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NOME
FELIPE VALE
ARTIGO EM REFORMULAÇÃO
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Sobre o anônimo

“EM ALGUM MOMENTO A REALIDADE NÃO FOI HIPERREAL?”
– Questionamentos sobre uma pretensa irrealidade do mundo midiático –
FELIPE VALE
Publicado no INFORMATIVO S.E.M.C.P. #1 (Março de 2009)

   Olhar para trás –– procurar um nexo histórico, uma causa para o que somos e fazemos hoje –– nunca será 100% retrospectivo. Nem o mais objetivo de nós funciona como uma máquina científica preocupada em unir um número máximo de informações de forma a convencer a si própria de seus motivos atuais e a permitir traçar atitudes pra sempre segura de que "tudo faz sentido". Mais comum é fitarmos nossos pais, avós e antepassados enquadrados na parede questionando "o que vocês fizeram com nosso mundo...?”; a visão retrospectiva está assim contaminada por uma postura de que somos resultado e ponto máximo da história do que for que sejamos –– de nosso grupo, nossa espécie biológica, nosso partido político. E de que simplesmente tudo mudou; tudo o que eles nos ensinaram ser realidade não combina muito com esse caos de mediação infinitesimal e simulação onde estamos presos, da interatividade entre nossos desejos e aquilo a que o real deve se assemelhar; algo em algum momento do passado foi feito para que tudo mudasse e nós chegamos tarde demais para viver somente a imanência autoritária dessas condições inéditas na história.

Isso é um erro; um erro sem muitas conseqüências além de revelar nossa paranóia e incompreensão do mundo. Neste artigo irei argumentar como o próprio termo "hiperreal" nos remete a suposições exageradas da atuação da mundo midiático em nossas vidas - ela que seria a nova janela para a distopia do século XXI, onde as imagens que nos representam pairam sobre uma camada abstrata de realidade fluindo como puro significante sem significado estável. Partirei de uma uma definição de hiperrealidade: "Hyperreality characterizes the inability of consciousness to distinguish reality from fantasy, especially in technologically advanced postmodern cultures. Hyperreality is a means to characterise the way consciousness defines what is actually "real" in a world where a multitude of media can radically shape and filter the original event or experience being depicted." (http://www.wikipedia.org/wiki/hyperreality) Teóricos como Jean Baudrillard falam de uma perda irrecuperável da noção de real. Contra essas extremas pressuposições e adiantando a conclusão, defenderei como de certa forma os ângulos de visão que tecnologia, ciências e literacidade nos propiciaram em diferentes épocas dão abertura para peculiares faces do que é o real[1]; elas intermediarão a narrativa desse real que pode ser acessado e expressado através de uma forma narrativa[2]. De forma que o mundo sempre foi hiperreal em um dos sentidos da palavra. O avanço de tecnologias de informação, de reprodutibilidade de produtos, criaria somente uma nova versão desse pretenso falseamento da realidade -- uma realidade que só pode ser acessada como falseamento discursivo, de forma que Eco e Baudrillard, para citar alguns defensores da hiperrealidade, trazem como pano de fundo noções racionalistas do que é o real. Contra essa noção de realidade, nos utilizaremos da noção de realismo inflacionário e realismo sígnico socialmente contruído atuando conjuntamento para formar a realidade. Em seguida rastrearemos o significado dessa palavra e defender o hiperreal como um ângulo epistemológico sustentado por determinada 'ideologia de recepção'.

I. "Mais real que o real"
'In a world which reallity is topsy-turvy,
the true is a moment of the false'

(Guy Debord, Society of Spectacle[3])

Para a geração atual, o mundo direito que existia antes de virarem-no do avesso, é algo que se perdeu em algum instante trágico do passado. Um passado que precede meu e seu nascimento. Fala-se com nostalgia dos tempos áureos, onde as pessoas eram éticas, os homens abriram a porta para as mulheres passarem, as crianças se criavam com outras crianças nas ruas, os jornais não eram infestados de besteira, a filosofia era algo diferente de retórica e jogos de linguagem, literatura não era infestada de pornografia e imoralidade... Até que todos estão falando deste momento incógnito, mas ninguém o viu passar. O mesmo vale em ambientes acadêmicos para a noção de realidade unitariamente difundida: uma vez que o discurso constrói a forma que compreendemos e articulamos essa compreensão do mundo e de nós próprios, e este próprio discurso está cindido por limitações e heranças discursivas, constituindo uma espécie de subcamada ideológica operando através de nós, começa-se a questionar se a noção de realidade operada por discursos podem ser comunicadas com sucesso. As apropriações que pós-modernistas tomaram dessa formulação geram implicações extremas como a idéia de uma hiperrealidade, para citar o exemplo de Baudrillard, para o qual formas discursivas se tornam autônomas de sua referencialidade focada no homem (nas funções que ela tem em relação a esse homem) e acabam com constituir sistemas de valores que ditam referenciais para o homem em seu comportamento social; o que Baudrillard chama de Sistema dos Objetos. O hiperreal seria o estatuto epistemológico da pós-modernidade, onde uma cultura de simulação e reprodução de produtos, imagens e discursos perde de vista referenciais originais. Questões a ser fazer é: quais são as implicações significativas disto? Isso torna de fato a realidade numa hiperrealidade, a ponto de alterar estatutos gnosiológicos?

Paradoxalmente, a construção dessa visão de mundo é em si de criação de uma mitologia do real; onde "todos falam sobre ele, mas ninguém nunca o viu". Do hiperreal da pós-modernidade se seguiria uma configuração de caráter ideológico, o que derruba o pretenso caráter de nossa era como pós-ideológica. Mais; o próprio discurso da teoria pós-moderna parece funcionar dentro de uma formulação mitológica distópica. Seu tratamento do real ele mesmo um ato de falsificação do real, de prover acesso direto a uma incógnita para tapar o buraco de nossa incapacidade de encontrar meios para explicar um presente. O realismo deflacionário será diferenciado do realismo de orientação humanista como solução para além da noção do hiperreal.

II.
"Nós vivemos entre os 1's e os 0's, nos interstícios da significação; nós vivemos no terreno desolado do universo cuja eminência-de-acontecimento é o derradeiro instante de infinita in-criação"

Mas ainda eu não discordo da afirmação que a apropriação feita da Internet –– e o momento em que ela começou a alterar os discursos do mundo exterior, da TV, de grupos sociais –– tenha inaugurado a tal "hiperrealidade" ou alterado o novo estatuto epistemológico difundido. O processo desencadeado aqui já vinha, porém, da sociedade espe(ta)cular que nasceu nos anos 50, para a qual imagens e uma estética de mercado surge e passa a mediar (ou ditar) interesses que as pessoas mantém por bugigangas e produtos em geral. Este evento é entendido por certas pessoas[4] como um momento onde a razão de existência de simples objetos –– como garrafas de refrigerante, roupas e carros –– passa a ser expressada por seus divulgadores não somente em referência a sua função, mas por algo a mais. É um princípio que corre pela boca de qualquer comerciante atual, "nunca venda somente o produto em si, ofereça algo a mais". Isso significa "coloque uma embalagem criativa ou sensual, customize o produto de forma a se adaptar a gostos pessoais do cliente, relacione-o com os desejos e expectativas desse cliente". (Um princípio quase simpático com o bem-estar social).

Assim, ganha a fábrica de telefones celulares que podem oferecer um telefone cor-de-rosa para minha filha e um cromado para mim. Ou um relógio que me fale bom-dia, que tenha um design arrojado, um carro que embuta um aparelho de som que eu ouvirei 15 minutos por dia enquanto vou e volto do trabalho, ou o CD da cantora que se pareça com alguém com quem eu me casaria, que me leva a comprar a revista X que traz essa pessoa na capa e uma entrevista de duas páginas sobre sua integrante vida pessoal. Objetos e nossa relação com eles ganha um tom infantil e banal, como uma terapia barata, como momentos de intimidade onde se revisita o próprio recalcamento e fragilidade, outrora inconfessáveis em público.

Essa intermediação de desejos e aspirações foi chamada de "espetáculo[5]”; a definição mantém o sentido comum da palavra, "um espetáculo como um jogo de futebol ou uma apresentação de teatro como momento máximo do entretenimento, manipulação retórica de situações e discursos que permitam um crescendo de emoções que atingem seu ponto máximo no momento do gol, no clímax da peça". Os efeitos psicológicos da mercadoria como espetáculo seriam semelhantes; por exemplo, no momento em que tudo na minha casa e ambientes comuns foi decorado de acordo com os efeitos que eu quis buscar através de minha seleção de produtos, tenho um ambiente de caráter espetacular. A mentalidade que isso gera num período curto da história das sociedades dos anos 50 é que morar nunca será o bastante; é preciso morar em um ambiente adequado. Da mesma forma que ir a um restaurante que só sirva comida não é o suficiente, é preciso ser um ambiente que se adeqüe ao que eu espero ou à ocasião que busco (não se propõe casamento em um fast-food, por exemplo). Não é suficiente ter um carro que me leve ao trabalho todos os dias, mas um carro que supostamente corresponda à minha classe social.

Uma variedade de ambientes e marcas de diferenciação social que, importante, antes não existia. Somente em uma democracia, um sistema onde todos são formalmente iguais, surge a necessidade de fazer-se diferente perante os outros (supostamente, perante meus inferiores) de acordo com os produtos que eu carrego. Antes dessa mudança, a variação entre ambientes e produtos contava como mero acaso, ela nunca fora algo programático, era uma transcendência da função do objeto; tudo o que varia no mundo é fruto de sua riqueza de conteúdo, algo não exatamente explicável. Mas agora tudo o que é variação é fruto de um padrão organizacional, é a variação do mesmo intuito, da mesma estratégia, que pretensamente readapta o mundo a mim. Pretensamente, mas acaba não sendo o caso.

Um dado formal por trás disso tudo: essa foi uma resolução dita necessária de funcionamento econômico em uma sociedade sob o capitalismo de competitividade –– visto[6] como uma fase anterior a nosso capitalismo de monopólios. A passagem de uma fase de funcionamento econômico para o outro, em meados de 1970, será a fase que inaugurará o que hoje chamamos de "Pós-Modernidade" ou "Mundo regido pelo capitalismo tardio".[7] O mundo pós-moderno é o que estamos chamando aqui de mundo da hiperrealidade. Aqui entra uma importante parte de nosso discurso de rastrear de onde veio essa idéia de hiperrealidade, para chegar a alguma conclusão a respeito dela. Adiantemos que internet e tecnologias em geral não geraram a hiperrealidade, como difundido, como se nos promovesse de uma extensão sensorial e aumentasse nossa capacidade de comunicação e desdobramentos de representações deste real não mais preso a nenhuma barreira de significados (daí ele ser mais super-real, mais real que real). A hiperrealidade se agarrou à Internet parasiticamente e integrou-a ao sistema de espetacularização hiperreal, ao invés. Essa defesa invoca uma redefinição da noção de hiperrealidade a seu significado original, como termo que aponta para uma mtificação dos objetos, conferindo-lhes uma autonomia na verdade mantida por um sistema de convenções de base econômico-materialista: objetos vazios e inertes são manuseados como donos de propriedades valorativas de fundo ideológico, em outras palavras. A noção de hiperrealidade se encontra assim diametralmente oposta à suposição de que vivemos em uma época pós-ideológica; o processo de mitologia e ideologia estão intimamente conectados.

Vimos que em uma fase anterior de nossa história social o "espetáculo" surge como uma nova forma de mediação entre homem e produto do trabalho social (do seu, de outros homens como ele). O consumo ganha um caráter espetacular, visa não somente exercer uma função, mas também se adequar à emotividade boçal de seus consumidores. O livro epigonal a respeito é o mais do que conhecido "Sociedade do Espetáculo" de Guy Debord. Citaremos esse livro já tão citado por ser o caminho mais direto para definir espetáculo, sobretudo por ter sido a bíblia dos levantes anarquistas de 1968 que se espalharam por todo o mundo (Polônia, França, Alemanha, EUA, Brasil, Hungria, ...) e foram rapidamente contidos. Ou seja, de uma forma ou outra o livro e o próprio Debord representam o 'teor' deste recorte da história, a autognose de um estrato intelectual da época mesma.

Para Debord, o espetáculo alterou o modo como nos relacionamos com os conteúdos do mundo. Se ele se introduz em nossas vidas como extensão protéica de nossos desejos, quando ele domina toda a vida social e cada instante de nossa relação com o mundo ele substitui nossas motivações, limita a própria capacidade de termos desejos, direcionando-os aos 'objetos que você consegue achar nas prateleiras'. O ser humano se perde numa trama de significados que correspondem à lógica dos objetos em catálogo, e não à própria lógica de afecções humanas[8].

Debord parte da idéia de Lúkacs de que o trabalho "progressivamente racionalizado e mecanizado" gera uma "perda de vontade" do trabalho que só cresce a medida em que "sua atividade se torna menos e menos ativa e mais e mais contemplativa" (v.Lúkacs, História e Consciência de Classe). Isso significa dizer, o que o homem produz e através do qual imputa o sentido de sua existência no mundo[9] passa a ser um mero meio para acumular mercadorias em estoques. Ele perde sua habilidade na divisão de linha de montagem e o contato com seu produto social, o fruto de seu esforço. Debord reverte essa concepção (junto a Baudrillard) afirmando que o consumo vira no capitalismo de competição, ele próprio, uma forma de 'trabalho social', até mais significativa que a produção por meio dos 40 horas semanais de trabalho[10].

E isso define essa nova época que se descortinava então. Para isso ser necessário, o espetáculo precisou infestar toda a vida social. "O espetáculo é o momento em que a mercadoria atingiu a total ocupação da vida social. Não apenas é a relação para com a mercadoria visível como isso é tudo que se vê então: o mundo que vemos é seu mundo".[11] O que Lúkacs via como algo que ainda estava acontecendo em sua época ("nosso setor industrial está produzindo trabalhadores mecanizados, estúpidos e boçalmente contemplativos") é, para Debord, tudo o que caracteriza o ser humano dentro da sociedade de espetáculo, agora que se trabalho social é exercido 24 horas por dia. Todos estão mediados por espetáculos, ele está em todos os cantos. As cidades foram gentrificadas por eles e infestadas de signos de consumo, as pessoas carregam os mesmos signos em suas roupas, acessórios, palavras. Conversa-se sobre espetáculos, se trabalha para poder ter mais acesso a espetáculos ou produz mais deles. "Considerada particularmente, a realidade se desdobra, em sua própria unidade geral, como um pseudo-mundo a parte deste, um objeto de mera contemplação. A especialização de imagens do mundo é completo no mundo como imagem autônoma, onde o mentiroso mentiu para si próprio. O espetáculo em geral, como inversão concreta da vida, é o movimento autônomo do não-viver“, afirma Debord.[12]

A contaminação se daria em todas as etapas da vida. Até mesmo o lazer passa a ser mediado pelos produtos deste trabalho social. "[...] tempo livre e férias são organizados e planificados como um dia no escritório, o objeto de indústrias inteiras é a diversão em massa em várias modalidades [...] [os hobbies] delineam uma visão cujos os  contornos difusos indicam como são atividades humanamente satisfatórias, visões estas distorcidas e amputadas por seu próprio médium.[13]

A partir dessa breve exposição teórica do "irreal" ou "mítico" inserido nos alicerces da própria realidade difundida, se ela estiver em uma mínima parcela certa, em que medida a internet distorceria tanto a realidade da comunicação, como tecnologia de comunicação por excelência desse mundo midiático ao qual se refere Debord e Baudrillard? Claramente afirmação radicais de Debord como "a realidade se desdobra [...] como um pseudo-mundo a parte deste" parte de uma formulação humanista em que a realidade não só física, mas também de funcionamento de estruturas discursivas sociohistóricas, se constitui adequadamente ou não na medida em que sua manuseabilidade fica clara para nós, seus portadores. O slogan situacionsita "Sejam realistas - demandem o impossível" reflete bem a visão de realidade - a que se mantém somente em um nível de discursos difundidos, no nível social.

Toda teoria da pós-modernidade parte daí; a de Baudrillard, especificamente, sugerindo a morte da realidade, uma separação radical de nossa posição nela como seus referenciais (como no caso das visões de mundo Iluministas que permearam toda a Modernidade de Nietzsche a Debord), uma separação que é aparentemente irrecuperável já que o humanismo mesmo está descreditado. Aqui a teoria do fim das metanarrativas cruza com a pressuposição do domínio da hiperrealidade em Baudrillard.

Frederic Jameson (1990) contends that one of the conditions of late capitalism is the mass reproduction of simulacra, creating a "world with an unreality and a free floating absence of "the referent"’ (p. 17). Although theorists highlight different historical developments to explain hyperreality, common themes include the explosion of new media technologies, the loss of the materiality of objects, the increase in information production, the rise of capitalism and consumerism, and the reliance upon god and/or ‘the center’ in Western thought.

Hiperrealidade: Ela já não estaria distorcida há tempos? Qual é o modelo de realidade pensado aqui como pano de fundo? A hiperrealidade não seria hiper(ir)real -- uma ?

IV. Mídia como porta de acesso ao hiperreal
 "Quem possui os meios possui a mensagem?"

(Aliaa Ibrahim Dakroury)[14]

Um elemento até então ignorado como médium de espetáculo foram os veículos de comunicação -- jornais, revistas, livros, TV, e desde meados de 1970, Internet. O fato da mídia ter se espetacularizado, virado mais que uma mídia (não basta veicular informação, deve-se pensar no apelo à atenção de espectadores, a forma que a informação é passada), nos leva a questionar a validade de suas mensagens. Pois, já que mensagens são adornadas e circundadas por uma retórica sensacionalista ou intelectualista, não seria a mensagem mesma falsificada? Quando começamos a tratar da espetacularização da mídia, adentramos um domínio infinitamente mais sombrio e aporético; nos leva até mesmo a discutir se algo nas mãos da mídia poderia ter alguma coerência com a tal realidade.

Paul Virilio’s The Lost Dimension, in which he argues that modern media technology have created a "crisis of representation" where the distinctions between near and far, object and image, have imploded (p. 112). Virilio locates the ‘vacuum of speed’ as the historical development which produces technology that overturn our original understanding of spatial relations by altering our perceptions. This machinery "gives way to the televised instantaneity of a prospective observation, of a glance that pierces through the appearances of the greatest distances and the widest expanses" (p. 31).

No momento em que toda uma retórica de afecções domina o discurso midiático e ela se divide em grupos de interesses –– intelectuais neo-liberais lêem o jornal X, donas de casa de classe-média lêem a revista Y, pré-púberes subversivos lêem a revista Z, ... –– neste momento fica bem clara que não só a aplicação de determinado discurso fabrica a opinião do leitor, mas os próprios leitores irão comprar e consumir uma mídia que repita suas opiniões gerais sobre o mundo. O processo de integração se dá de uma forma muito fácil; conteúdos de publicações ganham um valor estético por si próprio, sua veiculação é a garantia de que certas idéias serão compactuadas pelas pessoas 'mais abertas'; o estético da informação gera um ecletismo que aparentemente soterra a falta de fundamento de tempos niilistas (ou 'abertos a novas experiências', como a Rede Globo prefere chamar).

"[...] the entire web of human meaning-making activities has been transformed into the symbolic exchange of empty signs, the modes of production have been liquefied and leukemized into the giant political economy of exchanging signs. Steven Best and Douglas Kellner present the hyperrealist argument against Debord and his colleagues, "this is not to say that "representation" has simply become more indirect or oblique, as Debord would have it, but that in a world where the subject/object distance is erased […] and where signs no longer refer beyond themselves to an existing, knowable world, representation has been surpassed […] an independent object world is assimilated to and defined by artificial codes and simulation models" (DBT pg. web).

É óbvio que o simples fato que monopólios de comunicação são aliados dos governos nacionais mostra a mídia ligada à própria difusão ideológica. Chomsky chama o processo de "consenso fabricado" - a naturalização de certas opiniões, cultura como segunda-pele do real que eu não questiono mas apenas me ponho a repetir pois é o que foi ensinado a fazer. “Qualquer forma de poder, seja religiosa, política ou privada, sempre soube que controle da comunicação significa controle sobre a sociedade. Um dos títulos do Imperador César era ‘Pontifex Maximus,’ o construtor de pontes. Controle de pontes propicia controle das ruas [por onde mensageiros passavam] e, portanto, das comunicações”[15] Só gostaria de não deixar isso passar despercebido, pois a Internet surgiu como a grande esperança contra essa estrutura de fabricação de consenso.

Como a Internet mudaria esse quadro? - é a questão a ser feita. Eu poderia pular a parte do texto que diz "eis então que, mesmo com seu enorme potencial de comunicação, a Internet foi integrada ao mundo da mídia fora dela". De fato, a estrutura da Internet permite um fluxo de informação não-hierárquico, formação de comunidades pensantes que discutem e crescem juntas poupando uma enorme quantidade de tempo, espaço, papel e tinta. Isso não 'conserta' o pluralismo e ausência de referencialidade assumida pelos teóricos do pós-moderno - não há nada na internet que altere o quadro, que na verdade é conseqüência de um longo processo cultural e econômico. Mas cria uma nota de rodapé para aquilo que os pós-modernos deixaram de lado: é possível que haja qualquer comunicação real nesse mundo distópico sem referenciais? Ou toda comunicação se resumiria a uma veiculação unilateral de realidades sociais fechadas, uma repetição dos conteúdos de sistemas autônomos com os quais eu compactuo? Uma visão diacrônica do trabalho de Baudrillard propõe justamente isso: inicialmente afirmando que comunicação real só pode ser reatada se a mídia for destruída (1981, p.170), posteriormente duvidando de algum interesse da sociedade em ter alguo como comunicação.
Minha questão proposta acima tem intenção de problematizar exatamente essa pretensa falta de participação humana nos sistemas de signo -- Baudrillard chega a falar que o humano não existe mais (ou melhor, existe corporeamente, apagado e relativizado em meio a bugigangas); ele existia até o momento em que ele e sua sociedade deixaram de ser foco e fim de suas próprias ações. Agora obedeceríamos a ordem objetiva do mundo capitalista que corre solta, sem controle.

Social performance is a copy that instantaneously reproduces itself by being viewed thus disseminated to others who will potentially incorporate the performative action into their own technologies of self. Jeffrey T. Nealon in his book Alterity Politics interprets the work of Butler and Derrida to argue that basic performances underlie all social agency, "agency is necessarily a matter of response to already given codes" (p. 23). But where are the originals, the carved wooden blocks that produced so many performative copies? The ‘originals’ are constantly referenced through discursive performance, mostly as ‘human nature’ or some equivalent concept. Performances based on gender, race, sexuality, ethnicity, and a number of smaller modes of action consistently refer back to a fabricated biological essence, a ‘truth’ of the body. Yet as my own performance in this course revealed, gender (and by insinuation the entire structure of human nature) is entirely performative lacking any grounding in biological or otherwise human essence.

Baudrillard’s metaphor of Disneyland should be employed, that the constructed realm of fantasy exists to imply that the rest of the world is real (1994, p. 12). The obviously unreal performances of characters in television and movies should be examined in light of their significant role for persuading populations that their own social performances are ‘real,’ and providing the most foundational ‘other’ to stabilize all identities.

Baudrillard concludes on reality that it is nothing more than a fairy tale, it is "now impossible to isolate the process of the real, or to prove the real" (1994: p. 21).

V. Realidade dada, realidade difundida
"The simulation of something which never really existed" - Jean Baudrillard

Seu caráter não-hierárquico reconstrói a noção de publicidade de certa forma --  o que convence não precisa ser o mais apelativo ou aquilo que lhe dá tickets para ir ao cinema no domingo, mas a qualidade da informação difundida, imediatamente julgada. Isso em um tempo onde Internet era uma interface puramente textual, sem gráficos e scripts mirabolantes. Ainda hoje tais comunidades existem, ela permite a criação do que Hakim Bey chamou de "Contra-net": uma variação parasítica ao processo de 'delimitação' dos domínios da Internet, criação de sites privilegiados e ditos 'seguros' pelas mesmas elites da mídia impressa. Esses sites são os que espalharão a notícia de que a web é perigosa (ver a matéria “Informatização versus Informação” de Joseph Patrick Olavsfjørður nessa edição do Informativo SEMCP), que deve-se confiar sobre em conteúdos que você poderia confiar fora da net, etc. Ou seja, consuma na Internet somente aquilo que é controlado por monopólios, transforme-a em um espelho do hiper(ir)real. Neste ponto eu concordo que a Internet vira o hiperreal –– ela é a extensão do total falseamento auto-legitimizador da vida[16] e fatos por grupos específicos que geralmente não se importam com sua opinião ou gostos; não que o conteúdo que eles têm a oferecer não seja interessante ou suas opiniões interessantes, mas não são as únicas. ELES NÃO SÃO PROFISSIONAIS, NÃO SABEM O QUE FAZEM COM INFORMAçÃO; a maioria das pessoas se espantariam em saber o nível intelectual e vivacidade de nossos jornalistas e webmasters de 'sites confiáveis'. Globo.com, Uol.com.br, Terra.com.br, Msn.com, ... de onde vem toda a informação que é passada lá? Por que ela é a mesma reportagem que saiu onde no New York Times.com ou Folha.com.br, com algumas alterações e discurso simplificado? Talvez porque a Uol.com.br não queira pagar repórteres para fazer cobertura de um ataque terrorista no Paquistão, óbvio. E eis que então vem as sugestões de 'especialistas da Internet' (o termo mais vago no mundo, muitas crianças de 13 anos são especialistas em Internet): "não acredite em notícias que vem de sites não-institucionais, não acredite em tudo o que você lê na Internet". Eu diria, não acredite nessa mensagem em si. Nem nesse ensaio. Não acredite em nada.

A dica que Hakim Bey nos dá é: "as presentes formas de Web não-oficial [a contra-internet] são ainda muito primitivas: network de zines marginais, BBSs, pirataria de software, hacking, phreaking, alguma influência em impressos e rádios"[17]; [webradios, algo que, na minha opinião, é ainda a melhor fonte de informação, como algumas das public radios americanas].

Na minha franca opinião, a Internet ainda carrega um potencial de relativizar e neutralizar o hiper(ir)real do mundo midiático e espetacular –– de abrir uma fenda nessa trama hierárquica e limitada e permitir que real comunicação, real interação entre pessoas aconteça. O risco de se estar na Internet é o risco de se estar vivendo; a síndrome atual que evita assumir riscos é o mínimo denominador comum da estupidificação global que fabrica bovinos no lugar de seres humanos. A tal 'recepção de informação falsa', sobre as quais revistas 'especializadas' nos alertam tanto, nunca é imposta como uma boa oportunidade para exercer o próprio senso crítico e espírito de pesquisa.A mistificação gerada ao redor dos perigos da informação anárquica é a mesma que regula a vida cotidiana; a outra face do espetáculo, não tão contagiante, é aquela que lhe revela como "auto-retrato do poder em uma época de sua gerência totalitária das condições de existência".[18]

Bibliografia

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Crook, Stephen. "Modernist Radicalism and its Aftermath: Foundationalism and Anti-Foundationalism in Radical Social Theory". London and New York: Routledge, 1991.
D'Arcy, Jean. "The Right of Man to Communicate." in: L. S. Harms, Jim Richstad & Kathleen A. Kie (Ed.), Right to Communicate: Collected Papers. Hawaii: The University Press of Hawaii, 1977.
Dakroury, Aliaa Ibrahim. "Who Owns the Medium Owns the Message? The Ambiguity of the Right to Communicate in the Age of Convergence" in: Reconstruction 5.2 (Spring 2005 issue).
Debord, Guy. Society of Spectacle. Detroit: Black&Red, 1983.
Jameson, Fredric. Postmodernism: or, The Cultural Logic of Late Capitalism. Durham: Duke University Press, 2003.
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Docherty, Thomas. “Postmodernist theory: Lyotard, Baudrillard and others” in: Routledge History of Philosophy Vol.VIII. London&New York: Routledge: 1994: 474-505
Nealon, Jeffrey T.  Alterity Politics: Ethics and Performative Subjectivity. Durham: Duke University Press, 1998.
Oberly, Nicholas. Reality, Hyperreality (www. _______________), 2003.
Silverman, Hugh J. “French Structuralism and After: De Saussure, Lévi-Strauss, Barthes, Lacan, Foucault” in: Routledge History of Philosophy Vol.VIII. London&New York: Routledge: 1994: 390-408.
Virilio, Paul. The Lost Dimension. New York: Semiotext(e) Publishers, 1991. 


[1] "[…] culture itself is one of the things whose fundamental materiality is now for us not merely evident but quite inescapable. [...] it is because has become material that we are now in a position to understand that it always was material, or materialistic, in its structures and functions”. Jameson, 1992: 67.

[2] Portanto ficcional. Ver Silverman, 1994: 400.

[3] Debord, 1983, Parte I §9.

[4] Baudrillard 1996, Debord 1983.

[5] Debord, 1983. Debord odiava notas de rodapé.

[6] Por Baudrillard 1996 e 2005, por exemplo; ver também Debord, 1983: Parte I, §6.

[7] Ver Jameson, 1992: ix-xxii.

[8] Baudrillard, 1996.

[9] É a crença de Lúkacs, via Marx, que não será discutida aqui. Ver "Autonomia e domínio da vontade" neste mesmo site, para problematização dessa crença, além de Crook, 1991: 24-29.

[10] Baudrillard, 2005.

[11] Debord, 1983: Parte II §42.

[12] Idem: Pt.1§2.

[13] Jameson, 1992: 147-8.

[14] Ver Dakroury 2005.

[15] D’Arcy, 1977: 49.

[16] Comparar com Docherty, 1994: 482.

[17] Bey, 2003: 107.

[18] Debord, 1983, Pt.I §24.