<%@ Language=VBScript %> Trecho Um de Terra da Sulanca (ficção)  - caso fantástico em 2020

A fantasia pode virar realidade?

Terra da Sulanca

 

 

 

 

 

(caso fantástico, em 2020)

 

 

 

(extraído da ficção acima)

 

Trecho Um

NOTA: os números em negrito indicam o período e o tópico da narrativa

:

1943 - 1945

3

 

             -- A gente já desocupou a casa. Botou os troços noutro lugar. O fole já está garantido. O tocador é Rafael Lopes, de Santa Cruz. Vai se sambar na casa toda: na sala, nos quartos, no corredor e na cozinha. Em cada lugar, um carbureto alumiando -- garante o pai da noiva, ao informar que a festa começa às sete da noite.

             Inicia o samba. O gemido do fole é ouvido longe. Muita gente a arrastar os pés. Damas com damas até o instante em que dois cavalheiros vêm apartá-las. Estão elas dispostas a dançar com quem aparecer. O corte ou recusa para dançar só pode acontecer se o freguês, desavisado, convidar para dançar alguém apenas a olhar.  

             -- Quer me dar o prazer de dançar essa parte? -- perguntam os homens às damas ao serem “apartadas”.

            Depois da parte, o tocador faz uma pequena pausa para descanso. Pouca gente a olhar. É noite de lua cheia. Do lado de fora, vários casais de namorados e uma casa de uma porta só, onde se vendem cachaça e outras bebidas, com muitos sendo atendidos:

             -- Bota aí uma pinga!

             -- Me dá um copo de cerveja aí!

             -- Cerveja só tem quente! No fundo do pote não tem mais. Quer assim mesmo?

             -- Quero! Bota logo, que eu quero aproveitar o samba!

             -- Tem tira-gosto?

             -- Tem. O tira-gosto é galinha torrada e galinha assada.

             -- Me dá um pedaço da “penosa” torrada com farinha!

             -- Ainda tem cerveja? Quente mesmo serve.

             -- Não tem mais. Só tem cachaça de cabeça, vinho de jurubeba e zinebra.

             -- Bota meio copo de zinebra! Vai logo, que eu já perdi uma parte!

            -- Bota dois dedos de cana! Dedo deitado, juntinho!

            

1945 - 1971

 

  36

 

            A energia de Paulo Afonso impulsiona mesmo o progresso de Santa Cruz.  No período seguinte, os gatos retomam a prefeitura com Cícero, pequeno comerciante. Dessa vez, Quinca não quis ser candidato. Diz que não querer repetir a dose, mas banca tudo.  

            Muitas residências da cidade têm um pequeno fabrico de roupas populares. Haja máquina de costura, de pé ou elétrica. A riqueza escapa das mãos exclusivas dos dois tradicionais empresários e políticos.

             -- Quatro categorias econômicas existem. Primeira classe, os donos de armazém. Compram a mercadoria no Recife ou em São Paulo. Mais ricos e mais raros, vendem retalhos e tecidos aos confeccionistas que formam a segunda classe. Estes têm a seu serviço as costureiras, a terceira categoria. São as operárias do ramo. Sobre a quarta classe, os revendedores, falarei adiante -- explica Aluízio, economista de Natal, de passagem pela cidade, em palestra feita no prédio de Maria Lúcia*, depois de ficar a par do modelo sulanqueiro.

    

2010 – 2020

 

79

 

             Um fato inusitado quebra a rotina do turismo na Serra do Pará. Um grupo de trinta turistas, em visita a caverna da pedra numa noite chuvosa de maio, avista pousado num descampado um disco voador metálico, todo iluminado. Surpresos, os turistas vêem sair da nave três figuras humanas de baixa estatura, que passam a caminhar por cima do mato como se voassem a pouca distância do solo. Chegam os estranhos em terra firme e passam a andar em passos cadenciados. São dois homens e uma mulher com olhos fluorescentes. Um dos estranhos aproxima-se do grupo paralisado, e começa a falar:

             -- Não se assustem! Nossa missão é de paz! Se algum de vocês tem aqui um Cd virgem, queira, por favor, me emprestá-lo para que possa deixar gravada nossa mensagem.

             -- Tome o Cd -- entrega de imediato um dos turistas, tirando de sua sacola o objeto solicitado, de uso em seu computador portátil.

            O homenzinho pega o Cd e passa sobre ele um raio emitido por uma máquina sacada de bolsa de mão. Passados vinte segundos, devolve o Cd e disse:

             -- Leiam nossa mensagem aqui! Sigam nossas instruções gravadas também aqui! Vamos embora. Passem bem!  Até mais!

             Os três misteriosos passageiros voltam para o local onde os espera a nave. Caminham acima da superfície e depois pisam em terra firme. Ao chegar perto do disco, uma porta deste se abre, por onde entram os três. O veículo dá partida e some no céu como um raio, sem fazer barulho.

             O fenômeno demora apenas três minutos. Todos estão ansiosos para conhecer o conteúdo do Cd. A notícia se espalha rapidamente. Antes das dez da noite, estão todos os hóspedes e a maioria dos habitantes do Pará no auditório do hotel para ver o registrado no Cd. É grande a expectativa. Eis a mensagem:

             Somos de um satélite do planeta Júpiter. Nossa missão é de paz. Deslocamo-nos a uma velocidade maior que a da luz. Estamos mergulhando no passado, visto que nossa civilização está muitos séculos adiante da sua. Há dois séculos, visitamos este local, sempre nos meses de maio e novembro. Não tem dia marcado. Vamos continuar nossas visitas rápidas sempre à noite e a partir das 22 horas, nas épocas indicadas. Muito terão a lucrar com nossas vindas. Algumas vezes, não poderemos ser vistos senão como pontos luminosos, uma vez que somos também invisíveis. Muitos de nós já conquistamos a eternidade, enquanto outros estão ainda a caminho dela. Eliminamos muitos problemas que vocês possuem, ligados ao sofrimento. Não podemos fornecer mais detalhes. No próximo mês de novembro, estaremos trazendo para vocês uma máquina que, usada dentro de limites fixados,  vai revolucionar seu planeta. Demais instruções estão contidas neste disco. Aguardem nossa próxima visita em novembro deste ano. Até logo!

             O fato vira notícia e assunto nacionais. Jornais e revistas do País não param de divulgar o texto deixado pelos estranhos visitantes, entrevistam testemunhas da ocorrência e publicam manchetes como estas:

 

"Extraterrenos descem em Pernambuco e prometem voltar!  Pará, agreste pernambucano, a 205 km do Recife, é a cidade visitada por habitantes de um satélite de Júpiter! A visita do século 21!"

      80

 

            Aproxima-se o mês de novembro. Hotéis, hospedarias e casas de cômodos do Pará e de Santa Cruz estão lotados. Os mais pobres alugam suas casas e vêm morar nas cidades vizinhas de São Domingos ou Poço Fundo. Muita gente do país inteiro veio tentar ver a revelação do século ou um dos maiores blefes da história.  

            Os que querem presenciar o evento acreditam nele, mas têm uma ponta de desconfiança. Lembram-se de que no passado, em casos semelhantes, houve fiasco total. Começa novembro. À noite, a romaria de umas trinta mil pessoas para a serra inicia quando anoitece e acaba às quatro horas da manhã. A cada noite, a vigília coletiva. Em Santa Cruz, a partir das três da tarde e até as dez da noite, todos os táxis deslocam gente para a serra do Pará, com carros de som a anunciar:       

           -- Atenção, saída pra o Pará começa às qquatro horas da tarde, de meia em meia hora na Praça dos Estudantes! Chegue cedo pra garantir seu lugar! Não deixe de ver os extraterrestres! Um brasão custa a passagem! – bradam alto-falantes pelas ruas da cidade 

...

Brasão: padrão monetário vigente (2010-2020). 

Carbureto: Espécie de candeeiro ou lanterna, alimentado por carburetos. Emitia uma chama a clarear bastante enquanto durasse o combustível.

Galinha torrada: galinha guisada, Na época, a galinha era comida de rico, prato de doente ou de data festiva. “Quando pobre come galinha, um dos dois está doente”, diziam. Evidentemente, nesse tempo não havia galinha de granja, pelo menos na região de Santa Cruz.

Zinebra: espécie de aguardente adocicada, bebida muito apreciada na época. Corruptela de genebra.

 

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Revisada em 05/04/2004