Ressurreição
da
Espada Ashura


          É noite. Todos em Kusumabura dormem. Todos menos Kara que zela pelo repouso de Kumara pensativa. 'O que será que você está sonhando, Kumaraten?...'

          Em seus sonhos, Kumaraten recorda-se dos dias de glória de Kusumabura.

          'Maravilhoso... a minha cidade das flores, Kusumabura. As moças de vozes mais melodiosas que os pássaros... A abundância presente o ano todo... O meu povo brilhante e gentil'

          Um menino oferece flores ao seu soberano, que acaricia a cabecinha dele. 'Que bom... tudo não passou de um pesadelo. A cidade não foi destruída.'

          O pesadelo no entanto retorna: 'Meu senhor Kumara! é terrível! O deus dos relâmpagos, Taishakuten organizou uma rebelião contra o Imperador Celestial. Agora mesmo está em batalha contra os exércitos de Ashura!'

          Ao receber a notícia, Kumara reage como há 300 anos, incapaz de acreditar no que ouvia: 'Como? Isso jamais aconteceu no Mundo Celestial. O que ele está pensando ao desafiar o poder maior do nosso mundo?!? Ancião!'

          O velho conhecido responde prontamente à pergunta não formulada: 'Bem, o rei Ashura nunca foi derrotado na história não é? Não precisamos nos preocupar então.'

          Mas ele foi derrotado...

          'Como?' pergunta Kumaraten incrédulo 'O rei Ashura foi destruído? Você tem certeza?'

          'Sim' responde o soldado 'Uma das sacerdotisas do clã Ashura...traiu o próprio povo. O rei Ashura foi emboscado pelo inimigo... numa luta injusta...'

          'Os rebeldes eram em maior número' continuou ele 'e a moral deles aumentou com a morte do Imperador Celestial. Mesmo com as forças imperiais, o rei Ashura não conseguiu detê-los, pois o número deles crescia a cada dia: o exército dos traidores é formado por soldados que não pertenciam a tribo alguma. Até mesmo os clãs dos deuses podem ser totalmente aniquilados.'

          'Ancião' chama Kumaraten tomando a decisão de 300 anos atrás 'Nosso clã resistirá até o último cidadão em favor do Imperador Celestial.'

          'Como quiser' foi a resposta do ancião.

          Essa decisão cobrou um preço alto. A destruição do povo de Kusumabura. No meio da tempestade, Kumaraten embalava o corpo do garotinho que oferecera uma flor ele alguns dias atrás, consumido pela frustração e pela dúvida.

          'Terei errado?' questionava-se ele 'Com Taishakuten bem à minha frente usurpando o trono Celestial, deveria eu ter ficado quieto no meu canto fingindo nada ver e oferecer meus serviços a ele depois?'

          Algo chama sua atenção. Passos. Alguém aproximava-se.

          'Ancião!' reconhece Kumaraten seu conselheiro.

          'J-jovem senhor' cumprimenta ele seu soberano, tentando mostrar um sorriso confiante por encontrá-lo vivo. Mas o rapaz está por demais arrasado para se alegrar...

          'Você é o último sobrevivente de meu povo... Estou feliz por você estar vivo'

          'Bem' retruca o velho tentando preparar o soberano para o choque 'eu já tive dias mais saudáveis. Afinal com as pernas cortadas uma pessoa não consegue viver muito tempo'

          O velho logo percebe que a brincadeira não seria compartilhada com o jovem 'Desse jeito Kusumabura vai ser destruída duas vezes... Se Lorde Kumara morrer todos os sonhos do nosso povo e seu sacrifício serão em vão.'

          Assim pensando, o velho começa a recitar um mantra, o que surpreende Kumaraten: 'Velho! O que está fazendo? Esse feitiço?!?'

          'é uma invocação para chamar demônios' explica o velho rodeado pelas energias da magia 'Se continuar desse jeito, o jovem senhor vai acabar fazendo alguma besteira, não é? Estou fazendo um pacto e fundir minha carne com à do demônio. Se der certo poderei viver centenas de anos e me tornar de alguma serventia para a batalha de meu senhor.'

           'Claro que não posso negar que ficarei com aparência grotesca' continua ele 'Mas se não fizer isto, quando chegar o dia em que pudermos parar de nos esconder nas profundezas de Kusumabura e reconstruir o reino, eu não poderei ajudar meu senhor.'

           'Pois esse é o desejo do povo de Kusumabura' conclui o velho a explicação e o feitiço.

           Numa explosão cegante o pacto é concluído. As luzes fazem a mente de Kumaraten vagar para outro momento de seu passado.

           'Meu senhor' murmura o velho 'meu senhor'

           Para Kusumabura essa voz lembra-o de outras vozes. As vozes de seus outros súditos. E lembrando-se ele se lamenta...

           'Para que serve um rei sem um povo?' pergunta-se angustiado 'Qual o sentido de um poder e trono assim? Mesmo assim querem que eu continue vivendo?'

           'Jovem senhor' o ancião traz Kumaraten de volta a realidade 'Uma mulher caída ali'

           'Parece ser do clã Ashura.' reconhece Kumaraten enquanto pensa que não conseguiu salvar sequer uma pessoa sequer de seu povo (Mas se mesmo assim querem que eu viva...) 'O que poderia estar fazendo numa zona de batalha como esta?'

           'Ancião' decide-se o jovem 'Vamos ajudar esta mulher.'

           Nesse exato momento, a mulher chamada Kara é tomada de seus braços. E no momento seguinte, seu pior pesadelo parece estar acontecendo: Taishakuten com a sua amada nos braços pronto para sacrificá-la:

           'Vamos arrancar do ventre desta mulher a sua criança?' pergunta irônico Taishakuten erguendo a espada, indiferente aos gritos de Kumaraten para que parasse 'Se esta mulher e a criança que ela carrega morrerem, você não irá se rebelar outra vez contra mim. Vai pensar antes de fazer uma coisa dessas, não é?'

            'PÁRE!' grita o rapaz em desespero.

            'Para me derrotar, você sacrificou o último desejo de seu povo' explica o vilão 'é melhor então que continue em seu castelo das profundezas. Desta vez morto como seu povo.'

            E Kumaraten acorda sobressaltado do pesadelo, dando um susto em Kara. O rosto dele está terrivelmente alterado o que preocupa a jovem.

            "Teve um sonho ruim, senhor?" pergunta ela.

            Como resposta ele a puxa para si e abraça-a fortemente, e aliviado certifica-se tocando o rosto dela que ela era real. Mas neste momento a moça sente uma dor aguda e profunda nas profundezas de seu ser contorcendo em agonia.

            "Kara!" diz Kumaraten surpreso "O que há?"

            Ela não responde pois em seu íntimo sabe que o momento chegou. A espada Shura a chamava.


            Na sua prisão cristalina, outra pessoa também ouve o chamado. Um som como o das batidas de um coração torna-se cada vez mais nítido para nós.

            "Alguém..." murmura ela semi-consciente "Alguém está me chamando"

            Quando ela abre os olhos no entanto, sua voz se transforma. Não mais é a doce Ashura, mas Ashura Negra quem está no comando.

            "Eu tenho..." murmura ela ainda testando o próprio corpo adormecido "Eu tenho de ir até a minha espada..."

            'Até minha outra metade' é o seu pensamento antes de erguer seu braço e destruir a prisão como se fosse uma frágil peça de porcelana 'Tenho de atender ao chamado de minha espada Shura!'


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