HORIZONTE
AZUL
Ana
Claudia dos Santos
CAPÍTULO 2
Um som, distante porém tão intenso. Alguém a chamava, mas ela não queria sair da água, tão quente, e uma sensação... tão boa. Como ela podia respirar? Ela não sabia e não queria saber, nada importava. Apesar de todo o seu corpo doer, ela queria ficar lá para sempre, debaixo d'água. Nunca conseguiria encontrar forças para escapar, e isso era tão confortante... Mas a dor... e aquele som, ecoando dentro dela...
Natasha abriu os olhos, para fechá-los a seguir. A primeira coisa que notou foi que estava molhada de suor, e tremendo. Então, devagar, as lembranças da noite anterior foram preenchendo sua mente. Poderia ter sido um sonho? Ela tentou cobrir-se com o cobertor. Aquilo foi selvagem... Foi loucura... Porém, não foi um sonho. Tudo que eles fizeram, sua intensidade, sua abilidade em controlá-la e... a submissão dela a seus desejos. E o pior: ela não conseguia se sentir envergonhada, embora pensasse que deveria, ao menos um pouquinho. Sua boca estava seca. Ontem, tudo aquilo que tinha sido guardado a sete chaves por ela - seus medos e fantasias, seus mais profundos desejos - eram, provavelmente, conhecidos por ele agora. E ela sentia-se livre, renascida. Todavia, nada sobre ele era surpresa para ela, pois, de certa forma, sempre adivinhara seus segredos, os aspectos mais sombrios da alma dele. Seu querido Severus... Como era possível para um ser humano amar desta forma? Ela já sabia que ele era capaz de morrer por ela, mas ele certamente saberia agora que ela seria capaz até de matar por ele, se fosse necessário.
Levantou-se ainda um pouco tonta, seu corpo sentindo dolorosamente cada movimento que fazia, um pouco quente ainda, mas completamente seco. Que horas deveriam ser agora? Tarde - ela pensou - muito tarde.
Ouviu um barulho na cozinha e, caminhando, sentiu como seu corpo fatigado era difícil de controlar. E lá estavam eles, as mais preciosas criaturas de seu mundo.
Myrddin estava sugando sua mamadeira, mirando seu pai com seus olhos grandes, negros e tranqüilos, enquanto movia suas perninhas com vigor. Ela sorriu.
Snape levantou seus olhos vagarosamente e o olhar que ele lhe deu fê-la sentir-se febril novamente. Ela baixou os olhos, quando ele começou a falar.
- Eu troquei a fralda e lavei a suja. Pobre Myrddin, com pais como esses, não me espanta que tenha que usar mágica para sobreviver... - Snape não parecia zangado, mas seus olhos estavam frios, e ela sentiu-se desconfortável.
- Eu quase me esqueci de esterilizar a mamadeira, mas lembrei-me a tempo - disse ele, colocando Myrdin para arrotar.
Não seria engraçado se alguns alunos do Professor Snape vissem essa cena? Ela colocou um pouco d´água em um copo e começou a beber lentamente.
- Lavei umas maçãs para você e fiz chá verde - disse Snape, com a voz anormalmente fraca.
- Não estou com fome... Você deu banho nele? - ela perguntou, ainda evitando seus olhos.
- Não, não... Eu sou muito desajeitado para isso - ele disse, suavemente.
- Tudo bem, ninguém é perfeito - ela disse, rindo, aliviada por sentir se corpo esfriando novamente, e a dor no corpo diminuindo.
- Você já foi à sala de estar? - perguntou Snape, num tom mais animado.
- Ainda não, por que?
- Tem uma surpresa para você - ele olhou em seus olhos novamente. "Incrível", pensou ela, indo ver o que a surpresa poderia ser. Ele a seguiu, com um quieta Myrddin em seus braços.
Ao lado da lareira, uma enorme árvore de Natal, brilhando plena de estrelas negras e prateadas que piscavam sem parar.
- Ah - disse Natasha com lágrimas nos olhos. - Que coisa mais linda... Eu nunca tive uma árvore como essa em casa. Mas... - ela olhou para o marido com uma expressão que o fez rir. - Não temos dinheiro para isso...'
- Está tudo bem, não se preocupe - sussurrou ele.
- Mas Severo...
- Foi um presente - falou ele.
- Um presente? De quem?
-
Bom, o padrinho de Myrddin quis que seu primeiro Natal fosse, no mínimo,
maravilhoso.
- Oh, Dumbledore... que generosidade a dele...
- E ele não foi o único a mandar presentes para o bebê, esse aqui, por exemplo, é de Miss Granger. E esse outro, acho que não é para Myrddin, mas para você é de... Potter. Aquele garoto estúpido ainda curte uma paixonite por você... Mas só amanhã eles podem ser abertos, olha lá...
- Aposto que não há presente para você, Professor Snape - ela brincou.
Snape não respondeu, mas ela sabia que ele estava feliz. Os olhos de Natasha brilharam, felizes. Ela estava tão esquisita na noite de ontem que nem sequer tinha se importado com aquela quantidade imensa de caixas de presentes que ela havia trazido consigo. Mas agora, de dia, as preocupações que tinham assombrado sua mente pareciam distantes.
- Natasha... - ele falou, num tom já bem conhecido por ela.
- Eu... eu preciso de um longo banho, e depois posso preparar o almoço.
- Escute...
Ela evitava os olhos dele.
- Sim?
- Precisamos conversar.
"Oh, sim, nós precisamos muito conversar", pensou ela, os olhos ainda abaixados.
- Você poderia por favor olhar para mim? - resmungou ele.
Ela levantou os olhos, seu olhares se encontraram mais uma vez porém, agora, ela só sentiu necessidade de beijá-lo ternamente. Natasha se aproximou dele e o beijou, um longo beijo com sabor de febre e remorso, enquanto Myrddin, no meio deles, os tocava no rosto com suas mãozinhas geladas.
-
Volto logo - ela disse, achando graça da expressão engraçada
no rosto de seu marido.
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Ele preparava uma lasanha vegetariana, o prato favorito de Natasha. Nenhuma
carne, muita pimenta, beringela e queijo. Era fácil, rápido e
seguro. Snape sabia que os banhos de Natasha duravam pelo menos uma hora. Lembrava
das várias vezes em que tomaram banho juntos, quando ficavam juntinhos
na banheira, sem dizer nada um ao outro, e eventualmente ele acariciava a barriga
dela, para sentir o bebê chutando.
Mas isso foi antes de Myrddin nascer. Ela mudou tanto desde aquele dia... Snape tinha uma expressão vaga e sonhadora no rosto enquanto pegava o saleiro, pensando naquele dia quente de julho, quando ele acordou e lá estava ela na cama, ao seu lado, as pernas cobertas de sangue, segurando uma coisinha vermelha nos braços. O bebê era esperado para três semanas depois. Snape ficou tão chocado que não conseguia falar, assim como Natasha, que parecia extremamente assustada. Demorou um tempo para ele falar numa voz estrangulada "É melhor chamar uma enfermeira, não? Para cortar o cordão?". "Não tem cordão, não tem cordão..." ela sussurrou, como se confessasse um crime. "Quê? Como assim? Isso é impossível...".
Mas desde então eles aprenderam que nada relacionado a Myrddin era impossível.
Usando sua varinha, ele acendeu o forno e, enquanto colocava a lasanha lá dentro, ele viu a marca em seu braço esquerdo. Karkaroff estava certo em ficar apreensivo. De alguma forma o Lord das Trevas estava conseguindo poder e tentando voltar. Snape pensava que talvez sua conexão com Voldemort tinha sido o motivo pelo qual Natasha o estava evitando. Mas a louca noite que passaram juntos havia mostrado a ele a verdade, e ele se sentia mais aliviado uma vez que o medo de engravidar novamente, medo do qual ela parecia não ter tido conhecimento antes, era o que estava afastando eles.
Foi ver o filho, que dormia agarrado a um sapinho de borracha apertado entre seus dedos. Ele podia passar um dia inteiro a contemplar o garotinho adormecido, sua inocência era um bálsamo que parecia redimir o passado do pai. O bebê parecia muito com a mãe, mas tinha as cores do pai. "Continua pequeno para a idade..." pensou Snape. Como uma criatura podia parecer tão frágil e na verdade ser tão forte? Mas novamente, ele se parecia com a mãe. Fechou a porta cuidadosamente, e com uma caixinha de madeira na mão, Snape foi para a sala sentar-se perto do fogo. Ao abrir a caixinha, o som da harpa tocada por sua esposa encheu a sala.
A serenidade da música não seria capaz de revelar o poder de Natasha. Desde aquele dia, em Hogwarts, quando acordou para descobrir que o poderoso veneno que tomara não o tinha matado, ele descobriu que não lidava com uma bruxa comum. Mas nunca pensou que o filho deles pudesse ser tão... diferente. Ele lembrava bem o jeito com que Dumbledore observou o recém-nascido, sugerindo o nome, Myrddin, e a proteção mágica, que eles imediatamente aceitaram.
Na pequena caixinha, uma corujinha voava, ou talvez dançasse, ao som da melodia. Snape estava distraído, até que notou que três corujas de verdade estavam voando do lado de fora da janela, tentando desesperadamente captar sua atenção. "Pobres animais", pensou ele. O feitiço que Natasha colocou na casa, para afastar o barulho da rua, funcionava mesmo. Essas corujas, grandes e cinzentas, e quase congeladas, carregavam um pacote que parecia bastante pesado. Snape abriu a janela e as pobres corujonas jogaram de qualquer jeito o pacote no chão, e foram aterrizar perto da lareira, encarando Snape furiosamente.
A grande caixa púrpura estava coberta de neve e tinha um pequeno envelope, totalmente molhado, preso a ela. A nota dentro do envelope, porém, estava perfeitamente seca, e Snape pode ler a mensagem de Pandora McEvers, sua cunhada que vivia na Escócia com o marido. "Senhor e Senhora Snape, aqui vai um presente para vocês. Eu sei que Natasha odeia cozinhar, então pensei que talvez vocês pudessem gostar de receber guloseimas. Um abraço, Pandora." Ao contrário da caixa da mitológica Pandora, essa estava recheada de coisas deliciosas. Um pudim de Natal, peru assado, um enorme bolo de abóbora, muffins, vários tipos de frutas secas e frescas, nozes, amêndoas e avelãs, pão italiano, queijos franceses, três garrafas de vinho e vários pacotes de sementes de abóbora salgadas e tostadas, o snack favorito de Snape.
Ousaria ele interromper o banho sagrado dela e contar sobre o pacote? Sim. Subiu as escadas bem devagar e abriu a porta do banheiro silenciosamente. Lá estava ela, circundada de bolhas de sabão, como uma sereia, e com o rosto afogueado, cor-de-rosa.
- Eu sabia que você viria - disse ela.
- Um pacote chegou, sua irmã mandou.
- Cybele? - a voz dela estava sensualmente morna.
- Não, Pandora.
Ele se aproximou.
- Você está bem? Parece estranha...
- Estou bem.
Ele colocou a mão em sua testa. Ela estava quente demais.
- Tem certeza?
Natasha pegou a mão de Snape e começou a lamber seus dedos.
- Se comporte, guria... - ele disse, sorrindo.
Ela mergulhou a mão dele dentro d'água, rindo baixinho.
- Pare com isso... - disse Snape, já ofegante. - Deixei uma lasanha no forno...
Ela o puxou para si, beijando-o.
-
Deixa queimar...
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Há muito eles não se sentiam assim. A loucura daquela noite tinha
passado e tudo estava normal como antes. Ela se sentia como quando eram amantes,
quando eles se escondiam de todos em Hogwarts, escolhendo os lugares mais estranhos
para se encontrarem. Aqui estavam eles, no dia de Natal, rindo e comendo, coisas
que ela não havia feito com muita freqüência ultimamente.
O resto do dia anterior havia sido somente alegria, ele a ajudou com o bebê
e com a casa, eles cozinharam juntos - outra lasanha vegetariana - ela tocou
harpa enquanto ele cantava canções de Natal. Ao contrário
de Natasha, Snape tinha uma boa voz, era barítono e era afinado. Ela
seria a mulher mais feliz do mundo se não fosse por uma coisa, um pensamento
que ela tentava de todas as maneiras esconder no fundo de sua mente.
Ao lado deles, num carrinho improvisado, estava Myrddin, vestido de laranja (uma veste de bebê do Chudley Cannon - presente de Natal de Rony). O bebê abraçava um dragãozinho de pelúcia que Hagrid havia dado para ele quando ele nasceu, mas apesar do ar feliz ele parecia cansado e prestes a dormir, os olhinhos fechando. Deu à mãe um olhar significativo.
- Quer dormir, né, coisinha? Papai faz muito barulho enquanto come... - ela sorriu para o marido.
- Papai precisa de repouso tanto quanto ele... Mamãe anda insaciável... - ele resmungou.
Ela levantou e pegou o bebê, mas o dragãozinho caiu no chão. No mesmo instante o brinquedo voou para o garoto, que o agarrou com as duas mãos.
- Myrddin!!! - gritou Natasha. - Quantas vezes tenho que dizer para você não fazer isso fora de seu quartinho? - ela tinha uma expressão estranha, uma mistura de raiva e medo.
Olhou para Snape, se sentindo culpada. Ele devolveu o olhar com um sorriso triste.
Enquanto colocava Myrddin em seu berço, ela notou alguma coisa brilhando entre as cobertas do bebê. Era um bolinha de papel, uma nota escrita em um papel brilhante e depois amassada. Ela a abriu e leu: "Olhe em cima do armário". Curiosa, ela subiu na cadeira e colocou sua mão no topo do armário do filho, achando uma bolinha igual. Dentro da nota, as palavras: "Olhe debaixo do tapete de seu quarto". Ela correu para o quarto e levantou o tapete persa onde outra bolinha igual a esperava: "Olhe dentro de sua gaveta". Ela abriu a gaveta e pegou uma pequena caixa com uma notinha presa a ela. Dentro da caixa estava um anel, feito com uma pedra que ela imediatamente reconheceu. O anel ficou perfeito em seu dedo. Ela pegou leu a nota, que dessa vez não estava amassada, e leu: "Meu amor, eu deveria ter-lhe dado um anel de casamento, há um ano atrás. Por favor, não fique zangada, não foi tão caro quanto parece. É um anel especial, tão especial quanto você o é para mim. Eu espero que seja do seu agrado. Feliz Natal, Severo". Natasha estava maravilhada. Um anel arco-íris!!!! Ela sempre quis um, desde que ouvira falar dele, quanto era criança. A pedra multi-colorida não era grande, mas era tão linda... e elas eram tão raras... Onde ele teria encontrado dinheiro para isso?
- É uma pena... Você terá que esperar por um dia de sol para produzir um arco-íris... - ele falou, parado à porta.
Ela olhou para ele, e lágrimas escorriam pelo seu rosto.
- Você é doido...
- Doido por estar ainda loucamente apaixonado por você? Talvez...
Ele se aproximou dela, acariciando suavamente seu rosto molhado.
- Onde você arrumou dinheiro para comprá-lo? - ela perguntou, após beijá-lo.
- Natasha, pare de se preocupar com dinheiro, por favor, não somos assim tão pobres.
Ela o beijou novamente.
- Como você soube que eu sempre quis um anel desses?
- Ciaran me falou...
O rosto de Natasha ficou sério de repente.
- Qual o problema? - perguntou Snape.
Ela falou rápido, com medo de perder a coragem.
- Ciaran... ele... ele descobriu, hã... as peculiariedades do bebê...
- Eu sabia que não podíamos confiar em Cybele - gritou Snape, mais preocupado do que realmente zangado.
- Não... não, eu acho que foi Bress, ele estava brincando com Myrddin... Eles sempre suspeitaram de algo... - os lábios dela tremiam.
- Natasha... mais dia, menos dia, eles iriam descobrir, não fique tão nervosa. Desde que você não saia daqui de casa com o garoto, ninguém mais vai saber. Dumbledore é um bruxo poderoso e você sabe que aqui dentro vocês dois estão a salvo.
- Mas, Ciaran, ele... ele fez uma piada da qual eu não gostei. Me desculpa, Severo. Tenho me sentido sozinha aqui nessa casa, fico imaginando umas coisas, e... exagerando outras.
- O que você quer dizer, o que Ciaran disse?
Ela suspirou.
- Eu contei para ele sobre o conselho de Dumbledore e ele disse que provavelmente ele estava com medo da volta de Voldemort. E... você me contou sobre a marca estar ficando mais clara e... eu comecei a imaginar coisas.
Snape ficou em silêncio. Ela abaixou os olhos.
- Ele ficou me provocando, dizendo que se o Senhor das Trevas estiver ficando realmente mais forte, como dizem os boatos, então eu deveria ter muito cuidado quanto a Myrddin... Ele estava apenas brincando, eu sei, ele nem acredita na volta de Voldemort. Mas eu comecei a pensar sobre isso, Harry Potter e esse torneio fora de propósito... e... o incidente na Copa do Mundo... - mas ela não conseguia mais falar. Algo na expressão de Snape fez seu coração bater mais rápido ainda.
Snape sentou-se na cama, sério.
-
Você sabe... - disse ele, a voz suave um pouco mais arrastada do que o
normal. - Eu acho que Ciaran tem razão. Temos realmente que ter muito,
muito cuidado...
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(to be continued...)
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