- Ssshhh, vai acordar a casa inteira.

- Eu? - o Zac protestou.

- O único que trota nessa família é você.

- Você vai calar a porra da boca, Isaac, ou eu mesmo vou ter de fazer isso?

- Ok, sir - rindo do nervosismo do irmão.

O Zac foi descer os três pequenos degraus da entrada para a sala de estar e acabou derrubando seu molho de chaves no chão de madeira reluzente.

- Caralho, Zac, são seis e meia da manhã.

- Caiu, ok? Ou você acha que eu derrubei só para te ouvir reclamando?

- Toma mais cuidado.

- Tomar mais cuidado? Escuta, a gente só está chegando a essa hora em casa porque você quis ficar no The SS até sair o último ser vivo de lá de dentro. Então não me venha dar ordens porque nós poderíamos estar chegando mais cedo e eu poderia estar fazendo o barulho que eu quisesse.

- Sssshhh! Zac, fala baixo - o Isaac sussurrou.

- Shhh, Zac, fala baixo - o Zac o imitou fazendo careta. - Não falo.

- Eu sei que isso é mais complexo para você, mas Zac, por favor, faça um esforço e aja com um pouco de maturidade.

- Não vou falar baixo. E não enche o meu saco.

- O que está acontecendo aqui? - a Gina apareceu com o seu roupão de florinhas, remelas nos olhos e cara de sono.

- Gina?

- Posso saber o motivo da falação às seis e meia da manhã?

- Você ouviu a minha voz por algum momento, Gininha? - o Isaac perguntou.

- Não. Só a do Senhor Zachary aqui - fez cara de brava.

- Gina, desculpe, mas é que esse bosta do meu irmão ficou me provocando e... - o Zac se justificou.

- Não quero saber. Vão, subam logo que está muito cedo. Não é hora nem de eu estar de pé ainda.

- Durma bem, Gina - o Isaac disse, sorrindo cinicamente.

- Onde já se viu... Só porque hoje eu ia poder dormir até um pouco mais tarde... - a mulherzinha saiu resmungando.

            O Isaac ficou parado, olhando para o Zac, com o sorriso no rosto.

- Eu vou fazer você engolir esse sorrisinho junto com os seus dentes.

- É, claro que vai, Zac... Vai, vamos dormir que eu estou precisando.

            Subiram as escadas com passos de princesa. Cada um foi para o seu quarto. Enquanto Isaac tirava suas roupas para trocá-las pelo pijama, o Zac apareceu, querendo saber do seu celular:

- Zac, para que você vai precisar do seu celular agora?

- A Lynne vai ligar lá por umas quatro da tarde e como provavelmente eu vá estar dormindo, eu preciso dele perto de mim.

- Procura no quarto do Taylor. Acho que ficou com ele ontem à noite.

            E lá foi o Zackito atravessar o corredor em direção ao quarto do irmão do meio. Tentou abrir a porta, mas estava trancada. Forçou a fechadura mais umas vezes e nada. E por ser esta pessoa educada e repleta de amor no coração pelo próximo, o Zackito começou a esmurrar a porta com a força absurda que carregava nos braços:

- Taylor, acorda. Vai, sua bicha, eu preciso do meu celular.

- Zac! - o Isaac socou o antebraço do irmão, falando em cochichos. - Você vai acordar todo mundo, seu imbecil.

- E como você quer que o Taylor acorde se eu ficar cochichando que nem você? Vai, Taylor, acorda, eu quero o meu celular - o Zac continuou batendo.

- Zac, deixa o Tay dormir. Depois você pega o seu celular - o Isaac tentava convence-lo.

- Não, a Lynne vai ligar e se eu não atender, ela vai ficar ligando no telefone aqui de casa e vai mandar alguém me acordar. E você sabe como eu adoro ser acordado, não é...

- Mas se ela ligar no seu celular você vai ser acordado do mesmo jeito.

- Eu sei, mas daí eu berro e reclamo no ouvido dela e não no da mamy ou do papy - o Zac falou, fazendo cara de filhinho comportado. - Tay, acorda sua bigorna hibernante.

- Zac, depois você pega esse celular.

- Não, eu quero ele agora, mas que merda. E pára de sussurrar que tá me irritando.

            Foi quando o Taylor abriu a porta, sem camisa, com o lençol enrolado na cintura, descabelado, puto da cara e proferindo flores e passarinhos:

- Puta que pariu, caralho, porra, cacete.

- Ssshhh - o Isaac persistia heroicamente incansável.

- O que você quer, merda - o Taylor disse.

- Deixa eu pegar o meu celular.

            O Zac já foi entrando no quarto do Taylor, mas parou assustado quando viu o que estava na cama do irmão.

- Ainda bem que ela não acordou. Senão eu teria te quebrado - o Taylor disse.

            O Isaac não precisou entrar e ver para saber do que se tratava.

- Ops... - o Zac só agora falou baixinho.

- Sai daí, porra - o Taylor mandou. O Zac voltou para a porta do quarto, ao lado do Isaac.

- Eu não sabia que a Patty tinha dormido aqui - o Zac falou.

- Como se isso fosse fazer alguma porra de diferença para você, não é Zac?

- Vocês...? - o Zac quis saber, ainda meio assustado.

- Não. Eu e ela dormimos sem roupa porque na nossa religião é pecado irmos para a cama de pijama no Sábado.

            O Isaac se matou de rir. A cara do Zac estava uma coisa linda.

- Tay, você sabe que se a Dona Diana descobrir, ela não vai gostar muito - o Isaac o preveniu.

- Eu sei. A casa é grande, ela não vai descobrir. E também, hoje é dia de pagar contas. A família toda fica fora a manhã toda.

- Bom, então... Aproveite - o Isaac sorriu.

- E Zac, a merda do seu celular não está aqui - o Taylor falou antes de fechar a porta.

            E o Zac continuou com a mesma cara de assustado, o que provocou algumas boas risadas no seu maninho Isaac.

- Que foi, Zac? Por que está com essa cara de virgem que pegou os pais transando no meio da noite?

- Fuck you.

- Como se você nunca tivesse comido ninguém... - riu de novo.

- Não, é que... Eu não sei, eu nunca imaginei o Taylor e a Patty... Bom, deixa para lá.

- Por quê não?

- Eu não sei... O namoro deles para mim era como um ideal, não sei.

- Namoro ideal sem sexo? Que espécie de ideal é esse?

- Não é isso. É que, para mim, eles eram algo mais... Puro.

            O Isaac tirou a expressão de sátira do rosto, dando lugar a um semblante mais sério. Passou a ouvir Zac com mais atenção.

- Não sei, mas parecia que o namoro deles era auto-suficiente. Que o Taylor esperaria mais tempo antes de querer dormir com a Patty simplesmente porque isso não era o mais importante.

- Mas eu acho que é natural que isso acontecesse entre eles, Zac.

- Eu sei, mas... Esquece, não quero ficar explicando.

- Explica, Zac. Eu quero entender.

- Porra Isaac, se esforça. Você sabe que eu odeio explicar coisas.

- Eu sei disso, mas agora você vai ter que fazer um sacrifício.

- Shit... ok. - O Zac respirou fundo. - O que eu estou tentando dizer é que, sei lá, agora que eles dormiram juntos, eu não sei se o Taylor vai continuar se sentindo do mesmo jeito em relação a Patty.

- Por que ele mudaria?

- Porque acabou o mistério da Patty. Ela transou com o Taylor, fim, that’s it. Ela é só mais uma.

- Zac, o Taylor está apaixonado. E se ele quis fazer amor com a Patty, foi justamente por gostar muito dela.

- Desde quando o Taylor “faz amor”?

- Quando ele faz sexo com a garota que ele ama.

- Não sei, não...

            Silêncio.

- Ele não pareceu muito feliz, como quando ele fez a serenata pra Patty, por exemplo.

- Mas também, Zac. Como você queria que ele ficasse com você quase colocando a porta abaixo às seis e quarenta da manhã?

            Silêncio novamente.

- É que, para mim, vai ficar mais complicado agora de acreditar que o Taylor ama a Patty de verdade, transando com ela.

            Às vezes, o Zac aparecia com uns raciocínios com tanto sentido que dava até medo. E era exatamente isso que circulava a mente do Isaac naquele momento: medo de o irmão estar certo.

 

...

 

            10:47. Esse era o horário que o relógio marcava quando a Patty abriu os olhos devagarzinho e olhou para o rádio-relógio no criado-mudo. Era uma manhã fria. Mas frio não era o que a Futemminha sentia ali debaixo do edredom, aninhada no corpo do namorado. E lentamente, ela foi acordando, se espreguiçou... Que sensação boa que ela sentia. Acho que nunca estivera tão apaixonada por Taylor.

            Ficou observando o namorado um tempo. A expressão neutra, os fiozinhos loiros delicadamente caídos pelo rosto, de maneira não uniforme. A boca do Taylor parecia fazer biquinho. E a falsa aparência de braveza, devido ao formato das sobrancelhas, deixava o Taylor ainda mais bonito. A Patty passou os dedos pelos loiros cabelos. Tais movimentos fizeram com que Taylor acordasse também.

            Ele não se moveu. Apenas abriu os olhos. Azuis, fortemente azuis.

- Good morning, honey - O Taylor sussurrou, sorrindo.

- Hey handsome.

            O Taylor a puxou para mais pertinho e deu beijinho de esquimó. Ou seja, esfregou o seu nariz no da Patty todo carinhosinho.

- Eu acho que eu nunca me senti tão próxima de um ser humano como agora e ontem à noite - a Patty disse baixinho.

            Esta observação fez abrir no rosto do Cumprido um sorriso lindo. Então deslizou os dedos pelos cabelos pretos e lisos da Patrícia. E disse:

- Eu sei que “eu também” não é a resposta mais romântica que eu poderia dar, mas... Você é bem melhor nisso do que eu. - A Patty riu. - Eu te amo muito, sabia?

- Eu sei que “eu também” não é a resposta mais romântica que eu poderia dar, mas...

            O Taylor riu daquele jeito gostoso. E disse:

- Quer namorar comigo?

- Todos os dias.

 

...

 

            E como prometido, a Ló ligou no celular do Zac aproximadamente às três horas da tarde, uma hora antes do combinado. Não precisa nem dizer que o Zackito já viu aí a razão de querer a amiga morta:

- Porra, não era pra você ligar às quatro? - dizia com aquela voz de sono, totalmente rouca.

- Era, mas eu quis ligar uma hora mais cedo.

- E por que você quis fazer uma atrocidade dessas?

- Eu sabia que você ia achar ruim. Eu já até estou preparada para ouvir os seus xingões.

- Ótimo, porque você vai ouvir muitos.

- Mas aí eu lembrei de um detalhe que me fez te ligar.

- E que porra de detalhe é esse?

- Que você tem a vida toda para dormir.

            O Zac só não meteu um soco na cara da Ló porque eles estavam falando pelo telefone.

- Garota, eu te odeio.

- Não, você não me odeia, não.

- Odeio sim.

- Odeia nada!

- Odeio tanto que eu não conseguiria me expressar o suficiente.

- Zachary, você não me odeia.

- Você ficaria surpresa.

- Você está falando sério?

- Estou.

- Você então me odeia?

- Odeio.

            A Ló não gostou disso. E nem disfarçou sua irritação:

- Seu escroto, filho da... Não, eu gosto da Diana. Porra! Qualé a sua? Eu NUNCA começaria a te odiar só por causa de uma coisa cretina dessas.

- Lynne, sua múmia! Acontece que...

- Não quero saber, seu estúpido. Vai, volta a dormir. Mas é bom você dormir para sempre porque se você acordar e aparecer na minha frente, eu sou capaz de cagar na sua cabeça.

            Então desligou.

- Lynne? Lynne?!

TU...TU...TU...TU...TU...

- Merda - o Zac esbravejou, jogando o celular na parede. - Porra de menina estressada!

            O Isaac já estava acordado e lia no escritório quando ouviu aquele barulhão vindo do quarto do Zac, no momento em que o celular-bomba foi lançado em direção a parede.

- E lá se foi mais um celular, ou mais um despertador ou mais um abajur... - o Isaac suspirou, voltando-se novamente para o livro.

Mas que bosta! , o Zac gritou lá do quarto.

- 5...4...3...2...1... - o Isaac contava baixinho. - Zero.

- Porra, eu vou socar essa garota! - o Zac apareceu no escritório, berrando.

- Zac, que surpresa - o Isaac ironizou.

- Eu vou parar de falar com essa Lynne. Caralho, que menina mais complicada!

- Zac, calma, respira uns segundos.

- Que merda respirar o que! Eu vou ligar para ela agora e vou dizer tudo o que eu penso dela - o Zac gritava.

- E o que você pensa dela, Zac?

- Eu penso que... Eu penso que... Que ela fala demais!

- Como toda mulher.

- Que ela é uma fresca!

- Como toda mulher.

- Que ela fica brava por motivos ridículos, como quando eu falo que eu a odeio!

- Como todo ser humano.

- Quê?

- Zac, faz o seguinte: toda vez que a Ló ficar brava com você, se coloque no lugar dela dentro da situação. Pronto, assim você descobre se ela está certa ou não - olhando para o livro novamente.

- Mas ela está errada! Ela não tem porque ficar brava comigo!

- Você sempre diz isso, mas se eu te conheço, a Ló deve ter tido milhões de motivos para ficar puta com você.

- Você é meu irmão, você tem que ficar do meu lado!

- Eu estou defendendo apenas o que eu acho certo.

- Bosta de garota.

- O que foi que aconteceu afinal?

- Ela me ligou, eu acordei mal-humorado e disse para a Lynne que a odiava. E só por isso ela ficou puta da cara!

- Só por isso? Puxa... Que menina mais fresca, não é mesmo? - o Isaac ironizou. - Zac, eu sei que faz algum tempo que voocê não entra em um relacionamento sério, mas eu acho que se você se esforçar, você vai lembrar como deve se tratar uma mulher.

- É lógico que eu sei tratar a porra de uma mulher!

- Claro que sabe. Provas disso estão por todas as partes - ironiza mais uma vez.

            O Zac ficou resmungando, puto da vida porque sabia que o irmão mais velho estava certo. E sem saber o que responder ficou lá, andando de um lado para o outro, murmurando frases de Zac-quando-está-bravo.

- Zac, você não diz a uma mulher que a odeia. Aliás, você não pode dizer isso a ninguém que você ame.

- Eu não amo a Lynne!

- Ama sim. Por mais que você diga que não, a amizade dela é muito importante para você.

- Vá se foder!

- Ou você acha que se você não a considerasse uma grande amiga, você estaria aí, todo nervoso, se importando com o que ela pensa?

- Whatever.

            O Isaac abriu o livro e retomou a leitura. O Zac ficou mais um tempo praguejando, xingando e ofendendo cada molécula de ar ao seu redor.

- Só uma pergunta, - o Isaac interrompeu as profecias do irmão. - o que você jogou na parede desta vez?

- Meu celular - o Zac respondeu, um pouco envergonhado. - Mas ah!, estou cagando pra’quele celular! Foda-se o celular! Merda de celular! Eu odeio aquele celular filho de uma puta!

- Bad bad cell phone... - o Isaac sussurrou, lendo o seu livro, rindo dos desabafos do Zackito.

- Agora ela deve estar lá na casa dela, no quarto dela, remoendo uma puta raiva de mim, desejando que eu morra e nunca mais beije ninguém na minha adolescência inteira! That bitch!

- Ou ela deve estar chorando magoada porque o melhor amigo dela disse no telefone que a odeia.

- Oh God... Do you think she is...?

- Crying?  Eu acho sim.

- Merda... - O Zac caiu sentado no sofá. - Eu sou um idiota mesmo.

- Pode apostar que é.

- Mas ela pode estar bem agora, não pode? Quer dizer, vai ver que ela não levou tão a sério esse negócio que eu disse. Porque eu só disse que odiava a Lynne porque eu fico meio puto quando me acordam.

- Foi você que falou com ela no telefone, você deve saber se ela ficou bem quando desligou. Foi você quem ouviu o tom de voz dela, não eu.

- Lembrando agora... Ela estava com voz de choro.

- Então - olhando para o livro.

- Bosta.

 

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