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| inocência o movimento e os mistérios da vida Inácio Araújo |
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| Folha de São Paulo No começo, há um prólogo em que se encontram o jovem médico viajante (Edson Celulari) e o pai de Inocência (Sebastião Vasconcelos). Em seguida, vê-se pela primeira vez o quarto de Inocência (Fernanda Torres) e nesse momento a ênfase não vai para a personagem, mas para o véu branco que envolve seu leito. Essa veladura define o destino da personagem, assim como o do filme, e de certo modo os identifica. É que esse véu não designa um ocultamento, mas uma superficie e uma relação com a natureza. Mais tarde, veremos, esse véu se transformará em cachoeira - fluxo contínuo e harmônico, correspondência segura do amor entre Inocência e o jovem médico. Veremos, igualmente, que a forma desse leito se assemelha à de uma borboleta: animal que constitui o centro das preocupações do entomólogo alemão, curioso personagem obstinado em capturar esse ser, em reter algo que se distingue pelo movimento e reduzi-lo à imobilidade, em transformar o ser vivo em objeto de dissecação. Esses elementos - parciais - definem já uma idéia do cinema segundo Walter Lima Jr. Como essa tensão entre o movimento e sua análise, a contemplação e o entendimento do fenômeno. E, ao nos dar uma idéia de cinema, pela exclusiva manipulação de elementos cênicos, nos mostra igualmente uma idéia da vida. Algo tão delicado e sensível que em relação a ela todo cuidado, todo respeito, é pouco. Daí, o equilíbrio entre as três personagens masculinas: o entomologista é aquele que imobiliza e mata para conhecer; o pai é quem mata por desconhecer e passar ao largo da natureza; o médico é quem concilia natureza e ciência, conhecimento e paixão. De outro lado, Inocência, personagem que encarna a tal ponto a fragilidade do humano que, tão logo a vemos, percebemos estar face a alguém que já morreu ou melhor, cuja existência consiste exatamente em demonstrar a fragilidade, a presença da morte na existência humana. A primeira aparição de Inocência é definitiva: um véu a envolve, por trás do véu nada existe, senão outro véu; atrás da superfície, outra superfície. É a encarnação do diáfano, de algo que, embora transparente e sensível à luz, não se deixa apreender como forma. É a borboleta, cuja existência se dá, desde sempre, como transformação e movimento. Quando capturada, nomeada, ela já não é mais nada; é expressão de sua própria morte; algo tão inconcebível como uma cachoeira onde a água não corresse. Cito acima alguns elementos cênicos de Inocência: impossível conceber esse filme de outra forma. Porque mesmo a evolução dramática da narrativa existe exclusivamente em função deles. E porque Inocência é um filme de cinema, o mais belo, o mais puro, o mais moderno. E Walter Lima Jr. é o maior critico de cinema brasileiro, não por acaso. Inocência é, por isso, filme de uma beleza humana rara e manifesto cinematográfico de um raro vigor. A delicada película que – como a cachoeira – corre cadenciada no interior da câmera, é um instrumento de conhecimento, mas peculiar na medida em que só lhe é dado conhecer em movimento e ao movimento: sua natureza exclui a imobilidade imposta ao objeto pelo taxidermista, sua estranha superfície é esta onde a vida e seu fantasma se encontram, relacionam-se sem nunca parar, onde a captação estática (e isso é o filme, fotos a 1/24 de segundo) e projeção em continuidade se completam. Feliz, rara coincidência em que matéria (visual) e espírito se encontram, Inocência é um filme que nos introduz à vida como mistério porque só concebe o cinema como mistério, elo entre o visto e o ser, criando e transformando a existência. Não temamos a patriotada: é um grande filme do cinema. |
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