Maquiavel e Roberto Campos

Artigo Escrito para a Folha de São Paulo por

ARIANO SUASSUNA

Publicado em 11 de janeiro de 2000

            No campo da política, existem  homens  e  partidos  que  procuram exercitá-la como missão e que se colocam a serviço  daquilo  que, certos ou errados, julgam ser o  bem.  E  existem  outros  que  a praticam somente em busca de poder, do prestígio, da grandeza, do dinheiro ou das vaidades. Os primeiros são chamados "idealistas"; os  outros,  "realistas".  Para  dar   exemplos    nacionais    e internacionais de uns e de outros, digamos que Gandhi  e  Prestes se alinham entre os "idealistas";  Churchill  e  Roberto  Campos, entre os [vivaldinos] "realistas".

            Uma vez meu amigo  José  Paulo  Cavalcanti,  citando  um  jurista italiano, afirmou que o drama do direito vem do fato  de  que  as pessoas que o exercem só são chamadas a atuar no momento em  que, esgotados todos os recursos  da  amizade  e  da  compreensão,  se sublevam,  nos  outros,  as  baixas  paixões,   os    sentimentos inferiores e os turvos interesses que  mancham  e  entristecem  a condição humana.

            De maneira semelhante, pode-se dizer que a política e  as  outras atividades  ligadas  ao  poder  e  ao    Estado    somente    são    indispensáveis por causa do egoísmo, da maldade, dos  choques  de   interesse e de todas as vilezas e baixas paixões que,  dentro  de nós, se misturam àquilo que o homem, graças a Deus, possui também de bom e luminoso. Vem daí aquele caráter ambíguo e  bifronte  da política. E vem daí, também, a  angústia  profunda  que  dilacera qualquer  pessoa  que,  tendo  profundas  preocupações  éticas  e religiosas, possua também a vocação política.

            Maquiavel, patrono de todos os "realistas" do tipo de Churchill e Roberto  Campos,  não  parece  ter  tido   nenhuma    preocupação religiosa. Por isso encarava tranquilamente o exercício do  poder e não se detinha em nenhum tipo de hesitação quando se tratava de alcançá-lo ou conservá-lo. Constatava que  o  ser  humano  é,  ao mesmo tempo, anjo e besta e que "o homem político", em vez de  se preocupar  com  esse  fato,  deveria   tirar    proveito    dele, aproveitando a  dilaceração  entre  o  anjo  e  a  besta  para  a conquista  e  o  exercício  do  poder.  Dizia  textualmente:   "É necessário ao Príncipe saber usar a fera e o homem, porque, sem a natureza dela, a dele não dura".

            Quanto a nós, que não nos conformamos com o que existe de fera no homem, tal posição é inadmissível. Acreditamos  na  possibilidade de elevação do ser humano e no  caminho,  sinuoso  e  lento,  mas constante, através do qual ele caminha em  direção  a  Deus.  Por isso, para nós, a concepção da política, do poder e do Estado  é, e tem que ser,  muito  diferente  daquela  que  movia,  ou  move, pessoas como Maquiavel, Churchill e Roberto Campos.

            Tendo uma visão pessimista  do  homem,  pessoas  como  Maquiavel, Churchill e Roberto Campos (que a Revista Veja, sujíssima em sua defesa da Globalização, se orgulha em ter como um de seus principais articulistas) acham que o melhor é encarar e aceitar tranquilamente  as  desigualdades  e  conquistar  o  poder   para usufruir suas vantagens, sem remorso ou qualquer consideração que leve em conta o sonho de justiça.
 
 

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