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Em
04 de Abril de 1958, nasceu Agenor de Miranda Araújo Neto,m Ipanema, Rio. O menino ficou regido por Áries,
enquanto no céu ascendia Sagitário, e a Lua se posicionava em Libra; presságio
de que quem chegava vinha para a luta e pela liberdade; prometia um espírito
poético. Filho raro de Logum-edé, um orixá-criança, protegido por Santa Rita.
Na definição do dicionário, "cazuza" é um vespídeo solitário, de ferroada
dolorosa, . Deriva daí, provavelmente, o outro significado que o termo tem no
Nordeste: o de moleque. Foi por isso que João Araújo, de ascendência nordestina,
certo de que sua mulher Lúcia teria um menino, começou a chamá-lo de Cazuza,
mesmo antes de seu nascimento. Batizado como Agenor de Miranda Araújo Neto,
desde cedo o menino preferiu o apelido, que também é o nome de
um personagem infantil da literatura brasileira. O nome ele só viria a aceitar mais
tarde, ao saber que Cartola, um dos seus
compositores prediletos, também se chamava Agenor.
Cazuza
foi criado em Ipanema, habituado à praia. Os pais - ele, divulgador da
gravadora Odeon; ela, costureira - não eram ricos mas o matricularam numa
escola cara, o colégio Santo Inácio, dos padres jesuítas. Como às vezes
tinham que sair à noite, o filho único se apegou à companhia da avó materna,
Alice. Quieto e solitário, foi um menino bem-comportado na infância.
Na adolescência, porém, o gênio rebelde do futuro roqueiro se manifestaria.
Cazuza terminou o ginásio e o segundo grau a duras penas, e, depois de prestar
vestibular para Comunicação, só porque o pai lhe prometera um carro, desistiu do
curso em menos de um mês de aula. Já vivia então a boemia no Baixo Leblon e o trinômio sexo, drogas e rock 'n'
roll. Que ele amasse Jimi Hendrix, Janis Joplin e os Rolling Stones, tudo bem.
Mas vir a saber que se drogava e que era bissexual, isso, para a supermãe
Lucinha, não foi nada fácil. Assim como não foi, para o pai, ter que livrá-lo de
prisões e fichas na polícia, por porte e uso de drogas.
Começou a povoar seu arquivo interno com os
personagens desses lugares: artistas, marginais, boêmios. Chegava em casa e
escrevia furiosamente sobre tudo. Depois, engavetava os escritos. Ouvia música,
tudo: Dolores Duran, Maysa, Janis Joplin, Hendrix, era fã incondicional de
Lupicínio Rodrigues.
João Araújo não queria o filho na vabundagem e, em 1976, arrumou emprego para
ele na gravadora Som Livre, onde já era presidente. Lá, Cazuza trabalhou no
departamento artístico, fazendo a primeira triagem de fitas de cantores novos, e
na assessoria de imprensa. Depois foi divulgador de artistas na gravadora RGE,
e, após sete meses de um curso de fotografia na
Universidade de Berkeley, deu alguns passos como fotógrafo. Mas nada disso o
satisfazia.
Graças, contudo, a um outro curso - de teatro, dado pelo ator Perfeito
Fortuna (grupo Asdrúbal Trouxe o Trombone) - Cazuza acharia o seu papel. Não
seria representar, mas cantar. É que na montagem da peça "Pára-quedas do
coração", conclusão do curso, tudo o que ele fez foi soltar a voz, vindo a
gostar muito da experiência. Afinal, música ele já respirava desde criança. Em
casa mesmo, se acostumara a conviver com a presença de estrelas da MPB que seu
pai produzia. Por que não se tornar também uma delas? Só faltava achar a sua
turma.

Roberto
Frejat, guitarrista; Dé, baixista; Maurício Barros, teclados; Guto Goffi,
baterista. Era 1981 e esses garotos precisavam de um vocalista para
completar sua banda. Os ensaios aconteciam na casa de um deles no bairro de Rio
Comprido, onde um dia apareceu Cazuza, enviado pelo cantor Léo Jaime. Sua voz,
era adequadamente berrada para os rocks de garagem que os quatro faziam, agradou
muito. A voz do autor/cantor ficou sendo a
marca registrada do Barão, rouca, meio cantada, meio falada. Cazuza inaugurou
uma nova maneira de cantar.
Animado, o novo integrante resolveu então mostrar as letras que, na
surdina, vinha fazendo havia tempos. Rapidamente o grupo, que se chamava Barão
Vermelho e só tocava covers, começou a compor e aprontou um repertório próprio.
Dos primeiros shows, em pequenos teatros da cidade, ao disco de estréia foi
um pulo. No início de 1982 uma fita demo chegou aos ouvidos do produtor Ezequiel
Neves (os barões eram a melhor coisa que já havia
existido no cenário musical brasileiro), que, entusiasmado, a mostrou a Guto Graça Mello, diretor artístico da Som
Livre. Juntos, eles convenceram João Araújo - de início, relutante, na condição
de pai do cantor - a lançar a banda. Com uma produção baratíssima, "Barão Vermelho", gravado em dois dias, obteve boa
recepção da parte de artistas. Entre estes, um dos maiores ídolos de Cazuza, Caetano Veloso, que incluiu "Todo amor que houver
nessa vida" no repertório de seu show e criticou as rádios por não tocarem as
músicas do grupo.
"Todo amor que houver nessa vida" (registrada também, mais tarde, por Gal
Costa, Caetano Veloso e outros intérpretes) foi um dos destaques de um disco que
revelou ainda "Down em mim", "Billy Negão" e "Bilhetinho azul". No repertório
predominavam rocks básicos, dançantes e juvenis, mas havia também blues, um gênero com o qual Cazuza se identificava
desde que descobrira Janis Joplin. Sobre essas
músicas o rouco cantor desfilava letras falando despudorada, escancaradamente de
amor, prazer e dor. Ao sair o segundo disco, a reiteração dessas qualidades de
estilo repercutiu na imprensa. Alguns críticos não tardaram a identificar ali a
influência de mestres da dor-de-cotovelo, como Lupicínio Rodrigues, e da fossa, como
Dolores Duran e Maysa - o outro lado da formação musical de
Cazuza.
Bem melhor gravado, "Barão Vermelho 2" foi
lançado em Julho de 1983. O álbum ainda não seria um sucesso comercial (vendeu
cerca de 15 mil cópias, quase o dobro do primeiro), mas manteve o alto nível do
repertório anterior, e arregimentou um público maior para a banda com músicas
como "Vem comigo", "Carne de pescoço", "Carente profissional" e "Pro dia nascer
feliz". Esta última consolidaria a dupla Frejat-Cazuza, tornando-se um grande
sucesso no registro feito por Ney Matogrosso, a
primeira estrela da MPB a gravá-los. A escalada do grupo nas paradas, contudo,
estava prestes a acontecer.

Se com
"Bete Balanço", filme de Lael Rodrigues, o rock brasileiro dos anos 80 chegou às telas de
cinema, com a música-título, feita de encomenda para a trilha, o Barão Vermelho
chegou ao grande público. Registrada num compacto do início de 1984, a canção estourou,
virando um marco no trajeto da banda, que também contracenava no filme. A música
acabou incluída no terceiro LP, lançado em setembro daquele ano, para ajudar a
sua comercialização. O que talvez nem tivesse sido necessário, pois "Maior abandonado", impulsionado pela faixa
homônima, atingiu em dois meses a marca das 60 mil cópias vendidas, e em seis,
das 100 mil.
"Raspas e restos me interessam (...) Mentiras sinceras me interessam", em
"Maior Abandonado"; "Você tem exatamente três mil horas/ Pra parar de me beijar
(...) Você tem exatamente um segundo/ Pra aprender a me amar", em "Por que a
gente é assim?"; "A fome está em toda parte/ Mas a gente come/ Levando a vida na
arte", em "Milagres". Com achados como esses, presentes no novo álbum, Cazuza
foi ganhando fama de poeta do rock brasileiro. Com muita energia, ele foi
superando suas limitações como cantor. Suas atitudes irreverentes e declarações
espalhafatosas, fizeram com que aparecesse cada vez mais como artista e
personalidade. A princípio, tudo isso só contribuía para chamar a atenção para o
grupo todo. Mas...
Com o sucesso, e , conseqüentemente, com a maior exigência de
profissionalismo, as diferenças se ressaltaram. O temperamento irrequieto de
Cazuza pouco se adequava a uma agenda cada vez mais sobrecarregada de ensaios e
entrevistas. Os desentendimentos foram crescendo. Em janeiro de 1985, o Barão
fez uma bem-sucedida participação no festival Rock 'n Rio, abrindo shows para grandes atrações
do rock internacional. A continuidade do sucesso, porém, não conseguiu evitar a
separação do grupo. Em julho, quando o material para o próximo disco já estava
selecionado, a notícia chegou aos jornais: enquanto os outros seguiriam com a
banda, sua estrela partiria para uma brilhante carreira solo.
Poucos dias depois, Cazuza voltava a ser notícia. Tinha sido internado num
hospital do Rio com 42 graus de febre. Diagnóstico: infecção bacteriana. O
resultado do teste HIV, que ele exigiu fazer, dera negativo. Mas naquela época
os exames ainda não eram muito precisos.

Gravado com outros músicos, o álbum "Cazuza" apresentou uma sonoridade mais limpa que
a do Barão. Lançado em novembro de 1985, o disco inaugurou a fase individual do
cantor e uma série de parcerias. Entre os co-autores das músicas figuraram dois
antigos colaboradores: Frejat, que continuou parceiro e amigo de Cazuza, e
Ezequiel Neves, outro velho e grande amigo, co-produtor, desde os tempos do
Barão, de todos os seus discos.
Cazuza assinou os maiores hits do novo álbum: em parceria com Ezequiel e
Leoni, o rock "Exagerado", emblemático da sua persona romantico-poética, e a
balada "Codinome Beija-flor", com Ezequiel e Reinaldo Arias. Mais dois rocks
ficaram notórios. "Medieval II" fixou nas rádios seu auto-irônico refrão ("Será
que eu sou medieval?/ Baby, eu me acho um cara tão atual/ Na moda da nova Idade
Média/ Na mídia da novidade média"). E "Só as mães são felizes", que teve sua
execução pública proibida pela censura. Escandalosa ("Você nunca sonhou ser
currada por animais? (...) Nem quis comer sua mãe?"), a letra homenageou
artistas malditos, como o escritor beat Jack
Kerouac, citado no verso-título.
Importante referência literária de Cazuza, ao lado de
Clarice Lispector (cujo "A descoberta do mundo"
tornou seu livro de cabeceira), Kerouac também teve um poema transcrito na
contracapa do disco seguinte. Lançado em março de 1987, "Só se for a dois" foi o primeiro álbum de Cazuza
fora da Som Livre, que resolvera dissolver o seu cast. Disputado por várias
gravadoras, ele se transferiu para a Polygram, a conselho do pai. A essa altura,
apesar da imagem de artista "louco", sua postura profissional já era outra. O
rompimento com o Barão, junto com a liberdade artística que almejara, trouxera
também a exigência de mais seriedade.
"Só se for a dois" acrescentou novos sucessos à sua carreira, a começar pela
canção-título, mas a música que estourou mesmo foi o pop-rock "O nosso amor a
gente inventa (estória romântica)". Em seguida ao lançamento, uma turnê nacional
mostrou um show mais elaborado que os anteriores, em termos de cenário e
iluminação. Cazuza se aprimorava e decolava: seus espetáculos lotavam, suas
músicas tocavam e a crítica elogiava seu trabalho.
A essa época, contudo, ele já sabia que estava com Aids. Antes de estrear o
show "Só se for a dois", tinha adoecido e feito um novo exame. A confirmação da
presença do vírus iria transformar sua vida e sua carreira.

Em outubro de 1987, após uma internação numa clínica do Rio, Cazuza foi
levado pelos pais para Boston, nos Estados Unidos. Lá, passou quase dois meses
críticos, submetendo-se a um tratamento com AZT. Ao voltar, gravou "Ideologia" no início de 1988, um ano marcado
pela estabilização de seu estado de saúde e pela sua definitiva consagração
artística. O disco vendeu meio milhão de cópias. Na contracapa, mostrou um
Cazuza mais magro por causa da doença, com um lenço disfarçando a perda de
cabelo em função dos remédios. No seu conteúdo, um conjunto denso de canções
expressou o processo de maturação do artista.
"O meu prazer agora é risco de vida/ Meu sex and drugs não tem nenhum rock
'n' roll", confessava ele, em "Ideologia". E: "Eu vi a cara da morte/ E ela
estava viva", em "Boas novas". Rico e diverso, o repertório trouxe ainda um
blues, o "Blues da piedade", uma canção "meio bossa nova e rock 'n' roll", "Faz
parte do meu show", grande sucesso, e o rock-sambão "Brasil", que faria um
sucesso ainda maior com Gal Costa. Tema de abertura da novela "Vale tudo", da
Rede Globo, "Brasil" fez um comentário social forte sobre o país, com versos
como "meu cartão de crédito é uma navalha". No disco, a temática social apareceu
também em "Um trem para as estrelas", feita com Gilberto Gil para o filme
homônimo de Carlos Diegues.
Ainda em 1988 Cazuza recebeu o Prêmio Sharp de Música como "melhor cantor
pop-rock" e "melhor música pop-rock", com "Preciso dizer que te amo", composta
com Dé e Bebel Gilberto, e lançada por Marina. E apresentou no segundo semestre
seu espetáculo mais profissional e bem-sucedido, "Ideologia". Dirigido por Ney
Matogrosso, Cazuza buscou valorizar o texto no show, pontuado pela palavra
"vida". Substituiu a catarse das performances anteriores por uma postura mais
contida no palco. Tal contenção, porém, não o impediu de exprimir sua verve
agressiva e escandalosa num episódio que causou polêmica. Cantando no Canecão,
no Rio, cuspiu na bandeira nacional que lhe fora atirada por uma fã.
O show viajou o Brasil de norte a sul, virou programa especial da Globo e
disco. Lançado no início de 1989, "Cazuza ao vivo
- o tempo não pára" chegou ao índice de 560 mil cópias vendidas. Reunindo os
maiores sucessos do artista, trouxe também duas músicas novas que estouraram:
"Vida louca vida", de Lobão e Bernardo Vilhena, e "O tempo não pára", de Cazuza
e Arnaldo Brandão. Esta - título do trabalho - condensou, numa das letras mais
expressivas de Cazuza, a sua condição individual, de quem lutava para se manter
vivo, com a do povo brasileiro.
Foi pouco depois do lançamento do álbum que ele reconheceu publicamente que
estava com Aids, sendo a primeira personalidade brasileira a fazê-lo. Era então
notória -e notável - a sua afirmação de vida. À medida que seu estado piorava,
ao contrário de se deixar esmorecer ante a perspectiva do inevitável, Cazuza,
ciente do pouco tempo que lhe restava, passou a trabalhar o mais que podia.
Entrou num processo compulsivo de composição e gravou, de fevereiro a junho de
1989, numa cadeira de rodas, o álbum duplo "Burguesia", que seria seu derradeiro registro
discográfico em vida.
O trabalho seguiu um conceito dual - num dos discos, de embalagem azul,
prevalecia o gênero rock; no outro, de capa amarela, MPB. Entre as suas últimas
novidades, com a voz nitidamente enfraquecida, Cazuza apresentou clássicos de
outros autores (como Antonio Maria, Caetano Veloso e Rita Lee) e duas músicas
feitas com novas parceiras, Rita Lee e Ângela Rô
Rô. A canção-título, com uma letra extensa atacando os valores da classe
burguesa, chegou a ser tocada nas rádios, mas o álbum não obteve sucesso
comercial e foi recebido discretamente pela crítica.
Em outubro de 1989, depois de quatro meses seguindo um tratamento alternativo
em São Paulo, Cazuza viajou novamente para Boston, onde ficou internado até
março do ano seguinte. Seu estado já era muito delicado e, àquela altura, não
havia muito mais o que fazer. Foi assim que ele morreu, pouco depois - a 7 de
julho de 1990. O enterro aconteceu no cemitério São João Batista, no Rio de
Janeiro. Sua sepultura está localizada próxima às de astros da música brasileira
como Carmen Miranda, Ary Barroso, Francisco Alves e Clara Nunes. .
