JUSTIFICAÇÃO


O "justo viverá por fé." Rom. 1:17. Este éo texto que trouxe o gozo do livramento à alma de Lutero em sua busca de salvação. Tornou-se o grito de batalha da grande Reforma do século dezesseis. Essa passagem continua sendo a estrela guiadora para todo o verdadeiro Protestantismo porque é o próprio centro do "evangelho eterno". Apoc. 14:6.
O Apóstolo Paulo explica mais detalhadamente seu significado: "Mas agora, sem lei, se manifestou a justiça de Deus testemunhada pela lei e pelos profetas; justiça de Deus mediante a fé em Jesus Cristo, para todos os que crêem." Rom. 3:21, 22.
Aqui podemos aprender como a lei e o evagelho podem ser distinguidos em suas funções complementares de exigência e dom, ou condenação e justificação. A lei e o evangelho estão unidos no plano de Deus para o mesmo e único propósito:
para que o filho de Deus possa perceber que seu pecado é condenáve1 diante de Deus; e que ele portanto deve buscar sua justiça em Cristo, somente pela fé. Conseqüentemente, a lei de Deus e o evangelho de Cristo são ambos necessários. Depois da queda, nenhuma das duas coisas pode subsistir sem a outra. A lei de Deus não destrói o evangelho de Cristo, antes, pelo contrário, revela que o evangelho da graça é necessário e indispensável. Por outro lado, nossa justificação pela fé não anula a lei de Deus, mas antes nos põe em harmonia com Deus e Sua santa lei.
Paulo pergunta: "Anulamos, pois, a lei, pela fé? Não, de maneira nenhuma, antes confirmamos a lei." Rom. 3:31.
O problema não esta na divina lei, nem em Deus, mas no homem e seu pecado, que é transgressão da lei de Deus." I S. João 3:4. Precisamos conscientizar-nos de que tanto a lei quanto o evangelho procedem do mesmo Deus, o qual não esta dividido ou em contradição consigo mesmo. Porém o homem, como pecador, esta em conflito com a vontade divina. O evangelho da reconciliação é o plano de Deus para remover o conflito e restaurar o homem à sua harmonia original com Deus.
Vamos resumir brevemente de que modo Lutero descobriu o evangelho. Ele viveu na Idade Média, quando os teólogos não davam alta prioridade ao estudo da Bíblia. Ao ser nomeado para ensinar as Escrituras Sagradas, Lutero voltou-se para a Bíblia com profundo interesse pela verdade.
Antes de Lutero se tornar o grande reformador, a mais terrível e alarmante palavra da Bíblia para ele era "justiça". Mesmo quando lia Romanos 1:17 ("Visto que a justiça de Deus se revela no evangelho, de fé em fé") sua alma sensível tremia como um caniço, percebendo a santa justiça divina e sua própria indignidade aos olhos de Deus. Em resposta, ele se esforçava ao máximo, fazendo penitência e outras boas obras prescritas pela igreja.
Em sua mente a característica dominante de Deus era Sua justiça, a qual não pode tolerar o menor traço de desejo egoísta. Lutero só podia conceber a justiça de Deus em termos do conceito latino de justiça (iustitia) que traz somente o significado jurídico de justiça retributiva ou punitiva. Como os teólogos medievais, via a justiça de Deus estritamente em termos de Deus como Juiz.
Portanto, a oração de Davi no Salmo 31 era para Lutero um enigma inexplicável: "Livra-me por Tua justiça"; a mesma perplexidade existia ao ler o Salmo 143: "Dá ouvidos às minhas súplicas,... segundo a Tua justiça", porque a palavra "justiça" trovejava aos ouvidos de Lutero unicamente como a ira e o terrível juízo de Deus.
Em desespero, voltou-se para o Novo Testamento em busca de consolo. Qual É o verdadeiro significado do evangelho? Em busca de uma resposta a essa pergunta, abriu o livro de Romanos e leu no primeiro capitulo, o verso 16: "Pois não me envergonho do evangelho, porque É o poder de Deus para a salvação..."
Salvação! Era isso que Lutero havia buscado durante anos sem conseguir encontrar. Aqui Paulo lhe diz que o evangelho É o poder de Deus para a salvação. Lutero estava emocionado! Buscando o segredo do evangelho, avidamente continou lendo: "Visto que ajustiça de Deus se revela no evangelho" (verso 17). Com um golpe Paulo tira a última esperança de seu coração. O Apóstolo está lhe dizendo que o próprio evangelho É uma revelação da justiça de Deus.
Como pode Paulo qualificar o evangelho de "justiça"? E o evangelho uma outra manifestação da lei? Se isso fosse verdade, então o evangelho só poderia condenar, porque o significado de justiça não É sempre que Deus trata a cada homem de acordo com o que ele merece?
Lutero tentou compreender o texto estudando seu contexto. E assim chegou a Romanos 3:21:
"Mas agora, sem lei, se manifestou a justiça de Deus." Subitamente sua visão ficou clara. Pela graça de Deus podia ver agora o que Paulo queria dizer - a "justiça de Deus" não era uma justiça exigida do homem, mas uma justiça que era oferecida ao crente no evangelho - e o que representava portanto uma profunda expressão do amor de Deus! Ele oferece gratuitamente a justiça de Cristo ao crente como Sua própria justiça divina. Esta É a salvação do evangelho. Ele justifica o pecador através da justiça de Cristo. A justiça do evangelho não É obra nossa, mas Seu dom, pelo qual Ele nos justifica e nos torna justos! A partir daquele momento, Lutero foi libertado. Ele podia cantar. Agora os Salmos lhe soavam bem. Testificou: "Senti-me como se houvesse nascido de novo e como se tivesse entrado no paraíso pelas portas recém-abertas. Desde então a Bíblia começou a falar-me de uma maneira um tanto diferente. A mesma frase "a justiça de Deus", que anteriormente se me afigurava odiosa, tornara-se agora aquela que eu amava mais do que todas as outras. Eis como aquela passagem paunna tornou-se para mim a porta do paraiso. Finalmente a Escritura inteira mostrou-me outra face." - Luther's Works, Concordia Publishing House, VOl. 34, pag. 336.
A interpretação correta de Romanos 1:17 tinha pouco a pouco calado mais profundamente em sua alma, até que finalmente irrompeu em boas novas para a turbada consciencia de Lutero.
A descoberta de Lutero foi o resultado de ouvir atentamente a Bíblia sem permitir que noções preconcebidas determinassem seu significado; foi uma descoberta exegética, que representava para Lutero um novo conceito de Deus. Essa nova compreensão de Deus o levou a uma nova relação com Ele, não mais baseada nas virtudes de Lutero e em seu amor para com Deus, nem no moralismo, ou racionalismo, ou misticismo, mas exclusivamente na compreensão da cruz de Cristo segundo a mensagem do evangelho. A partir de então Lutero se gloriou na cruz. Ali estava sua inamovível certeza de salvação! Desenvolveu uma espécie de teologia completamente nova, a qual a Igreja não conhecera desde o Apóstolo Paulo: uma teologia da cruz em oposição à teologia que glorificava as capacidades e realizações humanas. A teologia de Lutero começava e terminava com a cruz: "Deus só pode ser encontrado no sofrimento e na cruz."- Luther's Works, vol. 31, pág. 53. E isso não pode ser captado por meio da percepção dos sentidos ou pela contemplação mística, mas somente pela fé.

A Raiz de Nossa Justificação

Lutero concentrou-se fortemente na conclusão central da mensagem paulina expressa em Romanos 3:28: "Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé, independemente das obras da lei."
"Fé" aqui significa fé em Cristo como o prometido Cordeiro de Deus, fé na justiça de Cristo como se fosse nossa, confiança em Seus méritos como plenamente suficientes para nós em Deus.
Seus méritos não complementam nossos próprios méritos, mas são nossos únicos méritos diante de Deus. Esse princípio básico do evangelho é válido não só para o descrente mas também para o crente. Até Paulo, o grande pregador, confessou: "Mas longe esteja de mim gloriar-me, senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo." Gál. 6:14.
Mas não são nossas obras de obediência à vontade de Deus, as boas obras dos crentes nascidos de novo, de algum valor diante de Deus? Não São elas realizadas com a ajuda do Espírito Santo? Os frutos do Espírito de Deus em nossos atos e caráter são os frutos necessários de nossa justificação. Mas nossa justificação não se baseia neles. A raiz e causa de nossa justificação diante de Deus não é nossa obediência, mas a de Cristo: "Porque, como pela desobediência de um só homem muitos se tornaram pecadores, assim também por meio da obediencia de um só muitos se tornarão justos."Rom. 5:19 (Grifos suprimidos.) Não devemos confundir os frutos com a raiz!Disse Jesus: "Porventura terá de agradecer ao servo por ter este feito o que lhe havia ordenado? Assim também vós, depois de haverdes feito quanto vos foi ordenado, dizei: Somos servos inúteis, porque fizemos apenas o que devíamos fazer." S. Luc. 17:9 e 10.
Do mesmo modo Paulo pergunta: "Que tens tu que não tenhas recebido? E, se o recebeste, por que te vanglorias, como se o não tiveras recebido?" I Cor. 4:7.
Ele estabelece um assinalado contraste entre o verdadeiro e o falso caminho da salvação: "Ora, ao que trabalha, o salário não é considerado como favor, e, sim, como dívida. Mas ao que não trabalha, porém crê nAquele que justifica ao ímpio, a sua fé lhe é a atribuida como justiça." Rom. 4:4 e 5.
Esta aqui a questão crucial: Nao se necessita de obras para ser justificado. Deve-se crer e confiar em Cristo. O âmago do evangelho não é "fazer!" mas "feito!" Não é "faça!" mas "creia!"
Não precisamos ser bons para ser salvos. Devemos ser salvos para ser bons. Não somos salvos pela fé e obras, mas pela fé que opera.
Paulo ilustra esse princípio de justificação pela fé em Romanos 4 mediante dois exemplos extraidos do Antigo Testamento: Abraão e Davi. Observe que Paulo ensinou o mesmo evangelho que o Antigo Testamento! Ele cita um dos mais notaveis versículos de todo o Antigo Testamento no qual está escrito acerca do Abraão: "Ele creu no Senhor, e isso lhe foi imputado para justiça." Gên. 15:6.
Isto é justificação pela fé! Pela fé no Senhor, isto é, pela fé em Suas promessas, o Senhor justificou a Abrão, considerando-o como se fosse justo no julgamento divino. E esse julgamento, esse creditar é o que realmente conta; somente esse julgamento pode dar repouso à consciência turbada do homem. Unicamente a palavra decisiva de Deus comunica paz à alma e alegria ao coração, porque a palavra de Deus é superior e mais digna de confiança que o nosso coração. Abrão foi justificado pela fé.
O outro exemplo foi Davi, que confessou:
"Bem-aventurado aquele cuja iniquidade é perdoada, cujo pecado, é coberto. Bem-aventurado o homem a quem o Senhor não atribui iniqüidade, e em cujo espírito não há dolo." Sal.32:1 e 2.
Quando Davi falou da bem-aventurança do homem perdoado a quem o Senhor não leva em conta seu pecado, Paulo interpretou essas palavras significando que "Davi declara ser bem-aventurado o homem a quem Deus atribui [ou, imputa, Versão Almeida Revista e Corrigida; ou, credita, N. I. V] justiça, independentemente de obras." Rom.4:6. Aqui, Paulo interpreta o perdão do Antigo Testamento como justiça pela fé.
Fica claro portanto que todos nós necessitamos da mesma justificação que receberam os santos do Antigo Testamento. Enquanto eles olhavam para o futuro, aguardando o Cordeiro de Deus que seria morto, nós olhamos para o passado, para o Cordeiro que foi morto. Porém, o poder salvífico do sacrifício expiatório de Cristo estava, e está, como sempre, à disposição do ser humano. Cristo é o Cordeiro morto "desde a fundação do mundo." Apoc. 13:8.
Todos nós precisamos ser justificados diariamente pela fé em Cristo, quer tenhamos transgredido conscientemente, quer tenhamos errado inconscientemente. Assim é que Davi orava: "Quem há que possa discernir as próprias faltas? Absolve-me das que me são ocultas." Sal. 19:12. Ele confessou a insondável profundidade de seu coração pecaminoso à luz da santa lei de Deus e reconheceu diante de Deus que nem mesmo a si próprio conhecia completamente. Então suplicou o perdão para cobrir suas "faltas ocultas." Pediu a graça perdoadora do seu Deus, não somente para atos pecaminosos isolados, mas para seu coração pecador.
Jeremias se referia a essa dimensão do pecado quando escreveu: "Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto, quem o conhecera?" Jer. 17:9.
Em Sua providência não nos coloca o Senhor frequentemente em diferentes posições e circunstâncias para que possamos descobrir defeitos ocultos de nosso caráter? Faltas nos são constantemente reveladas, as quais nem suspeitávamos existir.
Quanto necessitamos conhecer a Deus a fim de conhecermos a nós mesmos! Precisamos dEle a cada hora,constantemente. E quanto mais O conhecermos, mais profundamente nos convenceremos de nossa necessidade dEle, e mais dependeremos de Suas promessas. Por isso João escreveu aos crentes: "Se dissermos que não temos pecado nenhum, a nós mesmos nos enganamos, e a verdade não está em nós. Se confessarmos os nossos pecados, Ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça." I S. João 1:8 e 9.
Em grego, o verbo traduzido por "purificar" está escrito no tempo presente. Recebemos perdão e purificação de nosso Sumo Sacerdote do Céu quando sinceramente confessamos nossos pecados, que é a manifestação do verdadeiro arrependimento.

O Que é Justificação Pela Fé?

Justificação pela fé em Cristo é, segundo a definição bíblica, a divina imputação da justiça de Cristo ao nome individual do crente. E o "acerto" legal com Deus através de Cristo, nosso Substituto e Fiador. Esse é o ensino do serviço do santuário do Antigo Testamento, do profeta Isalas (capítulo 53) tal como explica o Apóstolo Paulo:
"Aquele que não conheceu pecado, Ele O fez pecado por nós; para que nEle fôssemos feitos justiça de Deus." II Cor. 5:21.
Cristo ressuscitou dos mortos por causa de nossa justificação. Rom. 4:25. Cristo nos justifica como crentes, isto é, perdoa nossa culpa tomando-a sobre Si mesmo e dando-nos em troca Sua justiça perfeita. Ou, em outras palavras, Cristo não mais considera nossa culpa contra nós, mas pôe em nossa conta Sua perfeita obediência à lei de Deus. Ao que crê, Cristo o declara justo perante o Universo e trata-o como um amado filho de Deus.
Uma comovente ilustração da justificação do crente é dada em uma visão do profeta Zacarias. Ele viu seu contemporâneo, o sumo sacerdote Josué, que representava Israel, o povo do concerto, em pé diante de Deus "trajado de vestes sujas". Satanas também estava presente, acusando a Josué de sua culpa. Porém o anjo do Senhor ordenou a justificação de Josué, dizendo: "Tirai-lhe as vestes sujas" com a explicação adicional: "Eis que tenho feito que passe de ti a tua iniqúidade." Todavia, Deus não deixa Josué desnudo. O anjo acrescentou imediatamente: "e te vestirei de finos trajes." Zac. 3:4.
A idéia aqui expressa não é que nossas faltas confessadas e perdoadas são destruidas ou aniquiladas, como se Deus repentinamente passasse por alto todo o problema do pecado. Não, do mais amplo contexto das Escrituras (especialmente de Isaías 53), aprendemos que a culpa dos crentes é transferida para o imaculado, puro e santo Filho de Deus. II Cor. 5:21.0 indigno pecador arrependido é, portanto, vestido da justiça imputada de Cristo. Essa permuta de roupas, essa transação divina e salvifica, é a doutrina bíblica da justificação.
Contudo, a justificação implica em mais do que uma mera transação legal. A justiça de Cristo é um poder regenerador, "é um princípio de vida que transforma o caráter e rege a conduta". -O Desejado as Todas as Nações, pág. 529. Muitos têm uma opinião demasiado estreita e abstrata do perdão ou justificação. Isso levou E. G. White a declarar: "0 perdão de Deus não é meramente um ato judicial pelo qual Ele nos livra da condenação. E não somente perdão pelo pecado, mas livramento do pecado. E o transbordamento de amor redentor que transforma o coração." - OMajor Discurso de Cristo, pag. 100.
Qual é a parte do homem na justificação? Fé e arrependimento, que são também dons concedidos por Cristo a cada um que O contempla suspenso na cruz pelos pecadores. S. João 12:32; Atos 5:31.
Cristo na cruz é o evangelho da reconciliação, e devemos reclamar os méritos de Sua obediência à lei de Deus como sendo nossos.
Ellen White encorajou a cada pecador que está perecendo a dizer: "Nem um momento mais preciso ficar sem me salvar. Ele morreu, e ressurgiu para minha justificação, e me salvará agora. Aceito o perdão que prometeu." - Mensagens Escolhidas, livro 1, pág. 392.
A fé em Cristo deve preceder a nossa justificação pessoal, como disse Paulo: "Também nós temos crido em Cristo Jesus, para que fóssemos justificados pela fé em Cristo." Gál. 2:16.
Apesar de a fé não ser nosso salvador, ou nosso mérito, ela é o instrumento ou condição de salvação. A fé aceita e se apropria de Cristo como nosso Salvador pessoal, o Único que é santo. A contemplação da pureza impecável de Cristo e Sua compaixão pelos pecadores conduz a um sincero arrependimento e confissão do pecado.
Nossa sincera auto-condenação e aceitação de Cristo como o perfeito representante do Pai é nosso ato de fé que glorifica a Deus porque justtfica a Deus.
Davi confessou: "Pequei contra Ti, contra Ti somente, e fiz o que é mau perante os Teus olhos, de maneira que serás tido por justo no Teu falar e puro no Teu julgar." Sal. 51:4.
Seguindo o mesmo raciocínio, disse Lucas ao referir-se àqueles que foram batizados por João Batista, confessando seus pecados, que "justificaram a Deus." S. Luc. 7:29.
A confissão de nossa culpabilidade, selada pelo batismo, justifica a Deus porque por meio dela reconhecemos que Deus é justo e Lhe atribuimos irrepreensibilidade. Finalmente todos os joelhos se dobrarão ante o trono de Sua santidade para confesar a justiça e o poder de Deus. Isa. 45:23 e 24; Filip. 2:10.
Nossa justificação não pode vir por nenhum outro meio a não ser pela fé em Cristo. Todo pensamento ou esforço em busca de qualquer mérito em nossa obediência a Deus destrói imediatamente o aspecto da graça obtida por Cristo na cruz. Paulo é categórico a esse repeito quando declara: "Não anulo a graça de Deus; pois, se a justiça é mediante a lei, segue-se que morreu Cristo em vão." Gãl. 2:21.
Ele vai ainda multo além quando declara: "Todos quantos, pois, são das obras da lei, estão debaixo de maldição" (Gál. 3:10); e, "De Cristo vos desligastes vós que procurais justificar-vos na lei, da graça decaístes." Gál. 5:4. E mais: "E se é pela graça, já não é pelas obras; do contrário, a graça já não é graça." Rom. 11:6.
Paulo aqui está tratando de dois diferentes princípios ou maneiras de nossa relação com Deus:
uma pela graça, a outra pelas obras ou pela lei. Paulo não está pondo a lei de Deus em oposição à Sua graça! Nem o poderia fazer! Deus não está dividido. Seria isso um fatal equívoco de Paulo e de Deus. Ele não contrasta a graça com a lei de Deus, mas com a justiça pela lei! Gál. 2:21.0 contrate é entre salvação pela graça e salvação pela lei.
Paulo desmascara o uso equivocado e trágico da lei de Deus que faziam os judaizantes. Nunca foi propósito de Deus utilizar-Se da lei como o termômetro da justiça de Israel. Pelo contrário, Ele deu a lei no Sinai como a revelação de Sua santidade a fim de que Israel, por contraste, pudesse descobrir a pecaminosidade de seu coraçao.
A lei foi dada para convencer o homem do pecado, não como meio de sua justificação. Pela condenação da lei, o homem poderia ver mais claramente a necessidade de um Salvador e Sua justiça. A lei é o instrumento utilizado pelo Espírito Santo para nos mostrar a necessidade de Cristo, a fim de que possamos ir a Cristo e ser justificados pela fé nEle. Assim, pois, a justificação pela fé reafirma a santidade da lei.
A justificação traz segurança e a certeza de nossa aceitação por Deus. Nada pode substitui-la. Não existe nenhum outro plano pelo qual os pecadores possam ser salvos ou encontrar paz. Tanto o Antigo como o Novo Testamento ensinam o mesmo caminho para o eterno reino de Deus. Abraão é chamado o pai de todos os crentes - tanto judeus como gentios. Ver Rom. 4.
Muitos não percebem que o Antigo e o Novo Testamento estão unidos espiritualmente em Cristo. Confundem o Antigo Testamento com o farisaismo, tomando-os como sinônimos. Mas há uma distinção básica entre a fé legítima do Antigo Testamento e o legalismo farisaico. O legalismo não é a verdadeira fé de Israel, mas sua distorção. O legalismo é fundamentalmente diferente da obediência da fé. Rom. 16:26. Para Cristo e Seus Apóstolos o evangelho não ensinava uma religião diferente daquela do Antigo Testamento, mas era seu desdobramento. Em Romanos 3:21, Paulo indicou claramente que a justificação pela fé em Cristo está em perfeita harmonia com os ensinos de Moisés e dos profetas. Paulo declarou inclusive que a "lei e os profetas" dão testemunho do evangelho (Rom. 3:21), porque ensinam que ninguém será justificado pelas obras da lei. Gál. 2:15 e 16; comparar com Sal. 143:2. Comparado com a norma divina de justiça no juízo, nenhum homem tem justiça em si mesmo. Esse conceito da pecaminosidade da natureza humana diante de Deus é uma parte essencial da fé do Antigo Testamento refletida em muitas passagens, por exemplo: Jó 14:4; 15:14; 25:4; 1 Reis 8:46; Ecles. 7:20.
Israel aprendia acerca de justificação nos serviços do santuário. Aprendia que o Médico celestial estava perto, conforme era simbolizado nos serviços do tabernáculo e do templo, disposto a conceder o bálsamo da restauração e da cura a cada crente arrependido por causa do Cordeiro de Deus. O perdão nunca é parcial; sempre é uma restauração completa ao favor de Deus. Isso é o que precisam saber aqueles que têm a consciencia afligida e culpada. Até que alcançemos, pela graça de Deus, uma vida triunfante e vitoriosa, teremos recaídas por causa de nossa natureza carnal, que ameaçarão com a culpa nossa felicidade e confiança em Cristo. Muitas pessoas estão física e mentalmente enfermas do sentimento de culpa e auto-reprovação. O diretor da maior instituição psiquiátrica de Londres disse certa vez: "Se as pessoas que estão aqui tão-somente pudessem crer no perdão, eu poderia enviar a metade delas para casa amanhã."
Jesus oferece cura em Seu perdão. Ao contar aos judeus tão confiantes em sua justiça própria a parábola do fariseu e do publicano que orava no templo, deixou-os atônitos. O fariseu agradecia a Deus pelo que havia feito; realmente se jactava de sua moralidade e auto-disciplina. mas do publicano imoral, que envergonhado confessou seus pecados a Deus, disse Jesus: "Digo-vos que este desceu justificado para sua casa, e não aquele." 5. Luc. 18:14.
Esse foi um duplo escandalo para os judeus: primeiro, porque o desprezado pecador e não o homem pio e religioso, foi aceito; em segundo lugar, porque o publicano não foi justificado no juízo final, mas imediatamente, no ato! Novidade surpreendente!
Ser justificado agora é deveras a maior necessidade do ser humano. Seu mais profundo anelo é a justificação - ela é o único remédio que limpará sua consciência. E cada alma dele necessita. Portanto, Cristo está atraindo a Si toda a raça hamana. É Sua prerrogativa perdoar nossos pecados imputando-nos Sua própria justiça e curando-nos com Suas chagas.

A Justificação Sara a Alma

A justificação pela fé em Cristo é o bálsamo que cura nossa alma. mas deve ser exercida uma fé pessoal em um Salvador pessoal.
Aquele que apresenta a Deus, o Salvador, crucificado e ressurreto como seu único mérito jamais será recusado. Jesus promete: "O que vem a Mim, de modo nenhum o lançarei fora." S. João 6:37
Jesus conhece quem vai a Ele com o toque da fé pessoal. Quando a multidão se comprimia em torno do Mestre, uma pobre mulher que tinha sofrido de uma hemorragia durante doze anos e que fora declarada incurável pelos médicos acercou-se dEle, dizendo consigo: "Se eu apenas-Lhe tocar as vestes, ficarei curada." S. Mar. 5:28.
No momento em que ela O tocou, sentiu em seu corpo que tinha sido curada de sua enfermidade. Naquele toque estava concentrada sua fé em Jesus. Cristo distinguiu seu toque de fé do toque acidental da multidão descuidada. Porque ela O tocou com fé confiante, Ele a curou, dizendo: "Filha, a tua fé te salvou." S. Mar. 5:34. (Ênfase suprida.)
Esse incidente nos mostra como a fé opera. Cristo percebeu "que dEle saíra poder" (S. Mar. 5:30) ao toque de uma fé pessoal. Assim, na esfera espiritual há uma diferença entre o contato casual de uma opinião acerca de Jesus e aquela fé que o recebe como um Salvador pessoal. Ellen White enfatiza essa natureza dinâmica, de entrega própria da fé: "A fé salvadora é um ajuste pelo qual os que recebem a Cristo se unem em um concerto com Deus." - A Ciência do Bom Viver, pág. 62.
Isto é fé viva, fé que justifica, fé que cura, fé que opera, fé que vence o mundo.
Jesus sarará nossa alma enferma do pecado se nos achegarmos a Ele com fé. Um paralítico de Cafarnaum anelava ver a Jesus e receber de Seus próprios lábios a certeza do perdão. Seus amigos levaram-no ao Mestre quando Ele estava ensinando em casa de Pedro. Não podendo entrar na casa, os amigos fizeram uma abertura no telhado e desceram a seu destitoso amigo até os pés de Jesus. Escreveu Marcos: "Vendo-lhes a fé, Jesus disse ao paralítico: Filho, os teus pecados estão perdoados." S. Mar. 2:5; (Grifos supridos).
Que efeito teve essa declaração de perdão sobre o paralítico? "O peso da culpa cai da alma do doente... Quem pode negar Seu poder de perdoar pecados? A esperança toma o lugar do desespero, e a alegria o do opressivo acabrunhamento. Desaparece o sofrimento físico do homem, e todo o seu ser se acha transformado." - A Ciência do Bom Viver, pág.76.
Pelo fato de os fariseus negarem que Jesus tinha poder para perdoar, Ele raalizou o irrefutável milagre da cura do corpo do paralítico. Comenta Ellen White: "Nada menos que poder criador exigia o restituir à saúde aquele decadente corpo... A cura do corpo era uma evidência do poder que renovara o coração." - A Ciência do Bom Viver, págs. 76 e 77. (Grifos acrescentados.)
Cristo ordenou ao paralítico que se levantasse, tomasse sua cama e andasse "para que saibais que o Filho do homem tem sobre a Terra autoridade para perdoar pecados". S. Mar. 2:10.
Cristo mostrou que necessidades os homens e mulheres devem considerar prioritarias. Precisamos da cura da alma antes de podermos apreciar a saúde do corpo. A culpa é a causa da enfermidade de milhares. Os tais só poderão obter auxilio se recorrerem ao Grande Restaurador da alma. Antes de serem curados de suas enfermidades fisicas, Cristo deve cura-los com Seu balsamo perdoador. Assim há muitos no mundo e na igreja que inconscientemente anseiam pela mensagem: "Os teus pecados estão perdoados." Portanto, em cada sermão o pregador precisa proclamar a justificação.
A justificação que Deus oferece ao pecador é mais do que uma mera transação legal. É ilustrada particularmente por Cristo na parabola do filho pródigo.
Quando o filho perdido finalmente volveu envergonhado e arrependio, planejou pedir a seu pai o lugar mais humilde entre seus servos a fim de ter alimento. Porém seu pai, compassivamente, correu ao seu encontro, beijou-o e não permitiu sequer que seu filho recitasse a lista completa de seus pecados. Em vez disso ordenou aos servos: "Trazei depressa a melhor roupa.. Comamos e regozijemo-nos, porque este meu filho estava morto e reviveu, estava perdido e foi achado. E começaram a regozijar-se." S. Luc. 15:22-24.
Aqui vemos o que significa o perdão para Deus:
significa reconciliação,retauração da filiação plena e da comunhão com o Pai. Há alegria no Céu toda vez que fazemos confissão sincera dos nossos pecados e reclamamos a justiça de Cristo como sendo nossa somente pela fé. O gozo do Céu faz ressoar a música na alma.

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