Ética e Cidadania |
Crimes
Um outro padrão criminal que marcou com rios de sangue o século XX foi o desencadeado pelo chamado crime organizado. A mais tristemente famosa das organizações criminosas do nosso tempo é, sem dúvida, a Máfia italiana. Juntamente com seu ramo norte-americano, a "Cosa Nostra", essa organização possui entre três e cinco mil membros, divididos em 25 "famílias". Seus negócios incluem: jogos de azar, extorsão, fumo, bebidas ilegais, seqüestros, narcóticos, ágio e prostituição. Estima-se que essas atividades movimentem um volume anual de 200 bilhões de dólares, com um lucro de 75 bilhões de dólares. A operação anti-corrupção denominada "mãos limpas", desencadeada pela Justiça italiana, trouxe à tona inúmeros casos de envolvimento de políticos com a Máfia. Em seu livro A Máfia Globalizada, Claire Sterling informa que a organização criminosa comprou a ilha de Aruba, no Caribe, com o dinheiro da venda de drogas. Ainda maior que a Máfia italiana é a Yakuza japonesa. Alguns criminologistas estimam que a renda anual da organização seja de 22 bilhões de dólares. Em 1984 essa organização tinha precisos 98.771 membros em seus "quadros", divididos entre as seguintes ocupações oficiais: jogadores, bandidos, quadrilheiros de portos, chantagistas de empresas, extorsionários de jornais, quadrilheiros de prostituição. Os membros da Yakuza cortam as pontas dos dedos mínimos, oferecendo-as cerimoniosamente ao chefe da respectiva quadrilha (padrinho), como demonstração de devoção. Também aplicam no corpo complicadas tatuagens, através de dolorosas picadas feitas com lasca de bambu, para "provar sua masculinidade e o orgulho pela quadrilha." A Yakuza realiza suas atividades abertamente, chegando mesmo a veicular anúncios a procura de recrutas. Em 1982, o Departamento de Polícia Nacional do Japão divulgou que nada menos que 24.162 empresas tinham sua administração influenciada pela organização criminosa. Em 1984, pelo menos 148 prefeituras no país estavam sob a influência da Yakuza. Uma das publicações mensais da Yakuza, enviada a todos os membros, traz uma seção de "aula jurídica", com conselhos sobre assuntos pertinentes à lei, além de páginas de poesia e ritos de iniciação. Na China, o crime organizado é dividido em sindicatos, chamados tríades. Suas principais bases de operação estão em Hong Kong, Taiwan e Tailândia. Em Taiwan, a principal tríade tem um número de membros estimados entre 15 mil e 40 mil, ostentando o pitoresco nome de "Quadrilha do Bambu Unido". Hoje em dia, porém, as tríades já se espalharam por todo o mundo, num total de mais de 250 mil membros. Especialistas criminais consideram que as tríades constituam atualmente a mais importante força isolada do crime organizado internacional. Na Rússia, os grupos que dirigem o crime organizado são chamados de "máfias", as máfias russas. De acordo com uma matéria veiculada em março de 1997 pela publicação Transition, editada pelo Banco Mundial, essas máfias já controlavam cerca de 40% da economia do país. Segundo o The Washington Post, as máfias russas estavam formando alianças com os cartéis colombianos de drogas, e já haviam encetado negociações para a venda de um submarino, helicópteros e mísseis terra-ar. Em abril de 1998, o FBI informou que 300 das 6 mil quadrilhas russas já tinham ramificações internacionais. Naquela época suspeitava-se que pelo menos 60% do sistema bancário russo era controlado pelas máfias. As organizações mencionadas acima são as maiores, mas existem várias outras espalhadas pelo mundo. No total, acredita-se o crime organizado mundial possua mais de 20 milhões de filiados, com um faturamento anual de cerca de 750 bilhões de dólares (estimativa de 1996). Só a indústria do seqüestro na Colômbia, país responsável por metade de todos os raptos que ocorrem no mundo, faturou cerca de 530 milhões de dólares em 1995, com o resgate pago por pouco mais de mil reféns. Em 1997, uma surpresa: o Banco Mundial informava que o oitavo PIB do mundo, da ordem de um trilhão de dólares, prestes já a tomar o lugar do Canadá no G-7, era gerado pelo crime organizado! De acordo com o comentarista econômico Joelmir Beting, o relatório do Banco Mundial inaugurou para a literatura econômica a expressão "Produto Criminoso Bruto" (PCB). Segundo ainda o informe, essa economia criminosa cresce a uma taxa de 7% ao ano, ou seja, dobra de tamanho a cada dez anos... Já há algum tempo, a ONU vem promovendo conferências de cúpula sobre o crime organizado. Uma delas denominava-se "Globalização, (Des)ordem Internacional Emergente e Megacidades". De acordo com a Divisão de Prevenção do Crime e de Justiça Criminal da ONU, para evitar a globalização do crime organizado as grandes cidades devem "readequar a segurança pública aos novos tempos, que chegam com o final do século do crime" [grifo meu]. Essa Divisão da ONU patrocina também um projeto chamado "Segurança nas Megacidades". O diretor deste projeto declarou recentemente que "neste final de século as grandes cidades vão ser o centro de uma guerra social global " Há ainda um outro tipo de crime, muito pouco considerado mas cujo retorno cármico é incisivo para quem o comete. São os crimes contra a natureza. As agressões à natureza são atos criminosos gravíssimos, e como tais formam-se também os efeitos retroativos. Esses pesados e implacáveis efeitos retroativos atingem cada um que contribuiu para a efetivação do ato criminoso, independentemente se tal ato é rejeitado pela sociedade ou por ela incentivado. Poluição do ar, das águas e da terra, experiências médicas com animais ou maus tratos infligidos a eles, caça por prazer, transplantes. Do ponto de vista das Leis naturais, tais crimes são considerados hediondos, e por essa razão os efeitos recíprocos de retorno aos criminosos são também especialmente rigorosos. Ou alguém imagina que furar os olhos de um pássaro, como o mutum preto, para que ele cante melhor na gaiola, é algo que pode ficar impune? Ou então torturar prazerosamente animais indefesos como se faz na tourada espanhola e na "farra do boi" brasileira? Ou ainda carregar um burrinho com cargas explosivas e fazê-lo rebentar por controle remoto junto a um posto de polícia, como fizeram inovadores terroristas colombianos? Para os criminosos contra a natureza não existe mais nenhuma possibilidade de salvação. O tráfico de animais silvestres é um dos maiores negócios ilegais do mundo. Movimenta anualmente cerca de dez bilhões de dólares, só perdendo para os tráficos de drogas e de armas. Em alguns mercados do Brasil são vendidas partes de animais silvestres como qualquer outra mercadoria. É possível adquirir olhos e dentes de boto, patinhas de macaco e de preguiça, cabeças de jibóias recém-nascidas e uirapurus esturricados, que, dizem, teria funções curativas e afrodisíacas. Nessas feiras, os olhos dos melros são cegados com pontas de cigarro; os macacos são girados pelos rabos antes de serem expostos à venda, para que fiquem tontos e pareçam dóceis aos compradores; caçadores quebram o peito de algumas aves, esmagando-lhes o externo com o polegar, para que morram alguns dias depois da venda e o comprador encomende mais |