TOMOSHIBI
(Luz que me guia)
 

 
          Um dia como outros na vida de Ashura e Yasha. Ashura observa seu protetor aproximar-se de um demônio cheio de tentáculos, de cima de uma árvore.
 
          - Yashaa!! - grita ela preocupada.
 
          O guerreiro desembainha sua luminosa espada com a habitual reverência.
 
          - Yama Tenrouken!!* - grita ele golpeando o demônio, enquanto raios o rodeiam. O demônio como sempre não teve chance e morre logo.
 
          O rei Yasha volta para pegar sua protegida. Embainha sua espada enquanto Ashura bate palmas feliz e aliviada.
 
          - Que bom que Yasha é tão forte! - diz ela sorrindo.
 
          - Se não fosse, a espada Yama não funcionaria. - ele responde.
 
          - Por quê? - pergunta a menina.
 
          - É uma lenda muito antiga do clã Yasha- explica ele pegando a menina no colo, as imagens invadem a imaginação da menina com a história - diz que há muito tempo,  o clã enfrentou sua mais grave crise e beirava a destruição. Nesse momento desceu um com enormes asas do céu. Essa lenda deve servir para que nos lembremos que o soberano de nosso reino só pode herdar essa espada se for o mais forte do clã...
 
          As palavras que o ancião passou para ele há muito tempo voltam à mente do rei Yasha:
 
          "Quando as terras do Norte foram cobertas por negras nuvens, desceu dos céus um estrangeiro com asas mais negras ainda. Foi o talento desse forasteiro que salvou o povo de Yasha. Depois de 3 dias ele nos agraciou com uma espada mágica, e nos mostrou que somente o mais forte de nosso clã poderia herdar essa arma magnífica. Depois que ele partiu, até os nossos dias o povo de Yasha tornou-se dono de grande força e prosperou. Essa espada mágica somente emite uma luz como a dos vagalumes à noite nas mãos do mais poderoso guerreiro do clã Yasha, e com ela ele poderá cortar até mesmo montanhas. Seu nome é espada Yama."
 
          Desde então esta espada é quem julga quem é o mais forte do clã Yasha... mas não sei dizer se essa história tem alguma verdade nela.
 
          O rei Yasha então perde-se em pensamentos: "A misteriosa espada que quando desembainhada espalha faiscas vivas como vaga-lumes, espada mágica Yama"
 
          "Por que só esta espada pôde quebrar o selo da barreira que a floresta Maya criava? Por que ela conseguiu conseguiu contêr a outra Ashura? Será que a pessoa que nos ofereceu a espada Yama sabia desse poder único dela?"
 
          Ele lembra-se da parte 'um homem com asas negras' e sorri:
 
          - Não - diz ele respondendo também à pergunta de Ashura - não existem pessoas com asas. É apenas uma lenda.
 
          Colocando Ashura no chão ele explica:
 
          - Mesmo entre o povo das alturas do clã Karla, não há uma pessoa sequer que tenha asas. Ashura vamos hoje descansar aqui.
 
          - Heim? - reclama Ashura - Vamos dormir de novo em cima de uma árvore? Eu não quero!
 
          - É mais seguro que ficarmos no chão, não? - responde ele - Se queremos evitar  o exército do Imperador, ou mesmo os demônios das redondezas, não temos outra escolha.
 
          Ashura esfrega sua cabeça já imaginando como vai acordar no dia seguinte: - Ashura vai cair da cama de novo!
 
          - Você não dorme direito - ele responde - Não se preocupe, você não vai cair hoje. Eu te seguro hoje.
 
          A lua minguante vai alta no céu. Ashura ainda não dormiu:
 
          - Né... Yasha... - ela fala no colo de Yasha - Mostra aquilo de novo. Mostra aquela luz bonita.
 
          O rei Yasha desembainha sua espada. Luzes como vagalumes saltam da lâmina iluminando o rosto da criança.
 
          - Como é bonito - ela fala fascinada - Parece com a Gigei.
 
          Uma imagem da dançarina em traje completo surge na mente de Ashura: - Da primeira vez que vi a Gigei ela brilhava tanto quanto agora.
 
          - Você gosta tanto assim da Gigei? - pergunta Yasha ternamente.
 
          - Uhum! - responde Ashura sonolenta mas sorridente - Eu gosto muito! Logo depois de Yasha, eu gosto dela! Eu acho que seria bom se Gigei virasse minha mamãe.
 
          Foi a vez de Yasha tomar um susto: - Mãe? Onde você ouviu essa palavra?
 
          - Foram as crianças do grupo de artistas que me ensinaram - responde ela - Disseram que é uma mulher carinhosa e boazinha que sempre vai ficar do seu lado. Uma pessoa assim é a "mamãe".  Ashura também quer ter uma mamãe.
 
          O olhar de Yasha torna-se pesaroso: - "Mamãe" é a mulher de quem você nasceu. Só essa pessoa pode ser sua "mamãe".
 
          - Então - Ashura fala decepcionada - Gigei não pode ser minha mamãe? Então, e a mamãe de Ashura?
 
          As luzes dos vagalumes imaginários os rodeiam. Como se o rei Yasha não pudesse escapar das perguntas da pequena Ashura: - Onde ela está? Por que ela não está aqui com Ashura?
 
          - Ela... morreu? - pergunta ela temerosa pela resposta.
 
          - Não - responde ele pondo a mão na cabeçinha dela, que se esforça para não chorar.
 
          Com a resposta, ela olha para seu protetor ansiosa, que continua: - Ela está viva. Quer se encontrar com ela?
 
          - Posso? - pergunta ansiosa Ashura - Onde ela está?
 
          - Muito longe - responde ele vagamente - No castelo do Imperador, castelo Zenmijou.
 
          As lembranças do que aprendeu do ancião o invadem: "Shashi... A atual esposa do Imperador Taishakuten. Sendo a esposa do rei Ashura, a sacerdotisa do clã, ela tornou-se uma traidora e conduziu Taishakuten para que destruisse o clã Ashura. E ainda uma mulher que, dando à luz a gêmeos, para acabar com a linhagem do rei Ashura, ela mesma tentou matar com suas mãos sua filha, uma das crianças que carregara no ventre."
 
          "Mas se souber disso, Ashura..."
 
          Seus pensamentos são bruscamente interrompidos com os devaneios da criança: - Então se a gente for pra lá eu posso encontrar com ela, né? Tá bom, até lá Yasha fica sendo minha "mamãe", tá?
 
          - Quê? - engasga o rei Yasha, totalmente constrangido. - Pare de falar bobagens. Criança tem de dormir cedo!
 
          Ashura ri satisfeita com a pequena traquinagem que aprontou com seu protetor, que coça lhe a cabeça num misto de repreensão e carinho.
 
          - Yasha é forte por isso... - murmura ela sonolenta - eu sei que um dia eu vou encontrar com mamãe, né?
 
          - Claro - responde ele por alto - Depois que derrotar Taishakuten.
 
          O rei Yasha observa as pequenas luzes que ainda os rodeiam. Muito ele perdeu e ele pondera:
 
          "Tudo que você quiser eu vou garantir que consiga. Para isso, eu tenho que ficar forte, mais forte que qualquer coisa, mais forte que qualquer pessoa. Para proteger esta pequena luz que dorme em meu peito. Pelo menos das luta terrível que esta criança vai enfrentar, até se tornar a luz que guia minha vida."
 


 
*Yama Tenrouken: ao pé da letra seria Golpe Noite Profunda do Lobo Celestial, mas dá muito trabalho escrever tudo isso...
 


 
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