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Declarações feitas pelo Almirante Benjamin Sodré sobre sua atuação como membro da CNEC

Texto extraído do livro
A EDUCAÇÃO PELO EXEMPLO,
momentos da vida de Benjamin Sodré

de autoria de Dora Sodré

Papai aproximou-se da Campanha Nacional de Escolas da Comunidade através do general Mário Barreto França, que lhe falara com entusiasmo na grande obra de Felipe Tiago Gomes, seu fundador.

Como o Escotismo, a CNEC passou a fazer parte da vida de meus pais.

Papai dizia convicto: “É a maior obra realizada no Brasil, desde a sua origem. Ampará-la por todos os meios é dever de todos os brasileiros conscientes, principalmente dos que pertencem à elite intelectual”.

Durante as comemorações do 21º aniversário da CNEC no Estado do Rio, depois de ter sido eleito Vice-Presidente, Papai teve oportunidade de conhecer, pessoalmente, Felipe , a quem chamou de grande benemérito da Pátria.

Daí por diante, começaram as viagens, primeiro pelo interior do Estado do Rio e, mais tarde, por todo o imenso Brasil, levando apoio e entusiasmo ao grande trabalho das comunidades.

Mamãe sempre acompanhou Papai em todas as viagens da Campanha. Aliás, isso era o cumprimento de um trato que haviam feito quando Papai se reformou: o de nunca mais se separarem. Eram viagens de intensa programação, muitas vezes percorrendo longos trechos de estradas de terra mal conservadas. Mas, os dois, sempre dispostos e animados, não reclamavam. Muito pelo contrário, encaravam tudo com otimismo e se encantavam com o clima de fraternidade criado pelo ideal cenecista.

O entusiasmo pela CNEC também contagiou a Mamãe de tal forma que, mais tarde, no XVII Congresso Ordinário da CNEC, em Miguel Pereira, ela foi proclamada e aplaudida pelo Congresso como a “Mãe dos alunos cenecistas”, por proposta do Felipe.

Em junho de 1969, numa reunião do Conselho Nacional e Dirigentes, o nome do Papai foi indicado e aprovado para a Presidência da CNEC. Papai tentou excusar-se, declarando que não se considerava com credenciais para cargo tão elevado e que, de todos, tinha sido o último a chegar . Não aceitaram a recusa, dizendo que o Papai era um nome respeitado nacionalmente e que muito benefício traria à Campanha. Papai deixou a decisão em suspenso, dizendo que antes tinha que consultar a sua “consciência”, que era a Mamãe. E acrescentou: “É para mim grande honra presidir a CNEC. Tem muito trabalho, mas muito menos e menos contrariedades de que quando assumi o Grande Oriente do Brasil. E tenho bons companheiros para colaborarem comigo”.

Em um de seus “livrinhos” [Papai costumava anotar todas as fortes impressões de sua vida numa coleção de pequenos cadernos, todos iguais, dos quais tive a honra de ser indicada pela Mamãe , depois da morte do Papai , “a guardiã dos livrinhos”.] ele anotou dias depois: “Saí sentindo o peso de tão grande responsabilidade – presidir a maior obra educacional realizada no Brasil!”

Quanto à Mamãe, naturalmente que o apoiou, mas com a condição de acompanhá-lo sempre, o que para o Papai valia como um prêmio.

No mês seguinte, durante o VII Congresso Ordinário, em Miguel Pereira, Papai foi eleito {com exceção do seu próprio voto que dera a Mário Barreto França, então Presidente da CNEC-RJ }, para o cargo de Presidente Nacional.

Depois de três dias de intensa atividade no Congresso, com reuniões plenárias, exposição das comissões de trabalho, etc., Papai marca para o dia seguinte a primeira reunião, sob sua chefia, com os Presidentes Estaduais e Administradores, a fim de ouvir suas idéias e dificuldades regionais.

Poucos dias depois realizou-se a primeira reunião formal da Diretoria. Assumiu a direção numa fase extremamente difícil, em que alguns elementos de peso da Campanha estavam na pauta do S. I. do MEC. Papai corajosamente assumiu a responsabilidade dos companheiros de ideal e saiu vitorioso.

O Brasil vivia, naquela época, uma fase muito conturbada, com o controle do poder pelos militares. Uma de suas primeiras providências como Presidente da CNEC foi marcar uma entrevista com o Ministro do Trabalho, Jarbas Passarinho, para pedir-lhe apoio para o trabalho da Campanha. Durante essa entrevista que Papai classificou de ótima, o Ministro lembrou emocionado que, quando escoteiro, em Belém {1934}, o seu Grupo teve a honra de receber a visita do Velho Lobo.

Papai trabalhou muito; sempre com seu vibrante entusiasmo, apaziguando, estimulando, procurando interessar novos elementos para aderir à Campanha, fazendo palestras, dando entrevistas; enfim mergulhou de corpo e alma na grande obra do Felipe.

Felipe Tiago Gomes e demais elementos da CNEC sentiam, agradecidos, o apoio e a força que Papai trouxera para a Campanha. Certo dia disse à Mamãe que comparava a atuação do Papai e da Mamãe na Campanha: “às chuvas que caem no nordeste após o sofrimento imposto pela seca inclemente; então tudo reverdece, tudo fica suave .” Tal comparação, partindo de um nordestino que sofreu algumas vezes o flagelo das secas tem muita expressão.

Em julho de 1973, foi realizado em Brasília, o XIX Congresso Nacional da CNEC. A Campanha estava comemorando o seu 30º aniversário,{com a presença de todos os fundadores, além de vários Ministros de Estado, ex-alunos da CNEC}, com a transferência da sede nacional para Brasília e grandes alterações nos Estatutos. Foi eleita nova Diretoria , ficando o Papai como Presidente do Conselho Nacional, e o Ministro Alcides Carneiro, grande tribuno, como Presidente da Diretoria.

Por proposta do Dr. Tobias Machado, da CNEC-RJ, e aclamação geral, foi dado à nova sede nacional o nome de Casa Benjamin Sodré, cuja inauguração se deu em maio do ano seguinte, sob clima de muita emoção.

Ao agradecer as homenagens Papai protestou que a casa tivesse o seu nome, acentuando que devia chamar-se Felipe Tiago Gomes, pois Felipe dedicava-se exclusivamente à CNEC, como um sacerdócio, e continuou exaltando a dedicação extraordinária do Felipe para com a sua grande obra.

A inauguração da sede constituiu-se num grande acontecimento cívico . As Bandeiras Nacional, do Distrito Federal e da CNEC foram içadas respectivamente pelo Vice-Presidente da República, pelo Presidente do Senado e pelo Papai. Logo após foi descoberta a bela placa de bronze, com a inscrição Casa Benjamin Sodré, também pelo Vice-Presidente, General Adalberto Pereira dos Santos.

Em julho de 1975, já com 83 anos, Papai recebeu da CNEC uma homenagem que o tocou fundo: foi a proposta de outorga do título de “Presidente Perpétuo do Conselho Nacional da CNEC”, feita durante a sessão de encerramento do XXI Congresso Nacional, tendo sido aprovada por unanimidade.

E, até os últimos dias de sua vida, Papai continuou fazendo tudo que estava a seu alcance por esta grande obra de Felipe Tiago Gomes.


Dora Sodré
Socióloga, Fundadora do Movimento
Bandeirante em Santa Catarina e filha
do Almirante Benjamin Sodré.

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