HORIZONTE
AZUL
Ana
Claudia dos Santos
CAPÍTULO 3
Dumbledore havia feito um pedido. E antes de tudo ele devia muito ao velho diretor
de Hogwarts. Ele não só havia salvo o rumo de sua vida havia quase
dezoito anos, também fora ele que o alertara sobre a maldição
na família de Natasha. Myrddin e sua mãe não viveriam se
não fosse Dumbledore e sua sagacidade.
Era uma situação arriscada para um homem solteiro e sem família. Para ele então...
A mente de Snape dava voltas, tentando assimilar tudo que ocorrera uma hora antes. Harry Potter, Moody, que não era Moody mas... era demais... Bartô Crouch Junior!!!! O tempo todo ali em Hogwarts. E agora, nesse exato momento, o Senhor das Trevas estava vivo, ressurgido do nada, ou do quase nada.
Voldemort...
Houve uma época, muito tempo atrás, em que ele era o preferido de Lord Voldemort. Ele não tinha conhecimento de até que ponto Quirrell sabia que fora espião de Dumbledore. Mas seu instinto lhe dizia que Quirrell não sabia de nada, que nenhuma revelação a seu respeito fora feita. E Voldemort poderia muito bem ser iludido novamente, ele bem sabia o ponto fraco de seu ex-mestre: uma vaidade e egocentrismo exarcebados. Devia ter sido esse o seu erro agora há pouco, com Harry Potter. Ele tinha que se mostrar, como sempre, para os Comensais. Tinha que mostrar seu poder, vinha daí sua força de persuasão.
Natasha...
Como ela reagiria ao que ele iria lhe contar? Ela já sabia de sua fraqueza, e também da sua coragem em voltar para o lado do bem. Mas agora ela era mais uma vez uma prisioneira, presa a um lar protegido por feitiços, como ela reagiria ao saber que o marido se exporia a um perigo fatal? Sentia pena dela. Passou a maior parte da vida procurando um fim ao mal que atacava sua família, e quando finalmente esse mal cessou, teve que ficar presa a uma criança que precisava ser protegida, a todo custo.
Agora ele entendia o porquê de tanta preocupação por parte de Dumbledore. As paredes têm ouvido. E o que elas ouvem podia facilmente chegar ao conhecimento de Voldemort e seus capangas. Só de pensar no que poderia acontecer com Myrddin já o deixava nauseado. Era melhor mesmo ele tentar voltar, se "reconciliar" com seu antigo Lord, antes que a ofensa de não ter comparecido quando chamado pudesse agravar sua situação. E ainda tinha o problema de Quirrell, o que teria ele revelado a Voldemort, tirando o fato de ter salvo Harry Potter da azaração durante aquele jogo de quadribol? A sorte era que se ele soubesse como fazer, isso seria perfeitamente justificável, assim como as ameaças que ele impusera a Quirrell. Sim, havia uma saída...
Mas e Natasha? E Myrddin? Até que ponto aquela casinha em Leeds era segura? Haveria necessidade realmente de um feitiço Fidelius? Era um feitiço tão complicado, e envolvia tantos riscos, e tudo por causa de um bebê de menos de um ano. Teria que perguntar isso a Dumbledore, dentre várias outras coisas.
E havia ainda o estranho comportamento de Fudge. Qual teria sido sua verdadeira intenção ao provocar o beijo do dementador em Bartô Junior? Uma atitude muito suspeita, segundo ele.
Snape
passou a noite em claro. Não sem antes pegar uma folha de pergaminho
e uma pena, e começar a escrever algumas linhas desesperadas. Não
contava muito, apenas dizia a Natasha o que ocorrera em Hogwarts, no Torneio
Tribuxo. Snape também escreveu sobre se ausentar para uma missão
e que mais tarde contaria o motivo. Terminou a carta com um "aguarde mais
notícias em breve" e um beijo apaixonado.
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O sol estava fraco mas brilhante o suficiente para incomodar seus olhos. Natasha
então moveu a varinha e a agulha passou a bordar sozinha um motivo de
bebê e o nome Myrddin estampado no tecido. As cores não a agradaram,
porém. Franzindo um pouco a testa, para enxergar melhor, ela pronunciou
baixinho: "Brandum" e as cores ficaram mais suaves. Ainda franzindo
a testa, ela levantou os olhos para o céu.
Estranho...
Não só Myrddin havia lhe "avisado" que chegaria uma coruja por esses dias, ela mesma pressentia notícias. Mas a coruja não chegava nunca. O pequerrucho brincava no jardim, rindo à toa, engatinhando e caçando gnomos, que pareciam estranhamente atraídos pelo menino. Aliás, tudo no jardim parecia amar o bebê, até as formigas. Nesse momento, uma borboleta pousara nos cabelos negros de Myrddin, o que lhe dava um aspecto efeminado, pois parecia um laço de fita amarelo e dourado.
A ausência de notícias a preocupava. O Profeta Diário só tinha publicado uma pequena nota sobre o torneio, dois dias atrás, dizendo que Harry Potter tinha vencido. Havia algo de errado ali. Um torneio que antes era tão comentado, e principalmente tendo Potter como vencedor... Era de se esperar que houvesse mais publicidade sobre o assunto. Natasha suspirou. Não agüentava mais esse clima de ansiedade. Não agüentava mais aquela casa que era mais do que uma prisão, era um pesadelo ter como companheiro apenas um bebê, e, ocasionalmente, uma irmã destrambelhada. Sentia falta de Bress, ainda em aulas em Hogwarts, e de Ciaran, que estava no Brasil fazendo pesquisa para o Museu de Criaturas Mágicas.
O bordado terminou e ela resolveu entrar, desistindo de esperar a coruja. Myrddin estava todo elameado. "Limpidus", ela sussurou, enquanto o menino observava sua varinha. Imediatamente ele ficou mais limpinho, o suficiente para não sujar a casa.
- Vamos - disse Natasha. - Talvez seu pai queira se comunicar através da lareira e a gente tem que prepará-la, e você precisa de um banho.
O pequeno parecia agitado, puxava os cabelos da mãe e se debatia murmurando "daga gada da guja".
- Que foi? Amanhã você brinca de novo com os gnomos, coisinha. De agora em diante os dias deverão ser mais quentinhos e ensolarados.
Natasha entrou e colocou o bebê no cercadinho, na sala de estar. Ficou algum tempo olhando o filho, que se acalmara e brincava com uma "goles" e um "pomo de ouro" de brinquedo. Presente da Tia Cybele, claro, que fora apanhadora pela Inglaterra. Tinha sido mesmo uma pena que a mãe adoecesse logo quando Cybele estava indo tão bem no time...
Tentando não lembrar do passado, ela acendeu a lareira, pronunciando algumas palavras rapidamente. O feitiço de proteção precisava de concentração para ser quebrado e ela estava nervosa e agitada demais para dar certo. Tentou mais uma vez, amaldiçoando o dia em que deixou Dumbledore torná-la uma prisioneira em sua própria casa. E daí que Myrddin era diferente? E daí que o garoto tinha poderes inéditos em uma criança tão nova? Havia casos de crianças que nasciam cheias de magia, e mais tarde viravam bruxos ordinários, nem mais nem menos poderosos que os que haviam sido crianças comuns.
Era
inútil. Natasha se jogou na poltrona, exausta. No estado de nervos em
que se encontrava ela nunca iria conseguir quebrar o feitiço. Resolveu
se acalmar e esperar pela coruja. Afinal, Myrddin nunca havia falhado em suas
previsões.
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A lua brilhava lá fora. Dentro do castelo, um lugar sombrio e triste,
ouviu-se passos. Um rapaz se aproximou da cadeira em frente à lareira.
Sentado, estava um senhor magro, muito alto e pálido, de nariz chato
como o de cobras.
- Pronto, meu Lord, aqui está a carta interceptada.
- E a coruja? - perguntou o homem, com uma voz fria.
- Dopada, senhor, mas ainda capaz de levar uma carta amanhã de manhã, o mais tardar.
- Você mandou algo para bloquear o menino?
- Sim, senhor, fiz como o senhor mandou, mestre. Uma inocente borboleta foi o veículo perfeito, autorizada a entrar, por se tratar de animal legítimo não enfeitiçado, ela depositou farelo de casco de centauro bem nos cabelos do bebê, melhor até do que prevíamos. O pequeno bruxo não terá como alertar a mãe antes de pelo menos três banhos.
Os olhos vermelhos de Voldemort brilharam. Fora uma sorte muito grande a idiota da cunhada de Severo estar envolvida com Bryan Atkins, que vinha a ser primo de Mathew Avery. Um leve comentário acerca das proezas do sobrinho de Cybele Rice havia sido o suficiente para ele, Lord Voldemort, descobrir que mais um "escolhido" havia nascido, e, quem diria, era filho de Severo Snape.
- A vida dá muitas voltas mesmo - disse Voldemort, começando a ler a carta, com uma expressão de nojo. Pelo conteúdo não dava para saber como Severo tinha reagido à notícia de sua volta. Estaria ele ainda querendo idolatrar aquele velho gagá do Dumbledore? Teria ficado aterrorizado com a possibilidade de vingança? Ele sabia que seu antigo mestre nunca perdoava os Comensais que não apareciam a um chamado. E sabia de que tipo de castigo poderia ser vítima.
Voldemort amassou a carta, não sem antes enfeitiçá-la. Segurando o pergaminho amassado de um lado, e uma pena de outro, a tinta da carta foi sendo transferida para a pena, que foi ficando toda azulada.
- Ande - ordenou ele. - Comece a escrever o que eu lhe ditar, antes que o feitiço acabe.
O rapaz alto, já com outro pedaço de pergaminho na mão, pegou a pena e se preparou para escrever outra carta, com a letra exatamente igual à de Severo Snape.
-
"Querida Natasha...
(CONTINUA...)
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