A Lawrence Durrel e a Alexandria

 

Auto-Retrato e Caracois á Solta  

 

(para o Herberto Helder)


Os tempos estão definitivamente
difíceis,
Lawrence a Lawrence
todos os poetas desaparecem
na curvatura
de um circulo de mortes
e como se fossem de pó
desaparecem,
ora montados em motocicletas 
puros arcanjos
ora levantados as nuvens 
em ondas cor de rosa
onde os cigarros voam.
Perdidas pelo espaço
pedra a pedra,
todas as casas poéticas caem
cortadas pelo meio
onde empreiteiros
de visões com cifrões espreitam,
e em lugar das palavras
onde habitavam gnomos,
jovens casais promitentes
prometer-se-ão acordos mútuos
em notas de credito 
onde não conseguira subsistir 
a musica
e longínquos, os poetas,
aqueles que Lawrence a Lawrence
escolheram aquelas estradas 
de onde nem sempre se volta
hão-de acenar com as mãos 
sagradas
pela queimadura genuína das letras
e ficarão para nos,
( esta geração de habitantes 
de centros comerciais
e de pequenas lojas de " fait divers ")
como Deus ficou
para Moisés, Sarças ardentes, Puríssimas
chamas de fogo
Altíssimas labaredas de espirito
A indicar-nos caminhos
Que não mais veremos
Perdidos como estamos
Na mudança de tempos,
E as 
Teias de aranha,
Os grafitis que cercam 
Os muros da tua casa
Como serpentes verdes, enrolam-se
Nas paredes como plantas 
Que fossem outrora vivas
E a tua casa
Onde todos os silêncios remexem,
Sussurra
Como se uma nota ainda 
De cor
A inspirasse
E as tuas palavras
Habitassem ainda
A sua cercadura de névoa,
Porem , ao cume do entardecer
Contempla-a a morte
E o norte desfaz-se
De encontro as paredes altas de uma montanha
Onde detritos enormes
Apagam os doces 
Perfumes subtis do Mareotis
-em certas partes do mundo,
a vida conduz-nos sempre a morte, -
quanto ao teu nome, meu amigo
foi a única coisa varrida 
daquele canto onde
Lawrence a Lawrence 
Desaparecem a pouco e pouco
Os poetas
Montados nas suas melancólicas
Motocicletas
De luz

E no Tejo viaja-se de barco
Como suponho, se viaja ainda 
De barco no Mareotis,
As pessoas passeiam-se a beira do rio
Exactamente
Como se passeiam lá,
E também como na Baixa, onde a luz 
Se mistura com a agua
Existem poetas que murmuram
Palavras encantadas
Na esperança do tal milagre
Da transmutação dos metais em ouro,
Existem poetas em todas as cidades
Existem poetas cristãos 
E poetas árabes
E ate mesmo para espanto
De certas criaturas
Poetas negros e judeus,
Porque a poesia e contra todos
E não tem cores especiais
Como dizia o outro,
E ali, no Tejo, ao porto
Como lá, no tal Mareotis
Onde a luz toca nas areias
Para lhes dar os brilhos diamantinos,
Existem os tais seres
Que como os meninos
Brincam e jogam
eu juro ! -
com as palavras que dão a 
cor a toda a realidade,

...se o Pessoa e o Cesario 
se tivessem encontrado com o Kavafis
que tal não teria sido 
o jogo a bola
com as palavras a saltitarem
de cabeça para cabeça
ate ao extraordinário golo vaporoso
nas redes de Deus...

e lá,
naquela que e para mim
a longínqua Alexandria
ali, naquela que e hoje para mim
a tão longínqua Lisboa,
a beira 
dos seus rios
posso imagina-los, aos poetas
a passearam devagar pelas ruelas
iluminadas pelo som regular
do que sonham
e consola-me neste isolamento 
o poder de imaginar
que neste mesmo instante
se viaja de barco no Tejo
como imagino
se viaja de barco no Mareotis que,
Lawrence a Lawrence
Apesar destes modernos tempos 
Da reanimação da construção civil
Ficara
Apesar de tudo
A Presença Real da tua vida
Nos livros 
Que escreveste,
Para dizer adeus.


Lagos, 25-3-2002

 

 


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