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A minha música faz parte de uma história que começou quando o meu avô, dono
de um engenho em Pernambuco, resolveu morar em cima do areal do Leblon (Rio de
Janeiro), como terceiro morador da região. Ali nasceu meu pai, João Araújo, que
se casou com uma moça linda, Lucinha, que cantava como um passarinho. Uma mulher
que se tornou importante no cenário musical e que teve, numa das primeiras
novelas da televisão, sua gravação da música "Peito vazio" (de Cartola) incluída
na trilha sonora. Gostava de vê-la cantando e penso que isso influiu muito no
meu futuro.
Meu pai também pesou muito. Ele sempre transou disco e, quando eu era menino,
tinha a casa cheia de artistas. Eram cantores que chegavam e saíam o tempo todo.
Conheci Elis Regina, os Novos Baianos, Jair Rodrigues, que gostava de brincar de
me jogar para o alto, e outros cantores. Na nossa casa, se respirava música o
tempo todo.
Naquele tempo, queria ser um grande arquiteto e só me interessava em ficar
fazendo mapinhas da cidade, traçando ruas e desenhando edifícios. Essa mania
acabou quando resolvi fazer vestibular e percebi que não dava pra matemática.
Como fazia mapas, fazia poesia às escondidas de meus pais, porque era um
romântico, um cara cheio de dores-de-cotovelo.
Ser filho único, por um lado, é bom; por outro, não. Meu pai e minha mãe, por
força da vida profissional, tinham de frequentar a vida boêmia - o que acabei
herdando deles também - e me deixavam sempre com a minha avó materna. Ela era
uma mulher fantástica, muito louca, aberta e deixou um grande buraco na minha
vida quando morreu. Fiquei sozinho, sem um irmão para dividir comigo as alegrias
e mágoas. Não tive coragem de me abrir com os meus pais sobre minha vocação
poética, porque pensava que iam dar o contra. Então, com minha avó, discutia
versos, rimas. Ela foi a pessoa que mais influiu na minha infância e
adolescência. Meu pai e minha mãe não eram repressores. Já aos 13 anos, tinha a
chave de casa e o carro de meu pai para dirigir.
Conheci o sexo tarde, aos 15 anos. Meus amigos todos há muito já transavam
mulheres e eu ficava apenas preocupado com o lado romântico da coisa. Por isso,
nunca procurei prostitutas como meus amigos e só conseguia um relacionamento se
a parceira era minha namorada. A primeira foi uma moça mais velha e me deu
grandes lições de sexo. De cara, tirei diploma. Aí, saí dali e contei tudo ao
meu pai. Já pensei em me unir a alguma mulher, porque me sinto muito solitário.
Mas não consigo encontrar alguém que me entenda e, a essa altura, já não sei
dividir mais nada, muito menos apartamento. Já não tenho saco pra ser cobrado de
nada e dificilmente as mulheres entendem que gosto de ficar sozinho com meus
versos, escutando música ou simplesmente em silêncio. Já cheguei a viver com uma
e não deu certo. Sempre fui um cara certinho, sem as rebeldias dos jovens
atuais. Claro que algumas vezes dava minhas fugidinhas de casa, mas sempre
voltava como um bom menino.
Aos 17 anos, comecei a descobrir que minhas poesias podiam ser letras de
músicas, mas só assumi isso aos 23 anos, quando entrei no Barão Vermelho. Antes
disso, procurei conhecer tudo sobre teatro, pois sabia que era um bom veículo
pra me tornar cantor. Fui falar com o Perfeito Fortuna, do Circo Voador, para
entrar no seu curso de teatro. Comecei, então, a ensaiar a peça do curso,
"Pára-quedas do coração".
Cheguei a me empolgar no dia da estréia, quando o Léo Jaime, que também
estava na peça, me falou que conhecia um grupo musical que estava se formando e
procurando um vocalista. Era um tal de Barão Vermelho. Fui, no dia seguinte, ao
encontro deles e minha história começou.
Dei de cara com quatro garotos fazendo um som que era um
esporro: Roberto
Frejat (guitarra), Maurício Barros (teclados), Dé (baixo) e Guto Goffi
(bateria). O Dé tinha 16 anos e os mais velhos eram o Frejat e o Guto, que
tinham 18. Eles não sabiam que eu era filho do presidente da Som Livre. Eram
apenas um bando de garotos que não se tocavam para quem fosse o filho desse ou
daquele pai importante. Queriam apenas fazer som, sucesso e despertar a atenção
do público. Começamos em showzinhos por aí, em noitadas underground.
Quase um ano depois de termos feitos muitos shows, o Ezequiel Neves se dignou
a escutar uma fita do Barão. Ele fez o maior escândalo e, como era produtor da
Som Livre, foi convencer o Guto Graça Mello, diretor artístico da empresa, a
gravar o nosso disco. Ele também topou, dizendo que havia ficado impressionado
com a agressividade do grupo. Era pegar ou lagar, porque sentiu que poderíamos
ir para outra gravadora. Meu pai não aceitou a idéia facilmente, mesmo diante
dos argumentos do Zeca e do Guto. Foi todo o tempo contra. Acreditava que a
crítica iria me crucificar e a coisa ficaria parecendo um lance de
puxa-saquismo, de proteção ao filhinho do patrão. Mas gravamos nosso primeiro
disco em 48 horas de estúdio, uma coisa completamente garagem. E, ainda por
cima, o som do estúdio acentuava um defeito meu, o de ter a língua presa. Eu
ciciava escandalosamente. Lógico que as rádios não tocaram, pois fugia
totalmente ao padrão radiofônico.
Mas aconteceu que o Caetano Veloso estreou no Canecão o show "Uns", incluindo
no repertório "Todo amor que houver nessa vida", música de Frejat com letra
minha. Logo depois, estouramos "Pro dia nascer feliz", do nosso segundo disco,
e, em seguida, veio "Bete Balanço", tema do filme de Lael Rodrigues. Nosso
terceiro LP, "Maior abandonado", nos deu um disco de ouro. Aí, a batalha estava
ganha.
Os atritos com o Barão começarão por ocasião do Rock in Rio. Era bem ciumeira
de garotos instigada pela imprensa, que sempre me colocava à frente deles em
entrevistas, ou mesmo pelo público, que sempre gritava meu nome nos shows. Me
bateu aquele negócio de filho único que não divide nada com ninguém, que sempre
tem de fazer o gol porque a bola é dele. E também no rock’n’roll não pode haver
dor. E estava pintando dor. Eu queria fazer coisas, eles discordavam.
Estávamos prestes a entrar em estúdio para gravar o quarto LP quando resolvi
cair fora. Foi ótimo para os dois lados. A dor acabou, continuei superamigo
deles, minha parceria com o Frejat ficou melhor ainda e "it’s only rock’n’roll
and we like it"!
Meus pais foram muito compreensivos quando comecei a dizer em entrevistas que
era bissexual. Só achavam que eu estava exagerando, me expondo, mas esse é o
papel deles. Se há alguma coisa errada, é comigo. Procuro as respostas através
da vida. Quando ficar velhinho e morrer, ninguém vai mais lembrar deste meu
lado. Só a música vai ficar. É só isso que o público vai levar do Cazuza.
Pra compor, não planejo absolutamente nada. Acho que sou a pessoa mais
desorganizada que você pode imaginar. Tudo me acontece de supetão, porque nunca
sei como a coisa vai sair. Agora, quando a inspiração vem, sou caxias mesmo,
muito sistemático. Quando sento à mesinha para trabalhar, faço mesmo. Se a idéia
não pinta, puxo por ela até acontecer. Só sou disciplinado para trabalhar. Pode
ser até as quatros horas da manhã. Mas se começo uma letra, ela tem que sair.
Depois fico semanas melhorando as imagens, as rimas.
Desde o primeiro disco com o Barão, o Zeca me chama a atenção para o meu lado
transgressivo. Em minhas letras sempre me desnudei. Ele dizia:"Vá com calma,
estamos em 82, a barra está heavy. Diga tudo que passar pela tua cabeça, mas
quer você queira, ou não queira, vou mandar para a censura letras diferentes,
bem inofensivas. Eles liberam, depois você canta e grava o que quiser cantar."
Quase sempre deu certo. Isto porque, no caso de "Só as mães são felizes", eu
bobeei e mandei a letra certa. Vetaram, é lógico. Não entenderam que era uma
coisa moralista, pós-Nelson Rodrigues. Usei imagens fortes para falar de meu
preconceito com o fato de não permitir a nenhuma mãe do mundo encarar as barras
que eu encarava. Era como se eu dissesse que as mães são para serem colocadas
num altar, para serem veneradas.
Mas o mais engraçado aconteceu quando mandamos a letra de "Exagerado" para o
Leoni musicar. Eram trinta e tantos versos. Ele teria que ‘enxugar’ um pouco. Só
que ‘enxugou’ demais. O título poderia ser "Tímido", pois ele cortou achados
ótimos. Basta dizer que não havia mais os versos: "Por você eu largo tudo /
Carreira, dinheiro, canudo. " Mas a música era ótima e só tivemos que colocar os
versos cortados novamente. Foi o que fizemos e a música acabou se transformando
em meu cartão de visita.
Minhas influências literárias são completamente loucas. Nunca tive método de
ler isso ou aquilo. Lia tudo de uma vez misturando Kerouac com Nelson Rodrigues,
William Blake com Augusto dos Anjos, Ginsberg com Cassandra Rios, Rimbaud com
Fernando Pessoa. Adorava seguir Carlos Drummond de Andrade em seus passeios por
Copacabana. Me sentia importante acompanhando os passos daquele Poeta Maior
pelas ruas à tarde. Mas meu livro de cabeceira foi sempre "A descoberta do
mundo", de Clarice Lispector. Adoro acordar e abri-lo em qualquer página. Para
mim, sempre funciona mais que o I Ching. As minhas letras têm muito desses
‘bruxos’ todos.
Não tenho a voz aprimorada, nunca estudei canto e tenho a língua presa. Mas
cantar rock não é fácil, não. Não estou desmerecendo o que cantei até hoje; é
que sempre foi muito fácil, para mim, cantar rock. Não sou um grande cantor, nem
tenho uma extensão de voz grande. Por isso, canto muito no berro. Há também a
possibilidade de você recitar a letra, como Lou Reed e Marianne Faithfull fazem.
Tem todo aquele sonzão atrás e você entra mais ou menos gritando a emoção. Isso
não acontece com as músicas mais lentas, que tenham mais nuances na melodia.
Cantá-las é muito difícil. Embora sempre faça questão de dizer que não sou
cantor, e sim intérprete, confesso que tenho a preocupação de apurar a voz ao
máximo.
A bossa nova "Faz parte do meu show" canto com a voz de criança que jamais
imaginei fazer, uma coisa bonita que passou por muitos ídolos do meu passado.
Passou pelo João Gilberto, pelo Chet Baker. Eu gosto de tudo, do berro da Janis
Joplin e da Bessie Smith. Adoro a Dalva de Oliveira e a Elvira Rios. Acho isso
saudável para um artista. Em matéria de música, não sou nada radical. Mas foi
com o rock que encontrei a minha tribo. De repente, fumei um baseado, saí na rua
e vi uma porção de gente igual a mim. Soltei pipa e joguei frescobol ao som do
rock. Era a liberdade, da mesma forma que o jazz foi pra geração dos 40.
Eu não pirei com os
Beatles, não dava muita importância, via como uma coisa
meio histérica. Mas adorava também. Cantava "Help!" numa língua que inventei… Só
quando pintou Caetano com "Alegria alegria" é que achei aquilo moderno. Gal
cantando "a cultura, a civilização, elas que se danem…" Macalé e a ‘morbideza
romântica’ de Wally Salomão. Rock eu conheci mesmo através do Caetano e da
Tropicália, Os Mutantes, Rita Lee, Novos Baianos. Com 13 anos, eu estava lá no
pier de Ipanema; ficava de tiete, de longe, tentava apresentar uns baseados pra
eles, mas ninguém pedia.
O Roberto Carlos também é uma pessoa importantíssima para mim, porque faz
parte da minha infância. Eu cresci amando a Jovem Guarda. Tinha tudo com a marca
Calhambeque: roupa, merendeira, sapato. E um dos momentos mais emocionantes da
minha vida foi quando, aos dez anos, meu pai me levou ao estúdio da Som Livre,
onde o Roberto Carlos estava gravando. Ele me convidou para ir tomar um
refrigerante numa padaria ali perto. Eu queria andar devagarinho para que as
pessoas vissem que estava ali uma criança orgulhosa por estar ao lado dele.
Outro dia, ele precisava do estúdio onde eu estava gravando, me ligou e disse:
"Oi, meu Barão…" Eu respondi que não era mais do Barão, mas ele disse que vou
ser sempre. E ele está certo. Eu vou ser sempre um Barão Vermelho. Ele é o Rei e
me elegeu seu Barão.
O lance estrangeiro veio pelos Rolling Stones, mas quando a Janis Joplin
morreu eu nem sabia quem era ela… Só fui saber dois anos depois, em 1972, quando
fui expulso do Santo Inácio, que é um colégio de padres, e fui para o
Anglo-Americano, mais liberal, onde a gente ouvia Rolling Stones no recreio. Mas
então um amigo me mostrou a Janis, que eu conhecia da televisão, entre uma
novela da Janete Clair e outra. Tava assim:"Jimi Hendrix e Janis Joplin mortos
por drogas." Para mim, aquilo era uma coisa horrorosa. Mas quando ouvi aquela
mulher descobri que ela era genial. Aí eu entendi o que era o blues, e através
da Janis descobri a Billie Holiday e mesmo a Dalva de Oliveira. Tudo aquilo que
eu já curtia, mas que achava cafona. Aliás, sou cafona e assumo. Gosto de
palavras como ingratidão. Sou meio Augusto dos Anjos:"Escarra na boca que te
beija."
O que passo para as pessoas é muito mais do meu trabalho do que das coisas
que faço fora dele. É claro que existe todo um folclore em torno do meu nome.
Tudo quanto é matéria relacionada a bar, por exemplo, tem que ter o meu nome,
por que sou realmente um frequentador da noite. Mas o que fica mesmo pras
pessoas que consomem meu trabalho é a mensagem romântica que está no que
escrevo. O meu trabalho tem muito essa coisa de cutucar a dor de amor. É o lado
meio dark do amor que as pessoas curtem em mim.
Acho até que, atualmente, poucos compositores falam desse tema. Antigamente,
tinha aos montes: Dolores Duran, Lupiscínio Rodrigues, Noel Rosa, Cartola, Maysa
e tantos outros. Depois disso, pintou uma fase em que era cafona e antiquado
falar do sofrimento. Não estou sendo pretensioso, não, mas vários estudiosos da
música popular já me disseram que eu trouxe essa coisa da dor-de-cotovelo de
volta. É claro que isso aconteceu com a moldura mais epidérmica do rock. Todo
brasileiro, todo latino-americano, é pego um pouquinho pelo pé nisso de mexer na
ferida do amor. E sempre gosta de temas relacionados a uma paixão que não deu
certo. Esse é o lado diferente e talvez polêmico do meu trabalho.
Enfrentar o palco para mim é tudo. Aflora um lado sensual meio incontrolável.
Às vezes, entro de pau duro, a coisa pinta até antes de subir ao palco… Outras
vezes, entro morrendo de medo, mas cantando solta a tensão. Sem brincadeira, é
lance sexual mesmo. Fora do palco, sou tímido, um menininho, me sinto
profundamente desajeitado. Mas, no palco, sou um Super-Homem, de pôr a capa e
sair voando. Sinto o sexo aflorando, olho pras pessoas e sinto que tem uma coisa
também que volta em resposta. Porque estou mostrando uma coisa bonita que eu
compus: não sou humilde, gosto mesmo do que faço. É muito o lance do prazer, eu
e a platéia transando pra caralho.
Tem gente que se irrita, porque eu canto que todo mundo vai pegar sua pasta e
ir pro trabalho de terno, enquanto vou dormir depois de uma noite de trepadas
incríveis. Mas o dia-a-dia não é poético, todo mundo dando duro e a cada minuto
alguém sendo assaltado ou atropelado. Então, vamos transformar esse tédio todo
numa coisa maior. Li uma vez que você vive não sei quantas mil horas e pode
resumir tudo de bom em apenas cinco minutos. O resto é apenas o dia-a-dia. Um
olhar, uma lágrima que cai, um abraço… Isso é muito pouco na vida. Então, isso
vale mais que tudo para mim. Prefiro não acreditar no Day after, no fim do
mundo, no apocalipse. Um dia, ainda vou andar na nave espacial Columbus. Bêbado,
lógico, mas vou andar!
Por enquanto, o que me dá maior prazer além da música é o beijo na boca.
Aquele lance do beijo que é o "fósforo aceso na palha seca do amor". O beijo
começa tudo; é da boca que vem a relação… a primeira vez que se entra numa
pessoa. Pra mim, é essencial. Sou capaz de ficar de pau duro se beijar alguém.
Eu fico feliz quando penso que o homem difere dos bichos e das plantas porque
pode amar sem reproduzir - embora o Papa não goste disso. O homem transa por
prazer. Então, pode ser homem com homem, mulher com mulher, com diafragama, com
pílula, com o que for… Homossexualismo é assim uma coisa normal. E o hetero, e o
bissexualismo. O homem pode amar independente do sexo, porque ele não é bicho,
não é planta. Se o cara não quer, não sente atração, tudo bem. Mas não tem esse
negócio de regra geral quando se fala de amor. Quando pinta tesão, estou com Tim
Maia e Sandra de Sá: "vale tudo", mesmo!
Sou eclético, mas acho que quem não é eclético também faz muito bem. Se o
cara é roqueiro de alma, como meu irmão e parceiro fiel Roberto Frejat, como o
Dé e o Guto Goffi, devotos do rock, é superbacana. O rock’n’roll é como uma
trepada, muito ligado ao sexo e à droga.
Em relação à droga, por exemplo, a posição da lei é ridícula. Nunca se bebeu
tanto nos Estados Unidos quanto no tempo da lei seca. Proibir interessa a quem?
Pra máfia da Bolívia, da Colômbia, do Brasil. Porque é o próprio governo, da
Bolívia que lucra com isso. Por isso, marginalizam… No tempo de Freud, a cocaína
era vendida em farmácia. Maconha, os índios fumaram a vida inteira. Então,
interessa ao poder marginalizar, porque outros tipos de drogas são vendidos em
qualquer farmácia. Maior de 21 anos, com receita médica, poderia comprar… E é
isso que eu acho: droga tem que ser vendida em farmácia.
Eu luto contra um sentimento de culpa cristão que tenho. Estudei num colégio
de padres quase dez anos. Então, a minha vida em si é uma luta para vencer isso.
É difícil falar no assunto, porque é uma coisa muito particular, de formação
mesmo. Eu já venci muitas barreiras, mas a gente sempre tem outras a derrubar.
Por um tempo, fiz análise para descobrir as novas barreiras que tenho. Fiz cinco
meses, mas deixei, me dei alta porque resolvi o que queria naquele momento. Você
vai ao médico porque está doente; depois você fica bom e não precisa mais ficar
indo. Caso adoeça de novo, você volta. Minha cabeça ficou boa. Então, eu vou à
praia em vez de ir à análise. Tenho esperança de que vou ser muito feliz, mais
do que sou.
A minha ideologia é a da mudança. Nada de partido político. É a coisa de
mudar o Brasil, em qualquer dimensão. Eu não tenho partido, sério. Mas estou com
as pessoas que podem mudar alguma coisa, dou a maior força. Sou socialista por
vocação, por natureza, por amor mesmo. Porque acho que o socialismo está no
meio, está entre o comunismo ditatorial e o capitalismo selvagem, num ponto onde
a iniciativa privada pode dar alguma coisa também.
Quando fiz "Ideologia", nem sabia o que isso queria dizer, fui ver no
dicionário. Lá estava escrito que indica correntes de pensamentos iguais e tal…
A música, por sua vez, é muito pessimista, porque, na verdade, é a história da
minha geração, a de 30 anos, que viveu o vazio todo. É meio amarga porque a
gente achava que ia mudar o mundo mesmo e o Brasil está igual; bateu uma enorme
frustação. Nos conceitos sobre sexo, comportamento, virou alguma coisa, mas
deixamos muito pelo caminho. A gente batalhou tanto e agora? Onde chegamos?
Nossa geração ficou em que pé?
Antes de mais nada, mudou o patriotismo. Pra mim, o patriotismo não é essa
coisa símbolos, como a bandeira. Mexe muito mais com o sentimento. Quando me
enrolei na bandeira, no Rock in Rio, eu estava acreditando. A coisa de cuspir na
bandeira, três anos depois, foi contra aquele ato teatral do espectador. Eu
estava cuspindo no símbolo, na bandeira que simboliza mesmo é a família Orleans
e Bragança. Acho que não é hora de teatro com bandeira. O momento é de criticar,
de virar a mesa, de sair da merda. Antes eu me enrolei foi aquele clima de
Tancredo Neves. Eu estava, como todo povo, inebriado por um sentimento de
mudança, de esperança. A coisa do vai-pra-frente, algo lindo, um movimento
sincero que se esvaziou por erro dos políticos. No Rock in Rio, cantei por dez
minutos com a bandeira, sonhei, acreditei. Quando eu era adolescente, também
acreditava. A gente não tinha descoberto a vaselina, o conchavo. Entrava com
garra mesmo. Nem sei mais se essa garra existe hoje com os novos adolescentes.
De qualquer maneira, a Igreja e a direita estão com a faca e o queijo na mão.
Já nem acho que tenha sido a CIA que botou o vírus da AIDS no mundo. Eles
simplesmente usaram a doença. Botam na tevê que a AIDS mata para as pessoas
ficarem horrorizadas com aquilo. É tudo um complô mesmo. Tanto que, na Europa, a
coisa é tratada diferente, sem esse moralismo medieval. Mas aqui eles usam a
coisa legal mesmo. Usaram, mas não conseguiram. Eu vejo as pessoas se amando
muito, está todo mundo ótimo, com camisinha ou sem camisinha. Eles não venceram,
não. E isso é luz. No disco que vou lançar, as músicas são assim, muito felizes,
muito pra cima, cheias de luzes.
Mas os problemas do Brasil parecem ser os mesmos desde o descobrimento. A
renda concentrada, a maioria da população sem acesso a nada. A classe média paga
o ônus de morar num país miserável. Coisas que, parece, vão continuar sempre.
Nós teríamos saída, pois nossa estrutura industrial até permitiria isso. O
problema do Brasil é a classe dominante, mais nada. Os políticos são desonestos.
A mentalidade do brasileiro é muito individualista: adora levar vantagem em
tudo.
Educação é a única coisa que poderia mudar este quadro. Brasileiro é grosso e
mal-educado, porque não pensa na comunidade, joga lixo na rua, cospe, não está
nem aí. Este espírito comunitário viria com a cultura. Acho que o socialismo
talvez possa trazer este acesso maior à cultura de massa. Fazer como o Mao
Tsé-tung fez com a China. Educar todo mundo à força. Temos que estudar, ler, ter
acessos a livros.
O inferno é aqui. A cabeça da gente é um inferno. E essa coisa de "o inferno
são os outros" não sei não… Pra mim, que dependo muito de amigos, de carinho dos
outros, não vejo a vida contra alguém. Posso até ser meio ingênuo. Essa visão de
inferno e céu: eu não vejo o inferno como uma coisa ruim e o céu como bom. O céu
pode ser uma chatice e o inferno uma coisa divertida. Aliás, as imagens que
temos do inferno são sempre aquelas onde localizamos o demônio, as pessoas
transando, se comendo. O inferno é um baile de carnaval no Monte Líbano.
Finalmente, eu consegui definir qual é o meu papel nesse mundão. É passar
pras pessoas a minha energia. É aprender e, em cada trabalho meu e em cada
disco, poder passar as minhas conquistas. Eu conquistei a vida de um ano pra cá
e quero passar isso pras pessoas. Isso é uma coisa meio cristã. Sabe, você
repassa aquele amor que armazenou e as pessoas adoram.
Às vezes, fico triste, mas não consigo me sentir infeliz. Acho que o tédio é
o sentimento mais moderno que existe, que define o nosso tempo. Tento fugir
disso, pois tenho uma certa tendência ao tédio. Mas, felizmente, eu sou
animadérrimo! Sou muito animado pra sentir tédio. Sou animado à beça, qualquer
coisa me anima. Se você me convida pra ir à Barra da Tijuca, eu já digo logo:
Vaaaamos!!!
Qualquer besteira me anima. Tudo que já passei na minha vida não
conseguiu tirar essa animação.
Eu me sinto sempre ganhando presentes. Se faço uma entrevista e leio depois
no jornal, acho tudo o máximo, o texto, a foto… Estou sempre ganhando
brinquedos. Minha vida é muito assim: sempre morrendo de rir, nunca com tédio. E
quer saber de uma coisa? O que salva a gente é a futilidade.
