O Senhor é um guerreiro em luta. A Sua luta
chama-se ascensão da vida, ascensão da consciência. Ele luta para transformar barro em
carne, carne em sangue e sangue em espírito. As criaturas são os frutos dessa luta.
Barro e carne e sangue e espírito.37/1
O Senhor as retirou do seio da terra (que é a
porta do caos) e lhes soprou o hálito do espírito. Esse hálito é fogo. O Senhor lhes
deu a vida e as criaturas seguem-no montanha acima, na escalada da grande montanha do
mundo. Algumas seguem-no com confiança e coragem, outras com receio e cobardia. O Senhor
toma-as a ambas e acolhe-as; às primeiras com a Sua mão direita, às segundas com a Sua
mão esquerda.37/2
A grande montanha do mundo tem as dimensões do
infinito. Começa no caos e termina na eternidade. E entre o caos e a eternidade, como uma
ponte, está o Senhor, que é, a um só tempo, criador e criatura, matéria e
transcendência da matéria, luz e escuridão.37/3
Ele está no meio, para que as criaturas possam
ir de um extremo ao outro, sem se perderem. Ele é o guia e o farol na noite escura. É
também aquele que abre e encerra os ciclos da manifestação.
E o homem olha para Ele e vê uma luz imensa, que
cobre tudo. Ou uma coluna de fogo que rompe o mundo de pólo a pólo. Ou um Ser que é a
soma de todas as coisas.37/4
Criador e criatura: os dois extremos que se
tocam. Por isso, o Senhor lança a Sua mão sobre o homem, para o proteger e conduzir na
senda. E o homem lança os seus olhos sobre o ideal que o divino é, na tentativa de
chegar mais perto da fonte.37/5
Duas coisas numa só, pois não há separação
entre o Senhor e os Seus filhos, como não a há entre o fogo que arde na montanha e
aquele que se espalhou pela planície.37/6
O fogo do Senhor é a essência de que todos os
outros são a imanência. E o homem, que o traz dentro de si, olha-se e revê-se na
imensidão.37/7
É essa a semente que Deus lança no seio da
criatura e é por ela que Ele luta e lutará sempre. Pois a menos que o Senhor e o Homem
vençam a luta, a criação perder-se-á no caos e a chama será tomada e invertida pelos
Senhores da Escuridão.37/8
Uma pequena chama, eis a semente. E, para a
proteger, tudo tem de ser feito. Do lado do Senhor e do lado do Homem, pois só há uma
perda irremediável: a da chama no homem.37/9
É por isso que o Senhor só descansa quando
eleva o homem até si e o faz subir a montanha do mundo e lhe dá as chaves do Seu
ministério divino, lá no templo que é a Sua essência.37/10
A partir de então, unidos em consciência e
razão, o homem transforma-se numa das armas do Senhor: Espada ou Cálice ou Livro ou
Vara: ou tudo isto, que é o Graal.37/11
Sacerdote do Altíssimo ou guerreiro Seu ou servo
Seu, ele é, definitivamente , a Sua Vontade ou a Sua Palavra ou a Sua Luta.37/12
O Senhor é um guerreiro destemido. De mãos
nuas, Ele enfrenta o inimigo. Esse inimigo chama-se cobardia e inconsciência: as duas
armas do caos.37/13
E em cada dia que passa o caos cresce no
coração do homem e à sua volta, pois o homem semeia o caos como semeia a luz, na mesma
inconsciência de tudo.37/14
O Senhor, sempre atento, só espera um sinal do
homem. Então, quando o homem entende o que é e cresce sobre a destruição, o Senhor
aparece-lhe na totalidade e ilumina-o e o caos é vencido e a destruição recua.37/15
Mas poucos são os homens que transcendem a
força inversa e que se colocam ao lado do Senhor.37/16
É por isso que a escuridão sela o fim dos
mundos com a carne transformada em lama, pois que o homem ama, mas não entende a luz e o
Senhor é apenas um ideal nele.37/17
Em cada ciclo o Senhor reúne os Seus servos e os
Seus guerreiros e os Seus sacerdotes e envia-os ao mundo com uma única missão:
encaminhar e conduzir o homem na sua escalada da montanha sagrada.37/18
E os Seus emissários nascem no meio dos homens,
feitos de carne e de sangue. E alguns cumprem a sua missão e outros esquecem-na, pois os
Senhores das Trevas lançam-lhes armadilhas de ideais impossíveis e outras quimeras.37/19
E o Senhor, que tudo vigia e vê, afasta os Seus
olhos e deixa-os ir, pois o Senhor só ama aquele que é um só com Ele e que tem Nele a
sua verdade, a sua meta e a sua lei. E só este pode ser salvo.37/20
É por isso que está escrito que nos últimos
dias haverá falsos profetas e que eles serão seguidos por muitos e esses estarão
perdidos. E também haverá bons profetas, que não farão prodígios nem tecerão
ilusões, mas antes lançarão a serenidade e a complacência no coração do homem. E
estes terão poucos seguidores, pois só uma parte em nove será salva e verá o Senhor
face a face.37/21
Lutar ao lado do Senhor, eis a suprema ascese.
Celebrar a Sua eucaristia, abrindo as portas do novo ciclo, eis o grande sacerdócio.
Servir humildemente no Seu templo (que é o mundo) e estar atento à Sua chamada, eis a
única realidade. Desbravar os Seus caminhos e lançar a Sua semente em terras incultas,
unindo os homens num elo de fogo e sangue, eis a grande profecia.37/22
É isto que o Senhor concede àqueles que O
servem na rectidão, na justiça e no amor. E tendo tudo isto por seu, que mais há-de
querer o homem?37/23
O Senhor lançou o Seu apelo e muitos acorreram
para O servir. Este apelo tem nome de livro e nele está a vida e na vida está a palavra
e na palavra está o Senhor.37/24
Muitos vieram ao apelo do Senhor, muitos outros
virão ainda. E dos céus e da terra virão aqueles que vão lutar a última batalha deste
ciclo. Estes juntam-se no extremo da terra, às margens do mar sem fim.37/25
Aí, na montanha sagrada, se juntarão todos e
formarão um só espírito. E esse espírito irá perante o Senhor como um homem e o
Senhor o tomará para si e entrará na sua carne e fará dele o Seu templo vivo e nele
habitará até que a batalha termine.37/26
Assim o Senhor lutará ao lado do homem, tendo o
homem consigo. E todos verão a grande maravilha: a de haver um homem que é o Senhor
vivo. Isto acontecerá nos últimos dias e depois tudo será renovado.37/27
XXXVIII
Nas entranhas do mundo existe uma caverna oculta:
é lá que dorme a Senhora. À porta da caverna, guardando-a, apenas uma serpente de fogo.
Invisível para quem olha com os olhos da carne, torna-se viva para quem lá vai pelo
espírito.38/1
Esse, se for digno, poderá ir até ao altar da
Mãe e orar pela salvação do mundo e dos seres que o habitam. E se for mais digno ainda,
poderá a Senhora aparecer-lhe em sonhos ou, como uma sombra, junto ao altar na caverna
sombria.38/2
Então lhe dirá os passos a dar para que de
neófito passe a discípulo e de servo passe a senhor e de adormecido ascenda a acordado.
Pois o caminho da Senhora é igual ao da Serpente que se há-de transformar em Dragão, e
esse caminho Ela o ensina aos que ama e sobre os quais tem intenções.38/3
Nessa caverna tudo é símbolo que o neófito
terá de penetrar.38/4
Começando pela porta que é de pedra mas não
existe ou é sombra apenas ou véu. E na serpente que, dormindo está acordada, formando
sobre o solo do umbral as linhas com que o mundo foi criado e existe. E no longo corredor,
negro e frio, que vai da entrada à Câmara Oculta; corredor que é grande ou pequeno
consoante aquele que lá vai e o objectivo que o traz ali. E, chegado à câmara do meio,
o poço que desemboca no nada ou, para quem o passar, o túmulo que espera e dá a morte
ou a vida. E só quem tiver vencido esta verá então abrir-se o véu que vela o mistério
derradeiro: o da Mãe que dorme e vela, ao mesmo tempo. E ainda a câmara interna, onde a
Senhora vai em cada ciclo, para o abrir e fechar. Câmara onde ardem, sobre um altar de
pedra negra, as chamas que são eternidade e momento, e onde, para aquele que chegou à
visão da Senhora e lhe descerrou o véu, que é o da verdade e da ilusão, aguarda o
sacrifício sobre o altar. Pois há-de morrer na Mãe para nascer nos Seus filhos.38/5
Tudo isto existe e está presente na caverna mais
oculta do mundo. Que aquele que puder entender, entenda e silencie.38/6
Breve é o destino daqueles que a Senhora toma
das sombras e que beija na testa, para os trazer à realidade e a quem desvela a Sua face,
que é de prata e de luz.38/7
Breve é o destino daqueles que Ela ama e quer
para si, pois nesses semeia uma luz muito fria e diáfana, quase de gelo, que os torna
irreais na sua realidade e imateriais na sua materialidade, que é a do sonho e daquilo
que não é carne mas luz.38/8
Esse é o presente da Senhora a todos quantos
ama. E eles o recebem e se transformam em guardiães dessa caverna que não vem nos mapas
nem tem localização visível.38/9
Sombras das sombras, sem eco excepto no infinito.
E a Senhora as acolhe no Seu seio e lhes coloca os Seus véus sobre o rosto e as faz
servas Suas e as manda para o meio dos homens, como sinais Seus.38/10
E elas tomam lugar nos altares dos templos dos
homens e se fazem símbolos dos seus cultos, ora animando as estátuas ora animando os
profetas e os sacerdotes e todos aqueles que servem os deuses, servindo a Senhora.38/11
Assim a Mãe mantém a Sua ligação com os
homens e entre estes também, pois a todos Ela ama de igual modo e a todos quer para
si.38/12
Dois ministérios há no mundo: o do Pai e o da
Mãe. Dois ministérios que são só um para aquele que, tendo vivido um deles até à
consumação viveu, sem disso dar conta, aquele que lhe é oposto na aparência.38/13
Dois caminhos que se unem no coração do homem:
aquele que vem do ventre (o da Mãe) e aquele que vem da mente (o do Pai). Dois caminhos,
mas uma só verdade: a da Humanidade.38/14
E o homem vive-o realizando o Ser: procriando
corpos de carne em casamento alquímico com a Senhora e Suas filhas, ou procriando corpos
de alma e espírito em relação profunda com o Senhor. Até que, esgotada toda a
necessidade da carne e do espírito e silenciadas as vozes da dúvida e da esperança,
cada homem se assuma na cruz que foi a do Cristo.38/15
Sobre a montanha sagrada (no ventre da qual dorme
a Senhora na Sua caverna oculta), junto ao seu cimo onde está, invisível mas presente o
templo do Senhor dos mundos, aí agoniza e vê aquele que já não é carne nem só
espírito. Pregado no símbolo do mundo, junção exacta dos dois poderes que o organizam
e fazem viver, ele testemunha o mistério fundamental. Ele vê e sabe, face a face. O
Eterno ele vê e vive.38/16
Que mostra ele ao mundo? Três símbolos que são
imagem do Graal: a montanha sagrada, a cruz e ele próprio. Ferido onde o espírito corre,
o seu sangue se derrama direito ao cálice que é o ventre da própria Mãe. Assim ele
fecunda a terra e se une a ela, procriando a renovação das eras e vitalizando os seres.
Assim ele alcança a eternidade e se une, para sempre, Àqueles que lhe deram o Ser,
assumindo-se como Filho de ambos e realizando o último vértice do triangulo. Eis porque
o Cristo é sempre o mesmo e distinto e todas as eras têm o seu Cristo. Assim será
sempre enquanto houver homem.38/17
XXXIX
Há sete nações sagradas. Em cada uma, um altar
está erguido em memória e louvor do Senhor, para que os Seus sacerdotes oficiem segundo
os ciclos do tempo e das necessidades dos homens.39/1
No altar se sacrificam as nações e os filhos
das nações que o Senhor escolheu. E as ilusões e vaidades das nações também. Pois o
Senhor só ama a transparência e a rectidão e aqueles que O servem na transparência e
na rectidão.39/2
Assim Ele sacrifica nos Seus altares tudo quanto
é menor ou mais humano, até que só reste a luz e a eternidade da luz.39/3
O mundo é um templo de luz e de escuridão. Luz,
quando o Senhor está presente; escuridão, quando Ele está ausente, ou adormecido. E
quando o Senhor adormece, a Sua sombra acorda e toma o mundo para si. E o mundo adora a
sombra, julgando adorar a luz e mergulha na sombra e toma-a para si e penetra no abismo e
naqueles que o habitam. E em tudo isto julga servir o Senhor, pois a luz cega o homem e
não o deixa ver mais do que a sombra.39/4
É por isso que o Senhor só ama aqueles que
ascendem até si e que, por O amarem, se deixem devorar pela Sua luz, até que a sombra
não tenha poder neles. E só esses podem distinguir entre a falsa luz e a luz verdadeira;
a luz, que dá a vida e a sua sombra, que dá a morte, ou a ela conduz.39/5
O Senhor abre e fecha os ciclos. Abre-os
empunhando a espada de luz e cortando a cortina da sombra que cobre o mundo. E a sombra é
afastada e o sol (que é o rosto visível do Senhor) brilha sobre o homem e sobre a sua
obra. E fecha-o erguendo o cálice do sacrifício e recebendo nele o sangue dos homens e
de todas as criaturas vivas. E o cálice é posto sobre o altar do mundo, entre o Sol e a
Lua, e um dragão e uma serpente ficam lá para o guardarem. E o Senhor retira-se dali
para que a sombra possa reinar. E é assim até que um novo ciclo nasça das brumas da
memória do Senhor e Ele o queira e o ordene e o faça.39/6
Sete nações o Senhor escolheu para Seu altar
entre os homens. Sete nações que Ele percorre em cada ciclo. E o Senhor vai perante cada
uma e nela ora e silencia.39/7
E a alma dessa nação é erguida sobre ela e vai
perante o Senhor para dele receber a semente da sua geração. E o Senhor a coloca no seu
ventre para que ela procrie.39/8
Assim nascem os filhos de uma nação e se
renovam na carne e no espírito. E o Senhor toma alguns desses e lhes coloca um sinal
sobre a face. E a esses Ele toma para si, para que O sirvam, servindo a nação.39/9
São esses os heróis e aqueles que ficam na
memória do povo e aqueles outros que servem o altar da nação. Esses são os escolhidos
e sobre esses a treva não tem poder.39/10
Sete nações o Senhor escolheu. E cada nação
é um dom do Senhor e uma face Sua e uma ilusão que Ele lança aos pés dos homens. Pois
há um Senhor e um mundo. E entre o Senhor e o Seu mundo há aqueles que O servem,
servindo a Sua Obra. E as duas coisas são uma só para aquele que sabe e vive a Obra, mas
não o são para aquele que a não vive nem sabe que a Obra existe.39/11
Eis porque o Senhor confunde os fracos nas suas
ilusões. E dá a morte àqueles que O procuram no ódio e na descrença e no temor. E
fulmina e cega aqueles que amam pouco a luz e a quem a luz não ama.39/12
Todos esses o Senhor afasta de si, os lança na
sombra da ilusão e as trevas os tomam. E assim ficarão enquanto o amor ao mundo for
maior que o amor Aquele que criou o mundo, e o amor à Obra impedir a visão do Espírito
da Obra.39/13
Quando o Senhor se ergue sobre o mundo para abrir
e fechar os ciclos da criação, as sete nações estão com Ele.39/14
Perante o altar, o Senhor ergue a espada, ou o
cálice e as almas das nações ajoelhem. As almas das nações são os Seus mensageiros,
são aqueles que vão diante dele, de mundo em mundo, anunciar aos homens o começo e o
fim das coisas.39/15
E, quando as nações estão realizadas, o Senhor
as toma e as recebe em si e elas habitam nele. Assim o Senhor tem sobre o Seu peito sete
pedras de raro brilho: são as pedras das nações e são as jóias da Sua coroa.39/16
Assim as nações estão no Senhor e o Senhor as
traz consigo, como um sinal e uma bênção. E quando o Senhor se retira da face da
realidade e encerra os grandes ciclos e devolve os mundos ao caos, as Suas nações estão
presentes e não conhecem a noite nem a dissolução, antes vigiam e oram com Ele, até
que tudo seja retomado.39/17
Sete nações habitam no Senhor. Sete grandes
espíritos estão perante o Seu trono. Eles são os Dragões, eles são as Serpentes, eles
são os Mestres.39/18
E o Senhor ergue a face e ela resplandece sobre
os mundos, branca de tanta luz. E os sete Dragões colocam-se ao lado do Senhor, em redor
dele, e tomam para si essa luz e a transformam em sete raios que são sete poderes e sete
cores, e o mundo realiza-se.39/19
Estes são os que guardam o Graal. São aqueles
que têm os símbolos.39/20
Um trono e um Senhor, eis toda a verdade. E sobre
o Seu corpo um mapa imenso que reproduz e é os sete planetas sagrados e os sete Dragões
de fogo, que guardam e são as sete entradas do mundo. Eles são as portas do Senhor e em
cada porta uma jóia refulge, única no seu brilho. Estes são também as sete almas das
nações, aquelas que o Senhor ama e quer.39/21
E o Senhor ergue-se, imenso e majestoso, e os
sete Dragões erguem-se com Ele em redor e formam uma parede de fogo. E a parede toma a
aparência de um ovo e fecha-se sobre si e o Senhor ora no seu exacto centro e espera
silencioso.39/22
Sete Dragões e um Senhor dos Dragões. Sete
raios de luz e um Senhor da luz. Sete nações e um Senhor do mundo. Tudo é realidade e
ilusão.39/23
O Senhor é o supremo mestre. Ele cria e recria
sem cessar. Nas Suas mãos erguidas o cálice da última ceia está pronto. Os Mestres
reverenciam e esperam. Então nas entranhas do Senhor, um rumor cresce. Primeiro um
murmúrio, depois um grito se ouve: é a Palavra que soa. Os mundos estremecem. O ovo de
fogo rasga-se. Os sete Mestres ajoelham e tremem. O som soa sem pausas. Atravessa os
mundos, toca em tudo, penetra em tudo. De repente cala-se.39/24
Os Mestres erguem-se e partem a realizar a
Demanda. O Senhor fica estático e sereno. Ele olha e vê. Suspenso entre os mundos, Ele
ergue um cálice. Algures para lá da realidade algo lhe responde. O cálice enche-se,
gota a gota.39/25
XL
No centro do mundo, a Mãe
está sentada no Seu trono de ouro e marfim. Em redor dela, assinalando as quatro
direcções do espaço, quatro Senhores A reverenciam. Aos pés da Mãe, uma taça espera:
a taça é a Senhora.40/1
A Mãe é o sangue da terra: sangue que a taça
guarda. Quando os ciclos começam, a taça é erguida e a Senhora renasce das cinzas e
procria o mundo e os seres que o habitam. Quando os ciclos terminam, a taça é erguida
novamente e recebe a Senhora e todos aqueles que Ela procriou, não em carne mas em
espírito. E o espírito da terra fica depositado na taça.40/2
Então os quatro Senhores selam a taça e a
depositam no trono vazio. E depois se recolhem, cada um em sua gruta, nas quatro entradas
do centro do mundo, e aí ficam até que novo ciclo os chame: quando o Senhor, do alto do
firmamento, faz soar a trompa da criação e a Palavra ressoa abrindo a cortina das
sombras. Tal é o rito dos quatro Senhores.40/3
Eles velam pelo mundo e pela Senhora. Entre si,
eles são a base e fundamento de todas as coisas. Quatro Senhores que são um só quando
se unem para abrir a Porta dos Ciclos.40/4
Então se colocam na cruz e cada um nos braços
dela, e, chamando a si a sua força, nela se transformam. Cada força fluí para o centro
da cruz e o vitaliza. E as quatro forças se unem como se formassem um turbilhão entre si
e sobre um eixo vazio rodam e, desse movimento ascendente e descendente, nasce a rosa de
mil pétalas, a rosa de ouro que é o Cristo renascido.40/5
Isto os quatro Senhores fazem, por amor ao mundo
e por obediência à Palavra. E a Senhora acorda do Seu sono cíclico e senta-se no Seu
trono de ouro e marfim e bebe o sangue da taça e procria os filhos da terra. E o Senhor
vê tudo isto e silencia.40/6
Então a rosa brilha por si, com o fulgor de mil
sóis juntos e a Senhora a toma nas mãos e a ergue ao Pai, no firmamento, e Ele a
abençoa e lhe confere o dom da perpetuação da vida.40/7
E para a guardar da vã cobiça dos homens e dos
demónios que a querem aprisionar no abismo, Ele nomeia doze Senhores de Luz e lhes dá
por missão a sua guarda. E os doze tomam lugar em redor dela, no centro do mundo e
também no infinito; no centro do mundo para guardarem a rosa de sangue e no infinito para
guardarem a rosa de luz. E eles se desdobram em dois: um que tem assento no templo do Pai
e outro que o tem no da Mãe.40/8
É destes que partem os profetas e os mestres e
todos quantos fazem a sua obra entre os homens e as nações, pois a rosa de sangue e a de
luz devem ser continuamente alimentadas: a primeira com a carne e o sacrifício da carne e
a segunda com a alma e o sacrifício da alma. E assim há dois templos da Rosa+Cruz e duas
Ordens que são uma só.40/9
Os doze são o Cristo e o Cristo é a rosa. E
quando a rosa abre as suas pétalas de fogo, o Cristo abre os olhos e nasce no meio dos
homens e os homens surpreendem-se; e há aqueles que O recebem e há aqueles que O negam.
E isto tem de ser assim, para cumprir as profecias e dar continuidade às coisas.40/10
E cumprido o ciclo da rosa, que é também o
ciclo do Cristo, a rosa fecha-se sobre si e o Cristo morre no centro da cruz do mundo. O
seu sangue corre sobre a face da terra e a terra recebe-o e alimenta-se dele.40/11
No centro da terra, ignorada mas viva, a Senhora
ergue a taça, que é o Seu ventre, e recolhe o espírito do sangue e dele se alimenta
também.40/12
Então os quatro Senhores abandonam as quatro
cavernas que há nas extremidades do mundo e selam as portas que dão acesso ao centro e,
idos perante a Senhora, oram por Ela e pelo fruto do Seu ventre e por aquele que morreu no
centro da cruz.40/13
Os doze Senhores de Luz vão também perante a
Senhora e A reverenciam e formam em redor um elo de fogo. E a Senhora recolhe-se sobre si
e encerra-se no Seu centro e sonha e cria o futuro, enquanto à Sua volta tudo é disposto
para o silêncio e para a gestação.40/14
No trono de ouro e marfim, o vulto da Senhora
apaga-se e como que se esconde atrás de véus. Assim Ela fica a sós consigo mesma e se
desliga de tudo o mais que existe, até que, lentamente, no Seu ventre uma luz se acenda
e, pouco a pouco, partindo daí A ilumine. Então a Senhora rompe os Seus véus e se
mostra novamente àqueles que A servem.40/15
Nas Suas mãos estendidas, uma criança nua
sorri. Essa criança porta os símbolos do mundo e do espírito: numa mão, o globo
encimado pela cruz na outra, o ceptro real. Sobre a sua cabeça, ostenta a tripla coroa de
imperador do Mundo.40/16
Então os Quatro vão perante a Senhora e se
curvam por três vezes. E os Doze rompem o círculo de fogo e vão também perante Ela e
se curvem por sua vez. E as Quatro Portas são abertas e por elas entram todos aqueles que
servem a Mãe e a Sua Obra.40/17
Primeiro, aqueles que vêm em representação das
Sete Nações Sagradas, e que são os Sete Senhores perante o trono do Altíssimo; depois,
os Nove Senhores,que são aqueles que ordenam sobre o destino de todos os seres; a seguir,
os Setenta e Dois, que são aqueles que governam o mundo e, finalmente, os inumeráveis
discípulos e servos que, entre os homens, trabalham na Grande Obra.40/18
Assim se cumpre, no inicio de cada grande ciclo
da humanidade, o rito que celebra o renascimento do Menino Rei.40/19
E o Menino, que é a síntese dos três mundos e
dos três poderes que há no alto e no baixo mundo, é adorado e glorificado por mais um
ciclo.40/20
Sobre a rosa de mil pétalas, ele toma assento,
como sobre um trono diáfano e transparente. Aos seus pés sentam-se todos os que o
servem: os Quatro Senhores, que regem a estabilidade e a coesão do mundo; os Sete que
são as nações e a vontade do Pai nelas; os Nove que são o destino e a lei; os Doze que
são os mensageiros e a mensagem dada; e os Setenta e Dois que são aqueles que orientam e
servem ao mesmo tempo.40/21
Quatro círculos eles formam em redor do Menino.
E o Menino ergue os olhos para eles e eles sabem e partem a cumprir o que são. Assim o
Menino perpetua o Mundo, a Palavra e a Obra, não fazendo, mas sendo.
De olhos imensos e transparentes, quase brancos
de tanta luz, ele vê e sabe tudo. Nada o surpreende nem altera. Na sua forma e ser, ele
é o ponto de convergência de todas as coisas, a síntese de todos os seres e a ponte
viva que os une à eternidade.40/22
Ir perante ele e olhá-lo é tudo quanto pode ser
desejado por aquele que crê. O mais já seria demasiado.40/23
XLI
Sobre o promontório sacro, uma serpente vela
adormecida. Deixada ali por aquele que sonhou Portugal, ali ficará enquanto o cavaleiro
vestido de branco não a vier despertar.41/1
Ele virá do lado do Ocidente montado em cavalo
de luz e, chegado ali, a sua lança de prata apontará à cabeça da serpente e a
enterrará no meio dela, como um falo na terra.41/2
Então a serpente acordará, o círculo será
rompido e a luz tomará a lança para si e nela se manifestará.41/3
Mas ai daquele que tocar a lança, que também
será a luz, sem ser digno. A serpente o devorará e as suas cinzas serão lançadas ao
vento, para que não volte a nascer.41/4
Há mil eras a serpente dorme. Ciclos sobre
ciclos ali estiveram e partiram e, caindo sobre a serpente, se desfizeram na eternidade.
Pois a serpente que dorme é imagem e símbolo de Deus e nele não há tempo.41/5
Caos ou Verdade, isso é a serpente. O mais é do
homem e é sonho dele.41/6
Aquilo que chega à serpente é devorado e
reconduzido na sua essência. Eis o que ela dá àquele que não lhe é igual. E mesmo
sendo-o, ela o dá ainda. E se dá consciência, só a dá àquele que já a tem. E dando
a morte, dá-a porque a morte veio sem se dar conta dela e o corpo está vivo, mas a alma
partiu.41/7
Assim ela sela o que o destino cumpriu. Morte ou
vida, para ela tanto faz.41/8
Um deus a sonhou e do caos a fez sair. E ela,
cumprindo o que era antes de ter, imediatamente assumiu e forma do círculo.41/9
Então, o mesmo deus fez dela uma seta que
temperou no fogo do espírito. E a disparou rumo ao infinito. E ela foi pelo mundo fora,
transformada em cometa e sol desse deus sem nome. E nesta terra caiu, à beira mar, e aqui
ficou a sonhar. E se fez deusa antiga, donzela e alma de nação, quando nação ainda
não havia.41/10
Aqui, o mesmo deus a viu e a reconheceu. E lhe
deu, ele mesmo, a missão de guardar e proteger a terra que a viu nascer.41/11
Por isso essa terra se chamou (e chama ainda)
terra de serpentes. E assim há-de ser sempre, enquanto o cavaleiro branco não vier da
terra da morte, qual Orfeu que resgatou Euridice, quebrar o seu sonho e transformar o fogo
do caos no sinal de um novo ciclo.41/12
Então a serpente guardará a lança que será de
fogo ígneo e guardará aqueles que vierem para lançar um templo aí, templo onde se
há-de adorar a lança do deus e ele mesmo, embora invisível, e, em redor de tudo isto,
há-de nascer uma irmandade nova, que terá como símbolos a lança e a serpente. A
lança, por ser sinal de Deus e a serpente, por ser sinal da Deusa, aquela que está
sempre oculta. E esses serão conhecidos como aqueles que guardam a porta do mar e que
servem a serpente.41/13
XLII
Um dragão de fogo: eis a Obra a realizar.
Dragão que dorme no coração do homem, se ele for um guerreiro e um santo.42/1
Assim o homem é a Obra e a realização da Obra.
E através do homem é o mundo que se realiza. Mas antes, é preciso realizar o homem. E
realizado o homem a Obra está feita. Mas se este não se realizar como se há-de realizar
tudo o mais?42/2
Tudo parte do homem e tudo regressa a ele, eis a
questão. E nada será feito, mesmo pelos deuses, que não tenha o selo do homem, pois o
Senhor lhe deu, no início do mundo, o poder e o mando sobre todas as criaturas. E o homem
o tomou dando-lhes um nome. Assim ele se assumiu como criador e criatura, princípio e fim
da realização. Por isso ele porta a semente consigo, a chama do Senhor, para que realize
o mundo e se realize a si. E enquanto o homem não o fizer, os deuses terão de
esperar.42/3
A Palavra do Senhor: eis o dragão. Palavra que
é semente de redenção e fogo que purifica. E o Senhor lança a Sua Palavra pela boca
dos profetas e dos servos e dos sacerdotes e os manda a semear a terra e o coração dos
homens.42/4
E eles vão de terra em terra, loucos e
iluminados, fazer a sementeira, pois não pode haver safra se a terra não for semeada e o
Senhor não pode vir, para limpar a terra e separar o trigo do joio, enquanto a semente
não tiver sido toda lançada ao solo.42/5
Assim, os profetas e todos os que servem o
Senhor, são a Sua semente e o Seu estrume e as águas que purificam.42/6
Realizai-me e realizareis a Obra: diz o Senhor. E
como haveis de me realizar se não realizardes a minha Palavra, a minha semente? se não
realizardes o fogo que dorme em vós, oculto e ignorado? Assim, realizai primeiro tudo o
que sois, para que eu me realize também.42/7
Alimentai a chama, dando-lhe tudo: vaidades ou
ideais, tanto faz. Ela se alimenta de vós e vós vos alimentais dela: é isso que
importa. Dai-lhe pois tudo: o que sois e o que julgais ser. Pois se sois é ainda pequeno
o ser, e se não sois, mais razão há para não o serdes. Dai-lhe tudo e ela vos
devolverá a minha chama, já não uma vela mas uma fogueira. E só assim podereis passar
da vossa condição de não ser à condição de serdes meus filhos e meus amados.42/8
Pois como poderei eu amar-vos se não vos amar no
fogo se não vos amar na revelação? Primeiro tendes de amar o fogo que vos devora, que
vos purifica, e só depois de me amar a mim. Pois, se não amardes o meu fogo, como
podereis chegar a mim, eu que sou fogo e fogo vivo? Cuidais que chegareis a mim pela carne
e pela lei da carne? Só chegareis a mim pelo espírito e pela lei do espírito.42/9
É como espírito que vos quero em mim, não como
carne. Espírito que se assemelhe ao que sou, pois se não fordes iguais ao meu fogo, como
vos hei-de tomar das sombras e ter-vos comigo? Primeiro amai o fogo e a redenção do
fogo. Primeiro amai o fogo que devora a carne, que vos torna espírito e sangue do
espírito. Então podereis amar-me a mim e vir até mim, e eu vos receberei e não
morrereis mais, pois em mim não há morte, mas eternidade.42/10
A minha Palavra está nos meus profetas. Amai os
meus profetas e será a mim que amais. Pois quem não ama o servo do seu senhor, como pode
ser digno de amar o Senhor?42/11
Amai os profetas e a palavra dos profetas, pois o
profeta não existe por si, mas para servir a Palavra. Assim, eu sou os profetas que envio
para o meio de vós, para vos reconduzir até mim. E a palavra que há neles sai de mim.
Assim, eu vos chamo a mim, através deles, e vos meço e à vossa fé pela medida que
usardes com eles e pela fé que tiverdes neles e no que vos é dito. Cuidai pois deles,
como se cuidásseis dos vossos bens mais preciosos, pois eu estou com eles e só amando o
que eles são, me podereis amar a mim.42/12
Uma ponte eu lancei entre mim e vós: essa ponte
chama-se Palavra e chama-se profecia. Amai a palavra e amai a profecia e amai também
aquele que vos dá a palavra, pois não há palavra sem profeta e não há profetas sem
mim. Eu estou no profeta e ele está em mim.42/13
A redenção está na palavra e pela palavra
chegareis a mim. Um caminho de fogo é a palavra que vos envio. Um caminho de redenção e
sacrifício, onde só os melhores de vós chegarão ao fim. E, para os coroar e celebrar,
o último sacrifício. Assim eu vos distingo uns dos outros: através da palavra e
através do sacrifício.42/14
Julgais amar-me porque me adorais, mas eu vos
digo que só me amareis quando, por amor a mim, vos realizardes no meu fogo. E como vos
haveis de realizar nele se não for pela morte e pela negação do que julgais ser? Sois
carne e putrefacção da carne e, no meio dela, o meu espírito arde. Sois caos e
confusão do caos e, no meio dele, o meu espírito vigia.42/15
Julgais amar-me porque me idolatrais, mas só me
amareis quando me olhardes face a face e o meu fogo vos devorar, pois o meu fogo devora
aqueles que são dignos de mim.42/16
Cuidai para não vos enganar o que julgais ser
amor a mim e é só engano de mim, confusão de mim. O meu amor é cristalino, não esse
lodo que trazeis na alma, sempre que cultuais aquilo que julgais ser meu e de meu só tem
a negação. Eu não sou estátua, ou ídolo, ou templo de pedra: Eu Sou fogo e
espírito.42/17
Ajoelhai, porque o meu espírito voa sobre vós e
está próximo o meu tempo: o tempo do fogo que vos há-de conduzir a mim. Ajoelhai sobre
a terra, pois ela é sagrada para vós. E se quereis ter um templo para mim, tende-o em
toda a terra, pois eu amo o barro como amo o espírito do barro. E do barro vos fiz.42/18
Que é a carne, senão um barro misturado com
sangue? barro onde sopra o espírito. E se eu quero que esse barro se transforme em templo
meu, templo vivo, que tendes vós com isso?42/19
Realizai a minha vontade e realizareis a minha
Obra para vós, realizareis um templo vivo e eu habitarei nele e poder algum terá poder
aí, pois só há um Senhor e uma Lei e uma Vontade. E isso eu sou.42/20
XLIII
No princípio era o caos. E o caos permanecia
solitário e indiferenciado. Ele permanecia, e só ele existia. Ele não tinha tempo, mas
realidade. O tempo passava e ele permanecia. Ele é a génese da matéria. Ele é a
génese de tudo quanto é receptivo, de tudo quanto concebe.43/1
Então, vindo do fundo da realidade, surgiu a
luz. E a luz se juntou ao caos e procriou os seres: primeiro as imagens dos seres, o
símbolo de cada ser, o seu molde e só depois os próprios seres; primeiro o sonho, feito
de realidade e transcendência da realidade e só depois a plasmação do sonho, feito de
aparência e imanência da aparência; primeiro Deus, depois o homem e todos os outros que
existem.43/2
No princípio, para lá do tempo e do espaço e
de toda a realidade aparente, ou que possa ser vista, só o caos, só a génese da
matéria receptiva. E, vindo do fundo da realidade, para lá do véu de ilusão, a luz, o
bafo de fogo que, penetrando a matéria, a fez gerar filhos.43/3
E a luz se uniu ao caos e deu origem ao espaço e
aos seres e a tudo quanto povoa o universo, quer seja visível quer seja invisível.43/4
Assim nasceram os primeiros seres, que crescendo
sobre a sua realidade e ultrapassando a forma, se tornaram deuses e foram adorados por
aqueles que vieram depois.43/5
Daqui partiram aqueles que fizeram as hierarquias
e que semearem o cosmos segundo os desígnios dos dois primeiros, daqueles que foram Pai e
Mãe de todos os seres e de todas as coisas que existiram, existem ou virão a
existir.43/6
No princípio só a possibilidade, só o ser
difuso e receptivo; depois a mistura na luz, a metamorfose, a síntese dos opostos para
formar a realidade dos seres, a luz misturada nas trevas, o caos unido ao espírito
indiviso.43/7
Dois espíritos se juntaram para formar tudo.
Dois princípios opostos e convergentes. Para trás deles nada há que exista: nem homens,
nem sombras, nem deuses.43/8
Não foram criados e de si preexistem a toda a
criação ou mudança. São a matéria e são a luz; são o tempo e a eternidade. Contêm
tudo, são tudo. Nada está fora deles ou ausente. Assim as coisas nasceram deles e por
eles existiram.43/9
Matéria e luz: eis tudo. E em cada ser a mesma
verdade: um corpo de carne, no qual uma chama arde. A chama é a luz, a carne é o caos.
E, ligando os dois princípios, o sangue, que é parte de um e de outro e que os une, que
corre como os rios correm sobre e sob a superfície.43/10
A vida é dupla e dupla é a sua face, tendo a
Senhora de um lado e o Pai do outro, para ampararem os seres e ajudarem-nos na
realização da Obra, pois esta é o destino de todas as coisas e só na sua realização
haverá realização para cada ser.43/11
Assim o Pai o quis e a Mãe o assumiu como tarefa
Sua, e todos aqueles que Os seguem o assumiram também. E assim tem sido dito a todos os
que os ouvem, pois na verdade só há duas coisas que são uma só: o Caos, que é a Mãe,
e a Luz, que é o Pai. E cada ser e cada coisa não é mais que parte Sua e realidade Sua.
E onde cada ser pensa realizar coisa própria, realiza verdadeiramente Aquele que o
criou.43/12
Pois a realização não pertence à forma, mas a
essência da forma, tal como a verdade não pertence ao mundo, mas criou o mundo. E o
mundo existe e tem forma por vontade daqueles que o quiseram.43/13
Tudo vem do um, que é dois num só. Assim a
realidade se gerou e nós a vivemos sem dar conta. E gerou os inumeráveis seres e
universos nos quais habitam e têm a sua realização. E gerou toda a ideia de ser e de
coisa. E de palavra que nomeia e de verbo que realiza. E ainda de sonho que cria o nunca
criado nem imaginado possível foi.43/14
Assim a vida nasce do caos e se alimenta dele e
se propaga nos seres e, através dos seres, nas coisas. Eis a cobra que morde a cauda, eis
o infinito que a razão não penetra nem entende.43/15
E, todavia, o ser terá de se submeter àquilo
que lhe é maior e obedecer à voz do espírito, quer esta venha da terra ou do céu, da
carne ou da luz, que também é fogo. Pois não há verdade ou realidade que não assentem
nisso: matéria e luz, gelo e fogo.43/16
Só na submissão a porta da realização se abre
para o ser. E o ser penetra no domínio da verdade e entende, sem entender e realiza, não
realizando e é aquele que sempre foi.43/17
Tal é a alquimia que os mestres amam e realizam.
Tal é a promessa do Pai e da Mãe para todos os Seus filhos. Que na realização maior
outra realização há: a de todos os que obedecem.43/18
Os opostos se juntaram e geraram os muitos, que
são os filhos da realização. E em todos eles foi posta uma chama, como um sinal e uma
prova. Sinal para que não sejam tocados pelos da Sombra e prova para que o ser ascenda
rumo aos que o sonharam e lhe deram vida.43/19
E foram criados corpos de carne em cada esfera
que, vazia, no espaço existia. E aqueles que tinham começado primeiro, ficaram com isso
a seu cargo: de semearem a vida e velarem pela forma. E os mundos se povoaram, um a um,
consonante a vontade daquele que tudo gerou.43/20
XLIV
Tudo parte do Pai e tudo a Ele regressa. Como uma
cobra enrolada sobre si, assim é o hino da criação.44/1
O Pai, abrindo o caminho da forma, cria os seres
e todos os opostos. Depois, na outra extremidade da espiral, acolhe e recebe aqueles que
foram até ao fim.44/2
A serpente é o Seu sinal, que se transformará,
no coração daqueles que O amam e servem, em dragão de fogo, em dragão alado.44/3
E o homem ergue os braços para ele e estes
transformam-se em asas. Asas onde o fogo arde, como um archote de mil pétalas.
Assim o homem vai perante o seu Senhor, como um
filho do dragão e na Sua corte de mil anjos toma lugar.44/4
A sombra não é o oposto da luz, mas a sua
negação. E aquele que ama a sombra não está perdido para a luz, nas está perdido pela
luz, pois só os semelhantes se atraem e o Senhor só escolhe aqueles que, tendo ido até
ao fim do caminho, venceram a sombra e a destruição da sombra e a negaram por amor à
luz.44/5
Assim o plano do Pai se cumpre neles,
realizando-se através deles e das suas obras, que são de expiação e redenção do
homem.44/6
Pois o homem é como uma ponte entre a sombra e a
luz, que terá de escolher o seu caminho realizando a síntese dos opostos, ou domar o seu
fogo e pô-lo ao serviço da vida.44/7
Uma coluna de luz, eis o Senhor, que arde sobre a
mais alta montanha do mundo, como um sinal.44/8
Pois o Senhor enviou os Seus servos e os Seus
sacerdotes e todos aqueles que O amam para o mundo. E eles misturaram-se entre os homens e
alguns perderam-se e outros acharam-se. E alguns tornaram-se escravos dos homens e da dor
e luxúria dos homens e outros tornaram-se ídolos e deuses dos ídolos. Assim a mesma
semente deu frutos diversos. E o Senhor viu a tristeza dos Seus filhos e compadeceu-se
deles.44/9
Então escolheu para Seu templo a montanha mais
alta do mundo, aquela que domina sobre todas as nações e que está para lá delas, e aí
se colocou como um sinal vivo, para que todos aqueles que vierem ao mundo e nele se
perderem, O possam encontrar no mundo.44/10
Pois aquilo que se perde na carne é na carne que
se tem de achar e aquilo que se perde em Deus é nele que se terá de reencontrar, já que
o mundo e a carne são a ilusão do Pai para os Seus filhos e a Sua redenção para
eles.44/11
Um altar imenso, eis o mundo. Um altar com um
único ídolo: o Senhor, que não está visível em estátua ou forma, mas em espírito e
verdade.44/12
Assim o mundo foi criado, como um altar onde toda
a ilusão fosse sacrificada por amor a Ele, que é a origem e o fim de tudo quanto vive. E
toda a criatura não é mais do que carne sacrificada, do que dor sublimada ali. Por amor
não à carne, mas ao fogo que a anima; não à dor, mas à redenção na dor; não ao
sacrifício, mas ao Senhor do sacrifício.44/13
Tal é a verdade que rege o altar e que rege o
mundo. E todo o caminho a esse altar conduz. E toda a santidade é aí que se torna fulgor
e submissão ao desígnio supremo. Pois só há um altar e só há um Senhor do altar. E
todo aquele que for perante o altar, terá de se ajoelhar por terra e fechar os olhos da
carne e abrir os da alma, para ver o Senhor e todos os Seus filhos na luz. Pois só a
visão do Senhor pode salvar a alma e transmutar a carne em fogo e torná-lo
espírito.44/14
Eis a vontade do Pai para os Seus filhos: que
eles se tornem espírito, não pela negação do sangue, mas pela transformação do
sangue em luz, pois o sangue é o alimento da terra, e é o alimento do altar e deve
encher a taça que contem a semente do futuro: ou o futuro não poderá existir.44/15
Derramai o sangue: diz o Senhor aos Seus filhos.
Mas derramai-o por amor não à sombra, mes a mim; não por amor à carne e aos anseios da
carne, que são anseios da ilusão do mundo, mas por amor ao sangue e à luz que há
nele.44/16
Assim cumprireis a minha vontade e realizareis o
mundo, pois o mundo realizado é como um vasto espírito, todo luz e fogo, e, nessa luz e
nesse fogo a minha lei, como um sinal.44/17
Assim o quero, ao mundo, como um sinal. Dai-lhe
pois o vosso sangue e eu lhe darei luz. Mas cuidado, para que não haja no sangue vaidade
ou ilusão do mundo, ou o vosso sangue gerará monstros e trevas.44/18
Que o vosso sangue seja a imagem do vosso
espírito e não a sua negação, pois só o sangue puro pode conduzir a mim. E se ele for
derramado sem eu estar nele, virão as sombras e toma-lo-ão para si e aquele que o tiver
derramado será tomado por elas e estará perdido.44/19
XLV
Um grande atanor: eis o mundo, no qual se
prepara, em cada momento, a grande mutação: a dos filhos da luz.45/1
E eles ascendem rumo às alturas, transformados
em fogo vivo, até ao lugar onde o Senhor os espera. E o Senhor recebe-os na Sua taça,
que também é o Graal, e nela os preserva de toda a perda e profanação.45/2
E uma vez realizado isto, os coloca sobre o Seu
altar, que é o altar do próprio mundo.45/3
Assim se cumpre a lei e se realiza e missão dos
seres, pois que tendo partido do Pai a Ele retornam. E tendo sido criados pelos opostos,
realizaram a sua síntese.45/4
Um grande dragão: eis a humanidade realizada,
que ascende sem cessar, melhor, que realiza a ponte viva de luz que une Pai e Mãe, Aquela
que recebe e Aquele que emite.45/5
Assim o fogo que o Senhor lançou sobre o caos
para realizar a matéria viva, retorna a Ele, transformado em luz. E o Senhor o toma e o
acolhe em si. E este fogo não se perderá jamais.45/6
No princípio era o caos. E sobre ele caiu o fogo
e o fogo o transformou em matéria, matéria que vive.45/7
Isto aconteceu no princípio, antes dos deuses e
das forças se terem organizado para gerar os seres e os mundos. Isto aconteceu quando
ainda não havia tempo, mas eternidade; nem espaço, mas centro imóvel; nem ser nem
coisa, mas apenas manter e existir. E por existir tudo se bastava. E por não existir se
bastava também.45/8
Isto aconteceu no princípio. E depois disto tudo
aconteceu: os seres e a geração dos seres, feitos à imagem e semelhança dos deuses,
que são o seu arquétipo e fundamento. E todas as coisas, reproduzindo a mesma coisa: lei
e mistério do Senhor.45/9
Assim o mundo se fez, génese e matriz de todos
os mundos havidos ou por haver ainda. E os deuses que o homem adora e não entende, foram
feitos também, pois é bom que haja adoração no homem e em todas as criaturas, para que
os seres se elevem na sua condição natural e ascendam ao Senhor.45/10
Isto faz-se pelo amor do mais alto e pelo desejo
do mais sublime e pela elevação da alma àquilo que já não é alma mas luz. Isto
faz-se por vontade do Pai que o desejou nas criaturas e para elas o concebeu e elas o
realizam. E querendo ascender aos deuses e com eles se fundir, descobrem-se unidas ao Pai
e com Ele fundadas.45/11
Tal é a verdade fundamental do mundo e das
coisas do mundo; tal é a verdade do Senhor que todas as criaturas realizam.45/12
Todos os mundos são um só. Sobre esse o Pai e a
Mãe estão juntos, caos e fogo somados um ao outro. Porque o fogo deve transformar o caos
para gerar a matéria viva e o caos deve arrefecer o fogo para gerar a luz.45/13
E que são os mundos senão a cópia deste mundo?
Cópia e geração, palavra ou verbo: emissão do Senhor. E os mundos partem a realizar a
Lei, portando no seu ventre o mesmo fogo e o mesmo caos entrelaçados. Cópias também dos
mesmos que realizaram tudo.45/14
Assim cada mundo tem em si o fundamental: aquela
que concebe e aquele que realiza. Aquela que recebe a semente no seu atanor invisível e
aquele que é a semente recebida.45/15
E o fogo aquece o ovo e este transforma-se e
transforma a semente. Então aparecem os seres com alma e destino e a humanidade (que é o
conjunto de todas as coisas vivas) povoa o mundo e o mundo realiza-se.45/16
E uma vez realizado o ovo e a semente que ele
contém, o mundo transforma-se em luz e regressa àqueles que são o centro imóvel de
todas as coisas. Regressa nunca tendo partido, retoma nunca tendo abandonado - é o que
sempre lhe foi dado ser.45/17
E os seres, que são também tudo isso, o
entendem e se fundem entre si e com o mundo, realizando a Unidade a Vontade e a Lei. Pois
assim o determinou aquele que é Pai e Mãe de todas as coisas.45/18
Sobre o Absoluto três mundos estão postos:
entre si formam o triângulo do Senhor. Três espíritos velam pelos mundos. Austeros e em
silêncio eles velam pela realização da Obra.45/19
Nada acontece que não tenha neles o fundamento,
nada se passa que não tenha neles o destino. Assim é, foi e será sempre, enquanto o
Senhor o quiser e o determinar.45/20
Pois o Senhor é o rosto invisível de que todas
as coisas são a aparência visível. E querendo os seres realizar coisas, realizam-nas
através do Senhor das coisas e não através delas mesmas; e querendo ser tudo quanto
devem ser, são-no ainda por vontade do Senhor e não por vontade das criaturas.45/21
Isto é a Lei e é a vontade que realiza a Lei e
não há coisa ou ser que não o cumpra, mesmo quando julga não o cumprir.45/22
O Senhor o fez e o concebeu. Assim o homem nasceu
do Senhor, como a flor nasce da semente lançada à terra. E por ter sido criado pelo Pai
é um só com Ele e nele se realiza, realizando a Obra. E esta Obra é tudo: mundo e
génese dos mundos, carne e génese da carne, palavra e génese da palavra.45/23
Assim o Senhor o quis e o homem o realiza. E
realizando isto, tudo está feito, pois só há uma coisa que são duas e que são muitas.
E é na realização da unidade que tudo será retomado, para que não haja ilusão nem
veús sobre os deuses e o abismo, mas visão do ser uno e integral, e nele cada ser se
reveja e se retome e se funda. Tudo isto o Pai quer e se faz.45/24
Que não ame o homem aquilo que o Pai para ele
não destinou. E se tem de se iludir sobre a carne e sobre o abismo, que não ceda a alma
aos Senhores das sombras.45/25
Que é o homem sem alma? Aberração e negação
da vida! Caminho da destruição que leva aonde? Nem ao caos, porque aqui o Senhor tem a
Sua mão e a Sua lei também. Onde levará então? À ilusão do caos, mas não ao caos,
pois aquele que cede a sua alma por troco com a ilusão da morte, perde a sua alma e perde
a morte.45/26
A morte é a ilusão do ser que está vivo e
deseja a aniquilação do existir. Mas tomada esta e passado o longo corredor, é a vida
que se abre para aquele que ousou. Que aquele que cede a alma não julgue por isso
alcançar vida imortal ou negação da vida, mas antes alcançará um ser que não o é e
um estar que não é coisa alguma. E nesse não ser nem estar, estará e será não sendo.
Assim a ilusão será suprema senhora e nada mais concederá.45/27
E que são as sombras senão ilusão do homem e
véu que o Senhor lançou sobre aqueles que O amam pouco? Se têm vida, têm-na à custa
do homem, porque ele lhes faz sacrifício da alma e os alimenta assim. E elas crescem
devorando os vivos e aqueles que não amam a luz ou a temem.45/28
Por isso o Senhor pôs dois anjos guardando as
portas do céu. Anjos de fogo, guardando o fogo. E no meio do céu, sobre o altar, o
Graal, esse onde está o sangue dos mártires e dos profetas e dos sacerdotes e onde está
a grande alma do mundo. Tesouro cobiçado pela sombra, pois a sua posse dar-lhe-ia a posse
do mundo e dos seres do mundo.45/29
Mas o Senhor vela sem sono nem ilusão do sono. E
os Seus anjos velam com Ele. E os sacerdotes e os servos e todos aqueles que servem no
mundo e no templo do mundo, velam também.45/30
Breve é o reino da sombra: um instante apenas e
passa. O Senhor o quis, o Senhor o determinou. Que não se turve o entendimento do homem
nem o seu coração, pois tudo aquilo que existe serve a lei e serve o Senhor da lei. E
serve-a ainda quando parece servir o seu oposto: o mundo e aqueles que amam o mundo.45/31
Um eclipse de luz sobre o mundo, eis o reino da
sombra. Mas a face do Senhor breve se desoculta e o sol brilha e a sombra desvanece-se. E
sobre a face da terra não há sombra, pois não há carne para impedir a luz.45/32
Assim o homem se transformará na luz e esta o
transformará também. E não havendo carne mas luz, como haverá sombra ou ideia da
sombra? A sombra é assim não uma coisa em si, mas uma ilusão do homem que a luz cria. E
o homem crê como crê em tudo, iludido e confuso.45/33
Mas quando o mundo for transformado em luz por
realização da Obra, cada homem será também transformado e então nada ocultará a luz.
Antes ceús e terra serão um só sob o olhar do Senhor e Este a tomará para si e a
colocará sobre o Seu coração, para alimento Seu e sinal do Seu amor. Pois o homem está
destinado no amor do Pai e só nesse amor se realizará o homem e o mundo do homem e a
Obra se fará ouro e vermelho de fogo alquímico e luz que não tem cor.45/34
Que aquele que quer realizar o mundo realize
antes a Obra do mundo, diz o Senhor. E realize a luz e realize o meu fogo. E o alimente em
cada instante, pois aquele que assim fizer há-de ascender a mim como uma luz muito difusa
e eu a tomarei para que não se perca no firmemente e a guardarei para o futuro. E o
futuro será realizado nele.45/35