JUSTIFICAÇÃO
O "justo viverá por fé." Rom. 1:17.
Este éo texto que trouxe o gozo do livramento à alma de Lutero em sua busca de
salvação. Tornou-se o grito de batalha da grande Reforma do século dezesseis. Essa
passagem continua sendo a estrela guiadora para todo o verdadeiro Protestantismo porque é
o próprio centro do "evangelho eterno". Apoc. 14:6.
O Apóstolo Paulo explica mais detalhadamente seu significado: "Mas agora, sem lei,
se manifestou a justiça de Deus testemunhada pela lei e pelos profetas; justiça de Deus
mediante a fé em Jesus Cristo, para todos os que crêem." Rom. 3:21, 22.
Aqui podemos aprender como a lei e o evagelho podem ser distinguidos em suas funções
complementares de exigência e dom, ou condenação e justificação. A lei e o evangelho
estão unidos no plano de Deus para o mesmo e único propósito:
para que o filho de Deus possa perceber que seu pecado é condenáve1 diante de Deus; e
que ele portanto deve buscar sua justiça em Cristo, somente pela fé. Conseqüentemente,
a lei de Deus e o evangelho de Cristo são ambos necessários. Depois da queda, nenhuma
das duas coisas pode subsistir sem a outra. A lei de Deus não destrói o evangelho de
Cristo, antes, pelo contrário, revela que o evangelho da graça é necessário e
indispensável. Por outro lado, nossa justificação pela fé não anula a lei de Deus,
mas antes nos põe em harmonia com Deus e Sua santa lei.
Paulo pergunta: "Anulamos, pois, a lei, pela fé? Não, de maneira nenhuma, antes
confirmamos a lei." Rom. 3:31.
O problema não esta na divina lei, nem em Deus, mas no homem e seu pecado, que é
transgressão da lei de Deus." I S. João 3:4. Precisamos conscientizar-nos de que
tanto a lei quanto o evangelho procedem do mesmo Deus, o qual não esta dividido ou em
contradição consigo mesmo. Porém o homem, como pecador, esta em conflito com a vontade
divina. O evangelho da reconciliação é o plano de Deus para remover o conflito e
restaurar o homem à sua harmonia original com Deus.
Vamos resumir brevemente de que modo Lutero descobriu o evangelho. Ele viveu na Idade
Média, quando os teólogos não davam alta prioridade ao estudo da Bíblia. Ao ser
nomeado para ensinar as Escrituras Sagradas, Lutero voltou-se para a Bíblia com profundo
interesse pela verdade.
Antes de Lutero se tornar o grande reformador, a mais terrível e alarmante palavra da
Bíblia para ele era "justiça". Mesmo quando lia Romanos 1:17 ("Visto que
a justiça de Deus se revela no evangelho, de fé em fé") sua alma sensível tremia
como um caniço, percebendo a santa justiça divina e sua própria indignidade aos olhos
de Deus. Em resposta, ele se esforçava ao máximo, fazendo penitência e outras boas
obras prescritas pela igreja.
Em sua mente a característica dominante de Deus era Sua justiça, a qual não pode
tolerar o menor traço de desejo egoísta. Lutero só podia conceber a justiça de Deus em
termos do conceito latino de justiça (iustitia) que traz somente o significado jurídico
de justiça retributiva ou punitiva. Como os teólogos medievais, via a justiça de Deus
estritamente em termos de Deus como Juiz.
Portanto, a oração de Davi no Salmo 31 era para Lutero um enigma inexplicável:
"Livra-me por Tua justiça"; a mesma perplexidade existia ao ler o Salmo 143:
"Dá ouvidos às minhas súplicas,... segundo a Tua justiça", porque a palavra
"justiça" trovejava aos ouvidos de Lutero unicamente como a ira e o terrível
juízo de Deus.
Em desespero, voltou-se para o Novo Testamento em busca de consolo. Qual É o verdadeiro
significado do evangelho? Em busca de uma resposta a essa pergunta, abriu o livro de
Romanos e leu no primeiro capitulo, o verso 16: "Pois não me envergonho do
evangelho, porque É o poder de Deus para a salvação..."
Salvação! Era isso que Lutero havia buscado durante anos sem conseguir encontrar. Aqui
Paulo lhe diz que o evangelho É o poder de Deus para a salvação. Lutero estava
emocionado! Buscando o segredo do evangelho, avidamente continou lendo: "Visto que
ajustiça de Deus se revela no evangelho" (verso 17). Com um golpe Paulo tira a
última esperança de seu coração. O Apóstolo está lhe dizendo que o próprio
evangelho É uma revelação da justiça de Deus.
Como pode Paulo qualificar o evangelho de "justiça"? E o evangelho uma outra
manifestação da lei? Se isso fosse verdade, então o evangelho só poderia condenar,
porque o significado de justiça não É sempre que Deus trata a cada homem de acordo com
o que ele merece?
Lutero tentou compreender o texto estudando seu contexto. E assim chegou a Romanos 3:21:
"Mas agora, sem lei, se manifestou a justiça de Deus." Subitamente sua visão
ficou clara. Pela graça de Deus podia ver agora o que Paulo queria dizer - a
"justiça de Deus" não era uma justiça exigida do homem, mas uma justiça que
era oferecida ao crente no evangelho - e o que representava portanto uma profunda
expressão do amor de Deus! Ele oferece gratuitamente a justiça de Cristo ao crente como
Sua própria justiça divina. Esta É a salvação do evangelho. Ele justifica o pecador
através da justiça de Cristo. A justiça do evangelho não É obra nossa, mas Seu dom,
pelo qual Ele nos justifica e nos torna justos! A partir daquele momento, Lutero foi
libertado. Ele podia cantar. Agora os Salmos lhe soavam bem. Testificou: "Senti-me
como se houvesse nascido de novo e como se tivesse entrado no paraíso pelas portas
recém-abertas. Desde então a Bíblia começou a falar-me de uma maneira um tanto
diferente. A mesma frase "a justiça de Deus", que anteriormente se me afigurava
odiosa, tornara-se agora aquela que eu amava mais do que todas as outras. Eis como aquela
passagem paunna tornou-se para mim a porta do paraiso. Finalmente a Escritura inteira
mostrou-me outra face." - Luther's Works, Concordia Publishing House, VOl. 34, pag.
336.
A interpretação correta de Romanos 1:17 tinha pouco a pouco calado mais profundamente em
sua alma, até que finalmente irrompeu em boas novas para a turbada consciencia de Lutero.
A descoberta de Lutero foi o resultado de ouvir atentamente a Bíblia sem permitir que
noções preconcebidas determinassem seu significado; foi uma descoberta exegética, que
representava para Lutero um novo conceito de Deus. Essa nova compreensão de Deus o levou
a uma nova relação com Ele, não mais baseada nas virtudes de Lutero e em seu amor para
com Deus, nem no moralismo, ou racionalismo, ou misticismo, mas exclusivamente na
compreensão da cruz de Cristo segundo a mensagem do evangelho. A partir de então Lutero
se gloriou na cruz. Ali estava sua inamovível certeza de salvação! Desenvolveu uma
espécie de teologia completamente nova, a qual a Igreja não conhecera desde o Apóstolo
Paulo: uma teologia da cruz em oposição à teologia que glorificava as capacidades e
realizações humanas. A teologia de Lutero começava e terminava com a cruz: "Deus
só pode ser encontrado no sofrimento e na cruz."- Luther's Works, vol. 31, pág. 53.
E isso não pode ser captado por meio da percepção dos sentidos ou pela contemplação
mística, mas somente pela fé.
A Raiz de Nossa Justificação
Lutero concentrou-se fortemente na conclusão
central da mensagem paulina expressa em Romanos 3:28: "Concluímos, pois, que o homem
é justificado pela fé, independemente das obras da lei."
"Fé" aqui significa fé em Cristo como o prometido Cordeiro de Deus, fé na
justiça de Cristo como se fosse nossa, confiança em Seus méritos como plenamente
suficientes para nós em Deus.
Seus méritos não complementam nossos próprios méritos, mas são nossos únicos
méritos diante de Deus. Esse princípio básico do evangelho é válido não só para o
descrente mas também para o crente. Até Paulo, o grande pregador, confessou: "Mas
longe esteja de mim gloriar-me, senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo." Gál.
6:14.
Mas não são nossas obras de obediência à vontade de Deus, as boas obras dos crentes
nascidos de novo, de algum valor diante de Deus? Não São elas realizadas com a ajuda do
Espírito Santo? Os frutos do Espírito de Deus em nossos atos e caráter são os frutos
necessários de nossa justificação. Mas nossa justificação não se baseia neles. A
raiz e causa de nossa justificação diante de Deus não é nossa obediência, mas a de
Cristo: "Porque, como pela desobediência de um só homem muitos se tornaram
pecadores, assim também por meio da obediencia de um só muitos se tornarão
justos."Rom. 5:19 (Grifos suprimidos.) Não devemos confundir os frutos com a
raiz!Disse Jesus: "Porventura terá de agradecer ao servo por ter este feito o que
lhe havia ordenado? Assim também vós, depois de haverdes feito quanto vos foi ordenado,
dizei: Somos servos inúteis, porque fizemos apenas o que devíamos fazer." S. Luc.
17:9 e 10.
Do mesmo modo Paulo pergunta: "Que tens tu que não tenhas recebido? E, se o
recebeste, por que te vanglorias, como se o não tiveras recebido?" I Cor. 4:7.
Ele estabelece um assinalado contraste entre o verdadeiro e o falso caminho da salvação:
"Ora, ao que trabalha, o salário não é considerado como favor, e, sim, como
dívida. Mas ao que não trabalha, porém crê nAquele que justifica ao ímpio, a sua fé
lhe é a atribuida como justiça." Rom. 4:4 e 5.
Esta aqui a questão crucial: Nao se necessita de obras para ser justificado. Deve-se crer
e confiar em Cristo. O âmago do evangelho não é "fazer!" mas
"feito!" Não é "faça!" mas "creia!"
Não precisamos ser bons para ser salvos. Devemos ser salvos para ser bons. Não somos
salvos pela fé e obras, mas pela fé que opera.
Paulo ilustra esse princípio de justificação pela fé em Romanos 4 mediante dois
exemplos extraidos do Antigo Testamento: Abraão e Davi. Observe que Paulo ensinou o mesmo
evangelho que o Antigo Testamento! Ele cita um dos mais notaveis versículos de todo o
Antigo Testamento no qual está escrito acerca do Abraão: "Ele creu no Senhor, e
isso lhe foi imputado para justiça." Gên. 15:6.
Isto é justificação pela fé! Pela fé no Senhor, isto é, pela fé em Suas promessas,
o Senhor justificou a Abrão, considerando-o como se fosse justo no julgamento divino. E
esse julgamento, esse creditar é o que realmente conta; somente esse julgamento pode dar
repouso à consciência turbada do homem. Unicamente a palavra decisiva de Deus comunica
paz à alma e alegria ao coração, porque a palavra de Deus é superior e mais digna de
confiança que o nosso coração. Abrão foi justificado pela fé.
O outro exemplo foi Davi, que confessou:
"Bem-aventurado aquele cuja iniquidade é perdoada, cujo pecado, é coberto.
Bem-aventurado o homem a quem o Senhor não atribui iniqüidade, e em cujo espírito não
há dolo." Sal.32:1 e 2.
Quando Davi falou da bem-aventurança do homem perdoado a quem o Senhor não leva em conta
seu pecado, Paulo interpretou essas palavras significando que "Davi declara ser
bem-aventurado o homem a quem Deus atribui [ou, imputa, Versão Almeida Revista e
Corrigida; ou, credita, N. I. V] justiça, independentemente de obras." Rom.4:6.
Aqui, Paulo interpreta o perdão do Antigo Testamento como justiça pela fé.
Fica claro portanto que todos nós necessitamos da mesma justificação que receberam os
santos do Antigo Testamento. Enquanto eles olhavam para o futuro, aguardando o Cordeiro de
Deus que seria morto, nós olhamos para o passado, para o Cordeiro que foi morto. Porém,
o poder salvífico do sacrifício expiatório de Cristo estava, e está, como sempre, à
disposição do ser humano. Cristo é o Cordeiro morto "desde a fundação do
mundo." Apoc. 13:8.
Todos nós precisamos ser justificados diariamente pela fé em Cristo, quer tenhamos
transgredido conscientemente, quer tenhamos errado inconscientemente. Assim é que Davi
orava: "Quem há que possa discernir as próprias faltas? Absolve-me das que me são
ocultas." Sal. 19:12. Ele confessou a insondável profundidade de seu coração
pecaminoso à luz da santa lei de Deus e reconheceu diante de Deus que nem mesmo a si
próprio conhecia completamente. Então suplicou o perdão para cobrir suas "faltas
ocultas." Pediu a graça perdoadora do seu Deus, não somente para atos pecaminosos
isolados, mas para seu coração pecador.
Jeremias se referia a essa dimensão do pecado quando escreveu: "Enganoso é o
coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto, quem o
conhecera?" Jer. 17:9.
Em Sua providência não nos coloca o Senhor frequentemente em diferentes posições e
circunstâncias para que possamos descobrir defeitos ocultos de nosso caráter? Faltas nos
são constantemente reveladas, as quais nem suspeitávamos existir.
Quanto necessitamos conhecer a Deus a fim de conhecermos a nós mesmos! Precisamos dEle a
cada hora,constantemente. E quanto mais O conhecermos, mais profundamente nos
convenceremos de nossa necessidade dEle, e mais dependeremos de Suas promessas. Por isso
João escreveu aos crentes: "Se dissermos que não temos pecado nenhum, a nós mesmos
nos enganamos, e a verdade não está em nós. Se confessarmos os nossos pecados, Ele é
fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça." I S.
João 1:8 e 9.
Em grego, o verbo traduzido por "purificar" está escrito no tempo presente.
Recebemos perdão e purificação de nosso Sumo Sacerdote do Céu quando sinceramente
confessamos nossos pecados, que é a manifestação do verdadeiro arrependimento.
O Que é Justificação Pela Fé?
Justificação pela fé em Cristo é, segundo a
definição bíblica, a divina imputação da justiça de Cristo ao nome individual do
crente. E o "acerto" legal com Deus através de Cristo, nosso Substituto e
Fiador. Esse é o ensino do serviço do santuário do Antigo Testamento, do profeta Isalas
(capítulo 53) tal como explica o Apóstolo Paulo:
"Aquele que não conheceu pecado, Ele O fez pecado por nós; para que nEle fôssemos
feitos justiça de Deus." II Cor. 5:21.
Cristo ressuscitou dos mortos por causa de nossa justificação. Rom. 4:25. Cristo nos
justifica como crentes, isto é, perdoa nossa culpa tomando-a sobre Si mesmo e dando-nos
em troca Sua justiça perfeita. Ou, em outras palavras, Cristo não mais considera nossa
culpa contra nós, mas pôe em nossa conta Sua perfeita obediência à lei de Deus. Ao que
crê, Cristo o declara justo perante o Universo e trata-o como um amado filho de Deus.
Uma comovente ilustração da justificação do crente é dada em uma visão do profeta
Zacarias. Ele viu seu contemporâneo, o sumo sacerdote Josué, que representava Israel, o
povo do concerto, em pé diante de Deus "trajado de vestes sujas". Satanas
também estava presente, acusando a Josué de sua culpa. Porém o anjo do Senhor ordenou a
justificação de Josué, dizendo: "Tirai-lhe as vestes sujas" com a
explicação adicional: "Eis que tenho feito que passe de ti a tua iniqúidade."
Todavia, Deus não deixa Josué desnudo. O anjo acrescentou imediatamente: "e te
vestirei de finos trajes." Zac. 3:4.
A idéia aqui expressa não é que nossas faltas confessadas e perdoadas são destruidas
ou aniquiladas, como se Deus repentinamente passasse por alto todo o problema do pecado.
Não, do mais amplo contexto das Escrituras (especialmente de Isaías 53), aprendemos que
a culpa dos crentes é transferida para o imaculado, puro e santo Filho de Deus. II Cor.
5:21.0 indigno pecador arrependido é, portanto, vestido da justiça imputada de Cristo.
Essa permuta de roupas, essa transação divina e salvifica, é a doutrina bíblica da
justificação.
Contudo, a justificação implica em mais do que uma mera transação legal. A justiça de
Cristo é um poder regenerador, "é um princípio de vida que transforma o caráter e
rege a conduta". -O Desejado as Todas as Nações, pág. 529. Muitos têm uma
opinião demasiado estreita e abstrata do perdão ou justificação. Isso levou E. G.
White a declarar: "0 perdão de Deus não é meramente um ato judicial pelo qual Ele
nos livra da condenação. E não somente perdão pelo pecado, mas livramento do pecado. E
o transbordamento de amor redentor que transforma o coração." - OMajor Discurso de
Cristo, pag. 100.
Qual é a parte do homem na justificação? Fé e arrependimento, que são também dons
concedidos por Cristo a cada um que O contempla suspenso na cruz pelos pecadores. S. João
12:32; Atos 5:31.
Cristo na cruz é o evangelho da reconciliação, e devemos reclamar os méritos de Sua
obediência à lei de Deus como sendo nossos.
Ellen White encorajou a cada pecador que está perecendo a dizer: "Nem um momento
mais preciso ficar sem me salvar. Ele morreu, e ressurgiu para minha justificação, e me
salvará agora. Aceito o perdão que prometeu." - Mensagens Escolhidas, livro 1,
pág. 392.
A fé em Cristo deve preceder a nossa justificação pessoal, como disse Paulo:
"Também nós temos crido em Cristo Jesus, para que fóssemos justificados pela fé
em Cristo." Gál. 2:16.
Apesar de a fé não ser nosso salvador, ou nosso mérito, ela é o instrumento ou
condição de salvação. A fé aceita e se apropria de Cristo como nosso Salvador
pessoal, o Único que é santo. A contemplação da pureza impecável de Cristo e Sua
compaixão pelos pecadores conduz a um sincero arrependimento e confissão do pecado.
Nossa sincera auto-condenação e aceitação de Cristo como o perfeito representante do
Pai é nosso ato de fé que glorifica a Deus porque justtfica a Deus.
Davi confessou: "Pequei contra Ti, contra Ti somente, e fiz o que é mau perante os
Teus olhos, de maneira que serás tido por justo no Teu falar e puro no Teu julgar."
Sal. 51:4.
Seguindo o mesmo raciocínio, disse Lucas ao referir-se àqueles que foram batizados por
João Batista, confessando seus pecados, que "justificaram a Deus." S. Luc.
7:29.
A confissão de nossa culpabilidade, selada pelo batismo, justifica a Deus porque por meio
dela reconhecemos que Deus é justo e Lhe atribuimos irrepreensibilidade. Finalmente todos
os joelhos se dobrarão ante o trono de Sua santidade para confesar a justiça e o poder
de Deus. Isa. 45:23 e 24; Filip. 2:10.
Nossa justificação não pode vir por nenhum outro meio a não ser pela fé em Cristo.
Todo pensamento ou esforço em busca de qualquer mérito em nossa obediência a Deus
destrói imediatamente o aspecto da graça obtida por Cristo na cruz. Paulo é categórico
a esse repeito quando declara: "Não anulo a graça de Deus; pois, se a justiça é
mediante a lei, segue-se que morreu Cristo em vão." Gãl. 2:21.
Ele vai ainda multo além quando declara: "Todos quantos, pois, são das obras da
lei, estão debaixo de maldição" (Gál. 3:10); e, "De Cristo vos desligastes
vós que procurais justificar-vos na lei, da graça decaístes." Gál. 5:4. E mais:
"E se é pela graça, já não é pelas obras; do contrário, a graça já não é
graça." Rom. 11:6.
Paulo aqui está tratando de dois diferentes princípios ou maneiras de nossa relação
com Deus:
uma pela graça, a outra pelas obras ou pela lei. Paulo não está pondo a lei de Deus em
oposição à Sua graça! Nem o poderia fazer! Deus não está dividido. Seria isso um
fatal equívoco de Paulo e de Deus. Ele não contrasta a graça com a lei de Deus, mas com
a justiça pela lei! Gál. 2:21.0 contrate é entre salvação pela graça e salvação
pela lei.
Paulo desmascara o uso equivocado e trágico da lei de Deus que faziam os judaizantes.
Nunca foi propósito de Deus utilizar-Se da lei como o termômetro da justiça de Israel.
Pelo contrário, Ele deu a lei no Sinai como a revelação de Sua santidade a fim de que
Israel, por contraste, pudesse descobrir a pecaminosidade de seu coraçao.
A lei foi dada para convencer o homem do pecado, não como meio de sua justificação.
Pela condenação da lei, o homem poderia ver mais claramente a necessidade de um Salvador
e Sua justiça. A lei é o instrumento utilizado pelo Espírito Santo para nos mostrar a
necessidade de Cristo, a fim de que possamos ir a Cristo e ser justificados pela fé nEle.
Assim, pois, a justificação pela fé reafirma a santidade da lei.
A justificação traz segurança e a certeza de nossa aceitação por Deus. Nada pode
substitui-la. Não existe nenhum outro plano pelo qual os pecadores possam ser salvos ou
encontrar paz. Tanto o Antigo como o Novo Testamento ensinam o mesmo caminho para o eterno
reino de Deus. Abraão é chamado o pai de todos os crentes - tanto judeus como gentios.
Ver Rom. 4.
Muitos não percebem que o Antigo e o Novo Testamento estão unidos espiritualmente em
Cristo. Confundem o Antigo Testamento com o farisaismo, tomando-os como sinônimos. Mas
há uma distinção básica entre a fé legítima do Antigo Testamento e o legalismo
farisaico. O legalismo não é a verdadeira fé de Israel, mas sua distorção. O
legalismo é fundamentalmente diferente da obediência da fé. Rom. 16:26. Para Cristo e
Seus Apóstolos o evangelho não ensinava uma religião diferente daquela do Antigo
Testamento, mas era seu desdobramento. Em Romanos 3:21, Paulo indicou claramente que a
justificação pela fé em Cristo está em perfeita harmonia com os ensinos de Moisés e
dos profetas. Paulo declarou inclusive que a "lei e os profetas" dão testemunho
do evangelho (Rom. 3:21), porque ensinam que ninguém será justificado pelas obras da
lei. Gál. 2:15 e 16; comparar com Sal. 143:2. Comparado com a norma divina de justiça no
juízo, nenhum homem tem justiça em si mesmo. Esse conceito da pecaminosidade da natureza
humana diante de Deus é uma parte essencial da fé do Antigo Testamento refletida em
muitas passagens, por exemplo: Jó 14:4; 15:14; 25:4; 1 Reis 8:46; Ecles. 7:20.
Israel aprendia acerca de justificação nos serviços do santuário. Aprendia que o
Médico celestial estava perto, conforme era simbolizado nos serviços do tabernáculo e
do templo, disposto a conceder o bálsamo da restauração e da cura a cada crente
arrependido por causa do Cordeiro de Deus. O perdão nunca é parcial; sempre é uma
restauração completa ao favor de Deus. Isso é o que precisam saber aqueles que têm a
consciencia afligida e culpada. Até que alcançemos, pela graça de Deus, uma vida
triunfante e vitoriosa, teremos recaídas por causa de nossa natureza carnal, que
ameaçarão com a culpa nossa felicidade e confiança em Cristo. Muitas pessoas estão
física e mentalmente enfermas do sentimento de culpa e auto-reprovação. O diretor da
maior instituição psiquiátrica de Londres disse certa vez: "Se as pessoas que
estão aqui tão-somente pudessem crer no perdão, eu poderia enviar a metade delas para
casa amanhã."
Jesus oferece cura em Seu perdão. Ao contar aos judeus tão confiantes em sua justiça
própria a parábola do fariseu e do publicano que orava no templo, deixou-os atônitos. O
fariseu agradecia a Deus pelo que havia feito; realmente se jactava de sua moralidade e
auto-disciplina. mas do publicano imoral, que envergonhado confessou seus pecados a Deus,
disse Jesus: "Digo-vos que este desceu justificado para sua casa, e não
aquele." 5. Luc. 18:14.
Esse foi um duplo escandalo para os judeus: primeiro, porque o desprezado pecador e não o
homem pio e religioso, foi aceito; em segundo lugar, porque o publicano não foi
justificado no juízo final, mas imediatamente, no ato! Novidade surpreendente!
Ser justificado agora é deveras a maior necessidade do ser humano. Seu mais profundo
anelo é a justificação - ela é o único remédio que limpará sua consciência. E cada
alma dele necessita. Portanto, Cristo está atraindo a Si toda a raça hamana. É Sua
prerrogativa perdoar nossos pecados imputando-nos Sua própria justiça e curando-nos com
Suas chagas.
A Justificação Sara a Alma
A justificação pela fé em Cristo é o bálsamo
que cura nossa alma. mas deve ser exercida uma fé pessoal em um Salvador pessoal.
Aquele que apresenta a Deus, o Salvador, crucificado e ressurreto como seu único mérito
jamais será recusado. Jesus promete: "O que vem a Mim, de modo nenhum o lançarei
fora." S. João 6:37
Jesus conhece quem vai a Ele com o toque da fé pessoal. Quando a multidão se comprimia
em torno do Mestre, uma pobre mulher que tinha sofrido de uma hemorragia durante doze anos
e que fora declarada incurável pelos médicos acercou-se dEle, dizendo consigo: "Se
eu apenas-Lhe tocar as vestes, ficarei curada." S. Mar. 5:28.
No momento em que ela O tocou, sentiu em seu corpo que tinha sido curada de sua
enfermidade. Naquele toque estava concentrada sua fé em Jesus. Cristo distinguiu seu
toque de fé do toque acidental da multidão descuidada. Porque ela O tocou com fé
confiante, Ele a curou, dizendo: "Filha, a tua fé te salvou." S. Mar. 5:34.
(Ênfase suprida.)
Esse incidente nos mostra como a fé opera. Cristo percebeu "que dEle saíra
poder" (S. Mar. 5:30) ao toque de uma fé pessoal. Assim, na esfera espiritual há
uma diferença entre o contato casual de uma opinião acerca de Jesus e aquela fé que o
recebe como um Salvador pessoal. Ellen White enfatiza essa natureza dinâmica, de entrega
própria da fé: "A fé salvadora é um ajuste pelo qual os que recebem a Cristo se
unem em um concerto com Deus." - A Ciência do Bom Viver, pág. 62.
Isto é fé viva, fé que justifica, fé que cura, fé que opera, fé que vence o mundo.
Jesus sarará nossa alma enferma do pecado se nos achegarmos a Ele com fé. Um paralítico
de Cafarnaum anelava ver a Jesus e receber de Seus próprios lábios a certeza do perdão.
Seus amigos levaram-no ao Mestre quando Ele estava ensinando em casa de Pedro. Não
podendo entrar na casa, os amigos fizeram uma abertura no telhado e desceram a seu
destitoso amigo até os pés de Jesus. Escreveu Marcos: "Vendo-lhes a fé, Jesus
disse ao paralítico: Filho, os teus pecados estão perdoados." S. Mar. 2:5; (Grifos
supridos).
Que efeito teve essa declaração de perdão sobre o paralítico? "O peso da culpa
cai da alma do doente... Quem pode negar Seu poder de perdoar pecados? A esperança toma o
lugar do desespero, e a alegria o do opressivo acabrunhamento. Desaparece o sofrimento
físico do homem, e todo o seu ser se acha transformado." - A Ciência do Bom Viver,
pág.76.
Pelo fato de os fariseus negarem que Jesus tinha poder para perdoar, Ele raalizou o
irrefutável milagre da cura do corpo do paralítico. Comenta Ellen White: "Nada
menos que poder criador exigia o restituir à saúde aquele decadente corpo... A cura do
corpo era uma evidência do poder que renovara o coração." - A Ciência do Bom
Viver, págs. 76 e 77. (Grifos acrescentados.)
Cristo ordenou ao paralítico que se levantasse, tomasse sua cama e andasse "para que
saibais que o Filho do homem tem sobre a Terra autoridade para perdoar pecados". S.
Mar. 2:10.
Cristo mostrou que necessidades os homens e mulheres devem considerar prioritarias.
Precisamos da cura da alma antes de podermos apreciar a saúde do corpo. A culpa é a
causa da enfermidade de milhares. Os tais só poderão obter auxilio se recorrerem ao
Grande Restaurador da alma. Antes de serem curados de suas enfermidades fisicas, Cristo
deve cura-los com Seu balsamo perdoador. Assim há muitos no mundo e na igreja que
inconscientemente anseiam pela mensagem: "Os teus pecados estão perdoados."
Portanto, em cada sermão o pregador precisa proclamar a justificação.
A justificação que Deus oferece ao pecador é mais do que uma mera transação legal. É
ilustrada particularmente por Cristo na parabola do filho pródigo.
Quando o filho perdido finalmente volveu envergonhado e arrependio, planejou pedir a seu
pai o lugar mais humilde entre seus servos a fim de ter alimento. Porém seu pai,
compassivamente, correu ao seu encontro, beijou-o e não permitiu sequer que seu filho
recitasse a lista completa de seus pecados. Em vez disso ordenou aos servos: "Trazei
depressa a melhor roupa.. Comamos e regozijemo-nos, porque este meu filho estava morto e
reviveu, estava perdido e foi achado. E começaram a regozijar-se." S. Luc. 15:22-24.
Aqui vemos o que significa o perdão para Deus:
significa reconciliação,retauração da filiação plena e da comunhão com o Pai. Há
alegria no Céu toda vez que fazemos confissão sincera dos nossos pecados e reclamamos a
justiça de Cristo como sendo nossa somente pela fé. O gozo do Céu faz ressoar a música
na alma.