SANTIFICAÇÃO
"A caso não sabeis que o vosso corpo é santuário do Espírito Santo que está em vós, o qual tendes da parte de Deus, e que não sois de vós mesmos? Porque fostes comprados por preço. Agora, pois, glorificai a Deus no vosso corpo." I Cor. 6:19, 20.
A Dupla Reivindicação de Deus
A santificação implica em dar a Deus honra e
glória "no vosso corpo", isto é, com nossas palavras e ações em todo o nosso
comportamento social. Entretanto, a vida santificada não é uma simples melhoria do nosso
comportamento moral ou boas ações sociais. A santificação bíblica é motivada e
fortalecida pela operação constante do Espírito Santo e tem por objetivo a honra e
glória de Deus.
Como entra este poder santificador em nossa vida? Unicamente pelo evangelho de Jesus
Cristo.
O Espírito Santo é enviado ao homem pelo Pai e o Filho a fim de que o Pai seja
glorificado no Filho, vindicado e glorificado no mundo e no Universo pelo que ambos
fizeram em favor da raça caída.
Disse Jesus, falando do Espírito: "Ele Me glorificará porque há de receber do que
é Meu, e volo há de anunciar." S. João 16:14; comparar com 14:13, 26.
Nas antífonas de louvor no Céu somente dois motivos básicos de louvor são
reconhecidos: criação e redenção. "Tu és digno, Senhor e Deus nosso, de receber
a glória, a honra e o poder, porque todas as coisas Tu criaste, sim, por causa da Tua
vontade vieram a existir e foram criadas." Apoc. 4:11. "Proclamando em grande
voz: Digno é o Cordeiro, que foi morto, de receber o poder, e riqueza, e sabedoria, e
força, e honra, e glória, e louvor." Apoc. 5:12.
Esses dois motivos estão unidos na Pessoa de Cristo Jesus que é proclamado ser ao mesmo
tempo o Criador e o Redentor dos homens. Col. 1:14-16. Como conseqüência, pertencemos
duas vezes a Deus por meio de Cristo: primeiro, porque Ele nos criou, segundo, Ele nos
redimiu.
O Apóstolo Paulo, apelando para ambos os motivos quando instou com os cristãos de
Corinto para viverem uma vida santificada diante de Deus e dos homens, declarou: "Os
alimentos são para o estômago, e o estômago para os alimentos; mas Deus destruirá
tanto estes como aqueles. Porém o corpo não é para a impureza, mas para o Senhor, e o
Senhor para o corpo. Deus ressuscitou ao Senhor e também nos ressuscitará a nós pelo
Seu poder. Não sabeis que os vossos corpos são membros de Cristo? E eu, porventura,
tomaria os membros de Cristo e os faria membros de meretriz? Absolutamente, não. Ou não
sabeis que o homem que se une à prostituta, forma um só corpo com ela? porque, como se
diz, serão os dois uma só carne. Mas aquele que se une ao Senhor é um espírito com
Ele." I Cor. 6:13-17.
Segundo Paulo, a obra redentora de Cristo restaura o propósito original de Deus na
criação do homem. O Redentor livrou-nos da contaminação da culpa por Seu precioso
sangue e do poder escravizador do pecado pelo Seu Santo Espírito. Tanto a justiça a nós
imputada por Cristo como a justiça que nos é comunicada pelo Seu Espírito estão ao
nosso alcance somente pela fé; de modo que ambos os aspectos da justiça de Cristo devem
sempre estar juntos. Rom. 3:28; Gál. 3:2, 5. Ver também Ellen White, Caminho Para
Cristo, pág. 54.
Cristo não somente nos redime do pecado, Ele nos redime para Deus! Dependemos totalmente
de Cristo por causa de Seu sangue redentor derramado por nós. O resgate de Seu sangue nos
libertou da morte, da condenação e da escravidão do pecado. Nossos corpos
converteram-se legalmente em "membros de Cristo". I Cor. 6:15. Portanto, não
pertencemos mais a Satanás ou a nós mesmos. Pertencemos novamente a Deus por causa de
Cristo. Através de Cristo, Deus reclama o pecador perdoado como ele é em todo o seu
pensamento, vontade e ação para louvor do Seu nome. Paulo escreveu aos crentes: "O
mesmo Deus da paz vos santifique em tudo; e o vosso espírito, alma e corpo, sejam
conservados íntegros e irrepreensiveis na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo. Fiel é o
que vos chama, o qual também o fará." I Tess. 5:23, 24.
O Apóstolo não está falando que o ser humano se compõe de três partes distintas, esta
simplesmente enfatizando a natureza total da santificação moral. Deus transforma o
crente em todos os aspectos de sua existência diária, em seu pensamento, vontade e
ação, ou seja, completamente.
Ellen White assim comenta as palavras de Paulo: "Deus quer que nos demos conta de que
Ele tem direito sobre a mente, alma, corpo e espírito - tudo o que possuimos. Pertencemos
a Ele pela criação e pela redenção. Como nosso Criador, Ele reclama a totalidade do
nosso serviço. Como nosso Redentor, Ele reclama por amor bem como por direito - um amor
sem paralelo. Devemos estar conscientes desta reivindicação em cada momento de nossa
existência." - Review and Herald, 24 de novembro de 1896; citado em S. D. A. Bible
Comentary, vol. 7, pág. 909.
O Compromisso Mútuo do Batismo
Todos os que aceitam a Jesus como seu Redentor
pessoal são chamados a receber o batismo da água e do Espírito Santo antes de poderem
entrar no reino, ou governo de Deus.
Disse Jesus a Nicodemos, príncipe dos judeus:"Em verdade, em verdade te digo: Quem
não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus." S. João
3:5.
Logo após a crucifixão e ascensão de Cristo, o Apóstolo Pedro pregou aos judeus e
gentios: "Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo
para remissão dos vossos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo." Atos 2:38.
Vemos aqui que a salvação oferecida por Deus em Cristo deve ser aceita pessoalmente,
não apenas em pensamento e desejo, mas em um ato concreto de entrega pela fé - o ato de
ser batizado em água. O batismo significa mais do que dedicação ou consagração do
nosso ser a Deus. No batismo, Deus também atua, unindo oficialmente nossa alma a Cristo,
vestindo-nos com a justiça de Cristo, conferindo-nos o poder do Espírito Santo, e
declarando diante do Universo que nos tornamos filhos do Rei celestial, membros da
família real e da Igreja de Cristo.
Paulo escreveu: "Pois todos vós sois filhos de Deus mediante a fé em Cristo Jesus;
porque todos quantos fostes batizados em Cristo, de Cristo vos revestistes." Gál.
3:26 e 27. (Grifos acrescentados.) "Pois, em um só Espírito, todos nós fomos
batizados em um corpo. .... E a todos nós foi dado beber de um só Espírito." I
Cor. 12:13.
Sendo que no ato de redenção Deus incluiu o batismo do crente, o batismo tem sido
corretamente chamado de sacramento, um evento e encontro divino-humano.
Portanto, o Apóstolo Pedro não hesitou em instar com todos os crentes arrependidos para
que fossem batizados com este notável apelo: "Salvai-vos desta geração
perversa." Atos 2:40; comparar com o verso 47.
O batismo é um compromisso mútuo entre Deus e o crente perante o Universo. Deus Se
compromete a incorporar o crente na morte vicária de Cristo na cruz, de sorte que o
crente em seu batismo é declarado legalmente morto para o pecado e portanto livre de suas
cadeias, como disse Paulo: "Ou, porventura, ignorais que todos os que fomos batizados
em Cristo Jesus, fomos batizados na Sua morte? Fomos, pois, sepultados com Ele na morte
pelo batismo; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai,
assim também andemos nós em novidade de vida. Sabendo isto, que foi crucificado com Ele
o nosso velho homem, para que o corpo do pecado seja destruído, e não sirvamos o pecado
como escravos; porquanto quem morreu, justificado esta do pecado." Rom. 6:3 e 4; 6 e
7
Que maravilhosa promessa oferece Deus no batismo ao crente em Cristo Jesus!
No batismo, Deus declara que a morte única de Cristo tem valor e se tornou eficaz para o
crente arrependido, de sorte que ele agora oficial e legalmente torna-se um cristão
diante de Deus e do mundo. Esta é a questão: no batismo cristão Deus testifica e atua.
Ao mesmo tempo em que a culpa do pecado é transferida para o Cordeiro de Deus, o poder do
pecado é quebrado, e o crente é posto sob o poder vitorioso de Cristo e de Seu
Espírito. Referindo-se ao batismo, Paulo escreveu que Deus "nos salvou mediante o
lavar regenerador e renovador do Espírito Santo". Tito 2:5; comparar com I Cor.
6:11. Pedro explica que "figurando o batismo, agora também vos salva, não sendo a
remoção da imundícia da carne, mas a indagação de uma boa consciência para com Deus,
por meio da ressurreição de Jesus Cristo; o qual, depois de ir para o Céu, está à
destra de Deus, ficando-Lhe subordinados anjos, e potestades, e poderes". I S. Ped.
3:21 e 22.
O batismo une o crente tanto com a morte como com a ressurreição de Cristo. No batismo,
Deus concede o poder vitorioso de Cristo, o Espírito Santo, para viver uma nova vida de
lealdade a Deus. Paulo expressou esse caráter dinâmico do batismo em termos de uma
ressurreição com Cristo: "tendo sido sepultados juntamente com Ele no batismo, no
qual igualmente fostes ressuscitados mediante a fé no poder de Deus que O ressuscitou
dentre os mortos." Col. 2:12.
O batismo em Cristo também significa que o crente se compromete a aceitar a Jesus, não
somente como Salvador do pecado e de Satanas, mas também como Senhor, Mestre, Rei e Norma
de sua nova vida.
O batismo implica numa renúncia oficial do mundo, isto é, "a concupiscência da
carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida" (I S. João 2:16) e ao
príncipe deste mundo (S. João 12:31; 16:11).
O crente batizado não pertence mais a Satanás ou a si mesmo, mas está sob a autoridade
de Cristo a quem obedece com um coração renovado, feito voluntário e amorável pelo
poder transformador do Espírito Santo. Tal pessoa segue a Cristo porque Ele agora habita
no templo do seu coração. Comparar com Gál. 2:20; Efés. 3:17
No batismo, o cristão publicamente declara que aceitou o convite para ser o templo do
Deus vivo e pertencer à família de Deus, como o antigo Israel foi chamado para ser entre
as nações: "Por isso, retirai-vos do meio deles, separai-vos, diz o Senhor; não
toqueis em coisas impuras; e Eu vos receberei, serei vosso Pai, e vós sereis para Mim
filhos e filhas, diz o Senhor todo poderoso." II Cor. 6:17 e 18.
Em vista dessa graciosa e privilegiada relação com Deus, o Apóstolo Paulo lançou aos
cristãos seu imperativo ético: "Tendo, pois, ó amados, tais promessas,
purifiquemo-nos de toda impureza, tanto da carne, como do espírito, aperfeiçoando a
nossa santidade no temor de Deus." II Cor. 7:1.
A ordenança cristã do batismo é portanto o testemunho público de que entramos na
relação do concerto com Deus. O compromisso mútuo provê todas as oportunidades para
uma florescente experiência cristã na graça e no conhecimento de Cristo. Como disse
tão acertadamente Ellen G. white: "Não devemos pensar que tão logo somos batizados
estamos prontos para graduarmos na escola de Cristo. Quando aceitamos a Cristo, em nome do
Pai, do Filho e do Espírito Santo comprometendo-nos a servir a Deus, o Pai, Cristo e o
Espírito Santo - os três dignitarios e poderes do Céu - por Sua vez Se comprometem a
dar-nos toda a ajuda necessária se procurarmos cumprir nossos votos batismais de ' sair
do meio deles...apartar-nos,... não tocar nada imundo'." - Manuscrito 85, 1901;
citado em S. D. A. Bible Commentary, vol. 6, pág. 1075.
A Ordem Irreversível:
Graça Redentora-Obediência Moral
Tanto no Antigo como em o Novo Testamento os dons
de Deus precedem Seus reclamos. Deus nunca exige do Seu povo do concerto o que Ele não
lhes tenha oferecido antes. Todas as Suas exigências contidas no pacto da graça são
acompanhadas de ajuda para que possam ser cumpridas.
O Senhor deu a Israel Suas "Dez Palavras", os mandamentos morais do Decalogo
(Exo. 20), somente depois de ter salvo a Israel do Egito, da casa da servidão (Êxo. 12),
por Seus atos poderosos segundo Suas graciosas promessas feitas a Abraão. Gên. 15:13-16;
Deut. 7:7-9. Os mesmos Dez Mandamentos começam com a proclamação de que Israel fora
redimido por Yahweh: "Eu sou o Senhor [Yahweh] teu Deus, que te tirei da terra do
Egito, da casa da servidão. Não teras outros deuses diante de Mim." Exo. 20:2 e 3.
Assim como a graça redentora é o princípio da salvação, a obediência moral é apenas
sua consequência porque a redençao naturalmente desperta gratidão e lealdade para com o
Redentor. Na grande lei moral, o Juiz do mundo não está Se dirigindo a pagãos
ignorantes, mas o Redentor de Israel esta falando a um povo redimido.
Os Dez Mandamentos, posto que pressuponham libertação, não foram outorgados para que
Israel por meio deles ganhasse a salvação, mas para evitar que ele a perdesse caindo na
idolatria e imoralidade.
Yahweh reclamava a adoração e exclusiva lealdade de Israel por uma simples razão:
nenhum outro deus tinha redimido as tribos de Israel do poder escravizador do inimigo. Ver
Deut. 13:1-5. Moisés, portanto, deu ênfase a uma conexão fundamental entre a salvação
e o culto entre o povo do divino concerto: "Guarda silêncio e ouve, ó Israel! Hoje
vieste a ser povo do Senhor teu Deus. Portanto obedecerás à voz do Senhor teu Deus, e
Lhe cumprirãs os mandamentos e os estatutos que hoje te ordeno." Deut. 27:9 e 10.
Aqui torna-se evidente a ordem irreversível de toda a verdadeira adoração: a salvação
(o converter-se em filhos de Deus) precede e obriga o redimido à obediência moral ao
Redentor. A grata obediência ao Senhor é portanto o sinal de um povo redimido, pelo qual
Deus é glorificado. Assim, pois, somente pela glória de um povo obediente Israel poderia
ser uma luz aos gentios; somente por meio de tal glória a salvação de Deus poderia
estender-se até às extremidades da Terra. Isa. 42:6; 49:6.
Em o Novo Testamento, o evangelho não somente mantém intacta a relação que existe
entre a redenção e a obediência no culto de Israel, mas acrescenta a profunda dimensão
da salvação através de Jesus Cristo. Ele reconheceu que "a salvação vem dos
judeus" e que essa era a razão fundamental para o culto no templo de Jerusalém. S.
João 4:21 e 22. Porém acrescentou imediatamente que "agora" tinha chegado a
hora da salvação messianica e portanto era necessário uma forma de adoração mais
profunda, "em espírito e em verdade", porque o Messias prometido, "o
Salvador do mundo", tinha chegado. S. João 4:23-26, 42. Em Jesus Cristo a glória do
Shekinah do lugar santíssimo passou a viver em carne humana, "cheio de graça e de
verdade". S. João 1:14; S. Mat. 12:6.
A missão de nosso Senhor não foi trazer um ensino novo, mas um novo evento. Veio para
revelar mais claramente o poder libertador do reino de Deus sobre Satanás, o pecado e a
morte, para que o homem pudesse adorar a Deus com um amor mais profundo e servi-Lo com a
plenitude do gozo messiânico. S. João 15:11; 17:13.
Cristo jamais curou os enfermos, expulsou os demônios ou ressuscitou os mortos
simplesmente para exibir Seus poderes miraculosos. Nem sequer o perdão dos pecados foi
para Cristo um fim em si mesmo. Quando Ele curava um corpo enfermo ou estendia o perdão
à alma, Jesus, em princípio, estava convidando tais pessoas redimidas para nova vida de
vitória sob o poder de Deus. A mulher aterrorizada que Lhe foi trazida por alguns
fariseus hipócritas que esperavam que Ele a haveria de condenar à morte, disse Jesus:
"Nem eu tão pouco te condeno; vai, e não peques mais." S. João 8:11. Desse
modo Cristo ligou à graça do perdão o chamado para uma vida nova e santa.
Jesus reconheceu e aceitou a oferta de grato amor de uma mulher que ungiu Seus pés com
precioso ungüento. Jesus explicou seu ato de devoção dizendo que ela amou muito porque
muito se lhe havia perdoado, em assinalado contraste com Simão, o anfltrião fariseu, que
amou a Cristo comparativamente "pouco" por sua cura física. Ver S. Luc. 7:47.
Ao endemoninhado de Gerasa, de quem Cristo tinha expulsado muitos demônios, Ele
instou:"Vai para tua casa, para os teus. Anuncia-lhes tudo o que o Senhor te fez, e
como teve compaixão de ti." S. Mar. 5:19.
Entrando em uma aldeia, Jesus curou a dez leprosos que Lhe rogaram, dizendo: "Jesus,
Mestre, compadece-Te de nós!" S. Luc. 17:13. Só um dentre os dez, um samaritano,
voltou a Jesus para expressar sua gratidão, "dando glória a Deus em alta voz."
S. Luc. 17:15. Porém o Senhor lhe perguntou: "Não eram dez os que foram curados?
Onde estão os nove? Não houve, porventura, quem voltasse para dar glória a Deus, senão
este estrangeiro? E disse-lhe: Levanta-te, e vai; a tua fé te salvou." S. Luc.
17:17-19. Em retribuição, Cristo esperava não somente fé em Seu poder, mas também
gratidão e testemunho.
O propósito último de Cristo ao procurar salvar os perdidos não era a cura física ou
mesmo a libertação do pecado e de Satanás. Tinha uma finalidade positiva: que a alma
curada e perdoada se tornasse um templo vivo do Espírito Santo. Essa era a salvação
messiânica. Se o templo da alma fosse somente purificado mas deixado "vazio", o
espírito maligno retornaria definitivamente com outros sete espíritos ainda piores,
"e, entrando, habitam ali; e o último estado daquele homem torna-se pior do que o
primeiro." S. Mat. 12:43-45.
Cristo pedia a Seus seguidores uma entrega total a Ele como o Rei Messias. Seu chamado,
"Segue-Me", implicava em lealdade suprema, acima de todos os laços humanos:
"Quem ama seu pai ou sua mãe mais do que a Mim, não é digno de Mim; quem ama seu
filho ou sua filha mais do que a Mim, não é digno de Mim; e quem não toma a sua cruz, e
vem após Mim, não é digno de Mim. Quem acha a sua vida, perdê-la-á; quem, todavia,
perde a vida por Minha causa, acha-la-á." S. Mat. 10:37-39. "Se alguém quer
vir após Mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-Me." S. Mat. 16:24.
Essa renúncia de si mesmo significa mais do que uma mera renúncia dos prazeres da vida.
Por ela Cristo queria dizer a subordinação da vontade própria de alguém à vontade de
Deus. Semelhantemente, tomar a cruz não significa carregar os fardos da vida. George E.
Ladd explicou incisivamente: "A cruz não é um fardo, mas um instrumento de morte.
Tomar a cruz significa a morte do próprio eu, da ambição pessoal e dos propósitos
egoístas. Em lugar das realizações pessoais, por mais altruístas e nobres que sejam,
devemos desejar somente a direção divina. O destino do homem depende desta
decisão." - A Theology ofthe New Testament (Grand Rapids, Mich.: Wm. B. Eerdmans
Publishing Company, 1974), pág. 132.
Para Cristo essa entrega total a Ele não somente estava em harmonia com a grande lei do
amor a Deus de todo o nosso ser, mas que era também a expressão da verdadeira
obediência. Comparar com Deut. 6:5 e S. Mar. 12:28-30. Isso se pode deduzir da prova de
Jesus ao jovem rico quanto ao seu amor a Deus e aos tesouros celestiais. Convidou-o a
vender suas possessões, dar o seu valor aos pobres e tornar-se um dos Seus discípulos.
S. Mat. 19:21. Porém o príncipe judeu não possuía o princípio vital do amor a Deus e
recusou entregar ao controle de Cristo o supremo amor que tinha a si mesmo. Assim Cristo
ensinou que nosso amor a Deus e aos nossos semelhantes não deve ficar no mero desejo. O
amor genuíno é essencialmente um assunto da vontade e ação em obediência à vontade
de Deus.
As epístolas dos Apóstolos apresentam consistentemente a salvação em Cristo como a
condição e motivação da vida cristã. De fato, todo o Novo Testamento associa tão
intimamente a experiência da salvação pela fé em Cristo com o batismo que o teólogo
batista G. R. Beasley-Murray declarou categoricamente: "Como o batismo significa
união com Cristo (Gal. 3:27), tudo o que Cristo realizou em favor do homem em Seus atos
de redenção e lhe confere em virtude desses atos está associado ao batismo nos escritos
apostólicos." -The New International Dictionary of the New Testament Theology (Grand
Rapids, Mich.: Zondervan Publishing House, 1975), vol. 1, pág. 148.
Porém nenhum Apóstolo desenvolveu tão profundamente a teologia batismal como Paulo em
sua passagem classica de Rom. 6:1-11.0 batismo cristão é para Paulo o maior argumento em
favor da vida vitoriosa e santificada. "Como viveremos ainda no pecado, nós os que
para ele morremos?" Rom. 6:2. Paulo prossegue explicando que essa morte para o pecado
tem lugar no ritual sagrado do batismo. No batismo a natureza pecaminosa do crente, o
"velho homem", "foi crucificado com Ele [Cristo]." Rom. 6:6. Que
significa isso? Meramente uma imagem simbólica da conversão do homem de uma vida de
pecado? Para Paulo o batismo significa mais do que isso: o acontecimento é um ato de Deus
que tem lugar no presente no qual Ele lega' e efetivamente incorpora nosso ego pecaminoso
(eu) ao corpo de Cristo na cruz do Calvário e agora declara que nosso eu pecaminoso
morreu para todos os efeitos perante a santa lei de Deus e o Universo. "Ou,
porventura, ignorais que todos os que fomos batizados em Cristo Jesus, fomos batizados na
Sua morte? Fomos, pois, sepultados com Ele na morte pelo batismo." Rom. 6:3 e 4.
Este é o ponto central: O crente não é batizado na água simplesmente para simbolizar
sua própria morte para o pecado, mas para receber de Deus o batismo na morte de Cristo!
Não somos batizados em nossa própria morte, mas na Sua morte. Tal imersão na morte de
Cristo só é válida se Deus identifica completamente nosso ego pecaminoso e culpado com
o corpo de Cristo portanto os pecados na cruz. Essa é nossa união escondida e
sacramental com Cristo em "Sua morte." Rom. 6:5. "Morremos com
Cristo." Rom. 6:8.0 batismo está completamente centralizado em Cristo. E a
consequência desse ato divino no batismo é grande e maravilhosa: "para que o corpo
do pecado seja destruído, e não sirvamos o pecado como escravos; porquanto quem morreu,
justificado está do pecado". Rom. 6:6 e 7.
É Deus, não o crente, quem na realidade torna "impotente" a velha natureza
pecadora! Essa é a eficácia do batismo. Não significa que o crente batizado sai da
água com sua natureza humana em verdadeira perfeição imaculada. O pecado torna-se
"impotente", porém seus impulsos e inclinações não foram ainda extintos.
No batismo nossa natureza pecaminosa é crucificada publicamente e portanto é legalmente
morta. Mas enquanto durar a vida do cristão, sua velha natureza egoísta continuará viva
na cruz e assim deve ser conservada na cruz, para que não volte mais a dominar a sua
conduta moral. Precisamos distinguir entre o ato da execução pela crucifixão e a
verdadeira morte da pessoa crucificada depois de algum tempo indeterminado - às vezes
vários dias e noites. A situação histórica de um criminoso crucificado sempre era:
legalmente executado e morto, porém na realidade prática continuava, vivo na cruz, em
sofrimento e agonia. Esse tipo de morte por crucifixão é a figura paulina para retratar
a condição do cristão diante de Deus.
Pelo batismo o ego pecaminoso do crente é publicamente executado e morto, mas na
realidade empírica o velho eu pecaminoso ainda vive, apesar de "deixado
impotente" por Deus, para que o cristão batizado seja posto pelo evangelho sob o
imperativo ético permanente de não permitir que a velha natureza desça das cruz e volte
a assumir o controle de sua vida como antes. Doravante ele pode e deve manter seus desejos
de entronização do próprio eu subjugados pelo Espírito de Cristo. Paulo admoesta a
todos os crentes, referindo-se ao seu batismo: "Assim também vós considerai-vos
mortos para o pecado, mas vivos para Deus em Cristo Jesus. Não reine, portanto o pecado
em vosso corpo mortal, de maneira que obedeçais às suas paixôes; nem ofereçais cada um
os membros do seu corpo ao pecado como instrumentos de iniquidade; mas oferecei-vos a Deus
como ressurretos dentre os mortos, e os vossos membros a Deus como instrumentos de
justiça. Porque o pecado não terá domínio sobre vós; pois nao estais debaixo da lei,
e, sim, da graça." Rom. 6:11-14. (Grifos supridos.)
Aqui, Paulo enfatiza a ordem do evangelho: a graça redentora (no batismo) leva à
obediência moral. "Não reine, portanto, o pecado em vosso corpo mortal." Rom.
6:12.
O Apóstolo baseia a nova vida de vitória sobre todas as tendências e hábitos
pecaminosos no poder da ressurreição de Cristo: "para que, como Cristo foi
ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também andemos nós em novidade
de vida." Rom. 6:4; comparar com Col. 2:12; Efés. 2:6.
Porém não existe santificação moral automática para o cristão. No batismo ele é
chamado a aceitar sua obrigação de obediência, cooperando com Deus pela negação
constante de si mesmo nas decisões diárias de sua vida pessoal e social. O batismo faz
recair sobre o crente a sagrada responsabilidade de manifestar deliberadamente a realidade
oculta de sua morte para o pecado por meio de uma vida santificada sob o poder do Rei
Jesus.
Paulo faz o chamado: "Falo como homem, por causa da fraqueza da vossa carne. Assim
como oferecestes os vossos membros para a escravidão da impureza, e da maldade para a
maldade, assim oferecei agora os vossos mernbros para servirem a justiça para a
santificação. Agora, porém, libertados do pecado, transformados em servos da Deus,
tendes o vosso fruto para a santificação, e por fim a vida eterna." Rom. 6:19, 22.
(Enfase acrescida.)
Para Paulo, a santificação progressiva não é simplesmente tentar viver de acordo com
elevados padrões éticos, nem uma mera renovação moral. A santificação não é menos,
porém muito mais do que isso! Em outras epístolas, Paulo revela este esquema
reiteradamente: redenção em Cristo (indicativo), consequente vida vitoriosa
(imperativo)!
Temos aqui alguns exemplos: "Portanto, se fostes ressuscitados juntamente com Cristo,
buscai as coisas lá do alto, onde Cristo vive." Col. 3:1. (Grifos supridos.)
"Porque morrestes, e a vossa vida está oculta juntamente com Cristo, em Deus. Fazei,
pois, morrer a vossa natureza terrena: prostituição, impureza, paixão lasciva, desejo
maligno, e a avareza, que é idolatria." Col. 3:3, 5. (Grifo suprido.)
"Não mintais uns aos outros, uma vez que vos despistes do velho homem com os seus
feitos, e vos revestistes do novo homem que se refaz para o pleno conhecimento, segundo a
imagem dAquele que o criou." Col. 3:9 e 10.
"Não sois de vós mesmos. Porque fostes comprados por preço. Agora, pois,
glorificai a Deus no vosso corpo." I Cor. 6:19 e 20. (Grifo suprido.).
Paulo nunca baseia seus imperativos morais na dignidade ou poder inerente da natureza
humana como tal, mas na nova natureza humana redimida por Cristo e sob Seu domínio. Em
união com o Crtsto ressuscitado e vitorioso, a alma não mais permanece sob o domínio do
pecado, mas sob o poder santificador de Cristo como o novo Rei e Senhor.
O Apóstolo é realista, entretanto, ao perceber que apesar de a natureza humana
pecaminosa ter sido deixada legalmente inoperante, eticamente ela ainda esta ativa em sua
constante luta pelo predomínio do crente batizado. Cristo fez o que jamais poderíamos
fazer: Ele condenou e executou a velha natureza diante de Deus. Nossa responsabilidade é
crer na obra de Cristo, confessar Seu nome no batismo, e revelar em nosso corpo que a
vitória de Cristo sobre o pecado é uma realidade em nós ao cooperarmos com Ele pela
fé, que estamos, por meio de Cristo, realmente "liberta-dos do pecado" com seu
domínio escravizador. Em outras palavras, não somos encorajados a tentar ser a luz moral
do mundo, mas ser o que somos em Cristo. Como disse Jesus: "Vós sois a luz do
mundo.. Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas
obras e glorifiquem a vosso Pai que esta nos Céus."S. Mat. 5:14, 16. (grifos
supridos.)
Santificação e Santidade no Antigo Testamento
Ao libertar do Egito as doze tribos e
publicamente constituí-las como seu povo do concerto, como Seu "primogênito"
(Exo. 4:22), o Senhor colocou a Israel em uma posição singular e privilegiada diante de
Si mesmo. Por Sua escolha soberana Deus fez da comunidade de Israel Sua "propriedade
peculiar", um "reino de sacerdotes e nação santa". Exo. 19:5 e 6. Essa
nova situação ou posição de santidade era tanto um dom objetivo como uma
responsabilidade moral.
O Antigo Testamento emprega o verbo "santificar" (em hebraico qadash)
primariamente para descrever uma cerimônia ordenada por Deus de pôr à parte ou
consagrar ao Seu serviço. Deus santificou o sétimo dia da semana da criação. Gên.
2:3. Ordenou que todos os primogênitos, de homens e animais, fossem santificados a Ele.
Exo. 13:2.0 fato de que também um dia e um animal podiam ser "santificados" a
Deus mostra que o conceito de santificação nas Escrituras nem sempre tem conotação
ética de santidade. A santificação denota em primeiro lugar consagraoção ao Deus
santo a fim de servir aos Seus santos propósitos. Assim Deus ordenou a Moisés que
santificasse o povo de Israel no Monte Sinai, que significava pô-lo de parte para que
pudesse entrar em uma relação especial de aliança com Ele (Yahweh). Exo. 19:10.
Foi ordenado aos israelitas que lavassem suas vestes como expressão simbólica de sua
santificação. De sorte que Moisés "consagrou o povo; e lavaram as suas
vestes". Exo. 19:14. Na Versão Almeida Revista e Corrigida: "santificou."
Sendo que o Senhor iria descer sobre o Monte Sinai, a própria montanha deveria ser
consagrada, separando-a de intrusos irreverentes. Exo. 19:21. "Marca limites ao redor
do monte e consagra-o." Exo. 19:23.
As pessoas ou coisas não precisam ser inerente ou interiormente santas a fim de serem
"santificadas" (comparar com Jó 1:5; Jer. 1:5), ou chamadas "santas"
(Sal. 50:4-7). Israel, seus sacerdotes, o santuario, os sacriffcios, o dízimo, o país, a
cidade, a montanha, os sábados e as festividades eram chamados "santos", em
primeiro lugar, porque foram por ordenação de Deus postos à parte ou consagrados para o
Seu serviço religioso e colocados sob o resplendor de Sua santidade, o Shekinah, a
glória visível de Sua presença. Por isso Moisés podia ordenar a Israel que renunciasse
a toda confiança nos deuses cananitas e rechaçasse toda aliança com naçôes pagãs.
"Porque tu és povo santo ao Senhor teu Deus: o Senhor teu Deus te escolheu, para que
lhe fosses o Seu povo próprio, de todos os povos que há sobre a Terra." Deut. 7:6.
"Filhos sois do Senhor vosso Deus. "Deut. 14:1; ver também o verso 2. (Enfase
suprida.)
Em outras palavras, ao ser chamado e estabelecido pela eleição da graça divina como
filhos de Deus, Seu povo, "santo a Yahweh", Israel tinha por obrigação
assimilar e refletir a vontade de Deus em seu estilo de vida ético-social, e adorar ao
único que é Santo segundo os estatutos do Seu culto simbólico. O povo escolhido e santo
de Deus foi chamado e estabelecido somente pela graça. Para permanecer como Seu povo
santo requeria-se deles que refletissem a própria santidade de Deus na adoração do
culto simbólico, nas relaçôes sociais e na vida real diante do mundo e do Universo.
Deus estabeleceu a redenção de Israel e Seu concerto com a nação redimida baseado
somente em Seu amor e Sua promessa. Deut. 7:8.0 funcionamento desse pacto, com as
bênçãos e maldições nele contidas, Deus tornou explicitamente condicional, dependendo
da resposta de amor e obediência por parte de Israel. Primeiro vinha a redenção e
depois a obrigação. "Tendes visto o que fiz aos egípcios, como vos levei sobre
asas de águias, e vos cheguei a Mim. Agora, pois, se diligentemente ouriedes a Minha voz,
e guardardes a Minha aliança, entao sereis a Minha propriedade peculiar dentre todos os
povos." Exo. 19:4 e 5. (Grifos acrescentados.)
Esse aspecto condicional do pacto de Deus com Israel foi especialmente enfatizado por
Moisés em Deut. 28 e pelo código sacerdotal em Lev. 26.
As seguintes declarações são muito significativas: "O Senhor te constituirá para
Si em povo santo, como te tem jurado, quando guardares os mandamentos do Senhor teu Deus,
e andares nos Seus caminhos." Deut. 28:9.
"Andarei entre vós, e serei o vosso Deus, e vós sereis o Meu povo. Eu sou o Senhor
vosso Deus, que vos tirei da terra do Egito, para que não fôsseis seus escravos; quebrei
os timões do vosso jugo, e vos ftz andar eretos." Lev. 26:12 e 13.
Baseado no livramento histórico do Egito e no concerto sinaítico, o Senhor requeria de
Israel não somente confissão de adesão religiosa, mas também amor em ação, a
amorável vontade de segui-Lo, que é a essência da santidade moral. "Ouve, Israel,
o Senhor nosso Deus é o único Senhor. Amarás, pois, o Senhor teu Deus de todo o teu
coração, de toda a tua alma, e de toda a .tua força." Deut. 6:4 e 5; comparar com
10:12, 20; 13:3.
Deus esperava de Israel amor total, lealdade não dividida (também chamada "o temor
do Senhor"), como a motivação principal para a obediência a todos os Seus
estatutos, um amor agradecido pela redenção já recebida e pela graça mantenedora,
concedida ininterruptamente desde sua saida do Egito. De fato, as leis de Israel, quer
sejam morais, cerimoniais, dietéticas, ou econômicas, estavam todas continua e
explicitamente baseadas na reivindicação redentiva de Yahweh. "Eu sou o Senhor
[Yahweh]", que é a fórmula típica para a forma abreviada da auto-designação
completa de Deus (Yahweh) como Redentor de Israel. Ver Exo. 20:2; Deut. 5:6; também Lev.
11:44 e 45; 19:34-36; 25:36-38.
Resumindo, todas as leis dadas por Deus ao antigo Israel não são apenas um eloqüente
testemunho do fato de que Deus queria santificar ou consagrar a Israel como Seus filhos
privilegiados, mas também que Deus pretendia restaurar definitivamente em Seus filhos Sua
própria imagem moral de veracidade e bondade.
"E sereis santos, porque Eu sou santo" (Lev. 11:44 e 45), é o apelo de Deus ao
Seu povo, não somente a pureza ritual, mas também a integridade moral e sanidade física
(comparar com Lev. 26:12-23). Isso é expresso mais claramente no culto de adoração de
Israel, em que o acesso ao "monte santo" de Deus (Yahweh) e ao Seu templo só é
possível sob a condição de estar "limpo de mãos e puro de coração" e ter
uma vida social irrepreensível à vista de Israel. Sal. 15 e 24.
O fato de que o Israel de Deus tinha que ser fundamental e profundamente moral mostra-se
evidente de um modo especial na experiência do encontro pessoal do profeta Isaias com o
Santíssimo. Isa. 6:1-7; comparar especialmente com 5:6.
Somente por um conhecimento experimental da gloriosa santidade de Deus tal como era
louvada fervorosamente pelos serafins no santuário celestial fez chegar ao nobre profeta
uma convicção plena de sua própria indignidade e de sua contaminação interior. Na
mais profunda contrição intima, movido pela visão da santidade de Deus e de Sua
imaculada pureza, Isaias sentiu-se indigno para o serviço sagrado. Banido todo sentimento
de justiça própria, sentiu-se completamente perdido diante de Deus. Contudo, a santidade
divina redime a este adorador verdadeiramente arrependido. Quando a brasa viva do altar
celestial tocou os lábios de Isaias, sua alma foi purificada da culpa e impurezas e foi
fortalecido para uma nova missão que Deus lhe confiou em favor do apóstata Israel. Assim
a santidade divina também transforma moralmente o adorador arrependido, dando-lhe uma
visão da pureza impecável de Deus e a experiência de uma justificação e
reconciliação pessoal procedente do santuário celestial.
A santidade ética diante de Deus não é uma virtude que pode ser doada por qualquer
homem ou produzida por certo ritual ou adquirida por comportamento moral. A santidade é a
essência absolutamente única da Divindade e portanto só pode ser recebida quando se
recebe Deus na alma.
A santidade é pois um dom soberano do Único que é santo, concedida somente aos
verdadeiramente arrependidos à medida que eles comungam com Deus em Seu templo, sabendo
que só Deus é santo e que só pode ser aceito pela graça. Em tais almas, o Santo dos
santos procura habitar:
"Porque assim diz o Alto, o Sublime, que habita a eternidade, o qual tem o nome de
Santo: Habito no alto e santo lugar, mas habito também com o contrito e abatido de
espírito, para vivificar o espírito dos abatidos, e vivificar o coração dos
contritos." Isa. 57:15.
Muitos têm observado como a santidade do sábado do sétimo dia ocupava um lugar central
na fé e no culto de Israel. O sábado era até mesmo considerado um "pacto
eterno" especial de Deus com as tribos de Israel. Exo. 31:16. A santificacão do
sábado tornou-se o sinal mui visível do modo como Deus ainda estava santificando a
Israel:
"Certamente guardareis os Meus sábados; pois é sinal entre Mim e vós nas vossas
gerações; para que saibais que Eu sou o Senhor, que vos santifica. Portanto guarareis o
sábado, porque é santo para vós outros." Exo. 31:13 e 14; comparar com o verso 17;
Ezeq. 20:12, 20.
O sábado tem sua origem na criação do mundo (Exo. 20:8-11; 31:17) e portanto é uma
ordenança básica e universal. Tão logo o Criador chegou a ser o Redentor do homem e,
particularmente o Salvador dos israelitas, o sábado foi elevado à categoria de sinal
único do concerto da graça feito por Deus com Seu povo escolhido; tornou-se um sinal
especial da redenção de Israel do cativeiro egípcio. Deut. 5:15.
Desse modo a celebração do sábado semanal comemorava e glorlilicava o Deus de Israel ao
mesmo tempo como Criador e Redentor. Porém ainda mais do que isso. Desde o princípio, o
sábado foi criado com o propósito de que o homem pudesse gozar de comunhão
santificadora com Deus. Essa era a bênção do dia de sábado, renovada no concerto de
Deus com Israel como uma promessa de repouso divino no quarto mandamento. Comparar com
Heb. 4:1-10. Calvino considerava o sábado de Israel como um verdadeiro sacramento, o
símbolo da graça regeneradora e santificadora para aqueles que nascem de novo e caminham
com Deus pela fé. - Commentaries on the Book of the Prophet Ezekiel, vol. 2, (Grand
Rapids, Mich.: Wm. B. Eerdmans Publishing Co., 1948), págs. 300, 302.
Por esse motivo o profeta Ezequiel denunciou o desrespeito e profanação do sábado por
parte de Israel como sintoma de idolatria e um sinal de sua profanação do próprio
Senhor. Ezeq. 20:12-24; 22:26; 23:37-39. Essa atitude atraiu sobre Israel a ira de Deus,
que foi manifestada de modo dramático no exílio de Israel a Babilônia e na eventual
destruição de Jerusalém por Nabucodonosor. Comparar com Jer. 17:18-27; Nee. 13:18.
A Santificação ou Perfeição Cristã
Em o Novo Testamento, o anjo Gabriel reconheceu a
Jesus como "santo... Filho de Deus" desde Sua concepção, porque Ele seria
cheio do Espírito Santo. S. Luc. 1:35. Até mesmo os demônios se dirigiram a Ele como
"o Santo de Deus." S. Mar. 1:24; S. Luc. 4:34. Assim como Deus é chamado Santo,
o mesmo acontece com Cristo. Apoc. 3:7; I S. João 2:20.
Paulo chama aos membros da Igreja, a quem ele dirige suas cartas, "os santos",
não porque eles fossem moralmente impecáveis, mas porque foram "chamados" por
Deus (Rom. 1:7) e estavam "em Cristo" (Fil. 1:1). Pedro descreve a Igreja em
termos do pacto sinaítico "sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade
exclusiva de Deus". IS. Ped. 2:9; comparar com Exo. 19:5 e 6.
No Antigo Testamento, bem como em o Novo Testamento, os termos "santificação"
e "santos" indicam primariamente o estado redimido daqueles que pertencem a Deus
e, a partir desta base, desenvolvem o significado de santidade ética.
Em sua consagração a Deus os cristãos são "santos", inclusive sua
existência corporal. Rom. 12:1. A epístola aos Hebreus enfatiza especialmente a verdade
redentora de que todos os cristãos já foram santificados no sacrifício voluntário de
Cristo na cruz: "Nessa vontade é que temos sidos santificados, mediante a oferta do
corpo de Jesus Cristo, uma vez por todas." Heb. 10:10, comparar com 10:29; 13:12.
(Grifo suprido.)
Cristo mesmo aplicou o verbo "santificar" nesse sentido em Sua oração a Deus:
"E a favor deles Eu Me santifico a Mim mesmo, para que eles também sejam
santificados [consagrados, R. S. V.] na verdade." S. João 17:19; comparar com S.
João 10:36.
Paulo usa o termo no sentido litúrgico de consagraçao a Deus quando chama os corintios
de "santos", "santificados em Cristo Jesus" (I Cor. 1:2), e mesmo o
cônjuge descrente em um casamento pode ser "santificado"
("consagrado", R. S. V.) pelo crente e seus filhos serem considerados
"Santos" (I Cor. 7:14).
Os "Santos" são crentes em Cristo que já pertencem a Deus. Não devem
vangloriar-se em si mesmos, porque Deus fez de Cristo sua "justiça, e
santificação, e redenção." I Cor. 1:30. Em Cristo, eles são santos perante o
Deus verdadeiro. Foram "lavados" (batizados), "santificados"
(consagrados), e "justificados, em o nome do Senhor Jesus Cristo e no Espírito do
nosso Deus." I Cor. 6:11.
Purificação, santificação e justificação são acima de tudo resultados concretos da
expiação vicária de Cristo (Heb. 1:3; 10:10; II S. Ped. 1:9), que devem também se
converter integralmente em virtudes morais nos crentes batizados. Essa situação cria
portanto uma tensão entre o indicativo de que estamos em Cristo e o imperativo do que
devemos ser perante o mundo. Os Apóstolos apelam para o fato da santificação efetuada
por Cristo como um dos motivos para manter a santidade ética na conduta moral dos
crentes, especialmente em seu comportamento sexual por causa das incursões da
licenciosidade pagã. Comparar com I Tess. 4:3-7; Col. 3:5; 1 Cor. 6:18; Heb. 12:14. Para
conseguir esse propósito, Deus concede aos santos o poderoso Espírito Santo, ou
Espírito de santidade (Rom. 1:4), como a habitação de Cristo no templo da alma. Efés.
3:16 e 17; Gál. 2:20.
A partir da ressurreição de Cristo, o Espírito Santo também tem sido chamado o
Espírito de Cristo e é o poder essecial de Deus em todos os que pertencem pelo batismo:
"Vós, porém, nao estais na carne, mas no Espírito, se de fato o Espírito de Dens
habita em vós. E se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dEle. Assim,
pois, irmãos, somos devedores, não à carne como se constrangidos a viver segundo a
carne. Porque, se viverdes segundo a carne, caminhais para a morte; mas, se pelo Espírito
mortificardes os feitos do corpo, certamente vivereis." Rom. 8:9, 12, 13. (Enfase
acrescentada.)
Nessas palavras Paulo manifesta claramente que a santificação ética não é um processo
automático, espontãneo, do Espírito Santo. Conquanto a santificação seja obra de Deus
(I Tess. 5:23), o crente que é santificado (ou consagrado) a Deus é agora convidado a
cooperar e desse modo ajudar na efetuação do ato de Deus de pô-lo à parte. O crente,
pelo poder do Espírito Santo, aprende a controlar seu próprio corpo "em
santificação e ...... .não com o desejo de lascívia, como os gentios que não conhecem
a Deus", I Tess. 4:4. Literalmente: "que cada um de vós saiba como possuir seu
vaso em santificação e honra." K. J. V.
As admoestações apostólicas constantemente nos lembram que o Espírito de Deus não é
outorgado para desempenhar a nossa parte, no querer ou no efetuar. A pessoa redimida,
consagrada, deve estar disposta (em sua mente) a desejar (de fato), isto é, ativamente,
cooperar com a vontade de Deus. A vontade do cristão desempenha um papel importante na
santificação moral. Nossa vontade estava dominada pelo pecado e por Satanás. Ao
aceitarmos a Cristo como Senhor e Salvador devemos conscientemente entregar e submeter
nossa vontade egoísta à vontade de Cristo e de Seu Espírito. Esse é o novo compromisso
com Cristo. Paulo ensina que aqui não pode haver nenhuma posição neutra: "Mas
graças a Deus porque, outrora escravos do pecado, contudo viestes a obedecer de coração
à forma de doutrina a que fostes entregues; e, uma vez libertados do pecado, fostes
feitos servos da justiça." Rom. 6:17 e 18.
Nada deve ser deixado sob o controle de nós mesmos: "Levando cativo todo pensamento
à obediência de Cristo." II Cor. 10:5. Não pedemos controlar nossas emoções ou
inclinações, mas somos chamados a controlar a vontade submetendo-a à vontade revelada
de Deus. Esse controle pela submissão é a função essencial da vontade redimida. Ellen
G. White tinha por encargo especial tornar claro esse assunto aos cristãos: "A
fortaleza de caráter consiste de duas coisas: o poder da vontade e o poder do domínio
próprio. Muitos jovens confundem paixão forte e incontrolável com força de caráter;
mas a verdade é que aquele que é dirigido por suas paixões é um fraco. A verdadeira
grandeza e nobreza do homem é medida pelo poder dos sentimentos que ele domina, não pelo
poder dos sentimentos que o dominam. O homem mais forte é aquele que, apesar de sensível
ao ultraje, contudo refreia a paixão e perdoa a seus inimigos. Tais homens são
verdadeiros heróis." -Testimonies for the Ghurch, vol. 4, pág. 656.
Paulo enfatizou aos cristãos de Roma sua obrigação total para com Deus em termos de
deveres sacerdotais: "Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus que
apresenteis os vossos corpos por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o
vosso culto racional. E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela
renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita
vontade de Deus." Rom. 12:1 e 2; comparar com 1 S. Ped. 2:4 e 5.
Para compreender melhor essa passagem, precisamos meditar nas seguintes palavras: "O
Espírito de Deus não cria novas faculdades no homem convertido, porém opera uma
decidida mudança no emprego dessas faculdades. Quando mente, coração e alma são
transformados, o homem não recebe uma nova consciencia, mas sua vontade se submete a uma
consciencia renovada, uma consciência cujas sensibilidades adormecidas são despertadas
pela operação do Espírito Santo."- E. G. White, Nossa A1ta Vocaçao, pág. 104.
O desenvolvimento do caráter moral sempre envolve dois elementos: a escolha consciente e
pessoal de fazer o que é correto de acordo com a luz recebida e a obediência aos ditames
da consciência em ação concreta. Como pode alguém saber a vontade de Deus e conhecer o
que é reto? Embora Paulo escreva: "Se vivemos no Espírito, andemos também no
Espírito" (Gál. 5:25), ele não apela para o Espírito como a fonte objetiva da
vontade de Deus, como se o Espírito Santo devesse substituir as Santas Escrituras. Paulo
não compartilha de tal misticismo ou guosticismo. As Escrituras, com sua santa lei do
concerto, continuam para ele como a permanente revelação da vontade de Deus e o guia
moral que o Espírito Santo só pode reforçar. Rom. 3:20; 7:12, 14; 8:3 e 4; II Tim.
3:16; comparar com S. Tia. 1:22-25; 2:8-12; I S. João 2:4-6.
Contudo, o Apóstolo tinha consciência de que não é fácil conhecer a vontade de Deus
em todas as circunstâncias da vida, mesmo quando lemos a Bíblia. O cristão necessita do
amor lá do Alto e da sabedoria espiritual para saber o que é agradável a Deus:
"Por esta razão não vos tomeis insensatos, mas procurai compreender qual a vontade
do Senhor." Efés. 5:17.
Por isso necessitamos orar sem cessar, como fazia Paulo: "Por esta razão, também
nós, desde o dia em que o ouvimos, não cessamos de orar por vós, e de pedir que
transbordeis de pleno conhecimento da Sua vontade, em toda a sabedoria e entendimento
espiritual; a fim de viverdes de modo digno do Senhor, para o Seu inteiro agrado,
frutificando em toda boa obra, e crescendo no pleno conhecimento de Deus." Col. 1:9 e
10.
O conceito apostólico da santificação cristã é dinâmico e progressivo, crescendo
constantemente no conhecimento de Deus, e "na graça e no conhecimento do nosso
Senhor e Salvador Jesus Cristo". II S. Ped. 3:18. Mas o crescimento não é
automático, quer físico, quer espiritual. O crescimento espiritual, tal como o
crescimento físico, requer alimento, bebida e exercfcio.
Aceitar meramente as doutrinas da Bíblia como verdadeiras interpretações das
Escrituras, inclusive a doutrina de Cristo como Deus-homem e da justificação pela fé
como o centro do evangelho, não é suficiente; permaneceria apenas como um assunto de
crença conscienciosa e exercício intelectual. Cristo não Se satisfaz Se tivermos
meramente opiniões corretas sobre Ele e a verdade. Disse Ele: "Em verdade, em
verdade vos digo: se não comerdes a carne do Filho do homem e não beberdes o Seu sangue,
não tendes vida em vós mesmos. Quem comer a Minha carne e beber o Meu sangue tem a vida
eterna, e Eu o ressuscitarei no último dia. Pois a Minha carne é verdadeira comida, e o
Meu sangue é verdadeira bebida. Quem comer a Minha carne e beber o Meu sangue, permanece
em Mim e Eu nele." S. João 6:53-56.
A expressão comer e beber de Cristo é um duro discurso para os literalistas, mas Jesus
explicou como o Espírito Santo e Suas palavras deveriam ser juntamente assimilados no
coração e na vida: "O espírito é o que vivifica..... as palavras que Eu vos tenho
dito, são espírito e são vida." S. João 6:63.
O caráter é formado daquilo que a mente come e bebe. Crendo e obedecendo as palavras de
Cristo, as promessas e ensinos das Escrituras, o cristão torna-se participante de Cristo
e da natureza divina de Seu caráter. II S. Ped. 1:4-8.
Ellen G. White comenta essas "duras" palavras de Jesus (S. João 6:63>:
"Devemos ser intérpretes vivos das Escrituras, honrando a Cristo ao revelar Sua
mansidão e humildade de coração. Os ensinos de Cristo devem ser para nós como as
folhas da árvore da vida. Ao comermos e assimilarmos o pão da vida, revelaremos um
caráter simétrico." - S. D. A. Bible Commentary, vol. 5, pág. 1135. "Devemos
conhecer a aplicação prática da Palavra à nossa própria edificação individual do
caráter. Devemos ser templos sagrados, nos quais Deus possa viver, andar e operar."
Ibid.
Em outra metáfora, Jesus ensinou quão frutífera sera a união da alma com Cristo se
fizermos de Suas palavras nosso princípio de vida: "Eu sou a videira, vós os ramos.
Quem permanece em Mim, e Eu, nele, esse da muito fruto; porque sem Mim nada podeis fazer.
Se permanecerdes em Mim e as Minhas palavras permanecerem em vós."S. João 15:5, 7.
Todas as epístolas apostólicas do Novo Testamento culminam com fervorosas exortações
morais e admoestações para seguir a Cristo e Seus mandamentos. Porém nenhuma contém
advertências tão sérias contra o abandono voluntário da fé como a epístola aos
Hebreus. Baseando-se nas experiências de apostasia do antigo Israel, diz o autor:
"Tende cuidado, irmãos, jamais aconteça haver em qualquer de vós perverso
coração de incredulidade que vos afaste do Deus vivo; pelo contrario, exortai-vos
mutuamente cada dia, durante o tempo que se chama Hoje, a fim de que nenhum de vós seja
endurecido pelo engano do pecado. Porque nos temos tornado participantes de Cristo, se de
fato guardarmos firme até ao fim a confiança que desde o princípio tivemos." Heb.
3:12-14; comparar com 10:23-25. (Grifos supridos.).
Todo os escritos apostólicos revelam esse motivo escatoiógico de perseverar "até
ao fim" na vida santificada. Os cristãos não estão isentos do juízo final.
"Porque importa que todos nós compareçamos perante o tribunal de Cristo para que
cada um receba segundo o bem ou o mal que tiver feito, por meio do corpo." II Cor.
5:10; comparar com Rom. 14:10; I Cor. 3:15.
Cristo já havia indicado a responsabilidade do cristão de perseverar: "Aquele,
porém, que perseverar até ao fim, esse sera salvo." S. Mat. 24:13. Estas
advertências indicam claramente que os mesmos juízos cairão sobre os cristãos
apóstatas e infrutíferos como caíram sobre os antigos israelitas que não puderam
entrar na Terra Prometida por causa de sua incredulidade e desohediência. Ver Heb.
3:16-19; 6:4-6; 10:25-31; 1 Cor. 10:6-12.
G. E. Ladd observou significativamente: "A admoestação de que os homens impuros,
imorais ou idólatras não herdarão o reino de Deus (Efés. 5:5) é dirigida aos
cristãos." A Theology of the New Testament, págs. 521 e 522. A mensagem é
inconfundível: "Porque, se vivermos deliberadamente em pecado, depois de termos
recebido o pleno conhecimento da verdade, já não resta sacrifício pelos pecados; pelo
contrario, certa expectação horrível de juízo." Heb. 10:26 e 27.
Por outro lado, os peregrinos cristãos que caminham em direção a um pais melhor são
encorajados a crescer até à completa estatura de Cristo (Efés. 4:13) aprendendo e
experimentando cada vez mais o que é a perfeição cristã. Esse crescimento se
fundamenta nas verdades elementares da Palavra de Deus, mas vai além: "Mas o
alimento sólido é para os adultos [literalmente: os perfeitos], para aqueles que, pela
pratica, têm as suas faculdades exercitadas para discernir não somente o bem, mas
também o mal." Heb. 5:14. "Segui a paz com todos, e a santificação, sem a
qual ninguém verá o Senhor." Heb. 12:14. "Tendo, pois, ó amados, tais
promessas, purifiquemo-nos de toda impureza, tanto da carne, como do espírito,
aperfeiçoando a nossa santidade no temor de Deus." II Cor. 7:1. "E também
faço esta oração:
que o vosso amor aumente mais e mais em pleno conhecimento e toda a percepção, para
aprovardes as coisas excelentes e serdes sinceros e inculpáveis para o dia de Cristo,
cheios do fruto de justiça, o qual é mediante Jesus Cristo, para a glória e louvor de
Deus." Filip. 1:9-11.
Os cristãos evidentemente necessitam mais do que uma justificação ou santificação
puramente legal. Precisam de santidade de caráter, embora a salvação seja sempre pela
fé. O título para o Céu está somente na justiça de Cristo. Em acréscimo à
justificação, o plano de Deus para a salvação provê através desse título uma
aptidão para o Céu produzida pela habitação de Cristo em nós. Essa aptidão deve ser
revelada no caráter moral do homem como evidência de que a salvação "já
ocorreu".
Aqueles que recebem de Deus essa aptidão, ou qualificação moral, não se sentem santos,
perfeitos ou justos mas, pelo contrário, dão graças ao Pai que os
"qualificou" ou os habilitou para participar da herança futura. Continuam a
operar sua salvação com temor e tremor, sabendo que é Deus quem opera neles tanto o
querer como o efetuar, segundo a Sua boa vontade. Comparar com Filip. 2:12 e 13. Não
somente conhecem a vontade de Deus, mas também a fazem pelo poder de Deus. Comparar com
S. Mat. 7:21; S. João 7:17; 14:15; IS. João 2:4-6. Sua oração a Deus: "Faça-se a
Tua vontade, assim na Terra como no Céu." (S. Mat. 6:10), não é meramente uma
resignação passiva à operação da providência divina. Em seu mais amplo sentido, do
ponto de vista do propósito último de Deus para eliminar o pecado da Terra, essa
oração é "uma afirmação ativa que se dispõe a realizar a vontade divina (Seu
plano de salvação) e a dirigi-la em direção ao seu objetivo". - The New
international Dictionary of New Testament Theology, vol. 3, 1978, pág. 1.022.
Concluindo, Paulo resumiu o conjunto das verdades do evangelho acerca da santidade de vida
que se espera dos cristãos com estas preciosas palavras: "Para mim o viver é
Cristo." Filip. 1:21.
E. G. White dá também toda a glória a Jesus Cristo ao concluir: "Aceitar a Cristo
como Salvador pessoal e seguir Seu exemplo de auto-renúncia- este é o segredo da
santidade." - S. D. A. Bibie Commentary, vol. 6, pág. 1.117.