mas que ele está ligado, pela cultura, pela comunicação,
pelo lazer, e pela moda, a uma comunidade," (Maffesoli, 1987: 114), vemos
um pouco da tentativa do autor em ver a coletividade como sagrado. Esses
elementos podem ser o constituído do "dar sentido à vida" - as "afinidades
afetivas" são as que constituem nos indivíduos a sensação de pertencimento,
partilhamento de algo, de um modo predominantemente emocional, com sentido,
mas não de forma utilitária, necessária em primeiro plano, mais um acessório
que constrói o sentido, o pertencimento a algo. No entanto, essa impessoalidade
de Maffesoli não parece ser o mesmo conceito apresentado por Richard Sennett
(1976). O contexto espacial que Sennett apresenta faz com que a impessoalidade
(relações entre diferentes que convivem) deixe de existir, forçando os indivíduos
a uma intimidade por sempre se conviver com o igual. Já Maffesoli confronta
impessoalidade com "pessoal" individualista; onde, através do "pertencimento"
o grupo passa a ter um caráter "impessoal", mas não frio, sem intimidade,
apenas onde a pessoa sozinha não é tão representativa quanto o grupo.
Neste contexto, o "hedonismo" e o "teatro de simulacros do cotidiano"
(Maffesoli, 1984) é o que constituiriam os espaços de socialidade da contemporaneidade.
Os chamados "grupos espetaculares", por exemplo, cujas motivações podem
ser classificadas como formas lúdicas de afirmação de identidade, ou mesmo
de encontro de identificações (bailes funk, punks, darks, ravers, etc.),
são grupos, convergidos por afinidades afetivas (gosto musicais, formas
de vestir, comportamento espetacular, etc.) e que se atualizam como forma
de construir o pertencimento, mas, geralmente, de uma forma que subverta,
pelo menos temporariamente, a ordem institucional e racionalizante da qual
fazem parte (trabalho, escola, família, pobreza, globalização, etc.). Segundo
Maffesoli (1987), a identidade é uma aceitação de ordem, então, admitida
a característica jovem de não "ter" uma identidade já forjada, o processo
de múltiplas identificações se torna mais possível. A estruturação grupal
das identificações parte da busca de sentido, da dúvida sobre a ordem, e
pode ser uma ação mais notadamente jovem (duvidar com vitalidade). Nesses
grupos, as múltiplas afinidades podem ser a busca de identificação (afetiva)
que levaria ao sentido. Muito das motivações contemporâneas para sociabilidade
está ligado à construção de identificações relacionadas com a juventude.
A necessidade de participar de grupos afinitários faz parte da moderna separação
entre vida adulta e adolescência em nossa sociedade. Sendo este um período
de suposta preparação para a vida de responsabilidades adultas. Helena Abramo
(1994) sugere essa construção histórica moderna como uma das razões para
diversos fenômenos de sociabilidade. Na época medieval não haveria uma separação
específica da juventude para idade adulta. A vida coletiva da época medieval
impedia esta separação. Todos conviviam juntos, havendo apenas a separação
entre crianças e adultos, basicamente. As convenções sociais da modernidade
é que teriam criado um novo período de passagem entre fases da vida: a juventude,
que envolvia a educação escolar e o aprendizado profissional; havendo já
aí uma separação da vida coletiva anterior. A busca por identidade nesse
período da vida passou a fazer parte de uma necessidade de pertencimento
que não mais era suprida pela comunidade (coletividade) familiar. Daí as
construções de redes afinitárias diferenciadas a partir da sociabilidade
dos jovens . "O lazer, para os jovens, aparece como um espaço especialmente
importante para o desenvolvimento de relações de sociabilidade, das buscas
e experiências através das quais procuram estruturar suas novas referências
e identidades individuais e coletivas..." (Abramo, 1994: 61-62) Obviamente
que não podemos ver o lazer somente como uma forma de pertencimento para
jovens. Nossa reflexão é um tanto mais abrangente. O caráter lúdico da sociabilidade
contemporânea e na Internet tem uma evidente visibilidade; algo que podemos
chamar até de jovial, mas que não é exclusividade de jovens. No grupo Galera
ZAZ pesquisado, onde a maioria dos membros se concentra entre os 17 e 26
anos, por exemplo, existem membros com mais de 30 ou 40 anos, o que não
impede seu perfil jovial e festivo. Com relação à faixa etária dos usuários
da Internet há, no momento, uma concentração maior entre pessoas de 20 e
29 anos. No questionário aplicado tivemos: até os 19 anos, tivemos 22 pessoas
(22,9%) respondendo os questionários. Entre 20 e 29 anos tivemos 33 pessoas
respondendo o questionário (34,4%), sendo considerada uma maioria; porém,
a representatividade dessa maioria deve ser relativizada pelo fato de que
24 pessoas com idade entre 30 e 39 anos (25%) também responderam ao questionário
e que 17 pessoas com mais de 40 anos (17,7%) também o fizeram, o que somados
dá uma quantidade superior ao número de pessoas com idade entre 20 e 29
anos. Numericamente isso pode até não ser muito importante, pois, se considerarmos
a pesquisa de Eduardo Krauze Diehl como fator de comparação, realmente há
um contingente mais jovem de usuários da Internet, mas, qualitativamente,
isso pode afetar o nosso julgamento e interpretação do conjunto de respostas,
pois poderemos considerar que um número considerável de pessoas "mais maduras"
também respondeu ao questionário, de maneira a equilibrar com a maioria
de jovens que se dispuseram a respondê-lo também. Para complementar, com
relação ao estado civil destes mesmos pesquisados, uma grande maioria disse
ser solteira: 56 pessoas (58,3%); o que não seria de se espantar, já que
era uma maioria de pessoas jovens também, pelo menos tradicionalmente. Tivemos
18 pessoas (18,7%) afirmando serem casadas, 21 pessoas (21,9%) afirmando
serem separadas e 1 pessoa (1,04%) que disse ser viúvo(a). Só podemos concluir,
então, que pessoas jovens e solteiras (e/ou disponíveis para envolvimentos
íntimos) se dispuseram mais a responder o questionário da pesquisa e talvez
a freqüentar a Internet mais assiduamente .
Os usos do tempo livre como forma de pertencimento são ainda outras formas
de ver a sociabilidade contemporânea. Os engajamentos sociais e políticos
voluntários, por exemplo, são uma forma de acessório lúdico do cotidiano,
mas que é ajustado ao contexto, pois se continua a prover a rotina funcional
e técnica da vida. É o valor motivador do frívolo, acessório e lúdico no
"estar junto" dos grupos que dá sentido aos seus indivíduos, além dos fatores
produtores e reprodutores da nossa subsistência cotidiana. Segundo Joffre
Dumazedier (1974; 1994) a questão do lazer e do tempo livre traz uma nova
dimensão às noções de sentido, motivações e usos do tempo do ser humano
ocidental contemporâneo. Os diferentes usos do tempo das pessoas parece
ter haver com um equilíbrio entre obrigações e vontades numa dinâmica que
tende a se tornar familiar, isto é, por mais que se anseie por novidades
lúdicas no cotidiano contemporâneo, estas novidades tendem a ser absorvidas
pelo próprio cotidiano; por isso os processos de renovação das formas de
lazer. O espaço da Internet, quando visto pelos usuários como pura novidade,
tem um perfil caracteristicamente lúdico, pois o indivíduo está aprendendo
por vontade própria, por sua própria curiosidade; é o que Dumazedier (1994)
chama de "tempo escolhido". No entanto, este aprendizado eventualmente também
fará parte de sua rotina de atividades, talvez inclusive da de trabalho.
Com o uso cada vez mais comum dos computadores nos locais de trabalho mais
capacitados (escolas também), os indivíduos conseguem construir um uso de
tempo variado dentro da mesma rotina: ele trabalha no computador em algum
programa profissional; ao mesmo tempo sua conexão à Internet está ativada
e seu programa de e-mail lhe avisa sempre que uma nova mensagem chega, esta
podendo ser particular ou não, lúdica ou profissional; e ainda, ao mesmo
tempo ele pode ter janelas de seu navegador ativadas, em uma fazendo uma
pesquisa para o trabalho ou escola e em outra ele pode estar num chat sobre
fofocas de artistas de TV. Veremos mais detalhes deste tipo de rotina misturada
no capítulo seguinte, quando teremos as interpretações dos próprios usuários
para a construção de seu perfil ideal. Podemos ver que estes tempos escolhidos
estão em geral considerados em ajuste ou equilíbrio com as obrigações sociais
dos indivíduos. Tentando demonstrar que "a ética do lazer não é a da ociosidade
que rejeita o trabalho, nem a da licença que infringe as obrigações, mas
a de um novo equilíbrio entre as exigências utilitárias da sociedade e as
exigências desinteressadas da pessoa." (Dumazedier, 1974: 59) Deixando claro
que este equilíbrio funciona de forma inter-complementar, isto é, "o lazer
não é um complemento do trabalho" (Dumazedier, 1994: 38), é uma parte integrante
dos usos do tempo, da dinâmica dos tempos sociais na sociedade ocidental
contemporânea . Assim, a amplitude das interpretações a respeito do lazer
e do tempo livre sugeridas por Dumazedier dão toda uma credibilidade a estas
questões das motivações para sociabilidade contemporânea, por exemplo: "a
participação em grupos"; "a construção de Eus"; "os aprendizados voluntários";
"as festas não tradicionais, nem sazonais, nem institucionais"; "estar junto
sem outra razão além de estar junto"; "a busca de sentido em outras aspirações
que não as institucionais: trabalho, família, religião, etc."; "o sexo como
expressão individual"; "expressão criativa"; "encontro de pares (paquerar)";
"complementação afetiva além do consumo"; "a superação multi-complementar
emocional da racionalidade funcional" (Dumazedier, 1994). Todas motivações
possíveis e visualizáveis no nosso contexto de reflexão. E finalmente, também
fazendo parte, como acabamos de ver, das motivações para a sociabilidade
contemporânea, os grupos Net, centro desta reflexão, buscam o preenchimento
afetivo (complementar e acessório), mas também ajustado aos chamados mercados
de consumo e de trabalho atuais. E nesse caso o sentimento de pertencimento
desencaixa-se da localização, passando a ser possível pertencer à distância,
dentro de outros contextos . Uma potencialização específica da Internet,
que também é contemporânea, como veremos mais a frente nas interpretações
sobre proximidade e distância. Pois é também neste contexto contemporâneo,
e da Internet, que quando o indivíduo encontra algo com que tem afinidade,
pode querer consumir ou participar somente para dar (ou ter) um sentido
a sua individualidade naquele contexto tão amplo e variado; ou, como diz
Osmundo de Araújo Pinho: "a prática de consumo torna inteligível um mundo
complexo e fragmentado..." (in: Sansone, 1997: 189) Logo, vemos o modo como
se dão os processos de escolhas na multiplicidade para os indivíduos e a
manutenção das possíveis regras de convivência dentro destes espaços escolhidos
(a subjetivação do consumo e a busca pelo pertencimento simultaneamente).
Um aspecto de grupo que surge como identificação surge nos indivíduos como
a motivação de pertencimento procurada, mas cada coletividade tem suas regras
e rituais, e estes ajudam na efetivação do pertencimento também, pois é
a passagem para a semelhança com o coletivo. Os rituais são construídos
pelos indivíduos através do partilhamento do espaço. Rituais estes, mais
afetivos, procurando a proximidade atualizada; a identificação no momento,
mesmo que dentro das contingências dos contextos contemporâneos de trabalho
e consumo; fazendo parte dos mesmos, no mesmo cotidiano. Enfim, as motivações
lúdicas e afetivas compõem o centro de nossas afirmações a respeito da sociabilidade
contemporânea, mas em completo acordo e ajuste com as contingências práticas
e funcionais da contemporaneidade ocidental.
SEGUINTE
VOLTAR AO ÍNDICE