LIVRO DA VIDA

 

CAPITULOS 36 a 45

 

por Joanus + Frater

 

 

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36

 

XXXVI

 

O anjo do Senhor veio à Sua frente e chama-se João, o ungido e o devorado. Ele veio para dar testemunho da verdade e para que todo aquele que crê não se perca, mas encontre a vida eterna. O Senhor o enviou como um sinal Seu, para que todos os que o vissem se não perdessem nas malhas da ilusão. E o mandou escrever o Seu Livro, o Livro da Vida. E ele o escreveu.36/1

 

Eis o meu Livro, diz o Senhor. Nele está a minha palavra e o meu caminho, nele está o meu fogo. E o meu fogo vai até vós para vos devorar e reconduzir no meu caminho, pois andais perdidos há muito e não o sabeis.36/2

A minha voz vos procura no meio do deserto. E a minha chama eu coloco sobre um monte, para que a vejais de muito longe e não vos percais na vossa busca, pois seria triste que aquele que procura o seu Senhor se perdesse por O procurar.36/3

Assim eu vos dou três sinais de mim, três caminhos para mim: a minha palavra, o meu fogo e o meu livro. E vos envio aquele que é o grande consolador do homem, porque é o homem e é o filho do homem. E para o anunciar, o meu profeta, aquele que escreve o livro da nova era.36/4

 

Vós sois a minha seara. Nela lanço a minha semente: a minha palavra, para que não aconteça que vos percais em mãos alheias, ou fiqueis sem préstimo, ou venha o meu fogo e vos devore antes da época da colheita.36/5

Vós sois a minha seara e no meio de vós está aquele que vos há-de cuidar até que eu venha para vos colher. Nele está a minha palavra e a minha palavra é a vossa semente. Nele está a minha eternidade e a minha eternidade é o vosso tempo.36/6

Cuidai bem dele, pois cuidando dele é de vós que cuideis. E se dele não cuidardes, a semente perder-se-à e o campo será invadido pelas ervas e eu lançarei o meu fogo sobre ele e tudo será devorado.36/7

Cuidai da semente e cuidareis do campo. Velai para que uma e outro cresçam e dêem fruto farto, pois a colheita é minha, mas o bem é vosso. E se estou hoje no meio de vós, para vos dar a eternidade, amanhã estarei no meio de outros. Aproveitai, pois, o meu amor por vós.36/8

 

Toda a semente tem o seu tempo próprio. Tempo para crescer e tempo para morrer. A minha semente chama-se João.36/9

Na sua descendência eu criei um campo de cereal, do qual me alimento, e outros se alimentam também. E eu o lancei à terra, no meio dos homens, para que ele semeasse e separasse a boa da má colheita. Pois o meu fogo é santo, e não convém que haja desperdício. Assim eu o mandei para lançar a palavra e, através da palavra e daqueles que a escutam, eu o mandei para pôr um sinal naqueles que o meu fogo há-de devorar.36/10

Eis a sua missão: semear a palavra e semear o fogo, pois a palavra dele é o meu fogo contido, é o meu fogo em Verbo. Semeando a minha palavra ele semeia o meu fogo no coração e nas mentes dos homens e os torna receptivos a mim. Pois quando eu chegar até eles, a minha palavra os terá purificado e preparado para mim. Só assim o meu fogo lhes dará a vida, só assim o meu fogo os trará de volta para mim.36/11

Eis porque vos envio João e, através dele, a minha palavra, pois a menos que o sigais a ele e à palavra que vos dou, não me podereis seguir a mim. Se quereis vir até mim, segui-o a ele primeiro, e segui o seu livro, pois a carne é fraca e o fogo tem de a alimentar, antes que ela se transforme em espírito.36/12

 

Sobre o caminho da eternidade eu seguro um bastão de fogo. Esse bastão chama-se João. Eu o seguro numa ponta e a Mãe o segura na outra ponta e o colocamos entre o céu e a terra, como uma escada. E por ele, e através dele, aqueles que estão prontos vêm até mim e vão até à Mãe.36/13

Ele é um sinal para vós. Um sinal nos vossos corações e nas vossas almas, pois a sua carne é como a vossa, e a ele podeis amar ou odiar, mas não a mim nem à Mãe.36/14

Nós o criámos no meio de vós feito de carne de mulher e de homem. E vós o vedes como um de vós e ele o é, não o sendo.36/15

João é um bastão de fogo branco que a minha mão suspendeu há muito, sobre o caminho da eternidade. Do caos recebe ele o tempo e de mim a voz. E quando o quero no vosso meio, eu escolho uma virgem e um esposo que tenham fé em mim, e aponto o bastão sobre eles, e eles concebem.36/16

 

Assim nasceu João no meio de vós, por minha vontade, para vos conduzir de novo a mim. Assim nascerá ele mil vezes mais, em mil mundos, pois ele não existe senão em mim. Um bastão de fogo, eis João. E aqueles que nascem dele, nascem em mim, renascem para mim. E eu os recebo e lhes dou a vida. Esses não voltarão a morrer.36/17

 

A minha palavra vos dou. Um consolador vos enviarei nos últimos dias. Que mais quereis de mim? Cuidai antes da palavra e velai para que ela progrida. E a todo aquele que vos quiser enganar, dizendo mal da palavra, deixai-o de lado e ide em frente, pois está escrito que a palavra do Senhor gerará ódios e sofrimento, e não será entendida. Tornai-vos puros de coração, ou não entendereis a palavra e, se a não entenderdes, como podereis ser dignos de mim?36/18

 

João é a minha palavra feita carne. Eu a lancei no meio de vós como um desafio à vossa inteligência e à vossa coragem, pois eu só amo aqueles que fizerem de João um trampolim para irem até ao fim.36/19

Amai a João, mas amai-me mil vezes mais a mim, pois eu sou o princípio e o fim dos vossos voos e, se não me amardes nem me entenderdes, como podereis amar a minha palavra e entender o meu mensageiro? Primeiro,tendes de me querer a mim: o amar da palavra virá depois.36/20

Assim eu vos quero: sedentos de mim, sedentos do meu fogo, sedentos da minha palavra. Pois que é a vossa fome e a vossa sede, senão o pressentimento do que eu sou e do que vós sois e do que é a vida? Amai a João e ele vos há-de conduzir a mim.36/21

 

Temeis a escuridão e os dias que estão para vir. Mas eu vos digo: devíeis antes temer a vossa ignorância e o vosso assentimento aos dias que agora viveis, pois estes não são melhores nem piores do que os outros que virão.36/22

No meu coração não há distância entre luz e trevas. Eu as tomo na minha mão direita e esquerda, e as moldo num corpo de barro e sangue a que chamo homem.36/23

Eis o que sois: metade escuridão e metade luz. Porque temeis, pois, os dias que virão? Se algo deveis temer é a vossa inconsciência do que sois. Não a escuridão, que não é mais do que o meu assentimento; ou a luz, que não é mais do que o meu coração desvelado perante vós.36/24

Temei-me a mim então, porque de mim tudo parte e a mim tudo regressa, e eu sou a génese da escuridão e a génese da luz. E crio e destruo. E não há segredo ou caverna que eu não penetre quanto mais o vosso coração!36/25

 

Dizeis amar-me, mas o vosso amor é incerto. Julgais querer-me, mas ora me quereis ora me não quereis já. Que é então o vosso amor e o vosso desejo por mim, senão escuridão e alguma luz? Escuridão onde brilha uma chama ténue.36/26

Mas cuidado, porque os Senhores da Escuridão espreitam-vos os passos e lançam armadilhas no vosso caminhar e pode acontecer que julgando ter-me encontrado, seja a eles que encontrastes e julgando-vos meus, sejais deles.36/27

Cuidado com o que fazeis e ousais, porque a chama é ténue ainda e todos vos podeis perder. Por isso segui o Livro atentamente, na certeza de me estardes a seguir a mim, e observai os seus preceitos em cada hora que passe, pois eu vigio e espero.36/28

 

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37

 

 

XXXVII

 

O Senhor é um guerreiro em luta. A Sua luta chama-se ascensão da vida, ascensão da consciência. Ele luta para transformar barro em carne, carne em sangue e sangue em espírito. As criaturas são os frutos dessa luta. Barro e carne e sangue e espírito.37/1

O Senhor as retirou do seio da terra (que é a porta do caos) e lhes soprou o hálito do espírito. Esse hálito é fogo. O Senhor lhes deu a vida e as criaturas seguem-no montanha acima, na escalada da grande montanha do mundo. Algumas seguem-no com confiança e coragem, outras com receio e cobardia. O Senhor toma-as a ambas e acolhe-as; às primeiras com a Sua mão direita, às segundas com a Sua mão esquerda.37/2

 

A grande montanha do mundo tem as dimensões do infinito. Começa no caos e termina na eternidade. E entre o caos e a eternidade, como uma ponte, está o Senhor, que é, a um só tempo, criador e criatura, matéria e transcendência da matéria, luz e escuridão.37/3

Ele está no meio, para que as criaturas possam ir de um extremo ao outro, sem se perderem. Ele é o guia e o farol na noite escura. É também aquele que abre e encerra os ciclos da manifestação.

E o homem olha para Ele e vê uma luz imensa, que cobre tudo. Ou uma coluna de fogo que rompe o mundo de pólo a pólo. Ou um Ser que é a soma de todas as coisas.37/4

Criador e criatura: os dois extremos que se tocam. Por isso, o Senhor lança a Sua mão sobre o homem, para o proteger e conduzir na senda. E o homem lança os seus olhos sobre o ideal que o divino é, na tentativa de chegar mais perto da fonte.37/5

Duas coisas numa só, pois não há separação entre o Senhor e os Seus filhos, como não a há entre o fogo que arde na montanha e aquele que se espalhou pela planície.37/6

O fogo do Senhor é a essência de que todos os outros são a imanência. E o homem, que o traz dentro de si, olha-se e revê-se na imensidão.37/7

É essa a semente que Deus lança no seio da criatura e é por ela que Ele luta e lutará sempre. Pois a menos que o Senhor e o Homem vençam a luta, a criação perder-se-á no caos e a chama será tomada e invertida pelos Senhores da Escuridão.37/8

 

Uma pequena chama, eis a semente. E, para a proteger, tudo tem de ser feito. Do lado do Senhor e do lado do Homem, pois só há uma perda irremediável: a da chama no homem.37/9

É por isso que o Senhor só descansa quando eleva o homem até si e o faz subir a montanha do mundo e lhe dá as chaves do Seu ministério divino, lá no templo que é a Sua essência.37/10

A partir de então, unidos em consciência e razão, o homem transforma-se numa das armas do Senhor: Espada ou Cálice ou Livro ou Vara: ou tudo isto, que é o Graal.37/11

Sacerdote do Altíssimo ou guerreiro Seu ou servo Seu, ele é, definitivamente , a Sua Vontade ou a Sua Palavra ou a Sua Luta.37/12

 

O Senhor é um guerreiro destemido. De mãos nuas, Ele enfrenta o inimigo. Esse inimigo chama-se cobardia e inconsciência: as duas armas do caos.37/13

E em cada dia que passa o caos cresce no coração do homem e à sua volta, pois o homem semeia o caos como semeia a luz, na mesma inconsciência de tudo.37/14

O Senhor, sempre atento, só espera um sinal do homem. Então, quando o homem entende o que é e cresce sobre a destruição, o Senhor aparece-lhe na totalidade e ilumina-o e o caos é vencido e a destruição recua.37/15

Mas poucos são os homens que transcendem a força inversa e que se colocam ao lado do Senhor.37/16

É por isso que a escuridão sela o fim dos mundos com a carne transformada em lama, pois que o homem ama, mas não entende a luz e o Senhor é apenas um ideal nele.37/17

 

Em cada ciclo o Senhor reúne os Seus servos e os Seus guerreiros e os Seus sacerdotes e envia-os ao mundo com uma única missão: encaminhar e conduzir o homem na sua escalada da montanha sagrada.37/18

E os Seus emissários nascem no meio dos homens, feitos de carne e de sangue. E alguns cumprem a sua missão e outros esquecem-na, pois os Senhores das Trevas lançam-lhes armadilhas de ideais impossíveis e outras quimeras.37/19

E o Senhor, que tudo vigia e vê, afasta os Seus olhos e deixa-os ir, pois o Senhor só ama aquele que é um só com Ele e que tem Nele a sua verdade, a sua meta e a sua lei. E só este pode ser salvo.37/20

 

É por isso que está escrito que nos últimos dias haverá falsos profetas e que eles serão seguidos por muitos e esses estarão perdidos. E também haverá bons profetas, que não farão prodígios nem tecerão ilusões, mas antes lançarão a serenidade e a complacência no coração do homem. E estes terão poucos seguidores, pois só uma parte em nove será salva e verá o Senhor face a face.37/21

Lutar ao lado do Senhor, eis a suprema ascese. Celebrar a Sua eucaristia, abrindo as portas do novo ciclo, eis o grande sacerdócio. Servir humildemente no Seu templo (que é o mundo) e estar atento à Sua chamada, eis a única realidade. Desbravar os Seus caminhos e lançar a Sua semente em terras incultas, unindo os homens num elo de fogo e sangue, eis a grande profecia.37/22

É isto que o Senhor concede àqueles que O servem na rectidão, na justiça e no amor. E tendo tudo isto por seu, que mais há-de querer o homem?37/23

 

O Senhor lançou o Seu apelo e muitos acorreram para O servir. Este apelo tem nome de livro e nele está a vida e na vida está a palavra e na palavra está o Senhor.37/24

Muitos vieram ao apelo do Senhor, muitos outros virão ainda. E dos céus e da terra virão aqueles que vão lutar a última batalha deste ciclo. Estes juntam-se no extremo da terra, às margens do mar sem fim.37/25

Aí, na montanha sagrada, se juntarão todos e formarão um só espírito. E esse espírito irá perante o Senhor como um homem e o Senhor o tomará para si e entrará na sua carne e fará dele o Seu templo vivo e nele habitará até que a batalha termine.37/26

Assim o Senhor lutará ao lado do homem, tendo o homem consigo. E todos verão a grande maravilha: a de haver um homem que é o Senhor vivo. Isto acontecerá nos últimos dias e depois tudo será renovado.37/27

 

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38

 

XXXVIII

 

Nas entranhas do mundo existe uma caverna oculta: é lá que dorme a Senhora. À porta da caverna, guardando-a, apenas uma serpente de fogo. Invisível para quem olha com os olhos da carne, torna-se viva para quem lá vai pelo espírito.38/1

Esse, se for digno, poderá ir até ao altar da Mãe e orar pela salvação do mundo e dos seres que o habitam. E se for mais digno ainda, poderá a Senhora aparecer-lhe em sonhos ou, como uma sombra, junto ao altar na caverna sombria.38/2

Então lhe dirá os passos a dar para que de neófito passe a discípulo e de servo passe a senhor e de adormecido ascenda a acordado. Pois o caminho da Senhora é igual ao da Serpente que se há-de transformar em Dragão, e esse caminho Ela o ensina aos que ama e sobre os quais tem intenções.38/3

 

Nessa caverna tudo é símbolo que o neófito terá de penetrar.38/4

Começando pela porta que é de pedra mas não existe ou é sombra apenas ou véu. E na serpente que, dormindo está acordada, formando sobre o solo do umbral as linhas com que o mundo foi criado e existe. E no longo corredor, negro e frio, que vai da entrada à Câmara Oculta; corredor que é grande ou pequeno consoante aquele que lá vai e o objectivo que o traz ali. E, chegado à câmara do meio, o poço que desemboca no nada ou, para quem o passar, o túmulo que espera e dá a morte ou a vida. E só quem tiver vencido esta verá então abrir-se o véu que vela o mistério derradeiro: o da Mãe que dorme e vela, ao mesmo tempo. E ainda a câmara interna, onde a Senhora vai em cada ciclo, para o abrir e fechar. Câmara onde ardem, sobre um altar de pedra negra, as chamas que são eternidade e momento, e onde, para aquele que chegou à visão da Senhora e lhe descerrou o véu, que é o da verdade e da ilusão, aguarda o sacrifício sobre o altar. Pois há-de morrer na Mãe para nascer nos Seus filhos.38/5

 

Tudo isto existe e está presente na caverna mais oculta do mundo. Que aquele que puder entender, entenda e silencie.38/6

 

Breve é o destino daqueles que a Senhora toma das sombras e que beija na testa, para os trazer à realidade e a quem desvela a Sua face, que é de prata e de luz.38/7

Breve é o destino daqueles que Ela ama e quer para si, pois nesses semeia uma luz muito fria e diáfana, quase de gelo, que os torna irreais na sua realidade e imateriais na sua materialidade, que é a do sonho e daquilo que não é carne mas luz.38/8

Esse é o presente da Senhora a todos quantos ama. E eles o recebem e se transformam em guardiães dessa caverna que não vem nos mapas nem tem localização visível.38/9

Sombras das sombras, sem eco excepto no infinito. E a Senhora as acolhe no Seu seio e lhes coloca os Seus véus sobre o rosto e as faz servas Suas e as manda para o meio dos homens, como sinais Seus.38/10

E elas tomam lugar nos altares dos templos dos homens e se fazem símbolos dos seus cultos, ora animando as estátuas ora animando os profetas e os sacerdotes e todos aqueles que servem os deuses, servindo a Senhora.38/11

Assim a Mãe mantém a Sua ligação com os homens e entre estes também, pois a todos Ela ama de igual modo e a todos quer para si.38/12

 

Dois ministérios há no mundo: o do Pai e o da Mãe. Dois ministérios que são só um para aquele que, tendo vivido um deles até à consumação viveu, sem disso dar conta, aquele que lhe é oposto na aparência.38/13

Dois caminhos que se unem no coração do homem: aquele que vem do ventre (o da Mãe) e aquele que vem da mente (o do Pai). Dois caminhos, mas uma só verdade: a da Humanidade.38/14

E o homem vive-o realizando o Ser: procriando corpos de carne em casamento alquímico com a Senhora e Suas filhas, ou procriando corpos de alma e espírito em relação profunda com o Senhor. Até que, esgotada toda a necessidade da carne e do espírito e silenciadas as vozes da dúvida e da esperança, cada homem se assuma na cruz que foi a do Cristo.38/15

 

Sobre a montanha sagrada (no ventre da qual dorme a Senhora na Sua caverna oculta), junto ao seu cimo onde está, invisível mas presente o templo do Senhor dos mundos, aí agoniza e vê aquele que já não é carne nem só espírito. Pregado no símbolo do mundo, junção exacta dos dois poderes que o organizam e fazem viver, ele testemunha o mistério fundamental. Ele vê e sabe, face a face. O Eterno ele vê e vive.38/16

 

Que mostra ele ao mundo? Três símbolos que são imagem do Graal: a montanha sagrada, a cruz e ele próprio. Ferido onde o espírito corre, o seu sangue se derrama direito ao cálice que é o ventre da própria Mãe. Assim ele fecunda a terra e se une a ela, procriando a renovação das eras e vitalizando os seres. Assim ele alcança a eternidade e se une, para sempre, Àqueles que lhe deram o Ser, assumindo-se como Filho de ambos e realizando o último vértice do triangulo. Eis porque o Cristo é sempre o mesmo e distinto e todas as eras têm o seu Cristo. Assim será sempre enquanto houver homem.38/17

 

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39

 

XXXIX

 

Há sete nações sagradas. Em cada uma, um altar está erguido em memória e louvor do Senhor, para que os Seus sacerdotes oficiem segundo os ciclos do tempo e das necessidades dos homens.39/1

No altar se sacrificam as nações e os filhos das nações que o Senhor escolheu. E as ilusões e vaidades das nações também. Pois o Senhor só ama a transparência e a rectidão e aqueles que O servem na transparência e na rectidão.39/2

Assim Ele sacrifica nos Seus altares tudo quanto é menor ou mais humano, até que só reste a luz e a eternidade da luz.39/3

 

O mundo é um templo de luz e de escuridão. Luz, quando o Senhor está presente; escuridão, quando Ele está ausente, ou adormecido. E quando o Senhor adormece, a Sua sombra acorda e toma o mundo para si. E o mundo adora a sombra, julgando adorar a luz e mergulha na sombra e toma-a para si e penetra no abismo e naqueles que o habitam. E em tudo isto julga servir o Senhor, pois a luz cega o homem e não o deixa ver mais do que a sombra.39/4

É por isso que o Senhor só ama aqueles que ascendem até si e que, por O amarem, se deixem devorar pela Sua luz, até que a sombra não tenha poder neles. E só esses podem distinguir entre a falsa luz e a luz verdadeira; a luz, que dá a vida e a sua sombra, que dá a morte, ou a ela conduz.39/5

 

O Senhor abre e fecha os ciclos. Abre-os empunhando a espada de luz e cortando a cortina da sombra que cobre o mundo. E a sombra é afastada e o sol (que é o rosto visível do Senhor) brilha sobre o homem e sobre a sua obra. E fecha-o erguendo o cálice do sacrifício e recebendo nele o sangue dos homens e de todas as criaturas vivas. E o cálice é posto sobre o altar do mundo, entre o Sol e a Lua, e um dragão e uma serpente ficam lá para o guardarem. E o Senhor retira-se dali para que a sombra possa reinar. E é assim até que um novo ciclo nasça das brumas da memória do Senhor e Ele o queira e o ordene e o faça.39/6

 

Sete nações o Senhor escolheu para Seu altar entre os homens. Sete nações que Ele percorre em cada ciclo. E o Senhor vai perante cada uma e nela ora e silencia.39/7

E a alma dessa nação é erguida sobre ela e vai perante o Senhor para dele receber a semente da sua geração. E o Senhor a coloca no seu ventre para que ela procrie.39/8

Assim nascem os filhos de uma nação e se renovam na carne e no espírito. E o Senhor toma alguns desses e lhes coloca um sinal sobre a face. E a esses Ele toma para si, para que O sirvam, servindo a nação.39/9

São esses os heróis e aqueles que ficam na memória do povo e aqueles outros que servem o altar da nação. Esses são os escolhidos e sobre esses a treva não tem poder.39/10

 

Sete nações o Senhor escolheu. E cada nação é um dom do Senhor e uma face Sua e uma ilusão que Ele lança aos pés dos homens. Pois há um Senhor e um mundo. E entre o Senhor e o Seu mundo há aqueles que O servem, servindo a Sua Obra. E as duas coisas são uma só para aquele que sabe e vive a Obra, mas não o são para aquele que a não vive nem sabe que a Obra existe.39/11

Eis porque o Senhor confunde os fracos nas suas ilusões. E dá a morte àqueles que O procuram no ódio e na descrença e no temor. E fulmina e cega aqueles que amam pouco a luz e a quem a luz não ama.39/12

Todos esses o Senhor afasta de si, os lança na sombra da ilusão e as trevas os tomam. E assim ficarão enquanto o amor ao mundo for maior que o amor Aquele que criou o mundo, e o amor à Obra impedir a visão do Espírito da Obra.39/13

 

Quando o Senhor se ergue sobre o mundo para abrir e fechar os ciclos da criação, as sete nações estão com Ele.39/14

Perante o altar, o Senhor ergue a espada, ou o cálice e as almas das nações ajoelhem. As almas das nações são os Seus mensageiros, são aqueles que vão diante dele, de mundo em mundo, anunciar aos homens o começo e o fim das coisas.39/15

E, quando as nações estão realizadas, o Senhor as toma e as recebe em si e elas habitam nele. Assim o Senhor tem sobre o Seu peito sete pedras de raro brilho: são as pedras das nações e são as jóias da Sua coroa.39/16

 

Assim as nações estão no Senhor e o Senhor as traz consigo, como um sinal e uma bênção. E quando o Senhor se retira da face da realidade e encerra os grandes ciclos e devolve os mundos ao caos, as Suas nações estão presentes e não conhecem a noite nem a dissolução, antes vigiam e oram com Ele, até que tudo seja retomado.39/17

 

Sete nações habitam no Senhor. Sete grandes espíritos estão perante o Seu trono. Eles são os Dragões, eles são as Serpentes, eles são os Mestres.39/18

E o Senhor ergue a face e ela resplandece sobre os mundos, branca de tanta luz. E os sete Dragões colocam-se ao lado do Senhor, em redor dele, e tomam para si essa luz e a transformam em sete raios que são sete poderes e sete cores, e o mundo realiza-se.39/19

Estes são os que guardam o Graal. São aqueles que têm os símbolos.39/20

 

Um trono e um Senhor, eis toda a verdade. E sobre o Seu corpo um mapa imenso que reproduz e é os sete planetas sagrados e os sete Dragões de fogo, que guardam e são as sete entradas do mundo. Eles são as portas do Senhor e em cada porta uma jóia refulge, única no seu brilho. Estes são também as sete almas das nações, aquelas que o Senhor ama e quer.39/21

 

E o Senhor ergue-se, imenso e majestoso, e os sete Dragões erguem-se com Ele em redor e formam uma parede de fogo. E a parede toma a aparência de um ovo e fecha-se sobre si e o Senhor ora no seu exacto centro e espera silencioso.39/22

 

Sete Dragões e um Senhor dos Dragões. Sete raios de luz e um Senhor da luz. Sete nações e um Senhor do mundo. Tudo é realidade e ilusão.39/23

O Senhor é o supremo mestre. Ele cria e recria sem cessar. Nas Suas mãos erguidas o cálice da última ceia está pronto. Os Mestres reverenciam e esperam. Então nas entranhas do Senhor, um rumor cresce. Primeiro um murmúrio, depois um grito se ouve: é a Palavra que soa. Os mundos estremecem. O ovo de fogo rasga-se. Os sete Mestres ajoelham e tremem. O som soa sem pausas. Atravessa os mundos, toca em tudo, penetra em tudo. De repente cala-se.39/24

Os Mestres erguem-se e partem a realizar a Demanda. O Senhor fica estático e sereno. Ele olha e vê. Suspenso entre os mundos, Ele ergue um cálice. Algures para lá da realidade algo lhe responde. O cálice enche-se, gota a gota.39/25

 

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40

 

XL

 

No centro do mundo, a Mãe está sentada no Seu trono de ouro e marfim. Em redor dela, assinalando as quatro direcções do espaço, quatro Senhores A reverenciam. Aos pés da Mãe, uma taça espera: a taça é a Senhora.40/1

 

A Mãe é o sangue da terra: sangue que a taça guarda. Quando os ciclos começam, a taça é erguida e a Senhora renasce das cinzas e procria o mundo e os seres que o habitam. Quando os ciclos terminam, a taça é erguida novamente e recebe a Senhora e todos aqueles que Ela procriou, não em carne mas em espírito. E o espírito da terra fica depositado na taça.40/2

Então os quatro Senhores selam a taça e a depositam no trono vazio. E depois se recolhem, cada um em sua gruta, nas quatro entradas do centro do mundo, e aí ficam até que novo ciclo os chame: quando o Senhor, do alto do firmamento, faz soar a trompa da criação e a Palavra ressoa abrindo a cortina das sombras. Tal é o rito dos quatro Senhores.40/3

 

Eles velam pelo mundo e pela Senhora. Entre si, eles são a base e fundamento de todas as coisas. Quatro Senhores que são um só quando se unem para abrir a Porta dos Ciclos.40/4

Então se colocam na cruz e cada um nos braços dela, e, chamando a si a sua força, nela se transformam. Cada força fluí para o centro da cruz e o vitaliza. E as quatro forças se unem como se formassem um turbilhão entre si e sobre um eixo vazio rodam e, desse movimento ascendente e descendente, nasce a rosa de mil pétalas, a rosa de ouro que é o Cristo renascido.40/5

 

Isto os quatro Senhores fazem, por amor ao mundo e por obediência à Palavra. E a Senhora acorda do Seu sono cíclico e senta-se no Seu trono de ouro e marfim e bebe o sangue da taça e procria os filhos da terra. E o Senhor vê tudo isto e silencia.40/6

 

Então a rosa brilha por si, com o fulgor de mil sóis juntos e a Senhora a toma nas mãos e a ergue ao Pai, no firmamento, e Ele a abençoa e lhe confere o dom da perpetuação da vida.40/7

E para a guardar da vã cobiça dos homens e dos demónios que a querem aprisionar no abismo, Ele nomeia doze Senhores de Luz e lhes dá por missão a sua guarda. E os doze tomam lugar em redor dela, no centro do mundo e também no infinito; no centro do mundo para guardarem a rosa de sangue e no infinito para guardarem a rosa de luz. E eles se desdobram em dois: um que tem assento no templo do Pai e outro que o tem no da Mãe.40/8

É destes que partem os profetas e os mestres e todos quantos fazem a sua obra entre os homens e as nações, pois a rosa de sangue e a de luz devem ser continuamente alimentadas: a primeira com a carne e o sacrifício da carne e a segunda com a alma e o sacrifício da alma. E assim há dois templos da Rosa+Cruz e duas Ordens que são uma só.40/9

 

Os doze são o Cristo e o Cristo é a rosa. E quando a rosa abre as suas pétalas de fogo, o Cristo abre os olhos e nasce no meio dos homens e os homens surpreendem-se; e há aqueles que O recebem e há aqueles que O negam. E isto tem de ser assim, para cumprir as profecias e dar continuidade às coisas.40/10

E cumprido o ciclo da rosa, que é também o ciclo do Cristo, a rosa fecha-se sobre si e o Cristo morre no centro da cruz do mundo. O seu sangue corre sobre a face da terra e a terra recebe-o e alimenta-se dele.40/11

No centro da terra, ignorada mas viva, a Senhora ergue a taça, que é o Seu ventre, e recolhe o espírito do sangue e dele se alimenta também.40/12

 

Então os quatro Senhores abandonam as quatro cavernas que há nas extremidades do mundo e selam as portas que dão acesso ao centro e, idos perante a Senhora, oram por Ela e pelo fruto do Seu ventre e por aquele que morreu no centro da cruz.40/13

Os doze Senhores de Luz vão também perante a Senhora e A reverenciam e formam em redor um elo de fogo. E a Senhora recolhe-se sobre si e encerra-se no Seu centro e sonha e cria o futuro, enquanto à Sua volta tudo é disposto para o silêncio e para a gestação.40/14

No trono de ouro e marfim, o vulto da Senhora apaga-se e como que se esconde atrás de véus. Assim Ela fica a sós consigo mesma e se desliga de tudo o mais que existe, até que, lentamente, no Seu ventre uma luz se acenda e, pouco a pouco, partindo daí A ilumine. Então a Senhora rompe os Seus véus e se mostra novamente àqueles que A servem.40/15

Nas Suas mãos estendidas, uma criança nua sorri. Essa criança porta os símbolos do mundo e do espírito: numa mão, o globo encimado pela cruz na outra, o ceptro real. Sobre a sua cabeça, ostenta a tripla coroa de imperador do Mundo.40/16

 

Então os Quatro vão perante a Senhora e se curvam por três vezes. E os Doze rompem o círculo de fogo e vão também perante Ela e se curvem por sua vez. E as Quatro Portas são abertas e por elas entram todos aqueles que servem a Mãe e a Sua Obra.40/17

Primeiro, aqueles que vêm em representação das Sete Nações Sagradas, e que são os Sete Senhores perante o trono do Altíssimo; depois, os Nove Senhores,que são aqueles que ordenam sobre o destino de todos os seres; a seguir, os Setenta e Dois, que são aqueles que governam o mundo e, finalmente, os inumeráveis discípulos e servos que, entre os homens, trabalham na Grande Obra.40/18

Assim se cumpre, no inicio de cada grande ciclo da humanidade, o rito que celebra o renascimento do Menino Rei.40/19

E o Menino, que é a síntese dos três mundos e dos três poderes que há no alto e no baixo mundo, é adorado e glorificado por mais um ciclo.40/20

Sobre a rosa de mil pétalas, ele toma assento, como sobre um trono diáfano e transparente. Aos seus pés sentam-se todos os que o servem: os Quatro Senhores, que regem a estabilidade e a coesão do mundo; os Sete que são as nações e a vontade do Pai nelas; os Nove que são o destino e a lei; os Doze que são os mensageiros e a mensagem dada; e os Setenta e Dois que são aqueles que orientam e servem ao mesmo tempo.40/21

Quatro círculos eles formam em redor do Menino. E o Menino ergue os olhos para eles e eles sabem e partem a cumprir o que são. Assim o Menino perpetua o Mundo, a Palavra e a Obra, não fazendo, mas sendo.

De olhos imensos e transparentes, quase brancos de tanta luz, ele vê e sabe tudo. Nada o surpreende nem altera. Na sua forma e ser, ele é o ponto de convergência de todas as coisas, a síntese de todos os seres e a ponte viva que os une à eternidade.40/22

Ir perante ele e olhá-lo é tudo quanto pode ser desejado por aquele que crê. O mais já seria demasiado.40/23

 

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41

 

XLI

 

Sobre o promontório sacro, uma serpente vela adormecida. Deixada ali por aquele que sonhou Portugal, ali ficará enquanto o cavaleiro vestido de branco não a vier despertar.41/1

Ele virá do lado do Ocidente montado em cavalo de luz e, chegado ali, a sua lança de prata apontará à cabeça da serpente e a enterrará no meio dela, como um falo na terra.41/2

Então a serpente acordará, o círculo será rompido e a luz tomará a lança para si e nela se manifestará.41/3

Mas ai daquele que tocar a lança, que também será a luz, sem ser digno. A serpente o devorará e as suas cinzas serão lançadas ao vento, para que não volte a nascer.41/4

Há mil eras a serpente dorme. Ciclos sobre ciclos ali estiveram e partiram e, caindo sobre a serpente, se desfizeram na eternidade. Pois a serpente que dorme é imagem e símbolo de Deus e nele não há tempo.41/5

Caos ou Verdade, isso é a serpente. O mais é do homem e é sonho dele.41/6

Aquilo que chega à serpente é devorado e reconduzido na sua essência. Eis o que ela dá àquele que não lhe é igual. E mesmo sendo-o, ela o dá ainda. E se dá consciência, só a dá àquele que já a tem. E dando a morte, dá-a porque a morte veio sem se dar conta dela e o corpo está vivo, mas a alma partiu.41/7

Assim ela sela o que o destino cumpriu. Morte ou vida, para ela tanto faz.41/8

 

Um deus a sonhou e do caos a fez sair. E ela, cumprindo o que era antes de ter, imediatamente assumiu e forma do círculo.41/9

Então, o mesmo deus fez dela uma seta que temperou no fogo do espírito. E a disparou rumo ao infinito. E ela foi pelo mundo fora, transformada em cometa e sol desse deus sem nome. E nesta terra caiu, à beira mar, e aqui ficou a sonhar. E se fez deusa antiga, donzela e alma de nação, quando nação ainda não havia.41/10

Aqui, o mesmo deus a viu e a reconheceu. E lhe deu, ele mesmo, a missão de guardar e proteger a terra que a viu nascer.41/11

Por isso essa terra se chamou (e chama ainda) terra de serpentes. E assim há-de ser sempre, enquanto o cavaleiro branco não vier da terra da morte, qual Orfeu que resgatou Euridice, quebrar o seu sonho e transformar o fogo do caos no sinal de um novo ciclo.41/12

 

Então a serpente guardará a lança que será de fogo ígneo e guardará aqueles que vierem para lançar um templo aí, templo onde se há-de adorar a lança do deus e ele mesmo, embora invisível, e, em redor de tudo isto, há-de nascer uma irmandade nova, que terá como símbolos a lança e a serpente. A lança, por ser sinal de Deus e a serpente, por ser sinal da Deusa, aquela que está sempre oculta. E esses serão conhecidos como aqueles que guardam a porta do mar e que servem a serpente.41/13

 

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42

 

XLII

 

Um dragão de fogo: eis a Obra a realizar. Dragão que dorme no coração do homem, se ele for um guerreiro e um santo.42/1

Assim o homem é a Obra e a realização da Obra. E através do homem é o mundo que se realiza. Mas antes, é preciso realizar o homem. E realizado o homem a Obra está feita. Mas se este não se realizar como se há-de realizar tudo o mais?42/2

Tudo parte do homem e tudo regressa a ele, eis a questão. E nada será feito, mesmo pelos deuses, que não tenha o selo do homem, pois o Senhor lhe deu, no início do mundo, o poder e o mando sobre todas as criaturas. E o homem o tomou dando-lhes um nome. Assim ele se assumiu como criador e criatura, princípio e fim da realização. Por isso ele porta a semente consigo, a chama do Senhor, para que realize o mundo e se realize a si. E enquanto o homem não o fizer, os deuses terão de esperar.42/3

 

A Palavra do Senhor: eis o dragão. Palavra que é semente de redenção e fogo que purifica. E o Senhor lança a Sua Palavra pela boca dos profetas e dos servos e dos sacerdotes e os manda a semear a terra e o coração dos homens.42/4

E eles vão de terra em terra, loucos e iluminados, fazer a sementeira, pois não pode haver safra se a terra não for semeada e o Senhor não pode vir, para limpar a terra e separar o trigo do joio, enquanto a semente não tiver sido toda lançada ao solo.42/5

Assim, os profetas e todos os que servem o Senhor, são a Sua semente e o Seu estrume e as águas que purificam.42/6

Realizai-me e realizareis a Obra: diz o Senhor. E como haveis de me realizar se não realizardes a minha Palavra, a minha semente? se não realizardes o fogo que dorme em vós, oculto e ignorado? Assim, realizai primeiro tudo o que sois, para que eu me realize também.42/7

Alimentai a chama, dando-lhe tudo: vaidades ou ideais, tanto faz. Ela se alimenta de vós e vós vos alimentais dela: é isso que importa. Dai-lhe pois tudo: o que sois e o que julgais ser. Pois se sois é ainda pequeno o ser, e se não sois, mais razão há para não o serdes. Dai-lhe tudo e ela vos devolverá a minha chama, já não uma vela mas uma fogueira. E só assim podereis passar da vossa condição de não ser à condição de serdes meus filhos e meus amados.42/8

Pois como poderei eu amar-vos se não vos amar no fogo se não vos amar na revelação? Primeiro tendes de amar o fogo que vos devora, que vos purifica, e só depois de me amar a mim. Pois, se não amardes o meu fogo, como podereis chegar a mim, eu que sou fogo e fogo vivo? Cuidais que chegareis a mim pela carne e pela lei da carne? Só chegareis a mim pelo espírito e pela lei do espírito.42/9

É como espírito que vos quero em mim, não como carne. Espírito que se assemelhe ao que sou, pois se não fordes iguais ao meu fogo, como vos hei-de tomar das sombras e ter-vos comigo? Primeiro amai o fogo e a redenção do fogo. Primeiro amai o fogo que devora a carne, que vos torna espírito e sangue do espírito. Então podereis amar-me a mim e vir até mim, e eu vos receberei e não morrereis mais, pois em mim não há morte, mas eternidade.42/10

 

A minha Palavra está nos meus profetas. Amai os meus profetas e será a mim que amais. Pois quem não ama o servo do seu senhor, como pode ser digno de amar o Senhor?42/11

Amai os profetas e a palavra dos profetas, pois o profeta não existe por si, mas para servir a Palavra. Assim, eu sou os profetas que envio para o meio de vós, para vos reconduzir até mim. E a palavra que há neles sai de mim. Assim, eu vos chamo a mim, através deles, e vos meço e à vossa fé pela medida que usardes com eles e pela fé que tiverdes neles e no que vos é dito. Cuidai pois deles, como se cuidásseis dos vossos bens mais preciosos, pois eu estou com eles e só amando o que eles são, me podereis amar a mim.42/12

Uma ponte eu lancei entre mim e vós: essa ponte chama-se Palavra e chama-se profecia. Amai a palavra e amai a profecia e amai também aquele que vos dá a palavra, pois não há palavra sem profeta e não há profetas sem mim. Eu estou no profeta e ele está em mim.42/13

 

A redenção está na palavra e pela palavra chegareis a mim. Um caminho de fogo é a palavra que vos envio. Um caminho de redenção e sacrifício, onde só os melhores de vós chegarão ao fim. E, para os coroar e celebrar, o último sacrifício. Assim eu vos distingo uns dos outros: através da palavra e através do sacrifício.42/14

 

Julgais amar-me porque me adorais, mas eu vos digo que só me amareis quando, por amor a mim, vos realizardes no meu fogo. E como vos haveis de realizar nele se não for pela morte e pela negação do que julgais ser? Sois carne e putrefacção da carne e, no meio dela, o meu espírito arde. Sois caos e confusão do caos e, no meio dele, o meu espírito vigia.42/15

Julgais amar-me porque me idolatrais, mas só me amareis quando me olhardes face a face e o meu fogo vos devorar, pois o meu fogo devora aqueles que são dignos de mim.42/16

Cuidai para não vos enganar o que julgais ser amor a mim e é só engano de mim, confusão de mim. O meu amor é cristalino, não esse lodo que trazeis na alma, sempre que cultuais aquilo que julgais ser meu e de meu só tem a negação. Eu não sou estátua, ou ídolo, ou templo de pedra: Eu Sou fogo e espírito.42/17

Ajoelhai, porque o meu espírito voa sobre vós e está próximo o meu tempo: o tempo do fogo que vos há-de conduzir a mim. Ajoelhai sobre a terra, pois ela é sagrada para vós. E se quereis ter um templo para mim, tende-o em toda a terra, pois eu amo o barro como amo o espírito do barro. E do barro vos fiz.42/18

 

Que é a carne, senão um barro misturado com sangue? barro onde sopra o espírito. E se eu quero que esse barro se transforme em templo meu, templo vivo, que tendes vós com isso?42/19

Realizai a minha vontade e realizareis a minha Obra para vós, realizareis um templo vivo e eu habitarei nele e poder algum terá poder aí, pois só há um Senhor e uma Lei e uma Vontade. E isso eu sou.42/20

 

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43

 

XLIII

 

No princípio era o caos. E o caos permanecia solitário e indiferenciado. Ele permanecia, e só ele existia. Ele não tinha tempo, mas realidade. O tempo passava e ele permanecia. Ele é a génese da matéria. Ele é a génese de tudo quanto é receptivo, de tudo quanto concebe.43/1

Então, vindo do fundo da realidade, surgiu a luz. E a luz se juntou ao caos e procriou os seres: primeiro as imagens dos seres, o símbolo de cada ser, o seu molde e só depois os próprios seres; primeiro o sonho, feito de realidade e transcendência da realidade e só depois a plasmação do sonho, feito de aparência e imanência da aparência; primeiro Deus, depois o homem e todos os outros que existem.43/2

 

No princípio, para lá do tempo e do espaço e de toda a realidade aparente, ou que possa ser vista, só o caos, só a génese da matéria receptiva. E, vindo do fundo da realidade, para lá do véu de ilusão, a luz, o bafo de fogo que, penetrando a matéria, a fez gerar filhos.43/3

E a luz se uniu ao caos e deu origem ao espaço e aos seres e a tudo quanto povoa o universo, quer seja visível quer seja invisível.43/4

Assim nasceram os primeiros seres, que crescendo sobre a sua realidade e ultrapassando a forma, se tornaram deuses e foram adorados por aqueles que vieram depois.43/5

Daqui partiram aqueles que fizeram as hierarquias e que semearem o cosmos segundo os desígnios dos dois primeiros, daqueles que foram Pai e Mãe de todos os seres e de todas as coisas que existiram, existem ou virão a existir.43/6

 

No princípio só a possibilidade, só o ser difuso e receptivo; depois a mistura na luz, a metamorfose, a síntese dos opostos para formar a realidade dos seres, a luz misturada nas trevas, o caos unido ao espírito indiviso.43/7

Dois espíritos se juntaram para formar tudo. Dois princípios opostos e convergentes. Para trás deles nada há que exista: nem homens, nem sombras, nem deuses.43/8

Não foram criados e de si preexistem a toda a criação ou mudança. São a matéria e são a luz; são o tempo e a eternidade. Contêm tudo, são tudo. Nada está fora deles ou ausente. Assim as coisas nasceram deles e por eles existiram.43/9

 

Matéria e luz: eis tudo. E em cada ser a mesma verdade: um corpo de carne, no qual uma chama arde. A chama é a luz, a carne é o caos. E, ligando os dois princípios, o sangue, que é parte de um e de outro e que os une, que corre como os rios correm sobre e sob a superfície.43/10

A vida é dupla e dupla é a sua face, tendo a Senhora de um lado e o Pai do outro, para ampararem os seres e ajudarem-nos na realização da Obra, pois esta é o destino de todas as coisas e só na sua realização haverá realização para cada ser.43/11

Assim o Pai o quis e a Mãe o assumiu como tarefa Sua, e todos aqueles que Os seguem o assumiram também. E assim tem sido dito a todos os que os ouvem, pois na verdade só há duas coisas que são uma só: o Caos, que é a Mãe, e a Luz, que é o Pai. E cada ser e cada coisa não é mais que parte Sua e realidade Sua. E onde cada ser pensa realizar coisa própria, realiza verdadeiramente Aquele que o criou.43/12

Pois a realização não pertence à forma, mas a essência da forma, tal como a verdade não pertence ao mundo, mas criou o mundo. E o mundo existe e tem forma por vontade daqueles que o quiseram.43/13

 

Tudo vem do um, que é dois num só. Assim a realidade se gerou e nós a vivemos sem dar conta. E gerou os inumeráveis seres e universos nos quais habitam e têm a sua realização. E gerou toda a ideia de ser e de coisa. E de palavra que nomeia e de verbo que realiza. E ainda de sonho que cria o nunca criado nem imaginado possível foi.43/14

Assim a vida nasce do caos e se alimenta dele e se propaga nos seres e, através dos seres, nas coisas. Eis a cobra que morde a cauda, eis o infinito que a razão não penetra nem entende.43/15

E, todavia, o ser terá de se submeter àquilo que lhe é maior e obedecer à voz do espírito, quer esta venha da terra ou do céu, da carne ou da luz, que também é fogo. Pois não há verdade ou realidade que não assentem nisso: matéria e luz, gelo e fogo.43/16

Só na submissão a porta da realização se abre para o ser. E o ser penetra no domínio da verdade e entende, sem entender e realiza, não realizando e é aquele que sempre foi.43/17

Tal é a alquimia que os mestres amam e realizam. Tal é a promessa do Pai e da Mãe para todos os Seus filhos. Que na realização maior outra realização há: a de todos os que obedecem.43/18

 

Os opostos se juntaram e geraram os muitos, que são os filhos da realização. E em todos eles foi posta uma chama, como um sinal e uma prova. Sinal para que não sejam tocados pelos da Sombra e prova para que o ser ascenda rumo aos que o sonharam e lhe deram vida.43/19

E foram criados corpos de carne em cada esfera que, vazia, no espaço existia. E aqueles que tinham começado primeiro, ficaram com isso a seu cargo: de semearem a vida e velarem pela forma. E os mundos se povoaram, um a um, consonante a vontade daquele que tudo gerou.43/20

 

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44

 

XLIV

 

Tudo parte do Pai e tudo a Ele regressa. Como uma cobra enrolada sobre si, assim é o hino da criação.44/1

O Pai, abrindo o caminho da forma, cria os seres e todos os opostos. Depois, na outra extremidade da espiral, acolhe e recebe aqueles que foram até ao fim.44/2

A serpente é o Seu sinal, que se transformará, no coração daqueles que O amam e servem, em dragão de fogo, em dragão alado.44/3

E o homem ergue os braços para ele e estes transformam-se em asas. Asas onde o fogo arde, como um archote de mil pétalas.

Assim o homem vai perante o seu Senhor, como um filho do dragão e na Sua corte de mil anjos toma lugar.44/4

 

A sombra não é o oposto da luz, mas a sua negação. E aquele que ama a sombra não está perdido para a luz, nas está perdido pela luz, pois só os semelhantes se atraem e o Senhor só escolhe aqueles que, tendo ido até ao fim do caminho, venceram a sombra e a destruição da sombra e a negaram por amor à luz.44/5

Assim o plano do Pai se cumpre neles, realizando-se através deles e das suas obras, que são de expiação e redenção do homem.44/6

Pois o homem é como uma ponte entre a sombra e a luz, que terá de escolher o seu caminho realizando a síntese dos opostos, ou domar o seu fogo e pô-lo ao serviço da vida.44/7

 

Uma coluna de luz, eis o Senhor, que arde sobre a mais alta montanha do mundo, como um sinal.44/8

Pois o Senhor enviou os Seus servos e os Seus sacerdotes e todos aqueles que O amam para o mundo. E eles misturaram-se entre os homens e alguns perderam-se e outros acharam-se. E alguns tornaram-se escravos dos homens e da dor e luxúria dos homens e outros tornaram-se ídolos e deuses dos ídolos. Assim a mesma semente deu frutos diversos. E o Senhor viu a tristeza dos Seus filhos e compadeceu-se deles.44/9

Então escolheu para Seu templo a montanha mais alta do mundo, aquela que domina sobre todas as nações e que está para lá delas, e aí se colocou como um sinal vivo, para que todos aqueles que vierem ao mundo e nele se perderem, O possam encontrar no mundo.44/10

Pois aquilo que se perde na carne é na carne que se tem de achar e aquilo que se perde em Deus é nele que se terá de reencontrar, já que o mundo e a carne são a ilusão do Pai para os Seus filhos e a Sua redenção para eles.44/11

 

Um altar imenso, eis o mundo. Um altar com um único ídolo: o Senhor, que não está visível em estátua ou forma, mas em espírito e verdade.44/12

Assim o mundo foi criado, como um altar onde toda a ilusão fosse sacrificada por amor a Ele, que é a origem e o fim de tudo quanto vive. E toda a criatura não é mais do que carne sacrificada, do que dor sublimada ali. Por amor não à carne, mas ao fogo que a anima; não à dor, mas à redenção na dor; não ao sacrifício, mas ao Senhor do sacrifício.44/13

Tal é a verdade que rege o altar e que rege o mundo. E todo o caminho a esse altar conduz. E toda a santidade é aí que se torna fulgor e submissão ao desígnio supremo. Pois só há um altar e só há um Senhor do altar. E todo aquele que for perante o altar, terá de se ajoelhar por terra e fechar os olhos da carne e abrir os da alma, para ver o Senhor e todos os Seus filhos na luz. Pois só a visão do Senhor pode salvar a alma e transmutar a carne em fogo e torná-lo espírito.44/14

Eis a vontade do Pai para os Seus filhos: que eles se tornem espírito, não pela negação do sangue, mas pela transformação do sangue em luz, pois o sangue é o alimento da terra, e é o alimento do altar e deve encher a taça que contem a semente do futuro: ou o futuro não poderá existir.44/15

 

Derramai o sangue: diz o Senhor aos Seus filhos. Mas derramai-o por amor não à sombra, mes a mim; não por amor à carne e aos anseios da carne, que são anseios da ilusão do mundo, mas por amor ao sangue e à luz que há nele.44/16

Assim cumprireis a minha vontade e realizareis o mundo, pois o mundo realizado é como um vasto espírito, todo luz e fogo, e, nessa luz e nesse fogo a minha lei, como um sinal.44/17

Assim o quero, ao mundo, como um sinal. Dai-lhe pois o vosso sangue e eu lhe darei luz. Mas cuidado, para que não haja no sangue vaidade ou ilusão do mundo, ou o vosso sangue gerará monstros e trevas.44/18

Que o vosso sangue seja a imagem do vosso espírito e não a sua negação, pois só o sangue puro pode conduzir a mim. E se ele for derramado sem eu estar nele, virão as sombras e toma-lo-ão para si e aquele que o tiver derramado será tomado por elas e estará perdido.44/19

 

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45

 

XLV

 

Um grande atanor: eis o mundo, no qual se prepara, em cada momento, a grande mutação: a dos filhos da luz.45/1

E eles ascendem rumo às alturas, transformados em fogo vivo, até ao lugar onde o Senhor os espera. E o Senhor recebe-os na Sua taça, que também é o Graal, e nela os preserva de toda a perda e profanação.45/2

E uma vez realizado isto, os coloca sobre o Seu altar, que é o altar do próprio mundo.45/3

Assim se cumpre a lei e se realiza e missão dos seres, pois que tendo partido do Pai a Ele retornam. E tendo sido criados pelos opostos, realizaram a sua síntese.45/4

 

Um grande dragão: eis a humanidade realizada, que ascende sem cessar, melhor, que realiza a ponte viva de luz que une Pai e Mãe, Aquela que recebe e Aquele que emite.45/5

Assim o fogo que o Senhor lançou sobre o caos para realizar a matéria viva, retorna a Ele, transformado em luz. E o Senhor o toma e o acolhe em si. E este fogo não se perderá jamais.45/6

 

No princípio era o caos. E sobre ele caiu o fogo e o fogo o transformou em matéria, matéria que vive.45/7

Isto aconteceu no princípio, antes dos deuses e das forças se terem organizado para gerar os seres e os mundos. Isto aconteceu quando ainda não havia tempo, mas eternidade; nem espaço, mas centro imóvel; nem ser nem coisa, mas apenas manter e existir. E por existir tudo se bastava. E por não existir se bastava também.45/8

Isto aconteceu no princípio. E depois disto tudo aconteceu: os seres e a geração dos seres, feitos à imagem e semelhança dos deuses, que são o seu arquétipo e fundamento. E todas as coisas, reproduzindo a mesma coisa: lei e mistério do Senhor.45/9

Assim o mundo se fez, génese e matriz de todos os mundos havidos ou por haver ainda. E os deuses que o homem adora e não entende, foram feitos também, pois é bom que haja adoração no homem e em todas as criaturas, para que os seres se elevem na sua condição natural e ascendam ao Senhor.45/10

Isto faz-se pelo amor do mais alto e pelo desejo do mais sublime e pela elevação da alma àquilo que já não é alma mas luz. Isto faz-se por vontade do Pai que o desejou nas criaturas e para elas o concebeu e elas o realizam. E querendo ascender aos deuses e com eles se fundir, descobrem-se unidas ao Pai e com Ele fundadas.45/11

Tal é a verdade fundamental do mundo e das coisas do mundo; tal é a verdade do Senhor que todas as criaturas realizam.45/12

 

Todos os mundos são um só. Sobre esse o Pai e a Mãe estão juntos, caos e fogo somados um ao outro. Porque o fogo deve transformar o caos para gerar a matéria viva e o caos deve arrefecer o fogo para gerar a luz.45/13

E que são os mundos senão a cópia deste mundo? Cópia e geração, palavra ou verbo: emissão do Senhor. E os mundos partem a realizar a Lei, portando no seu ventre o mesmo fogo e o mesmo caos entrelaçados. Cópias também dos mesmos que realizaram tudo.45/14

Assim cada mundo tem em si o fundamental: aquela que concebe e aquele que realiza. Aquela que recebe a semente no seu atanor invisível e aquele que é a semente recebida.45/15

E o fogo aquece o ovo e este transforma-se e transforma a semente. Então aparecem os seres com alma e destino e a humanidade (que é o conjunto de todas as coisas vivas) povoa o mundo e o mundo realiza-se.45/16

E uma vez realizado o ovo e a semente que ele contém, o mundo transforma-se em luz e regressa àqueles que são o centro imóvel de todas as coisas. Regressa nunca tendo partido, retoma nunca tendo abandonado - é o que sempre lhe foi dado ser.45/17

E os seres, que são também tudo isso, o entendem e se fundem entre si e com o mundo, realizando a Unidade a Vontade e a Lei. Pois assim o determinou aquele que é Pai e Mãe de todas as coisas.45/18

 

Sobre o Absoluto três mundos estão postos: entre si formam o triângulo do Senhor. Três espíritos velam pelos mundos. Austeros e em silêncio eles velam pela realização da Obra.45/19

Nada acontece que não tenha neles o fundamento, nada se passa que não tenha neles o destino. Assim é, foi e será sempre, enquanto o Senhor o quiser e o determinar.45/20

Pois o Senhor é o rosto invisível de que todas as coisas são a aparência visível. E querendo os seres realizar coisas, realizam-nas através do Senhor das coisas e não através delas mesmas; e querendo ser tudo quanto devem ser, são-no ainda por vontade do Senhor e não por vontade das criaturas.45/21

Isto é a Lei e é a vontade que realiza a Lei e não há coisa ou ser que não o cumpra, mesmo quando julga não o cumprir.45/22

 

O Senhor o fez e o concebeu. Assim o homem nasceu do Senhor, como a flor nasce da semente lançada à terra. E por ter sido criado pelo Pai é um só com Ele e nele se realiza, realizando a Obra. E esta Obra é tudo: mundo e génese dos mundos, carne e génese da carne, palavra e génese da palavra.45/23

Assim o Senhor o quis e o homem o realiza. E realizando isto, tudo está feito, pois só há uma coisa que são duas e que são muitas. E é na realização da unidade que tudo será retomado, para que não haja ilusão nem veús sobre os deuses e o abismo, mas visão do ser uno e integral, e nele cada ser se reveja e se retome e se funda. Tudo isto o Pai quer e se faz.45/24

 

Que não ame o homem aquilo que o Pai para ele não destinou. E se tem de se iludir sobre a carne e sobre o abismo, que não ceda a alma aos Senhores das sombras.45/25

Que é o homem sem alma? Aberração e negação da vida! Caminho da destruição que leva aonde? Nem ao caos, porque aqui o Senhor tem a Sua mão e a Sua lei também. Onde levará então? À ilusão do caos, mas não ao caos, pois aquele que cede a sua alma por troco com a ilusão da morte, perde a sua alma e perde a morte.45/26

A morte é a ilusão do ser que está vivo e deseja a aniquilação do existir. Mas tomada esta e passado o longo corredor, é a vida que se abre para aquele que ousou. Que aquele que cede a alma não julgue por isso alcançar vida imortal ou negação da vida, mas antes alcançará um ser que não o é e um estar que não é coisa alguma. E nesse não ser nem estar, estará e será não sendo. Assim a ilusão será suprema senhora e nada mais concederá.45/27

 

E que são as sombras senão ilusão do homem e véu que o Senhor lançou sobre aqueles que O amam pouco? Se têm vida, têm-na à custa do homem, porque ele lhes faz sacrifício da alma e os alimenta assim. E elas crescem devorando os vivos e aqueles que não amam a luz ou a temem.45/28

Por isso o Senhor pôs dois anjos guardando as portas do céu. Anjos de fogo, guardando o fogo. E no meio do céu, sobre o altar, o Graal, esse onde está o sangue dos mártires e dos profetas e dos sacerdotes e onde está a grande alma do mundo. Tesouro cobiçado pela sombra, pois a sua posse dar-lhe-ia a posse do mundo e dos seres do mundo.45/29

Mas o Senhor vela sem sono nem ilusão do sono. E os Seus anjos velam com Ele. E os sacerdotes e os servos e todos aqueles que servem no mundo e no templo do mundo, velam também.45/30

 

Breve é o reino da sombra: um instante apenas e passa. O Senhor o quis, o Senhor o determinou. Que não se turve o entendimento do homem nem o seu coração, pois tudo aquilo que existe serve a lei e serve o Senhor da lei. E serve-a ainda quando parece servir o seu oposto: o mundo e aqueles que amam o mundo.45/31

Um eclipse de luz sobre o mundo, eis o reino da sombra. Mas a face do Senhor breve se desoculta e o sol brilha e a sombra desvanece-se. E sobre a face da terra não há sombra, pois não há carne para impedir a luz.45/32

Assim o homem se transformará na luz e esta o transformará também. E não havendo carne mas luz, como haverá sombra ou ideia da sombra? A sombra é assim não uma coisa em si, mas uma ilusão do homem que a luz cria. E o homem crê como crê em tudo, iludido e confuso.45/33

Mas quando o mundo for transformado em luz por realização da Obra, cada homem será também transformado e então nada ocultará a luz. Antes ceús e terra serão um só sob o olhar do Senhor e Este a tomará para si e a colocará sobre o Seu coração, para alimento Seu e sinal do Seu amor. Pois o homem está destinado no amor do Pai e só nesse amor se realizará o homem e o mundo do homem e a Obra se fará ouro e vermelho de fogo alquímico e luz que não tem cor.45/34

 

Que aquele que quer realizar o mundo realize antes a Obra do mundo, diz o Senhor. E realize a luz e realize o meu fogo. E o alimente em cada instante, pois aquele que assim fizer há-de ascender a mim como uma luz muito difusa e eu a tomarei para que não se perca no firmemente e a guardarei para o futuro. E o futuro será realizado nele.45/35

 

 

 

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INDICE   DO LIVRO DA VIDA

 

 ao PROLOGO 

CAPITULOS:

I-  El Libro de la Vida es

II-  Este es el Libro de IOAN 

III-   He aquí el Libro de la Generación de los Seres

IV-  La Vida de los Seres es el Dolor del Alma

V-  La Gran Madre es el Alma   

VI-  El Libro de la Vida

VII-  Cuando la Palabra Suene 

VIII-  En el Huevo Está el Germen

IX-  He aquí la Génesis de los Mundos

X-  Las Huestes del Señor

XI-  El Espíritu del Señor Vigila

XII-  La Verdad del Señor

XIII-   He Aquí el Libro Hace Mucho Esperado

XIV-   Este es el Libro del Señor

XV-   La Palabra del Señor

XVI-   En el Corazón del Mundo

XVII-  El Señor es Fuego

XVIII-  La Palabra del Señor Quema en los Labios

XIX-  La Mano del Señor está Suspendida

XX-  En Tu Generación Escribiré un Libro

XXI-   Este es el Libro que ya Era

XXII-   Que Aquel que Camina

XXIII-   La Vida de los Seres es la Gloria del Señor

XXIV-   La Sangre es el Espíritu Crucificado

XXV-    El Fuego del Señor Cae Sobre el Alma

XXVI-  La Palabra del Señor es Como una Nuez

XXVII-  La Carne del Hombre es Como un Campo

XXVIII-  El Génesis de los Seres Comienza en Adan

XXIX-  Y en el Tercer Día

XXX-   En el Principio Era el Verbo

XXXI-  Y en el Séptimo Día

XXXII-  El Verbo es la Carne

XXXIII-   Veo una Rosa

XXXIV-    Veo un Dragón Alado

XXXV-    Y en el Tercer Día

XXXVI-   El Ángel del Señor

XXXVII I-  El Señor es un Guerrero

XXXVIIII-  En las Entrañas del Mundo

XXXIXI-  Hay Siete Naciones Sagradas

XL-  En el Centro del Mundo

XLI-  Sobre el Promontorio Sacro

XLII-  Un Dragón de Fuego

XLIII-   En el Principio Era el Caos

XLIV-   Todo Parte del Padre

XLV-    Un Gran Atanor

XLVI-  Sobre el Mundo

XLVII -    La Palabra del Señor

XLVIII-  Y en el Tercer Día

XLIX-  El Reino del Padre

L-  Siete Ángeles el Señor Envió

 

 

 

LII-  He aquí el Libro del Señor

LIII-  El Señor es Como un Jardinero

LIII-   Tres Fuegos hay en el Hombre

LIV- El Camino del Hombre

LV-  Ante el Señor Tres Símbolos

LVI-   Una Cruz de Fuego

LVII-  El Espíritu de Dios Habló

LVIIII-  Una Columna Ardiente

LIXI-  Cuando el Libro Estuviera Escrito

LXXI-  En Un Templo Ignorado y Oculto

LXI-  Lo Que es el Mundo

 LXIII-  Exultad, oh Hijos de la Lusitania

LXIIII-  Exulta, oh Lusitania

LXIV-  Alégrate, oh Lusitania

LXV-    Un Libro Sellado

LXVI-   Tres Medicinas hay en la Rosa

LXVII-   Un Consolador yo os Envié

LXVIII-  La Palabra del Señor

LXIX-  El Señor lo Concibió

LXX-  Sólo hay un Señor y un Siervo

LXXI-  Sobre el Borde del Abismo

LXXII-  Sobre un Libro Cerrado

LXXIII-  El Mundo es Como Una Torre

LXXIV-  El Espíritu del Señor

LXXV-    Una Vara Bajo el Firmamento

LXXVI-   Entre el Cielo y la Tierra

LXXVII-  El Conocimiento de las Cosas de Cielo

LXXVIII-  He Aquí el Gran Vacío

LXXIX-   Todo el Comienzo es Involuntario

LXXX-  Una Llama en el Medio de un Círculo

LXXXI-    El Espíritu del Señor

LXXXII-   El Alma es como una Perla

LXXXIII-   Hay la Obra y hay el Hacedor de la Obra

LXXXIV-   Y en el Tercer Día

LXXXV-   Toda la Obra es Incierta

LXXXVI-  En la Sombra se Agacha

LXXXVIII-  Hay la Obra y hay el Señor de la Obra

LXXXVIIII-  A Qué se Ha de Comparar la Obra

LXXXIX-   Es el Mundo Como una Esfera

XC-   No hay Mayor Alquimia

XCI-  El Libro no es la Obra

XCII-  En el Medio de una Esfera de Negrura

XCIII-  El Espíritu del Señor

XCIV-  Del Limbo el Señor Llamó

XCV-   El Espíritu de la Obra

XCVI-   Una Mano Ardiente en El Cielo

XCVII-  Sólo Hay un Secreto bajo el Cielo

XCVIII-  El Espíritu del Señor es Como una Luz

XCIX-   La Palabra es Vida

C-  Sangre y Lágrimas

CI-   El Espíritu de las Tinieblas

CII-   El Hombre es como una Cáscara Vacía

CIII-  Una Zarza Ardiente

CIV-   Una Vara de Fuego contra el Firmamento

 

 

   A UNHA AMOSTRA  EXTRACTADA DOS TEXTOS

 

EN ESPAÑOL

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