C  A  S  T  E  L  O      D  A

Contos sadomasoquistas


Jogo de Tênis
 
 
 

 No início do verão, eu estava passando uma semana na casa de praia com amigos - éramos em quatro: Renato, o dono da casa, sua noiva, Helena, e a irmã dela, Cláudia, recém-formada em psicologia. Todos nós nos conhecíamos desde os tempos da escola - sendo que eu e Renato praticamente crescemos juntos - mas já há muito tempo não tínhamos mais oportunidade de nos reunirmos daquela maneira.
 Eu acabara de sair de um relacionamento tumultuado, e estava ainda profundamente sensibilizado. Não conseguia compreender, parecia que, de algum modo, eu sempre acabava estragando tudo, bancando o estúpido... sabia que a culpa era minha, e mal podia lidar com a frustração. Nessa situação, o convite de Renato para passar uns dias na praia literalmente caíra do céu. Esperava poder, com um pouco de sorte, relaxar um pouco e, quem sabe, talvez até “afogar” um pouco a fossa em que estava com uns bons banhos de mar. Mal sabia eu o quanto aquele “retiro” seria marcante (em mais de um sentido) para mim.
 Tudo começou quando, logo no entardecer do primeiro dia, deparei-me, surpreso, com uma Cláudia que estava a anos-luz da garotinha que eu conhecera: ela era agora uma mulher feita, com um semblante ao mesmo tempo austero e provocante, com longos cabelos castanhos e profundos olhos negros que emolduravam uma personalidade extrovertida e criativa. Não havia como deixar de fascinar-me por ela. Todavia, depressivo como eu estava, mal pudemos conversar, a princípio. Com calma e compreensão, demonstrando uma sabedoria e um carinho maiores do que eu poderia esperar, Cláudia foi fazendo com que eu ficasse mais e mais à vontade, fazendo com que renovássemos a amizade e confiança que o passar do tempo esfriara. Não percebi de início o quanto já estava preso por ela. Nada obstante, ela não deixou de me fazer ver que minha atitude egoísta e grosseira precisava mudar.
 - Se bem que os homens parece que não passam de garotos indisciplinados - suspirou.
 Não pude deixar de concordar. Acabamos por desviar a conversa para as diferenças entre o modo de ser de homens e mulheres. Cláudia afirmou sua crença de que os homens são psicologicamente dependentes das mulheres, pois parecem sempre estar procurando, de um modo ou de outro a aprovação delas.  Fui dormir pensando no que ela dissera, e completamente fascinado por seu encanto.
 Na manhã seguinte fomos os quatro jogar uma partida de tênis, em duplas. Eu formei dupla com Helena, enquanto Cláudia ficou com Renato. Tenso como estava, acabamos perdendo o primeiro set, o que não impediu que ganhássemos a seguir - devo confessar que mais graças à técnica de Helena que por mim. E assim fomos, revezando os sets, até o tai-break. Bastante nervoso, comecei a rebater bolas fortíssimas, o que deixou Cláudia furiosa!
 - Marcos! Veja se presta atenção! Isto é TÊNIS, não um jogo de hóquei!
 Por fim, Helena e eu vencemos a partida. Renato me cumprimentou, e abraçou carinhosamente sua noiva. Quando estendi a mão para receber o cumprimento de Cláudia, ela a apertou com força, e, chegando mais perto como se fosse me beijar ou dizer algo, subitamente aplicou-me uma violenta raquetada no traseiro.
 - Isso é pra você aprender a ser mais calmo para rebater...
 Meio sem graça, sorri tentando não dar a perceber o quanto havia doído... nem o quanto eu ficara excitado! Meu corpo suado, tão próximo dela, suas pernas fortes e torneadas faziam com que eu mal pudesse me dar conta de onde eu estava. Por um breve  instante, Cláudia olhou-me bem fundo nos olhos, como se buscasse algum sinal que traísse o que eu de fato sentira; em seguida, seu ar austero se desmanchou com uma piscadela maliciosa - que me fez sentir como se ela tivesse, literalmente, lido minha alma. Sem saber o que dizer, falei um tanto sem jeito:
 - Se quiser uma revanche...
 - Revanche? Contra um boxeur que pensa que é jogador de tênis? Que graça teria... Você foi carregado pela Helena o jogo inteiro! - disse com um ar malicioso.
 Eu sabia que ela tinha razão. Meu jogo não fora mais do que apenas regular, mas não queria dar o braço a torcer. 
 - Em dupla é sempre meio desigual, mas se quiser tirar a prova, quem sabe podemos jogar sozinhos qualquer dia.
 - Vai ser um prazer fazê-lo engolir esse orgulho... como você já engoliu aquela raquetada - disse, piscando novamente.
 ELA SABIA! De algum modo, ela percebeu que aquilo me provocara. E, naquele instante, eu me senti totalmente exposto, como se eu estivesse totalmente nu diante dela, não apenas meu corpo, mas alguns recônditos de minha mente que eram desconhecidos até mesmo para mim. Meu Deus! Aquela não podia ser a mesma garota que estudara comigo; com apenas um único olhar ela era capaz de me por totalmente indefeso. E, subitamente, comecei a temer tanto quando desejar ardentemente estar sozinho com ela, o que não tardou a acontecer.
 No dia seguinte, Renato e Helena foram até a cidade buscar mais mantimentos, e Cláudia e eu ficamos na casa. Mais tarde, Helena telefonou avisando que tiveram um problema com o carro, e que iriam passar a noite lá, mas que não nos preocupássemos. Para passar o tempo, ficamos jogando cartas. Mas Cláudia logo se aborreceu.
 - Ah, que chateação! Se ao menos você tivesse coragem MESMO de me desafiar na quadra...
 Aquilo mexeu comigo. “Só se for agora”, respondi.
 - Marcos - ela falou, entre carinhosa e severa - o que você está fazendo? Não vê que está só provando o que já sei? Que os homens precisam sempre buscar a aprovação das mulheres?  Vocês parece que gostam de agir como escravos, mas nem ao menos sabem se portar com o respeito que um escravo deve ter...
 Fiquei desconcertado. Suas palavras me perturbaram, eu sabia que ela estava certa, absolutamente certa, mas não queria, não podia admitir.
 - Não tenha medo, Marquinhos. Sei que você sabe do que estou falando. Percebi anteontem à noite o quanto você é fascinado pela autoridade feminina. E, depois do jogo, tive a confirmação. Admita, você quase teve um orgasmo quando dei aquela raquetada, não foi? 
 Não respondi nada. Nem precisei. Simplemente não havia como negar. E, mais do que nunca, senti-me indefeso em suas mãos. Sugeri que voltássemos ao tênis.
 - Ah, sim, o tênis... Marcos, essa sua obstinação em fugir do assunto começa a me irritar. Não me admira que seus relacionamentos sempre acabem - e mal! Quer uma chance de provar se estou errada ou não? E eu sei que não estou!
 - Como assim?
 - Marquinhos, não finja que não entende. Vamos jogar, sim. Mas quero fazer uma aposta: se você perder - e garanto que você VAI perder - terá de ser meu escravo: vai fazer tudo, tudo, absolutamente tudo o que eu disser, e vai começar levando uma surra na quadra. Se eu perder, meu carro será seu! Topa?
 Eu não podia acreditar. Ali estava uma velha amiga, apostando um carro novinho contra minha escravidão, numa partida de tênis! E, o que era pior... eu estava realmente fascinado com tudo isto. Só havia uma resposta:
 - Topo!
 O jogo começou equilibrado. Mas a superioridade da técnica de Cláudia, sua segurança e agilidade logo dominaram o jogo. Penso que, na verdade, eu mesmo já estava dominado. O desejo de ganhar o carro não era nada comparado com o misto de desejo e medo que me provocavam a idéia de ser escravo dela. O resultado não tardou a aparecer. Três sets a zero. Eu estava humilhado. Cláudia veio até a rede e estendeu a mão. Cumprimentei-a, sentindo um nó na garganta.
 - Lembra-se da nossa aposta, ESCRAVO? - perguntou-me, lançando um olhar feroz que até então eu nunca tinha visto.
 - Sim... mas... é mesmo pra valer? 
 - Claro que é! Seu malcriado! PAFT! - um forte tapa estalou em meu rosto - Até parece que você não ia querer meu carro se tivesse vencido. VIRE-SE!
 Não havia como fugir. Fiquei de costas para ela.
 - Abaixe-se e fique com as mãos nos joelhos! AGORA!
 Obedeci, já imaginando o que viria a seguir, mas ainda sem poder acreditar. Parecia tudo tão irreal! Cládia desfez o nó de meu calção e o abaixou, deixando minha bunda completamente exposta.
 - Que gracinha... tão branquinha, né Marquinhos? Vamos ver se conseguimos colocar um pouco de cor aqui! NÃO OUSE SAIR DESSA POSIÇÃO!
 De repente, sem qualquer aviso - PAFT! PAFT! A raquete começou a estalar com força crescente em minha derrière, fazendo com que eu gemesse cada vez mais alto, até começar a gritar.
 - Por favor, Clááááudiaaa.... eu não agüeeeentoooo!! AAAAIIIII!!
 Naturalmente, era inútil. Nem parecia que ela acabara de jogar uma partida. Seu pulso estava incrivelmente firme, os golpes vinham num ritmo cadenciado e preciso. Eu me contorcia, sentia a temperatura de minha pele subir a um nível insuportável. Em desespero, tentei esfregar para acalmar a dor, mas ela não permitiu.
 - Nada disso! Você já está pedindo por este castigo há muito, muito tempo! MÃOS NOS JOELHOS! AGORA!
 Obedeci. “Você vai sentir como vai custar caro essa esfregadinha” - avisou. Com incrível precisão, ela desferiu quinze - quinze! - fortíssimas raquetadas exatamente no ponto onde eu esfregara, acertando cada uma rigorosamente em cima da antecedente. Em seguida, a raquete continuou a dançar em seu braço ágil, até que, por fim, ela se deu por satisfeita. Sem subir meu calção, mandou-me ficar em pé, mas que não ousasse esfregar minha bunda de novo. Tive de ficar com os braços abertos, na posição do “Cristo Redentor”. Não houve como esconder minha ereção.
 - Olha só como ele gostou! - divertia-se. Em seguida, fitando-me com um olhar firme e terno capaz de derreter a resistência de qualquer um, falou-me com voz forte e pausada.
 - Marcos, você terá de ser meu escravo como prometeu. Espero que entenda que estou fazendo isso pelo seu bem. Desde criança você nunca aprendeu a se controlar. É por isso  que seus relacionamentos anteriores nunca deram certo. Você ficava tentando controlar, quando sua verdadeira natureza é obedecer - ME obedecer! E como escravo, caberá só a mim decidir quando e se vou restituir-lhe a liberdade. Sempre gostei muito de você, e agora que tenho a chance de tê-lo, do MEU jeito, não vou desperdiçá-la. Se concorda com tudo que eu falei, com tudo que fizemos, e principalmente com tudo que poderemos fazer daqui por diante, você vai agora ajoelhar-se diante de mim e beijar meus pés. Caso contrário, tudo acaba aqui - inclusive nossa amizade.
 Tocado além de minha imaginação pelas palavras de Cláudia, refleti num átimo em tudo que ela dissera - e mais, em tudo que eu já fizera até ali. Não havia mais nada a fazer. Atirei-me a seus pés, beijando-os primeiro por cima dos tênis, depois retirando-os sob seu comando, e tocando meus lábios em seus dedos quentes e macios, sentindo que, a partir daquele instante, eu renascia para servir com dedicação aos caprichos de minha Rainha e Senhora.

FIM

marcos paulo 
 

 
 

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