O EVANGELHO DA RECONLIAÇÃO
Muitos têm notado
uma aparente tensão nas palavras de Paulo concernentes á nossa reconciliação com Deus.
Em sua famosa passagem de II Coríntios 5, Paulo anuncia triunfante o fato histórico de
que "Deus estava em Cristo, reconciliando consigo o mundo"(verso 19),mas
imediatemente dirige ao homem o surpreendente apelo: "Rogamos que vos reconcilieis
com Deus"(verso 20).
Como podemos harmonizar estes dois conceitos: o fato de que Deus em Cristo já reconciliou
consigo o mundo, e a ordem de Deus ao homem para que se reconcilie com Ele?Por que após o
ato divino de reconciliação deve ainda ocorrer um ato humano?
Muitos têm procurado evitar essa tensão enfatizando um aspecto em detrimento do outro.
Alguns têm salientado que Deus já reconciliou tão perfeitamente a raça humana na cruz
que todos estão reconciliados a despeito de si mesmos. O pecador apenas precisa
sabê-lo.Cristo morreu pelos pecados de todos; portanto, todos os pecados foram expiados e
perdoados na cruz. O pregador tão-somente deve anunciar essas boas novas para
que todos fiquem cientes delas. Tal ênfase tem conduzido ao ensino do universalismo, isto
é, toda humanidade, de alguma forma, será finalmente salva.
Outos vão ao extremo oposto, dando tanta ênfase à parte humana a ponto de a fé e o
amor se tornarem a base sobre a qual Deus aceita o crente. Esse ensino, conhecido como
moralismo religioso, leva muitos à crença que a reconciliação com Deus depende
primeiramente de nossa boa vontade e amor a Deus em resposta ao amor de Deus revelado na
cruz de Cristo. De modo que a cruz de Cristo exerce uma influência moral sobre o homem.
Muitos calvinistas defendem a posição de que os méritos da obediência e sacrifício
voluntário de Cristo satisfazem exatamente a necessidade dos crentes predestinados de
todas as eras, donde se conclui que Cristo morreu apenas por Seu próprio povo, os
eleitos. Calvino baseou a expiação de Cristo no eterno decreto de Deus de que o
sacrifício de Cristo seria eficaz somente para um número de pessoas previamente
selecionado. Segundo essa crença, Cristo proveu uma expiação limitada na cruz,
insuficiente para todos os pecadores.
A palavra "reconciliação"(Katallage) pressupõe uma alienação entre duas
partes que estiveram originalmente unidas. Portanto, reconciliação significa
restauração de um relacionamento de amor e confiança que fora interrompido.
Paulo usou o verbo "reconciliar-se" em seus conselhos a uma mulher casada a qual
se havia separado de seu marido. Disse ele em nome do Senhor : "que não se case, ou
que se reconcilie(Katallageto) com seu marido". I Cor. 7:11.
Esse conselho, com suas implicações éticas, só pode ser compreendido e praticado
dentro de um contexto mais amplo de salvação - que Deus reconciliou primeiro a todos
nós consigo através do sacrifício voluntário de Cristo na cruz. "Quando inimigos,
fomos reconciliados com Deus mediante a morte do Seu Filho." Rom. 5:10. Esse texto
ensina que o ato de Deus de reconciliar o mundo consigo está baseado e enraizado na morte
expiatória de Seus Filho. O significado desse sacrifício expiatório é o mistério da
redenção que se constituirá no tema central do culto e adoração dos santos através
da eternidade; Apoc. 5:9.
Uma coisa é certa: a divina reconciliação em Cristo é agora um fato consumado, uma
realidade objetiva. "Quando [éramos] inimigos, fomos reconciliados com Deus."
Rom. 5:10. De sorte que nossa reconciliação com Deus não foi uma idéia humana, mas
iniciativa e ato de Deus em favor dos homens. Essa divina reconciliação é dom de Deus a
todos os homens, legado para nós através de Cristo, "por intermedio de quem
acabamos agora de receber a reconciliação". Rom. 5:11.
Não é surpreendente que Deus tenha tomado a iniciativa de nossa reconciliação com Ele,
sendo que o homen foi a causa da separação e a parte culpada? Deus não tem
caso legal contra o homem caído, não o homem contra Deus. Deus pronunciou a sentença de
morte contra o transgressor. Gên. 2:17. Adão, apesar de tudo, não buscou a graça. Deus
é que saiu em busca do par culpado. Por que estaria Deus preocupado em restaurar e
aceitar o desobediente que merecia a condenação? O infinito preço que Deus pagou ao
entregar Seu Filho por nossa redenção ensina ao Universo quão precioso é o homem,
embora caído, aos olhos de Deus. "Deus a queria, [Sua escolhida herança] do
contrário não enviaria Seu Filho em tão dispendiosa missão de a redimir." - O
Desejado de Todas as Nações, pág. 642.
Cristo apontava para a misteriosa motivação na reconciliação divina quando
declarou: "Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o Seu Filho
unigênito..." S. João 3:16. Que novas maravilhosas procedentes do trono de Deus! Em
todo o pensamento filosófico e religioso tal idéia do amor de Deus jamais fora antes
concebida.
Paulo declarou, ademais, que o amor reconciliador de Deus muda a relação judicial entre
Deus e o pecador. "Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não
impudando aos homens as suas transgressões." II Cor. 5:19. Nesta atitude divina
de "não imputar" o pecado, Deus não omite o pecado nem desconsidera sua
penalidade, nem troca Sua "ira" por amor. Ao invés, o amor de Deus encontra uma
solução legal para nossa salvação.
No mundo secular o termo "pecado" é raramente usado e somente no sentido de
"crime" ou como um poder maligno. A idéia de penalidade ou punição do
"pecado" é compreendida primeiramente como a reação automática das leis da
natureza contra o transgressor. Apesar de reconhecidos como realidade mental, os
sentimentos de culpa são geralmente considerados como reações enfermiças, provenientes
de alguma neurose ou desarranjo mental.
A realidade da culpa humana diante de Deus é portanto estranha ao pensamento
secular. A culpabilidade diante de Deus é um fato da revelação bíblica porque
pressupõe a vontade revelada de um Deus pessoal.
O pecado torna-se culpa quando se opõe à revelada lei moral de Deus. Como enfatizou
Paulo em Romanos 5: "Porque até ao regime da lei havia pecado no mundo, mas o pecado
não é levado em conta quando hão há lei." Verso 13.
A deliberada e consciente rejeição da revelada vontade de Deus (a santa lei) provocou a
justa indignação ou ira de Deus contra as culposas e presunçosas transgressões de
Israel (Ver II Reis 17:11, 16:18;II Crôn. 36:16; Sal. 78 e 106). Além disso Deus revelou
a Israel nos rituais purificadores dos serviços do santuário que o pecado contamina a
natureza humana e que o pecador penitente necessita de purificação de sua
pecaminosidade, de seu coração egoísta e poluído. Lev. 16:4, 15-19, 30; Jó
15:14;25:4; comparar com Sal. 51:5; 58:3; Prov. 20:9.
Essa consciência da contaminação do pecado levou Davi a pedir a Deus mais do que o
perdão, quando orou: "Cria em mim, ó Deus, um coração puro e renova dentro de mim
um espírito inabalável." Sal. 51:10.
A raiz do pecado não é encontrada nos atos de trangressão da lei, mas na vontade
egoísta e rebelde. Nesse estado de rebelião contra Deus, nessa disposição de inimizade
mental (Col. 1:21), o homem merece a justa ira ou inimizade de Deus, porque um Deus
santo deve ser hostil ao pecado. Hab. 1:13. A chocante verdade da revelação divina é
que todos os homens e mulheres são "por natrueza filhos da ira", como
Paulo declara: "Entre os quais também todos nós andamos outrora, segundo as
inclinações da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos por
natureza filhos da ira, como também os demais." Efés. 2:3; comparar com 5:6.
Não é somente o homem caído que do seu ponto de vista é hostil a Deus (embora sem
causa), mas também Deus do Seu ponto de vista, vê os homens e mulheres naturais,
rebeldes, separados de Cristo, como Seus inimigos (apesar de serem inimigos amados,
comparar com Rom. 11:28), mesmo "objetos da ira". Comparar com Rom. 1:18, Deus
ama a cada pecador, mas odeia a cada pecado. A ira divina é a reação pessoal de Deus
contra o pecado.
Escreveu G. E. Ladd: "Os homens são eticamente pecadores; e quando Deus imputa a
eles suas transgressões, os vê como pecadores, como inimigos, como objetos da ira
divina, porque é uma necessidade ética e religiosa que a santidade de Deus se manifeste
em ira contra o pecado." - A theology of the New Testament, pág. 453.
E. G. White explicou com preocupação pastoral: "Para o pecado, onde quer que se
encontre, nosso Deus é um fogo consumidor.(Heb. 12:29).
O espírito de Deus consumirá o pecado em todos quantos se submeterem a Seu poder. Se os
homens, porém, se apegarem a Seu poder. Se os homens, porém, se apegarem ao pecado,
ficarão com ele identificados. Então a glória de Deus, que destrói o pecado, tem que
destruí-los." - O Desejado de Totas as Nações, pág. 94.
O propósito da morte de Cristo é basicamente mal interpretado quando se considera o
pecado como um mal moral ou como egoísmo. Nesse caso a morte de Cristo serviria apenas
como um divino exemplo de amor altruísta tentando mudar o coração do humano pela
influência moral da cruz. Esse conceito não é antibíblico no que afirma, mas no que
ignora ou nega. É essencial estarmos alerta conta uma posição inilateral neste assunto
vital do evangelho da reconciliação. Compreender a morte expiatória de Cristo em termos
quer da misericórdia de Deus, quer da Sua justiça, é deixar de
entender a plenitude e unidade do santo amor de Deus. O oposto de pecado não é
misericórdia, mas santidade, a mais fundamental e abrangente característica de
Deus, o Santo por excelência. Isa. 6:3-7.
O amor de Deus sempre é santo, no qual tanto Sua misericórdia quanto Sua justiça estão
arraigadas e unidas. Comparar com Sal. 85:10. Como afirmou E. G. White:"O amor de
Deus tem-se expressado tanto em Sua justiça como em Sua misericórdia... Mas Cristo
mostrou que, no plano divino, elas estão indissoluvelmente unidas; uma não pode existir
sem a outra." - O Desejado de Totas as Nações, pág. 733.
Assim, pois, a morte expiatória de Jesus Cristo era uma necessidade moral tanto quanto
uma necessidade legal se o Deus santo em Seu infinito amor e sabedoria quisesse conservar
Sua justiça. Se o perdão divino para o pecado pudesse ser outorgado sem o sangue
expiatório de Cristo, então a dimensão judicial da culpa do pecado permaneceria
insatisfeita. Conseqúentemente, o pecado poderia ser justificado e imortalizado.
Mas Deus não pode coexistir com o pecado. Hab. 1:13. Sua justiça requer que o pecado
seja levado a juízo. Deus deve, portanto, executar justiça sobre o pecado e com o
pecador. Nessa execução da sentença, o Filho de Deus tomou nosso lugar, o lugar dos
pecadores, segundo a vontade de Deus. Tal expiação era necessaria porque o homem
permanecia como objeto da justa ira de Deus. Este é o centro do evangelho do perdão do
pecado e o mistério da cruz de Cristo: a justiça perfeita de Cristo satisfez
adequadamente a justiça divina, e Deus está disposto a aceitar o sacrifício voluntário
de Cristo em lugar da morte do homem.
A verdade de que a cruz de Cristo não é somente a manifestação da misericórdia de
Deus, mas também a demonstração fundamental de Sua justiça é ensinada explicitamente
por Paulo em sua mais reveladora interpretação da morte de Cristo: "A quem Deus
propôs, no Seu sangue, como propiciação, mediante a fé, para manifestar a Sua
justiça, por ter Deus, na Sua tolerância, deixando impunes os pecados anteriormente
cometidos; tendo em vista a manifestação da Sua justiça no tempo presente, para Ele
mesmo ser justo e o justificador daquele que tem fé em Jesus." Rom. 3:25 e 26.
Observe-se que não foi Cristo que originou e iniciou a expiação a fim de aplacar a um
Deus irado. Esse conceito completamente equivocado cria uma dicotomia no Deus triúno e no
pacto eterno. O sacrifício voluntário de Cristo não transforma a ira do Pai em amor,
porque Deus é amor por natureza.
Paulo declara que o mesmo Pai ofereceu a Seu Filho como sacrifício expiatório, como
propiciação hilasterion, Rom. 3:25). Em outras palavras, Deus em Sua
misericórdia ofereceu a Cristo como a propiciação de Sua santa ira pela culpa humana
porque aceitou a Cristo como representante e divino Substituto do homem para receber Sua
sentença sobre o pecado.
Ladd informa-nos que o verbo exhi1askesthai "em toda a literatura grega
significa propiciar ou aplacar a uma pessoa que foi ofendida". - A Theology of the
New Testanwnt, pãg. 429. Todavia, o significado apostólico do amor salvifico de
Deus não é apenas que Deus perdoa nossa culpa e expia, ou nos limpa de nossa
pecaminosidade; talvez, acima de tudo o mais, o amor de Deus oferece a morte sacrifical de
Cristo como a propiciação e aplaca tanto Sua justiça como Sua santa ira.
Inclusive Paulo chama ao sacrifício de Cristo por nós de "oferta e sacrifício a
Deus em aroma suave" (Efés. 5:2), referindo-se claramente ao efeito propiciador que
tinham sobre Deus os sacrifícios do Antigo Testamento (Gên. 8:21; Exo. 29:18; Lev. 1:9).
O sacrifício voluntário de Cristo é agradável a Deus porque essa oferta
expiatória dembou a barreira existente entre Deus e o pecador, tendo Cristo suportado
totalmente a ira de Deus sobre o pecado do homem. Cristo não transforma essa ira em amor,
mas aparta-a do homem e a faz recair sobre Si mesmo.
O profeta Isaias já havia revelado tal essência do evangelho nestas palavras: "O
Senhor fez cair sobre Ele a iniquidade de nós todos..... Todavia, ao Senhor
agradou moê-Lo, fazendo-O enfermar. ..e a vontade do Senhor prosperará nas Suas
mãos." Isa. 53:6, 10; comparar com Gal. 1:4.
Paulo sem dúvida se referia a Isaías 53 quando escreveu: "Cristo morreu pelos
nossos pecado., seguindo as Escrituras." 1 Cor. 15:3. Paulo implica que Deus não
somente Se absteve de imputar a nós o pecado, mas realmente fê-lo recair sobre Cristo,
Seu próprio Filho, como Substituto do homem
Paulo volta a aludir ao texto de Isaías que descreve como Cristo carregou vicariamente
nossa culpa e penalidade nestas significativas declarações: "Um morreu por todos,
logo todos morre....... Àquele que não conheceu pecado, Ele O fez pecado por nós; para
que nEle fôssemos feitos justiça de Deus." II Cor. 5:14, 21.
Embora por definição a culpa não resida no pecador, ele vive sob a lei justa e objetiva
de que o pecado deve ser punido. Como tal, a culpa pode ser transferida ou imputada. A
idéia de que a culpa pode ser transferida era o princípio fundamental de todo o ritual
simbólico do santuário de Israel. Culminando com a cerimônia anual do bode expiatório,
a culpabilidade coletiva da nação era simbolicamente removida e transferida para obode
expiatório. Lev. 16:21 e 22.
Tudo depende de uma correta compreensão do sangue expiatório nos serviços do santuário
de Israel. Até mesmo muitos israelitas perderam as verdadeiras lições espirituais de
seus rituais simbolicos. A crítica profética que encontramos no Salmo 50 mostra como o
povo de Israel confiava nos sacrifícios e cerimônias em vez de depositar confiança
nAquele a quem eles apontavam. Versos 7-15.
Observa E. G. White: "Muitos deles consideravam as ofertas sacrificais muito
semelhantes à maneira por que os gentios olhavam a seus sacrifícios - como dádivas
pelas quais tornavam propícia a Divindade. Deus desejava ensinar-lhes que de Seu próprio
amor provinha a dádiva que os reconciliava com Ele." - O Desejado de Todas
as Nações, págs. 98 e 99.
Na lei cerimonial, Deus havia ensinado enfaticamente que Ele provia o sangue sobre o altar
para fazer expiação por Israel: "Eu vo-lo tenho dado sobre o altar, para fazer
expiação pelas vossas almas." Lev. 17:11.
O Novo Testamento ensina que este princípio, do Antigo Testamento de perdão,
purificação e reconciliação com Deus por meio do sangue substituto foi cumprido no
poder purificador do sangue sacrifical de Cristo. "Muito mais o sangue de Cristo que,
pelo Espírito eterno, a Si mesmo Se ofereceu sem mácula a Deus, purificará a nossa
consciência de obras mortas para servirmos ao Deus vivo!" Heb. 9:14.
Mesmo João, o Apóstolo do amor, escreve que Deus em Seu amor enviou Seu Filho para ser a
propiciação (hilasmos) por nossos pecados [1 S. João 4:10; 2:2, K. J. v.;
"expiação" (R. S. V.), "um sacrifício expiatório por nossos
pecados" (N. I. V.)].
Na morte histórica de Cristo todos os homens morreram sob a justa maldição de
Deus por seus pecados. Que melhores novas podiam chegar aos ouvidos humanos? Através de
Cristo podemos aprender "que, ao passo que o ódio de Deus para com o pecado é forte
como a morte, Seu amor para com o pecador é ainda mais forte do que a morte". - O
Desejado de Todas as Nações, pag. 47.
Resumindo, o ato objetivo da reconciliação de Deus foi levado a termo através do sangue
propiciatório e expiatório (do sacrifício voluntário) de Cristo Jesus, Seu Filho.
Portanto Deus "é o provedor e o recipiente da reconciliação". - The New'
Internationa Dictionary of N. T. Theology, vol. 3 (1978), pág. 162.
Na tradição sacerdotal de Israel existia a convicção de que o homem era impotente e
incapaz de "remir ao irmão, e pagar por ele a Deus o seu resgate". Sal. 49:7.0
Deus de Israel era o único que tinha tal poder, segundo o profeta Oséias: "Eu os
remirei do poder do inferno, e os resgatarei da morte." Osé. 13:14. A luz dessa
afirmação, as palavras de Cristo mostram que Ele fazia uma específica reivindicação
à Sua divindade quando declarou que o Filho do homem veio para "dar a Sua vida em
resgate por muitos" (lutron anti pollon: literalmente, "em lugar de
muitos"). S. Mat. 20:28;S. Mar. 10:45.
Paulo afirma que Cristo, como o único Mediador entre Deus e os homens, "a Si mesmo
Se deu em resgate por todos". I Tim. 2:6. Esse resgate por todos os homens e mulheres
foi a entrega da Sua vida em sacrifício; o "sangue" de Cri sto representa, ou
simboliza, Seu sacrifício voluntário. Comparar com I Cor. 5:7; Efés. 5:2.
Paulo chega a dizer que Deus mesmo comprou ou adquiriu a Igreja "com o Seu próprio
sangue. Atos 20:28. E. G. White ressalta a natureza divina de nosso resgate: "A
justiça exigia os sofrimentos de um homem. Cristo, igual a Deus, suportou os sofrimentos
de um Deus. ... O sofrimento de Cristo foi correspondente à Sua imaculada pureza." -
Review and Herold, 21 de setembro de 1886.
A morte de Cristo é o custo divino, ou preço, de nossa redenção (Rom. 3:24; Efés.
1:7) de "toda iniqúidade". Tito 2:14. Consequentemente, Paulo expressou a
idéia de que Deus nos adquiriu ou comprou-nos para Si, de sorte que agora
pertencemos legalmente a Ele outra vez; portanto, devemos honrar a Deus em todas as
coisas: "E que não sois de vós mesmos? Porque fostes comprados por preço. Agora,
pois, glorificai a Deus no vosso corpo." I Cor. 6:19 e 20; comparar com 10:31.
"Por preço fostes comprados; não vos torneis escravos de homens." I Cor. 7:23.
Pertencer a Deus por meio de Cristo tem incisivas implicações morais, como Paulo e Pedro
disseram claramente: "Cristo Jesus, o qual a Si mesmo Se deu por nós, a fim de
remir-nos [literalmente, resgatarnos] de toda iniquidade, e purificar para Si mesmo um
povo exclusivamente Seu, zeloso de boas obras." Tito 2:13 e 14. "Sabendo que
não foi me-diante coisas corruptfveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados do vosso
futil procedimento que vossos pais vos legaram, mas pelo precioso sangue, como de cordeiro
sem defeito e sem mácula, o sangue de Cristo." I S. Ped. 1:18 e 19.
Para que os homens e mulheres pudessem recordar para sempre do sacrifício de Sua morte
como a fonte de sua liberdade, Cristo pessoalmente instituiu a Santa Ceia como o
cumprimento do sagrado ritual da Páscoa: "E, tomando um pão, tendo dado graças, o
partiu e lhes deu, dizendo: Isto é o Meu corpo oferecido por vós; fazei isto em memória
de Mim. Semelhantemente, depois de cear; tomou o cálice, dizendo: Este é o cálice da
nova aliança no Meu sangue derramado em favor de vós." S. Luc. 22:19 e 20; comparar
com S. Mat. 26:28: "derramado em favor de muitos, para remissão de pecados."
Paulo explicou que ao participarmos da Ceia do Senhor não estamos exibindo nossa piedade
pessoal, mas confessando nossa fé em Sua morte expiatória: "Porque todas as vezes
que comerdes este pão e beberdes o cálice, anunciais [ou confessais] a morte do Senhor,
até que Ele venha."I Cor. 11:26.
Passar por alto o aspecto do resgate no ato reconciliador de Deus seria perder o essencial
do evangelho da graça e negar o mais profundo motivo de nossa gratidão ao Cordeiro de
Deus. "Pela graça sois salvos." Efés. 2:8. O coro celestial dos vinte e quatro
anciãos no templo de Deus já está cantando este cântico de eterna gratidão:
"Digno és de tomar o livro e de abrir-lhe os selos,porque foste morto e com o Teu
sangue compraste para Deus os que procedem de toda tribo, língua, povo e nação, e para
o nosso Deus os constituiste reino e sacerdotes, e reinarão sobre a Terra." Apoc.
5:9 e 10.
Para explicar o evangelho da reconciliação Paulo emprega uma analogia entre a unidade
corporativa da humanidade em Adão e em Cristo, quando O chama de "o último
Adão" ou "o segundo homem". I Cor. 15:45-47. Disse ele: "Porque assim
como em Adão todos morrem, assim também todos serão vivificados em Cristo." I Cor.
15:22.
Adão e Cristo são de importância destacada para todos os homens porque, por ambos,
todos os homens estão representados diante de Deus. O que ocorreu com Adão e com Cristo
é legalmente considerado diante de Deus como se tivesse ocorrido com toda a raça humana.
Quando Adão se rebelou contra Deus e caiu no abismo do pecado, condenação e morte,
todos os futuros descendentes foram afetados por sua queda. Quando Cristo desceu do Céu
em carne humana, pelo milagre do Espírito Santo, foi Ele indicado como o novo
representante da raça humana. Porque Ele nunca deixou de confiar e obedecer a Deus,
permaneceu sem pecado. Quando morreu, diz o Apóstolo, um morreu por todos, "logo
todos morreram". II Cor. 5:14. Isso significa que Cristo como nosso Substituto
representou todos os pecadores diante de Deus.
A morte de Cristo foi um ato da graça divina em que "pela graça de Deus"
provou "a morte por todo homem". Heb. 2:9. (Grifos acrescentados.) Essa passagem
da Escritura reitera a universal representação e substituição da morte de
Cristo.
Todas as pessoas devem morrer. A morte é considerada nas Escrituras como o salário do
pecado, como o justo juízo de Deus sobre a rebelião de Adão (Rom. 5:12; 6:23), e nunca
como algo meritório.
Porém a morte de Cristo teve um caráter singular entre os homens por que Cristo
experimentou a amargura da completa maldição da morte, a chamada "segunda
morte", por todos. Apoc. 20:6.
Também João salientou o alcance universal ou ilimitado da expiação da morte do Senhor:
"Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!" S. João 1:29. "E Ele
é a propiciação (hilasmos: sacrifício expiatório) pelos nossos pecados, e não
somente pelos nossos próprios, mas ainda pelos do mundo inteiro." I S. João 2:2. E.
G. White reconheceu a expiação ilimitada de Cristo nestas palavras: "Mas a
expiação por um mundo perdido devia ser plena, abundante, completa. A oferenda de Cristo
foi inexcedivelmente abundante para abranger toda alma que Deus criou. Não se podia
restringir, de modo a não exceder o número dos que haviam de aceitar o grande Dom. Nem
todos os homens são salvos; todavia, o plano da salvação não é um desperdício pelo
fato de não realizar tudo que foi provido por sua liberalidade. Há o suficiente, e
sobeja ainda." - O Desejado de Todas as Nocões, pág. 539.
"Pecado algum pode ser cometido pelo homem, para o qual não se tenha dado
satisfação no Calvário." - Mensagens Escolhidas, livro 1, pág. 343
Paulo vai ainda mais longe ao declarar que Deus quis por meio de Cristo "havendo
feito a paz pelo sangue da Sua cruz", reconciliar "consigo mesmo todas as
coisas, quer sobre a Terra, quer nos Céus". Col. 1:20. 0 alcance apocalíptico e
promessa da cruz de Cristo é que todo o Universo criado será restaurado à paz com Deus.
"Para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos Céus, na Terra e debaixo da
terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai."
Filip. 2:10 e 11. Essa surpreendente eficácia cósmica da cruz constitui uma eterna
salvaguarda contra a apostasia mesmo nos mundos não caídos: "Essa obra de Cristo
deveria confirmar os seres de outros mundos em sua inocência e lealdade, bem como salvar
os perdidos e os que estavam perecendo neste mundo. Abriu um caminho ao desobediente para
voltar à sua fidelidade a Deus, enquanto que pelo mesmo ato pôs uma salvaguarda em torno
daqueles que ainda eram puros, para que não se contaminassem." E. G. White, Review
and Herald, 11 de janeiro de 1881.
Jesus já havia indicado que Seu sacrifício expiatório, conquanto suficiente para
todos, não seria eficaz em todos, por causa da descrença e deslealdade de muitos.
S. Mat. 8:21-23. Ele declarou que embora Deus ame o mundo inteiro, somente aquele que crê
(tem fé) no Filho de Deus não perecerá, mas terá vida eterna. S. João 3:16.
Consequentemente, a morte de Cristo "restaurou toda a raça humana ao favor de
Deus" (Mensagens Escolhidas, livro 1, pág. 343), mas nem todos os pecadores
do mundo estão automaticamente "em Cristo." Somente aqueles que aceitam o ato
de reconciliação de Deus recebendo a Cristo como Senhor em seu coração estão
verdadeiramente reconciliados com Deus. A responsabilidade do homem em responder ao
evangelho divino da reconciliação, apropriando-se dele pessoalmente pela fé é
absolutamente necessãria para ser contado "em Cristo".
"Reconciliai-vos!" é o solene apelo de Cristo a todos através de Seus
embaixadores. II Cor. 5:20. Deus não esta satisfeito com o mero anúncio ou proclamação
de Sua histórica reconciliação na cruz de Cristo. Como uma seta que se dirige para o
alvo, o evangelho da reconciliação tem por objetivo a entrega do coração ao domínio
de Cristo. I S. Ped. 3:15. Reconciliação é a restauração de uma comunhão pessoal com
Deus através da união da alma com Cristo. O filho pródigo deve retornar ao Pai. Só
assim o ato objetivo de Deus de reconciliação na cruz torna-se subjetivamente eficaz. Os
crentes devem mudar sua atitude de hostilidade contra Deus para uma atitude de amor e
submissão a Ele, a fim de amarem como Cristo nos ama, e perdoar a outros assim como Deus
em Cristo nos perdoou. Col. 1:21 e 22; 3:12-17; Efés. 4:31 e 32; 5:1-4.
Aqueles que aceitam pela fé que Deus reconciliou consigo o mundo em Cristo e que se
submetem à Sua vontade receberão dEle o inestimável dom da justificação com sua
consequência imediata de paz com Deus. Rom. 5:1. Deixando de ser o objeto da ira divina,
os crentes justificados tornam-se objetos do favor de Deus. Com livre acesso ao trono de
Deus por meio de Cristo, recebem o poder do Espírito Santo para derribar todas as
barreiras e muros de hostilidade que dividem os homens, simbolizados pela hostilidade que
havia entre judeus e gentios. Efés. 2:14-16. "Seja a paz de Cristo o árbitro em
vossos corações, à qual, também, fostes chamados em um só corpo: [a Igreja] e sede
agradecidos." Col. 3:15.
Cristo ensinou a Seus seguidores, como parte de seu serviço a Deus, tentar reconciliar-se
que tinham algum agravo contra eles. S. Mat. 5:23 e 24.
A responsabilidade do cristão de estender sua própria reconciliação, recebida
gratuitamente de Deus, aos seus devedores, é dramaticamente ilustrada por Jesus na
parábola do credor incompassivo. A esse ser ingrato, o próprio rei perdoou "dez mil
talentos", ou seja, muitos milhões de dólares. Quando o rei ouviu que esse servo se
recusava a ter misericórdia de um dos seus conservos que lhe devia apenas uns poucos
dólares, o rei intimou-o novamente: "'Servo malvado', disse ele, 'perdoei-te aquela
dívida toda porque me suplicaste; não devias tu, igualmente, compadecer-te do teu
conservo, como também eu me compadeci de ti?' E, indignando-se, o seu senhor o entregou
aos verdugos, até que lhe pagasse toda a dívida. Assim também Meu Pai celestial vos
fará, se do Intimo não perdoardes cada um a seu irmão." S. Mat.18:32-35.
A divina obra da reconciliação está baseada na perfeita expiação de Cristo na cruz,
mas não se limita a isso. A reconciliação é uma função sacerdotal que une o Céu e a
Terra por meio do sangue do Cordeiro de Deus. Essa reconciliação sacerdotal teve início
imediatamente após a queda do homem, tendo como fundamento o prometido
sacrifício-resgate.
O Cordeiro de Deus estava destinado e entregue para ser morto antes da criação do mundo.
I S. Pedro 1:20; Apoc. 13:8. (Ver também o capitulo 1 deste livro.) Quando o pecado pela
primeira vez se manifestou, um Salvador já estava providenciado. Comparar com Gên. 3:15,
21.
A obra divina de reconciliação começou no Paraíso e continuou através do sangue dos
sacrifícios simbólicos e do ritual do tabernáculo do antigo Israel. Portanto, no
decorrer da antiga dispensação, Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo.
Ele revelou explicitamente a Israel que o sangue do sacrifício oferecido sobre o altar
para fazer expiação por suas almas era o próprio dom de Deus a Israel. Lev. 17:11. É
importante observar que a lei cerimonial não considera a morte dos animais
sacrificados, como tal, uma expiação. Somente a ministração sacerdotal do
sangue derramado nos altares e sua aspersão sobre o propiciatório (no anual Dia da
Expiação) efetuava a "expiação", para que o povo de Israel fosse aceito por
Yahweh. Lev. 16:16-19.
A expressão que se repete constantemente é que "o sacerdote por eles fará
expiação, e eles serão perdoados". Lev. 4:20, 26, 31, 35; 5:16. (Grifos
supridos.)
Desses exemplos aprendemos que o Antigo Testamento ,não restringe o termo
"expiação" a morte do sacrifício, mas inclui também na expiação a obra
intercessória dos sacerdotes nos serviços diários e a do sumo sacerdote no serviço
anual do santuario.
Assim, é muito importante reconhecer que o Novo Testamento considera os serviços e o
culto do santuário de Israel como uma prefiguração profética e tipológica do próprio
sacrifício de Cristo na Terra e do Seu subseqüente ministério sacerdotal no santuário
celestial. Heb. 8:1-5; 9:11-14, 22-24.0 Livro de Hebreus não hesita em chamar a obra
intercessória de Cristo no Céu de uma " propiciação pelos pecados do
povo". Heb. 2:17 (Ênfase acrescentada); hilaskesthai, literalmente
"fazer propiciação"; R. S. V. "fazer expiação". Em outras
palavras, o Salvador ressurreto está ainda "fazendo expiação" em Sua presente
obra de perdoar pecados, de reconciliar os crentes com Deus e de dotar os crentes de poder
para vencer os pecados.
Não devemos perder de vista esse ensinamento que encontramos em Hebreus, sobretudo pelo
fato de que a Igreja Cristã infelizmente acabou restringindo a "obra
expiatória" de Cristo à Sua morte na cruz. Todavia, Louis Berkhof reconhece em sua Systematic
Teology (Grand Rapids, Mich.: Wm. B. Eerdmans, 1972): "[depois de citar Heb.
8:2]. O ministério sacerdotal de Cristo não se limita à oferta sacrifical de Si mesmo
na cruz... Ele simplesmente começou Sua obra sacerdotal na Terra, e a está completando
agora no Céu." Pág. 400.
A obra de intercessão que Cristo realiza no Céu pelos crentes é também chamada uma
obra de salvação: "Este, no entanto, porque continua para sempre, tem o Seu
sacerdócio imutável. Por isso também pode salvar totalmente os que por Ele se chegam a
Deus, vivendo sempre para interceder por eles." Heb. 7:24 e 25. Comparar com Heb.
4:15,16; Rom. 8:33 e 34. Essa intercessão salvifica de Cristo no Céu ocorre "diante
de Deus" (Heb. 9:24) e resulta na purificação de "nossa consciência de obras
mortas para servirmos ao Deus vivo!" Heb. 9:14; comparar com I S. João 1:7, 9.
Podemos achegar-nos ao nosso Sacerdote real "confiadamente, junto ao trono da graça,
a fim de recebermos misericórdia e acharmos graça para socorro em ocasião
oportuna". Heb. 4:16. Por meio de Cristo, Deus "é poderoso para vos guardar de
tropeços e para vos apresentar com exultação, imaculados diante da Sua glória".
S. Jud. 24; comparar com I S. João 5:18. Que pensamento emocionante de que Cristo pelo
poder de Sua graça é capaz de guardar a cada um de nós da transgressão e de cair em
pecado! João escreveu mais explicitamente: "Filhinhos meus, estas coisas vos escrevo
para que não pequeis. Se, todavia, alguém pecar, temos Advogado junto ao Pai, Jesus
Cristo, o justo; e Ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos
nossos próprios, mas ainda pelos do mundo inteiro." I S. João 2:1 e 2.
João chama nosso Salvador no Céu de nosso "Advogado [paraktetosj junto ao
Pai", "alguém que fala ao Pai em nossa defesa" (N. I. V.), se temos pecado
como crentes. A eficácia da intercessão de Cristo no Céu esta baseada no fato de ser
Ele ao mesmo tempo o "justo" (verso 1) e "a propiciação pelos nossos
pecados (hilasmos, a "expiação", R. S. V., verso 2). João não declara
que Cristo foi o sacrifício expiatório (ou "propiciação",
"expiação") mas que o Cristo ressuscitado é o sacnfício expiatório!
João escreveu enfaticamente que "o sangue de Jesus" está no presente limpando
ou purificando-nos de todo pecado. I S. João 1:7, 9. (katharizei, verbo no tempo
presente.) Como o "Justo" Ele salva o transgressor penitente imputando-lhe Sua
justiça. Esta é presentemente a obra expiatória de Cristo como um "misericordioso
e fiel Sumo Sacerdote" nas cortes celestiais. Comparar com Heb. 2:17. F. Buchsel,
entre outros eruditos, reconhece isso em seu comentário de I S. João 2:2: "O hilasmos
não está exclusivamente relacionado com a simples realização da morte, mas com a
pessoa e obra total de Jesus, de que Sua morte é, fora de dúvida, uma parte
indissolúvel, 5:6; comparar com 3:16; 1:7." - Theo1ogica1 Dictionary of the New
Testament [Kittel, ed.], vol. 3, pág. 318; citado em The New International
Dictionary of N.T. Theology, vol. 3 [1978], pág. 163.
À ressurreição de Cristo dentre os mortos a fim de Se tornar nosso Sumo Sacerdote
celestial significa nada menos do que a imortalização do sacrifício expiatório da
morte de Cristo. Cristo continua levando o supremo titulo de "Cordeiro" de Deus
em todas as fases subseqüentes de Sua obra de salvação e juízo. Apoc. 5:6; 6:1, 16;
7:10, 14, 17; 17:14; 19:7; 22:1. Para sempre, ressoarão cânticos de louvor no Céu e na
Terra: "Digno é o Cordeiro, que foi morto, de receber o poder, e riqueza, e
sabedoria, e força, e honra, e glória, e louvor." Apoc. 5:12.
Os santos que vieram da grande tribulação, na visão de João, "lavaram suas
vestiduras, e as alvejaram no sangue do Cordeiro". Apoc. 7:14. Isso retrata
simbolicamente a eficácia permanente do sangue de Jesus ao imputar e partilhar Sua
justiça aos crentes arrependidos e obedientes. "Séculos e eras nunca poderão
diminuir a eficácia de Seu sacrifício expiatório. Nem a morte, nem a vida, altura ou
profundidade, nada nos poderá separar do amor de Deus que esta em Cristo Jesus; não
porque a Ele nos apeguemos com firmeza, mas porque Ele nos segura com Sua forte
mão." -Atos dos Apóstolos, pág. 553.
Portanto, não devemos nos esquecer de que a intercessão de Cristo diante de Deus no Céu
é tão essencial à nossa salvação como foi Sua morte na cruz. - Ver E. G.
White, O Grande Conflito, pág. 492. Após a conclusão de Sua missão terrestre,
Cristo ascendeu a fim de adentrar para o outro lado do véu do santuário celestial para comptetar
a olra em prol da nossa salvação. Heb. 6:19 e 20; 7:25.
Um aspecto vital da obra intercessória de Cristo e que entretanto é geralmente ignorado
pela teologia evangélica é o trabalho do juízo em Seu ministério celestial. Antes de
retornar ao nosso planeta a fim de executar Seus juízos, Ele estará empenhado em um
juízo pré-advento que determina quem será salvo ou perdido. A base tipológica para
essa obra de juízo final é encontrada na festividade anual do Dia da Expiação, o Dia
do Ajuste de Contas, que culminava com a purificação do santuário e a cerimônia do
bode emissário. Lev. 16; 23:26-32. Esse ritual não teve seu cumprimento antitipico, quer
na obra sacerdotal de Cristo na cruz, quer em Sua intercessão diária no Céu.
Tão certo como o sacerdócio levítico funcionava em duas fases distintas, a
mediação diária e a anual, assim ocorre no grande cumprimento antitípico do
ministério de Cristo no Céu. Cristo não continuará a interceder por pecadores através
da eternidade. Como o Dia da Expiação anual ensinava a Israel, assim o Novo Testamento
declara com ineludivel firmeza que Deus "estabeleceu um dia em que há de julgar o
mundo com justiça por meio de um varão que destinou e acreditou diante de todos,
ressuscitanto-O dentre os mortos". Atos 17:31.
Cristo pessoalmente anunciou diante do Sinédrio, a corte suprema de Jerusalém, que um
dia os papéis seriam invertidos: "E o Pai a ninguém julga, mas ao Filho confiou
todo o julgamento."S. João 5:22.
A obra final de julgamento efetuada por Cristo envolverá todos os homens, santos e
pecadores, até mesmo Satanás e seus anjos.
Paulo declarou mais especificamente que Deus julgará a todos os homens, judeus e gentios,
segundo as suas obras. Rom. 2:6-11; citação de Sal. 62:12; Prov. 24:12. E acrescenta:
"No dia em que Deus, por meio de Cristo Jesus, julgar os segredos dos homens, de
conformidade com o meu evangelho" (verso 16). Esse dia em que se dará a recompensa
final aos salvos (pela graça) e a punição dos pecadores virá na segunda vinda de
Cristo em glória e fogo: "Tomando vingança contra os que não conhecem a Deus e
contra os que não obedecem ao evangelho de nosso Senhor Jesus."II Tess. 1:8;
comparar com S. Mat. 16:27.
Contudo, Paulo também se referiu mais diretamente ao jufzo final dos crentes cristãos:
"Por-que importa que todos nós compareçamos perante o tribunal de Cristo para que
cada um receba segundo o bem ou o mal que tiver feito, por meio do corpo." II Cor.
5:10. "Pois todos compareceremos perante o tribunal de Deus.... Assim, pois, cada um
de nós dara contas de si mesmo a Deus." Rom. 14:10-12. "Manifesta se tornará a
obra de cada um; pois o dia a demonstrará, porque esta sendo revelada pelo fogo; e qual
seja a obra de cada um o próprio fogo o provará. Se permanecer a obra de alguém que
sobre o fundamento edificou, esse recebera galardão; se a obra de alguém se queimar,
sofrera ele dano; mas esse mesmo sera salvo, todavia, como que através do fogo." I
Cor.3:13-15.
Assim, pois, até mesmo os crentes que estão em Cristo, e portanto não mais sob a
ira divina ou condenação (Rom. 8:1), ainda serão julgados pelas suas obras.
Os crentes e os incrédulos não precisam estar pessoalmente presentes na fase
investigativa do jufzo divino, porque: "Os mortos foram julgados, segundo as suas
obras, conforme o que se achava escrito nos livros." Apoc. 20:12; comparar com
Exo. 32:32 e 33; Isa. 4:3; Sal. 69:28; Dan. 7:9 e 10; 12:1 e 2. (Enfase
acrescentada.>
Aqueles registros celestiais, conhecidos desde o tempo de Moisés, falam ao homem que ele
deve inevitavelmente prestar contas a Deus. Aparentemente representam um exato reflexo do
carater de cada ser humano. No conhecimento de Deus existe, é claro, um inventário
instantâneo de todos os tempos. "Ele não somente julga, mas recapitula, dia por dia
e hora por hora, nosso progresso no bem fazer." - Comentários de E. G. white, S.D.A.
Bible Commentary, vol. 7, pag. 987.
Qual é então a questão crucial no juízo, a questão decisiva? No momento final, ao ser
considerado nosso caso individual nas cortes celestiais, não será a maior quantidade de
boas ou mas ações o que determinara nosso destino eterno, mas antes se alguém é
encontrado estando em Cristo ou fora de Cristo. "Aquele que tem o Filho
tem a vida; aquele que não tem o Filho de Deus não tem a vida." I S. João 5:12. 0
que mostra se a relação com Deus foi positiva ou negativa é a atitude de alguém, quer
seja de arrependimento, humildade, amor e obediência à verdade: quer seja, por outro
lado, egoísmo, auto-afirmação e desobediência voluntária. A profissão de fé,
somente, ou o serviço dos labios, serão desmascarados como hipocrisia.
O caráter em relação a Cristo é passado em revista. Cristo permanecera como
Intercessor e Advogado daqueles que creram nEle e O seguiram. Tendo a Cristo como nosso
Advogado agora, Ele sera nosso Amigo na sessão final da corte.
Cristo promete: "O vencedor sera assim vestido de vestiduras brancas, e de modo
nenhum apagarei o seu nome do livro da vida; pelo contrario, confessarei o seu nome diante
de Meu Pai e diante dos Seus anjos." Apoc. 3:5. "Nosso grande Sumo
Sacerdote esta intercedendo diante do propiciatório em favor de Seu povo resgatado. ...
Satanas esta à nossa direita para nos acusar, e nosso Advogado esta à mão direita de
Deus pleiteando por nós. Jamais perdeu uma causa que Lhe foi confiada. Podemos confiar em
nosso Advogado; Ele alega Seus próprios méritos em nosso favor."
- E. G. White, Review and Herald, 15 de agosto de 1893.
O verdadeiro crente em Cristo não esta isento do exame final, mas ele não precisa temer
o julgamento, porque Cristo como Juiz jamais condenará, mas apenas vindicará àquele que
for achado em Cristo. Rom. 8:1, 33 e 34; Zac. 3:3-5. Paulo perguntou: "Se Deus é por
nós, quem sera contra nós?" Rom. 8:31.
Tudo depende de estarmos usando as vestes nupciais providas pelo Rei para o seu banquete.
S. Mat. 22:11.
Com toda confiança Paulo aguardava "a esperança da justiça que provém da
fé" (Gal. 5:5) como a absolvição final do cristão por Cristo no último
julgamento. Não estava atemorizado ou em dúvida quanto a esse veredicto porque sabia em
quem tinha crido: "Logo, muito mais agora, sendo justificados pelo Seu sangue,
seremos por Ele salvos da ira. Porque se nós, quando inimigos, fomos reconciliados com
Deus mediante a morte do Seu Filho, muito mais, estando já reconciliados, seremos
salvos pela Sua vida. " Rom. 5:9, 10. (Grifos supridos.).
Esta futura salvação da ira de Deus, dos juízos que cairão sobre os que rejeitam a
Cristo (comparar com S. João 3:36), será o último ato expiatório de Cristo no Céu em
favor do Seu povo. O juízo final selará nossa eterna reconciliação com Deus.