O EVANGELHO DA RECONLIAÇÃO


Muitos têm notado uma aparente tensão nas palavras de Paulo concernentes á nossa reconciliação com Deus. Em sua famosa passagem de II Coríntios 5, Paulo anuncia triunfante o fato histórico de que "Deus estava em Cristo, reconciliando consigo o mundo"(verso 19),mas imediatemente dirige ao homem o surpreendente apelo: "Rogamos que vos reconcilieis com Deus"(verso 20).
Como podemos harmonizar estes dois conceitos: o fato de que Deus em Cristo já reconciliou consigo o mundo, e a ordem de Deus ao homem para que se reconcilie com Ele?Por que após o ato divino de reconciliação deve ainda ocorrer um ato humano?
Muitos têm procurado evitar essa tensão enfatizando um aspecto em detrimento do outro. Alguns têm salientado que Deus já reconciliou tão perfeitamente a raça humana na cruz que todos estão reconciliados a despeito de si mesmos. O pecador apenas precisa sabê-lo.Cristo morreu pelos pecados de todos; portanto, todos os pecados foram expiados e perdoados na cruz. O pregador tão-somente deve anunciar essas boas novas para que todos fiquem cientes delas. Tal ênfase tem conduzido ao ensino do universalismo, isto é, toda humanidade, de alguma forma, será finalmente salva.
Outos vão ao extremo oposto, dando tanta ênfase à parte humana a ponto de a fé e o amor se tornarem a base sobre a qual Deus aceita o crente. Esse ensino, conhecido como moralismo religioso, leva muitos à crença que a reconciliação com Deus depende primeiramente de nossa boa vontade e amor a Deus em resposta ao amor de Deus revelado na cruz de Cristo. De modo que a cruz de Cristo exerce uma influência moral sobre o homem.
Muitos calvinistas defendem a posição de que os méritos da obediência e sacrifício voluntário de Cristo satisfazem exatamente a necessidade dos crentes predestinados de todas as eras, donde se conclui que Cristo morreu apenas por Seu próprio povo, os eleitos. Calvino baseou a expiação de Cristo no eterno decreto de Deus de que o sacrifício de Cristo seria eficaz somente para um número de pessoas previamente selecionado. Segundo essa crença, Cristo proveu uma expiação limitada na cruz, insuficiente para todos os pecadores.
A palavra "reconciliação"(Katallage) pressupõe uma alienação entre duas partes que estiveram originalmente unidas. Portanto, reconciliação significa restauração de um relacionamento de amor e confiança que fora interrompido.
Paulo usou o verbo "reconciliar-se" em seus conselhos a uma mulher casada a qual se havia separado de seu marido. Disse ele em nome do Senhor : "que não se case, ou que se reconcilie(Katallageto) com seu marido". I Cor. 7:11.
Esse conselho, com suas implicações éticas, só pode ser compreendido e praticado dentro de um contexto mais amplo de salvação - que Deus reconciliou primeiro a todos nós consigo através do sacrifício voluntário de Cristo na cruz. "Quando inimigos, fomos reconciliados com Deus mediante a morte do Seu Filho." Rom. 5:10. Esse texto ensina que o ato de Deus de reconciliar o mundo consigo está baseado e enraizado na morte expiatória de Seus Filho. O significado desse sacrifício expiatório é o mistério da redenção que se constituirá no tema central do culto e adoração dos santos através da eternidade; Apoc. 5:9.
Uma coisa é certa: a divina reconciliação em Cristo é agora um fato consumado, uma realidade objetiva. "Quando [éramos] inimigos, fomos reconciliados com Deus." Rom. 5:10. De sorte que nossa reconciliação com Deus não foi uma idéia humana, mas iniciativa e ato de Deus em favor dos homens. Essa divina reconciliação é dom de Deus a todos os homens, legado para nós através de Cristo, "por intermedio de quem acabamos agora de receber a reconciliação". Rom. 5:11.
Não é surpreendente que Deus tenha tomado a iniciativa de nossa reconciliação com Ele, sendo que o homen foi a causa da separação e a parte culpada? Deus não tem caso legal contra o homem caído, não o homem contra Deus. Deus pronunciou a sentença de morte contra o transgressor. Gên. 2:17. Adão, apesar de tudo, não buscou a graça. Deus é que saiu em busca do par culpado. Por que estaria Deus preocupado em restaurar e aceitar o desobediente que merecia a condenação? O infinito preço que Deus pagou ao entregar Seu Filho por nossa redenção ensina ao Universo quão precioso é o homem, embora caído, aos olhos de Deus. "Deus a queria, [Sua escolhida herança] do contrário não enviaria Seu Filho em tão dispendiosa missão de a redimir." - O Desejado de Todas as Nações, pág. 642.
Cristo apontava para a misteriosa motivação na reconciliação divina quando declarou: "Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o Seu Filho unigênito..." S. João 3:16. Que novas maravilhosas procedentes do trono de Deus! Em todo o pensamento filosófico e religioso tal idéia do amor de Deus jamais fora antes concebida.
Paulo declarou, ademais, que o amor reconciliador de Deus muda a relação judicial entre Deus e o pecador. "Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não impudando aos homens as suas transgressões." II Cor. 5:19. Nesta atitude divina de "não imputar" o pecado, Deus não omite o pecado nem desconsidera sua penalidade, nem troca Sua "ira" por amor. Ao invés, o amor de Deus encontra uma solução legal para nossa salvação.
No mundo secular o termo "pecado" é raramente usado e somente no sentido de "crime" ou como um poder maligno. A idéia de penalidade ou punição do "pecado" é compreendida primeiramente como a reação automática das leis da natureza contra o transgressor. Apesar de reconhecidos como realidade mental, os sentimentos de culpa são geralmente considerados como reações enfermiças, provenientes de alguma neurose ou desarranjo mental.
A realidade da culpa humana diante de Deus é portanto estranha ao pensamento secular. A culpabilidade diante de Deus é um fato da revelação bíblica porque pressupõe a vontade revelada de um Deus pessoal.
O pecado torna-se culpa quando se opõe à revelada lei moral de Deus. Como enfatizou Paulo em Romanos 5: "Porque até ao regime da lei havia pecado no mundo, mas o pecado não é levado em conta quando hão há lei." Verso 13.
A deliberada e consciente rejeição da revelada vontade de Deus (a santa lei) provocou a justa indignação ou ira de Deus contra as culposas e presunçosas transgressões de Israel (Ver II Reis 17:11, 16:18;II Crôn. 36:16; Sal. 78 e 106). Além disso Deus revelou a Israel nos rituais purificadores dos serviços do santuário que o pecado contamina a natureza humana e que o pecador penitente necessita de purificação de sua pecaminosidade, de seu coração egoísta e poluído. Lev. 16:4, 15-19, 30; Jó 15:14;25:4; comparar com Sal. 51:5; 58:3; Prov. 20:9.
Essa consciência da contaminação do pecado levou Davi a pedir a Deus mais do que o perdão, quando orou: "Cria em mim, ó Deus, um coração puro e renova dentro de mim um espírito inabalável." Sal. 51:10.
A raiz do pecado não é encontrada nos atos de trangressão da lei, mas na vontade egoísta e rebelde. Nesse estado de rebelião contra Deus, nessa disposição de inimizade mental (Col. 1:21), o homem merece a justa ira ou inimizade de Deus, porque um Deus santo deve ser hostil ao pecado. Hab. 1:13. A chocante verdade da revelação divina é que todos os homens e mulheres são "por natrueza filhos da ira", como Paulo declara: "Entre os quais também todos nós andamos outrora, segundo as inclinações da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos por natureza filhos da ira, como também os demais." Efés. 2:3; comparar com 5:6.
Não é somente o homem caído que do seu ponto de vista é hostil a Deus (embora sem causa), mas também Deus do Seu ponto de vista, vê os homens e mulheres naturais, rebeldes, separados de Cristo, como Seus inimigos (apesar de serem inimigos amados, comparar com Rom. 11:28), mesmo "objetos da ira". Comparar com Rom. 1:18, Deus ama a cada pecador, mas odeia a cada pecado. A ira divina é a reação pessoal de Deus contra o pecado.
Escreveu G. E. Ladd: "Os homens são eticamente pecadores; e quando Deus imputa a eles suas transgressões, os vê como pecadores, como inimigos, como objetos da ira divina, porque é uma necessidade ética e religiosa que a santidade de Deus se manifeste em ira contra o pecado." - A theology of the New Testament, pág. 453.
E. G. White explicou com preocupação pastoral: "Para o pecado, onde quer que se encontre, nosso Deus é um fogo consumidor.(Heb. 12:29).
O espírito de Deus consumirá o pecado em todos quantos se submeterem a Seu poder. Se os homens, porém, se apegarem a Seu poder. Se os homens, porém, se apegarem ao pecado, ficarão com ele identificados. Então a glória de Deus, que destrói o pecado, tem que destruí-los." - O Desejado de Totas as Nações, pág. 94.
O propósito da morte de Cristo é basicamente mal interpretado quando se considera o pecado como um mal moral ou como egoísmo. Nesse caso a morte de Cristo serviria apenas como um divino exemplo de amor altruísta tentando mudar o coração do humano pela influência moral da cruz. Esse conceito não é antibíblico no que afirma, mas no que ignora ou nega. É essencial estarmos alerta conta uma posição inilateral neste assunto vital do evangelho da reconciliação. Compreender a morte expiatória de Cristo em termos quer da misericórdia de Deus, quer da Sua justiça, é deixar de entender a plenitude e unidade do santo amor de Deus. O oposto de pecado não é misericórdia, mas santidade, a mais fundamental e abrangente característica de Deus, o Santo por excelência. Isa. 6:3-7.
O amor de Deus sempre é santo, no qual tanto Sua misericórdia quanto Sua justiça estão arraigadas e unidas. Comparar com Sal. 85:10. Como afirmou E. G. White:"O amor de Deus tem-se expressado tanto em Sua justiça como em Sua misericórdia... Mas Cristo mostrou que, no plano divino, elas estão indissoluvelmente unidas; uma não pode existir sem a outra." - O Desejado de Totas as Nações, pág. 733.
Assim, pois, a morte expiatória de Jesus Cristo era uma necessidade moral tanto quanto uma necessidade legal se o Deus santo em Seu infinito amor e sabedoria quisesse conservar Sua justiça. Se o perdão divino para o pecado pudesse ser outorgado sem o sangue expiatório de Cristo, então a dimensão judicial da culpa do pecado permaneceria insatisfeita. Conseqúentemente, o pecado poderia ser justificado e imortalizado.
Mas Deus não pode coexistir com o pecado. Hab. 1:13. Sua justiça requer que o pecado seja levado a juízo. Deus deve, portanto, executar justiça sobre o pecado e com o pecador. Nessa execução da sentença, o Filho de Deus tomou nosso lugar, o lugar dos pecadores, segundo a vontade de Deus. Tal expiação era necessaria porque o homem permanecia como objeto da justa ira de Deus. Este é o centro do evangelho do perdão do pecado e o mistério da cruz de Cristo: a justiça perfeita de Cristo satisfez adequadamente a justiça divina, e Deus está disposto a aceitar o sacrifício voluntário de Cristo em lugar da morte do homem.
A verdade de que a cruz de Cristo não é somente a manifestação da misericórdia de Deus, mas também a demonstração fundamental de Sua justiça é ensinada explicitamente por Paulo em sua mais reveladora interpretação da morte de Cristo: "A quem Deus propôs, no Seu sangue, como propiciação, mediante a fé, para manifestar a Sua justiça, por ter Deus, na Sua tolerância, deixando impunes os pecados anteriormente cometidos; tendo em vista a manifestação da Sua justiça no tempo presente, para Ele mesmo ser justo e o justificador daquele que tem fé em Jesus." Rom. 3:25 e 26.
Observe-se que não foi Cristo que originou e iniciou a expiação a fim de aplacar a um Deus irado. Esse conceito completamente equivocado cria uma dicotomia no Deus triúno e no pacto eterno. O sacrifício voluntário de Cristo não transforma a ira do Pai em amor, porque Deus é amor por natureza.
Paulo declara que o mesmo Pai ofereceu a Seu Filho como sacrifício expiatório, como propiciação hilasterion, Rom. 3:25). Em outras palavras, Deus em Sua misericórdia ofereceu a Cristo como a propiciação de Sua santa ira pela culpa humana porque aceitou a Cristo como representante e divino Substituto do homem para receber Sua sentença sobre o pecado.
Ladd informa-nos que o verbo exhi1askesthai "em toda a literatura grega significa propiciar ou aplacar a uma pessoa que foi ofendida". - A Theology of the New Testanwnt, pãg. 429. Todavia, o significado apostólico do amor salvifico de Deus não é apenas que Deus perdoa nossa culpa e expia, ou nos limpa de nossa pecaminosidade; talvez, acima de tudo o mais, o amor de Deus oferece a morte sacrifical de Cristo como a propiciação e aplaca tanto Sua justiça como Sua santa ira.
Inclusive Paulo chama ao sacrifício de Cristo por nós de "oferta e sacrifício a Deus em aroma suave" (Efés. 5:2), referindo-se claramente ao efeito propiciador que tinham sobre Deus os sacrifícios do Antigo Testamento (Gên. 8:21; Exo. 29:18; Lev. 1:9). O sacrifício voluntário de Cristo é agradável a Deus porque essa oferta expiatória dembou a barreira existente entre Deus e o pecador, tendo Cristo suportado totalmente a ira de Deus sobre o pecado do homem. Cristo não transforma essa ira em amor, mas aparta-a do homem e a faz recair sobre Si mesmo.
O profeta Isaias já havia revelado tal essência do evangelho nestas palavras: "O Senhor fez cair sobre Ele a iniquidade de nós todos..... Todavia, ao Senhor agradou moê-Lo, fazendo-O enfermar. ..e a vontade do Senhor prosperará nas Suas mãos." Isa. 53:6, 10; comparar com Gal. 1:4.
Paulo sem dúvida se referia a Isaías 53 quando escreveu: "Cristo morreu pelos nossos pecado., seguindo as Escrituras." 1 Cor. 15:3. Paulo implica que Deus não somente Se absteve de imputar a nós o pecado, mas realmente fê-lo recair sobre Cristo, Seu próprio Filho, como Substituto do homem
Paulo volta a aludir ao texto de Isaías que descreve como Cristo carregou vicariamente nossa culpa e penalidade nestas significativas declarações: "Um morreu por todos, logo todos morre....... Àquele que não conheceu pecado, Ele O fez pecado por nós; para que nEle fôssemos feitos justiça de Deus." II Cor. 5:14, 21.
Embora por definição a culpa não resida no pecador, ele vive sob a lei justa e objetiva de que o pecado deve ser punido. Como tal, a culpa pode ser transferida ou imputada. A idéia de que a culpa pode ser transferida era o princípio fundamental de todo o ritual simbólico do santuário de Israel. Culminando com a cerimônia anual do bode expiatório, a culpabilidade coletiva da nação era simbolicamente removida e transferida para obode expiatório. Lev. 16:21 e 22.
Tudo depende de uma correta compreensão do sangue expiatório nos serviços do santuário de Israel. Até mesmo muitos israelitas perderam as verdadeiras lições espirituais de seus rituais simbolicos. A crítica profética que encontramos no Salmo 50 mostra como o povo de Israel confiava nos sacrifícios e cerimônias em vez de depositar confiança nAquele a quem eles apontavam. Versos 7-15.
Observa E. G. White: "Muitos deles consideravam as ofertas sacrificais muito semelhantes à maneira por que os gentios olhavam a seus sacrifícios - como dádivas pelas quais tornavam propícia a Divindade. Deus desejava ensinar-lhes que de Seu próprio amor provinha a dádiva que os reconciliava com Ele." - O Desejado de Todas as Nações, págs. 98 e 99.
Na lei cerimonial, Deus havia ensinado enfaticamente que Ele provia o sangue sobre o altar para fazer expiação por Israel: "Eu vo-lo tenho dado sobre o altar, para fazer expiação pelas vossas almas." Lev. 17:11.
O Novo Testamento ensina que este princípio, do Antigo Testamento de perdão, purificação e reconciliação com Deus por meio do sangue substituto foi cumprido no poder purificador do sangue sacrifical de Cristo. "Muito mais o sangue de Cristo que, pelo Espírito eterno, a Si mesmo Se ofereceu sem mácula a Deus, purificará a nossa consciência de obras mortas para servirmos ao Deus vivo!" Heb. 9:14.
Mesmo João, o Apóstolo do amor, escreve que Deus em Seu amor enviou Seu Filho para ser a propiciação (hilasmos) por nossos pecados [1 S. João 4:10; 2:2, K. J. v.; "expiação" (R. S. V.), "um sacrifício expiatório por nossos pecados" (N. I. V.)].
Na morte histórica de Cristo todos os homens morreram sob a justa maldição de Deus por seus pecados. Que melhores novas podiam chegar aos ouvidos humanos? Através de Cristo podemos aprender "que, ao passo que o ódio de Deus para com o pecado é forte como a morte, Seu amor para com o pecador é ainda mais forte do que a morte". - O Desejado de Todas as Nações, pag. 47.
Resumindo, o ato objetivo da reconciliação de Deus foi levado a termo através do sangue propiciatório e expiatório (do sacrifício voluntário) de Cristo Jesus, Seu Filho. Portanto Deus "é o provedor e o recipiente da reconciliação". - The New' Internationa Dictionary of N. T. Theology, vol. 3 (1978), pág. 162.
Na tradição sacerdotal de Israel existia a convicção de que o homem era impotente e incapaz de "remir ao irmão, e pagar por ele a Deus o seu resgate". Sal. 49:7.0 Deus de Israel era o único que tinha tal poder, segundo o profeta Oséias: "Eu os remirei do poder do inferno, e os resgatarei da morte." Osé. 13:14. A luz dessa afirmação, as palavras de Cristo mostram que Ele fazia uma específica reivindicação à Sua divindade quando declarou que o Filho do homem veio para "dar a Sua vida em resgate por muitos" (lutron anti pollon: literalmente, "em lugar de muitos"). S. Mat. 20:28;S. Mar. 10:45.
Paulo afirma que Cristo, como o único Mediador entre Deus e os homens, "a Si mesmo Se deu em resgate por todos". I Tim. 2:6. Esse resgate por todos os homens e mulheres foi a entrega da Sua vida em sacrifício; o "sangue" de Cri sto representa, ou simboliza, Seu sacrifício voluntário. Comparar com I Cor. 5:7; Efés. 5:2.
Paulo chega a dizer que Deus mesmo comprou ou adquiriu a Igreja "com o Seu próprio sangue. Atos 20:28. E. G. White ressalta a natureza divina de nosso resgate: "A justiça exigia os sofrimentos de um homem. Cristo, igual a Deus, suportou os sofrimentos de um Deus. ... O sofrimento de Cristo foi correspondente à Sua imaculada pureza." - Review and Herold, 21 de setembro de 1886.
A morte de Cristo é o custo divino, ou preço, de nossa redenção (Rom. 3:24; Efés. 1:7) de "toda iniqúidade". Tito 2:14. Consequentemente, Paulo expressou a idéia de que Deus nos adquiriu ou comprou-nos para Si, de sorte que agora pertencemos legalmente a Ele outra vez; portanto, devemos honrar a Deus em todas as coisas: "E que não sois de vós mesmos? Porque fostes comprados por preço. Agora, pois, glorificai a Deus no vosso corpo." I Cor. 6:19 e 20; comparar com 10:31. "Por preço fostes comprados; não vos torneis escravos de homens." I Cor. 7:23. Pertencer a Deus por meio de Cristo tem incisivas implicações morais, como Paulo e Pedro disseram claramente: "Cristo Jesus, o qual a Si mesmo Se deu por nós, a fim de remir-nos [literalmente, resgatarnos] de toda iniquidade, e purificar para Si mesmo um povo exclusivamente Seu, zeloso de boas obras." Tito 2:13 e 14. "Sabendo que não foi me-diante coisas corruptfveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados do vosso futil procedimento que vossos pais vos legaram, mas pelo precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e sem mácula, o sangue de Cristo." I S. Ped. 1:18 e 19.
Para que os homens e mulheres pudessem recordar para sempre do sacrifício de Sua morte como a fonte de sua liberdade, Cristo pessoalmente instituiu a Santa Ceia como o cumprimento do sagrado ritual da Páscoa: "E, tomando um pão, tendo dado graças, o partiu e lhes deu, dizendo: Isto é o Meu corpo oferecido por vós; fazei isto em memória de Mim. Semelhantemente, depois de cear; tomou o cálice, dizendo: Este é o cálice da nova aliança no Meu sangue derramado em favor de vós." S. Luc. 22:19 e 20; comparar com S. Mat. 26:28: "derramado em favor de muitos, para remissão de pecados." Paulo explicou que ao participarmos da Ceia do Senhor não estamos exibindo nossa piedade pessoal, mas confessando nossa fé em Sua morte expiatória: "Porque todas as vezes que comerdes este pão e beberdes o cálice, anunciais [ou confessais] a morte do Senhor, até que Ele venha."I Cor. 11:26.
Passar por alto o aspecto do resgate no ato reconciliador de Deus seria perder o essencial do evangelho da graça e negar o mais profundo motivo de nossa gratidão ao Cordeiro de Deus. "Pela graça sois salvos." Efés. 2:8. O coro celestial dos vinte e quatro anciãos no templo de Deus já está cantando este cântico de eterna gratidão:
"Digno és de tomar o livro e de abrir-lhe os selos,porque foste morto e com o Teu sangue compraste para Deus os que procedem de toda tribo, língua, povo e nação, e para o nosso Deus os constituiste reino e sacerdotes, e reinarão sobre a Terra." Apoc. 5:9 e 10.
Para explicar o evangelho da reconciliação Paulo emprega uma analogia entre a unidade corporativa da humanidade em Adão e em Cristo, quando O chama de "o último Adão" ou "o segundo homem". I Cor. 15:45-47. Disse ele: "Porque assim como em Adão todos morrem, assim também todos serão vivificados em Cristo." I Cor. 15:22.
Adão e Cristo são de importância destacada para todos os homens porque, por ambos, todos os homens estão representados diante de Deus. O que ocorreu com Adão e com Cristo é legalmente considerado diante de Deus como se tivesse ocorrido com toda a raça humana. Quando Adão se rebelou contra Deus e caiu no abismo do pecado, condenação e morte, todos os futuros descendentes foram afetados por sua queda. Quando Cristo desceu do Céu em carne humana, pelo milagre do Espírito Santo, foi Ele indicado como o novo representante da raça humana. Porque Ele nunca deixou de confiar e obedecer a Deus, permaneceu sem pecado. Quando morreu, diz o Apóstolo, um morreu por todos, "logo todos morreram". II Cor. 5:14. Isso significa que Cristo como nosso Substituto representou todos os pecadores diante de Deus.
A morte de Cristo foi um ato da graça divina em que "pela graça de Deus" provou "a morte por todo homem". Heb. 2:9. (Grifos acrescentados.) Essa passagem da Escritura reitera a universal representação e substituição da morte de Cristo.
Todas as pessoas devem morrer. A morte é considerada nas Escrituras como o salário do pecado, como o justo juízo de Deus sobre a rebelião de Adão (Rom. 5:12; 6:23), e nunca como algo meritório.
Porém a morte de Cristo teve um caráter singular entre os homens por que Cristo experimentou a amargura da completa maldição da morte, a chamada "segunda morte", por todos. Apoc. 20:6.
Também João salientou o alcance universal ou ilimitado da expiação da morte do Senhor: "Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!" S. João 1:29. "E Ele é a propiciação (hilasmos: sacrifício expiatório) pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos próprios, mas ainda pelos do mundo inteiro." I S. João 2:2. E. G. White reconheceu a expiação ilimitada de Cristo nestas palavras: "Mas a expiação por um mundo perdido devia ser plena, abundante, completa. A oferenda de Cristo foi inexcedivelmente abundante para abranger toda alma que Deus criou. Não se podia restringir, de modo a não exceder o número dos que haviam de aceitar o grande Dom. Nem todos os homens são salvos; todavia, o plano da salvação não é um desperdício pelo fato de não realizar tudo que foi provido por sua liberalidade. Há o suficiente, e sobeja ainda." - O Desejado de Todas as Nocões, pág. 539. "Pecado algum pode ser cometido pelo homem, para o qual não se tenha dado satisfação no Calvário." - Mensagens Escolhidas, livro 1, pág. 343
Paulo vai ainda mais longe ao declarar que Deus quis por meio de Cristo "havendo feito a paz pelo sangue da Sua cruz", reconciliar "consigo mesmo todas as coisas, quer sobre a Terra, quer nos Céus". Col. 1:20. 0 alcance apocalíptico e promessa da cruz de Cristo é que todo o Universo criado será restaurado à paz com Deus. "Para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos Céus, na Terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai." Filip. 2:10 e 11. Essa surpreendente eficácia cósmica da cruz constitui uma eterna salvaguarda contra a apostasia mesmo nos mundos não caídos: "Essa obra de Cristo deveria confirmar os seres de outros mundos em sua inocência e lealdade, bem como salvar os perdidos e os que estavam perecendo neste mundo. Abriu um caminho ao desobediente para voltar à sua fidelidade a Deus, enquanto que pelo mesmo ato pôs uma salvaguarda em torno daqueles que ainda eram puros, para que não se contaminassem." E. G. White, Review and Herald, 11 de janeiro de 1881.
Jesus já havia indicado que Seu sacrifício expiatório, conquanto suficiente para todos, não seria eficaz em todos, por causa da descrença e deslealdade de muitos. S. Mat. 8:21-23. Ele declarou que embora Deus ame o mundo inteiro, somente aquele que crê (tem fé) no Filho de Deus não perecerá, mas terá vida eterna. S. João 3:16. Consequentemente, a morte de Cristo "restaurou toda a raça humana ao favor de Deus" (Mensagens Escolhidas, livro 1, pág. 343), mas nem todos os pecadores do mundo estão automaticamente "em Cristo." Somente aqueles que aceitam o ato de reconciliação de Deus recebendo a Cristo como Senhor em seu coração estão verdadeiramente reconciliados com Deus. A responsabilidade do homem em responder ao evangelho divino da reconciliação, apropriando-se dele pessoalmente pela fé é absolutamente necessãria para ser contado "em Cristo".
"Reconciliai-vos!" é o solene apelo de Cristo a todos através de Seus embaixadores. II Cor. 5:20. Deus não esta satisfeito com o mero anúncio ou proclamação de Sua histórica reconciliação na cruz de Cristo. Como uma seta que se dirige para o alvo, o evangelho da reconciliação tem por objetivo a entrega do coração ao domínio de Cristo. I S. Ped. 3:15. Reconciliação é a restauração de uma comunhão pessoal com Deus através da união da alma com Cristo. O filho pródigo deve retornar ao Pai. Só assim o ato objetivo de Deus de reconciliação na cruz torna-se subjetivamente eficaz. Os crentes devem mudar sua atitude de hostilidade contra Deus para uma atitude de amor e submissão a Ele, a fim de amarem como Cristo nos ama, e perdoar a outros assim como Deus em Cristo nos perdoou. Col. 1:21 e 22; 3:12-17; Efés. 4:31 e 32; 5:1-4.
Aqueles que aceitam pela fé que Deus reconciliou consigo o mundo em Cristo e que se submetem à Sua vontade receberão dEle o inestimável dom da justificação com sua consequência imediata de paz com Deus. Rom. 5:1. Deixando de ser o objeto da ira divina, os crentes justificados tornam-se objetos do favor de Deus. Com livre acesso ao trono de Deus por meio de Cristo, recebem o poder do Espírito Santo para derribar todas as barreiras e muros de hostilidade que dividem os homens, simbolizados pela hostilidade que havia entre judeus e gentios. Efés. 2:14-16. "Seja a paz de Cristo o árbitro em vossos corações, à qual, também, fostes chamados em um só corpo: [a Igreja] e sede agradecidos." Col. 3:15.
Cristo ensinou a Seus seguidores, como parte de seu serviço a Deus, tentar reconciliar-se que tinham algum agravo contra eles. S. Mat. 5:23 e 24.
A responsabilidade do cristão de estender sua própria reconciliação, recebida gratuitamente de Deus, aos seus devedores, é dramaticamente ilustrada por Jesus na parábola do credor incompassivo. A esse ser ingrato, o próprio rei perdoou "dez mil talentos", ou seja, muitos milhões de dólares. Quando o rei ouviu que esse servo se recusava a ter misericórdia de um dos seus conservos que lhe devia apenas uns poucos dólares, o rei intimou-o novamente: "'Servo malvado', disse ele, 'perdoei-te aquela dívida toda porque me suplicaste; não devias tu, igualmente, compadecer-te do teu conservo, como também eu me compadeci de ti?' E, indignando-se, o seu senhor o entregou aos verdugos, até que lhe pagasse toda a dívida. Assim também Meu Pai celestial vos fará, se do Intimo não perdoardes cada um a seu irmão." S. Mat.18:32-35.
A divina obra da reconciliação está baseada na perfeita expiação de Cristo na cruz, mas não se limita a isso. A reconciliação é uma função sacerdotal que une o Céu e a Terra por meio do sangue do Cordeiro de Deus. Essa reconciliação sacerdotal teve início imediatamente após a queda do homem, tendo como fundamento o prometido sacrifício-resgate.
O Cordeiro de Deus estava destinado e entregue para ser morto antes da criação do mundo. I S. Pedro 1:20; Apoc. 13:8. (Ver também o capitulo 1 deste livro.) Quando o pecado pela primeira vez se manifestou, um Salvador já estava providenciado. Comparar com Gên. 3:15, 21.
A obra divina de reconciliação começou no Paraíso e continuou através do sangue dos sacrifícios simbólicos e do ritual do tabernáculo do antigo Israel. Portanto, no decorrer da antiga dispensação, Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo.
Ele revelou explicitamente a Israel que o sangue do sacrifício oferecido sobre o altar para fazer expiação por suas almas era o próprio dom de Deus a Israel. Lev. 17:11. É importante observar que a lei cerimonial não considera a morte dos animais sacrificados, como tal, uma expiação. Somente a ministração sacerdotal do sangue derramado nos altares e sua aspersão sobre o propiciatório (no anual Dia da Expiação) efetuava a "expiação", para que o povo de Israel fosse aceito por Yahweh. Lev. 16:16-19.
A expressão que se repete constantemente é que "o sacerdote por eles fará expiação, e eles serão perdoados". Lev. 4:20, 26, 31, 35; 5:16. (Grifos supridos.)
Desses exemplos aprendemos que o Antigo Testamento ,não restringe o termo "expiação" a morte do sacrifício, mas inclui também na expiação a obra intercessória dos sacerdotes nos serviços diários e a do sumo sacerdote no serviço anual do santuario.
Assim, é muito importante reconhecer que o Novo Testamento considera os serviços e o culto do santuário de Israel como uma prefiguração profética e tipológica do próprio sacrifício de Cristo na Terra e do Seu subseqüente ministério sacerdotal no santuário celestial. Heb. 8:1-5; 9:11-14, 22-24.0 Livro de Hebreus não hesita em chamar a obra intercessória de Cristo no Céu de uma " propiciação pelos pecados do povo". Heb. 2:17 (Ênfase acrescentada); hilaskesthai, literalmente "fazer propiciação"; R. S. V. "fazer expiação". Em outras palavras, o Salvador ressurreto está ainda "fazendo expiação" em Sua presente obra de perdoar pecados, de reconciliar os crentes com Deus e de dotar os crentes de poder para vencer os pecados.
Não devemos perder de vista esse ensinamento que encontramos em Hebreus, sobretudo pelo fato de que a Igreja Cristã infelizmente acabou restringindo a "obra expiatória" de Cristo à Sua morte na cruz. Todavia, Louis Berkhof reconhece em sua Systematic Teology (Grand Rapids, Mich.: Wm. B. Eerdmans, 1972): "[depois de citar Heb. 8:2]. O ministério sacerdotal de Cristo não se limita à oferta sacrifical de Si mesmo na cruz... Ele simplesmente começou Sua obra sacerdotal na Terra, e a está completando agora no Céu." Pág. 400.
A obra de intercessão que Cristo realiza no Céu pelos crentes é também chamada uma obra de salvação: "Este, no entanto, porque continua para sempre, tem o Seu sacerdócio imutável. Por isso também pode salvar totalmente os que por Ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles." Heb. 7:24 e 25. Comparar com Heb. 4:15,16; Rom. 8:33 e 34. Essa intercessão salvifica de Cristo no Céu ocorre "diante de Deus" (Heb. 9:24) e resulta na purificação de "nossa consciência de obras mortas para servirmos ao Deus vivo!" Heb. 9:14; comparar com I S. João 1:7, 9. Podemos achegar-nos ao nosso Sacerdote real "confiadamente, junto ao trono da graça, a fim de recebermos misericórdia e acharmos graça para socorro em ocasião oportuna". Heb. 4:16. Por meio de Cristo, Deus "é poderoso para vos guardar de tropeços e para vos apresentar com exultação, imaculados diante da Sua glória". S. Jud. 24; comparar com I S. João 5:18. Que pensamento emocionante de que Cristo pelo poder de Sua graça é capaz de guardar a cada um de nós da transgressão e de cair em pecado! João escreveu mais explicitamente: "Filhinhos meus, estas coisas vos escrevo para que não pequeis. Se, todavia, alguém pecar, temos Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o justo; e Ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos próprios, mas ainda pelos do mundo inteiro." I S. João 2:1 e 2.
João chama nosso Salvador no Céu de nosso "Advogado [paraktetosj junto ao Pai", "alguém que fala ao Pai em nossa defesa" (N. I. V.), se temos pecado como crentes. A eficácia da intercessão de Cristo no Céu esta baseada no fato de ser Ele ao mesmo tempo o "justo" (verso 1) e "a propiciação pelos nossos pecados (hilasmos, a "expiação", R. S. V., verso 2). João não declara que Cristo foi o sacrifício expiatório (ou "propiciação", "expiação") mas que o Cristo ressuscitado é o sacnfício expiatório!
João escreveu enfaticamente que "o sangue de Jesus" está no presente limpando ou purificando-nos de todo pecado. I S. João 1:7, 9. (katharizei, verbo no tempo presente.) Como o "Justo" Ele salva o transgressor penitente imputando-lhe Sua justiça. Esta é presentemente a obra expiatória de Cristo como um "misericordioso e fiel Sumo Sacerdote" nas cortes celestiais. Comparar com Heb. 2:17. F. Buchsel, entre outros eruditos, reconhece isso em seu comentário de I S. João 2:2: "O hilasmos não está exclusivamente relacionado com a simples realização da morte, mas com a pessoa e obra total de Jesus, de que Sua morte é, fora de dúvida, uma parte indissolúvel, 5:6; comparar com 3:16; 1:7." - Theo1ogica1 Dictionary of the New Testament [Kittel, ed.], vol. 3, pág. 318; citado em The New International Dictionary of N.T. Theology, vol. 3 [1978], pág. 163.
À ressurreição de Cristo dentre os mortos a fim de Se tornar nosso Sumo Sacerdote celestial significa nada menos do que a imortalização do sacrifício expiatório da morte de Cristo. Cristo continua levando o supremo titulo de "Cordeiro" de Deus em todas as fases subseqüentes de Sua obra de salvação e juízo. Apoc. 5:6; 6:1, 16; 7:10, 14, 17; 17:14; 19:7; 22:1. Para sempre, ressoarão cânticos de louvor no Céu e na Terra: "Digno é o Cordeiro, que foi morto, de receber o poder, e riqueza, e sabedoria, e força, e honra, e glória, e louvor." Apoc. 5:12.
Os santos que vieram da grande tribulação, na visão de João, "lavaram suas vestiduras, e as alvejaram no sangue do Cordeiro". Apoc. 7:14. Isso retrata simbolicamente a eficácia permanente do sangue de Jesus ao imputar e partilhar Sua justiça aos crentes arrependidos e obedientes. "Séculos e eras nunca poderão diminuir a eficácia de Seu sacrifício expiatório. Nem a morte, nem a vida, altura ou profundidade, nada nos poderá separar do amor de Deus que esta em Cristo Jesus; não porque a Ele nos apeguemos com firmeza, mas porque Ele nos segura com Sua forte mão." -Atos dos Apóstolos, pág. 553.
Portanto, não devemos nos esquecer de que a intercessão de Cristo diante de Deus no Céu é tão essencial à nossa salvação como foi Sua morte na cruz. - Ver E. G. White, O Grande Conflito, pág. 492. Após a conclusão de Sua missão terrestre, Cristo ascendeu a fim de adentrar para o outro lado do véu do santuário celestial para comptetar a olra em prol da nossa salvação. Heb. 6:19 e 20; 7:25.
Um aspecto vital da obra intercessória de Cristo e que entretanto é geralmente ignorado pela teologia evangélica é o trabalho do juízo em Seu ministério celestial. Antes de retornar ao nosso planeta a fim de executar Seus juízos, Ele estará empenhado em um juízo pré-advento que determina quem será salvo ou perdido. A base tipológica para essa obra de juízo final é encontrada na festividade anual do Dia da Expiação, o Dia do Ajuste de Contas, que culminava com a purificação do santuário e a cerimônia do bode emissário. Lev. 16; 23:26-32. Esse ritual não teve seu cumprimento antitipico, quer na obra sacerdotal de Cristo na cruz, quer em Sua intercessão diária no Céu. Tão certo como o sacerdócio levítico funcionava em duas fases distintas, a mediação diária e a anual, assim ocorre no grande cumprimento antitípico do ministério de Cristo no Céu. Cristo não continuará a interceder por pecadores através da eternidade. Como o Dia da Expiação anual ensinava a Israel, assim o Novo Testamento declara com ineludivel firmeza que Deus "estabeleceu um dia em que há de julgar o mundo com justiça por meio de um varão que destinou e acreditou diante de todos, ressuscitanto-O dentre os mortos". Atos 17:31.
Cristo pessoalmente anunciou diante do Sinédrio, a corte suprema de Jerusalém, que um dia os papéis seriam invertidos: "E o Pai a ninguém julga, mas ao Filho confiou todo o julgamento."S. João 5:22.
A obra final de julgamento efetuada por Cristo envolverá todos os homens, santos e pecadores, até mesmo Satanás e seus anjos.
Paulo declarou mais especificamente que Deus julgará a todos os homens, judeus e gentios, segundo as suas obras. Rom. 2:6-11; citação de Sal. 62:12; Prov. 24:12. E acrescenta: "No dia em que Deus, por meio de Cristo Jesus, julgar os segredos dos homens, de conformidade com o meu evangelho" (verso 16). Esse dia em que se dará a recompensa final aos salvos (pela graça) e a punição dos pecadores virá na segunda vinda de Cristo em glória e fogo: "Tomando vingança contra os que não conhecem a Deus e contra os que não obedecem ao evangelho de nosso Senhor Jesus."II Tess. 1:8; comparar com S. Mat. 16:27.
Contudo, Paulo também se referiu mais diretamente ao jufzo final dos crentes cristãos: "Por-que importa que todos nós compareçamos perante o tribunal de Cristo para que cada um receba segundo o bem ou o mal que tiver feito, por meio do corpo." II Cor. 5:10. "Pois todos compareceremos perante o tribunal de Deus.... Assim, pois, cada um de nós dara contas de si mesmo a Deus." Rom. 14:10-12. "Manifesta se tornará a obra de cada um; pois o dia a demonstrará, porque esta sendo revelada pelo fogo; e qual seja a obra de cada um o próprio fogo o provará. Se permanecer a obra de alguém que sobre o fundamento edificou, esse recebera galardão; se a obra de alguém se queimar, sofrera ele dano; mas esse mesmo sera salvo, todavia, como que através do fogo." I Cor.3:13-15.
Assim, pois, até mesmo os crentes que estão em Cristo, e portanto não mais sob a ira divina ou condenação (Rom. 8:1), ainda serão julgados pelas suas obras.
Os crentes e os incrédulos não precisam estar pessoalmente presentes na fase investigativa do jufzo divino, porque: "Os mortos foram julgados, segundo as suas obras, conforme o que se achava escrito nos livros." Apoc. 20:12; comparar com Exo. 32:32 e 33; Isa. 4:3; Sal. 69:28; Dan. 7:9 e 10; 12:1 e 2. (Enfase acrescentada.>
Aqueles registros celestiais, conhecidos desde o tempo de Moisés, falam ao homem que ele deve inevitavelmente prestar contas a Deus. Aparentemente representam um exato reflexo do carater de cada ser humano. No conhecimento de Deus existe, é claro, um inventário instantâneo de todos os tempos. "Ele não somente julga, mas recapitula, dia por dia e hora por hora, nosso progresso no bem fazer." - Comentários de E. G. white, S.D.A. Bible Commentary, vol. 7, pag. 987.
Qual é então a questão crucial no juízo, a questão decisiva? No momento final, ao ser considerado nosso caso individual nas cortes celestiais, não será a maior quantidade de boas ou mas ações o que determinara nosso destino eterno, mas antes se alguém é encontrado estando em Cristo ou fora de Cristo. "Aquele que tem o Filho tem a vida; aquele que não tem o Filho de Deus não tem a vida." I S. João 5:12. 0 que mostra se a relação com Deus foi positiva ou negativa é a atitude de alguém, quer seja de arrependimento, humildade, amor e obediência à verdade: quer seja, por outro lado, egoísmo, auto-afirmação e desobediência voluntária. A profissão de fé, somente, ou o serviço dos labios, serão desmascarados como hipocrisia.
O caráter em relação a Cristo é passado em revista. Cristo permanecera como Intercessor e Advogado daqueles que creram nEle e O seguiram. Tendo a Cristo como nosso Advogado agora, Ele sera nosso Amigo na sessão final da corte.
Cristo promete: "O vencedor sera assim vestido de vestiduras brancas, e de modo nenhum apagarei o seu nome do livro da vida; pelo contrario, confessarei o seu nome diante de Meu Pai e diante dos Seus anjos." Apoc. 3:5. "Nosso grande Sumo Sacerdote esta intercedendo diante do propiciatório em favor de Seu povo resgatado. ... Satanas esta à nossa direita para nos acusar, e nosso Advogado esta à mão direita de Deus pleiteando por nós. Jamais perdeu uma causa que Lhe foi confiada. Podemos confiar em nosso Advogado; Ele alega Seus próprios méritos em nosso favor."
- E. G. White, Review and Herald, 15 de agosto de 1893.
O verdadeiro crente em Cristo não esta isento do exame final, mas ele não precisa temer o julgamento, porque Cristo como Juiz jamais condenará, mas apenas vindicará àquele que for achado em Cristo. Rom. 8:1, 33 e 34; Zac. 3:3-5. Paulo perguntou: "Se Deus é por nós, quem sera contra nós?" Rom. 8:31.
Tudo depende de estarmos usando as vestes nupciais providas pelo Rei para o seu banquete. S. Mat. 22:11.
Com toda confiança Paulo aguardava "a esperança da justiça que provém da fé" (Gal. 5:5) como a absolvição final do cristão por Cristo no último julgamento. Não estava atemorizado ou em dúvida quanto a esse veredicto porque sabia em quem tinha crido: "Logo, muito mais agora, sendo justificados pelo Seu sangue, seremos por Ele salvos da ira. Porque se nós, quando inimigos, fomos reconciliados com Deus mediante a morte do Seu Filho, muito mais, estando já reconciliados, seremos salvos pela Sua vida. " Rom. 5:9, 10. (Grifos supridos.).
Esta futura salvação da ira de Deus, dos juízos que cairão sobre os que rejeitam a Cristo (comparar com S. João 3:36), será o último ato expiatório de Cristo no Céu em favor do Seu povo. O juízo final selará nossa eterna reconciliação com Deus.

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