GLORIFICAÇÃO
"E aos que predestinou, a esses também
chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses
também glorificou." Rom. 8:30.
O plano divino de salvação, que se estende de eternidade a eternidade, não é uma
reflexão tardia manifesta após o surgimento do pecado. Deus providenciou a salvação no
Cordeiro imolado antes da fundação do mundo. Desde a queda do homem, Deus não tem
cessado de chamar os pecadores de volta ao lar. Através dos pattiarcas e profetas,
sacerdotes e reis, a voz de Deus tem estado insistindo e clamando: "Olhai para Mim, e
sede salvos, vós, todos os termos da Terra." Isa. 45:22.
Aqueles que retornam com fé e arrependimento, Ele os justifica pela Sua graça,
santificando-os para o Seu serviço e convida-os para a santidade de vida, em uma aliança
transformadora com Ele. Mas Deus tem para o homem um propósito ainda mais glorioso do que
a justificação e a santificação moral. Ele guarda o melhor vinho para o final.
O ato final de Deus no processo de redenção será a glorificação dos santos em sua
ressurreição e transladação. Assim como a justificação tem como alvo nossa
santificação, assim a santificação tem como objetivo nossa glorificação. A
glorificação é um ato mediante o qual Deus permite que os redimidos compartilhem de Sua
radiante glória. Isso significará salvação em seu sentido mais amplo e final, o
propósito escatológico do homem e de toda a criação. Escreve Paulo àqueles que são
justificados pela fé e têm paz com Deus por meio de Jesus Cristo: "E gloriemo-nos
na esperança da glória de Deus." Rom. 5:2. Tal expectativa é uma honra e um
privilégio incrivelmente elevados para os crentes que não contam com nenhum mérito,
porém estão arrependidos.
Alguns homens e mulheres do passado tiveram vislumbres desse esplendor divino. Quando
Moisés desceu do Monte Sinai seu rosto refletia a terrível glória de Deus e o culpado
Israel ficou atemorizado. Exo. 34:29-35. Muito mais tarde, quando Jesus Se transfigurou em
glória em uma alta montanha aos olhos de três dos Seus Apóstolos, "o Seu rosto
resplandecia como o Sol, e as Suas vestes tornaram-se brancas como a luz".S. Mat.
17:2.
Porém tais acontecimentos não foram senão indícios de uma mais sublime realidade
futura, de uma glória mais perdurável, para todos os que vi vem em paz e comunhão com
Deus por meio de Jesus Cristo.
O propósito de Deus para o Seu povo do concerto inclui a transfigurada totalidade
corporal do ser humano na glória celestial. Tal glória não podemos produzir, mas virá
de Deus quando Cristo aparecer pela segunda vez, "sem pecado, aos que O aguardam para
a salvação". Heb. 9:27.
Disse Paulo: "Pois a nossa pátria esta nos Céus, de onde também aguardamos o
Salvador, o Senhor Jesus Cristo, o qual transformará o nosso corpo de humilhação, para
ser igual ao corpo da Sua glória." Filip. 3:20 e 21. "Quando Cristo, que é a
nossa vida, Se manifestar, então vós também sereis manifestados com Ele, em
glória." Col. 3:4.
A certeza dessa glória vindoura esta relacionada com a garantia do segundo aparecimento
de Cristo. Os Apóstolos tinham suas esperanças inabalavelmente arraigadas nessa
esperança apocalíptica porque Cristo pessoalmente havia despertado neles essa esperança
com Sua promessa:
"Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em Mim. Na casa de
Meu Pai há muitas moradas. Se assim não fôra, Eu vo-lo teria dito. Pois vou
preparar-vos lugar. E quando Eu for, e vos preparar lugar, voltarei e vos receberei para
Mim mesmo, para que onde Eu estou estejais vós também." S. João 14:1-3.
De acordo com Pedro, essa esperança estava em perfeita harmonia com as Escrituras
Hebraicas: "Ao qual [Jesus] é necessário que o Céu receba até aos tempos da
restauração de todas as coisas, de que Deus falou por boca dos Seus santos profetas
desde a antigúidade." Atos 3:21.
Pedro compreendia o tempo que se estende entre o primeiro e o segundo advento de Cristo
como os "últimos dias" em que os escarnecedores negariam o juízo vindouro por
suas palavras arrogantes e viver desavergonhado. Ver II S. Ped. 3:3-7. Solenemente
assegurou a seus condiscfpulos:
"Não retarda o Senhor a Sua promessa, como alguns a julgam demorada; pelo
contrário, Ele é longânimo para convosco, não querendo que nenhum pereça, senão que
todos cheguem ao arrependimento. Virá, entretanto, como ladrão, o dia do Senhor, no qual
os céus passarão com estrepitoso estrondo e os elementos se desfarão abrasados; também
a Terra e as obras que nela existem serão atingidas. Visto que todas essas coisas háo de
ser assim desfeitas, deveis ser tais como os que vivem em santo procedimento e piedade,
esperando e apressando a vinda de dia de Deus, por causa do qual os céus incendiados
serão desfeitos e os elementos abrasados se derreterão. Nós, porém, segundo a Sua
promessa, esperamos novos céus e nova Terra, nos quais habita justiça. Por essa razao,
poré amados, esperando estas coisas, empenhai-vos por ser achados por Ete em paz, sem
mácula e irrepreensíveis." II S. Ped. 3:9-14. (Grifos adicionados.)
Vemos aqui como a esperança do cumprimento final da palavra profética tornou-se para
Pedro um poderoso incentivo para o viver vitorioso e santificado. Ver os versos 11,12 e
14; e também I S. Ped. 1:13.
João concorda perfeitamente com Pedro quando declara: "Sabemos que, quando Ele
[Cristo] Se manifestar, seremos semelhantes a Ele, porque havemos de vê-Lo como Ele é. E
a si mesmo se purifica todo o que nEle tem esta esperança, assim como Ele é puro."
I S. João 3:2 e 3.
Evidentemente, para Pedro e João a esperança cristã não era um quietismo estéril ou
ilusória utopia, mas uma esperança que realmente purifica a vida cristã de hábitos
pecaminosos, tomando a vida histórica de Cristo entre os homens como o respiendente
modelo de santidade e a norma de justiça. Ver I S. João 2:6, 29; 3:3,7.
Paulo leva ainda mais longe esta relação de santificação e glorificação, quando
escreve aos cristãos gentios de Colossos que as gloriosas riquezas da revelação
evangélica é "Cristo em vós, a esperança da glória". Col. 1:27.
O evangelho de Paulo não somente tenta apresentar a cada crente "perfeito em
Cristo" (Col. 1:28), mas também reproduzir a Cristo perfeitamente em cada crente. A
alguns membros da Igreja que tinham idéias confusas, ele escreveu: "Meus filhos, por
quem de novo sofro as dores de parto, até ser Cristo formado em VÓS. "Gál. 4:19;
comparar com II Cor. 13:5.
Paulo considerava essencial o caráter e a vida cristã para a futura glorificação. A
presença de Cristo, ou seja, o Espírito de Cristo regendo o coração e a vida do
cristão, era para Paulo a condição e a garantia da glorificação do nosso corpo
mortal. Declarou: "Se habita em vós o Espírito dAquele que ressuscitou a Jesus
dentre os mortos, esse mesmo que ressuscitou a Cristo Jesus dentre os mortos, vivificará
também os vossos corpos mortais, por meio do Seu Espírito que em vós habita." Rom.
8:11. "Deus nos escolheu desde o princípio para a salvação, pela santificação do
Espírito e fé na verdade. para alcançar a glória de nosso Senhor Jesus Cristo."
II Tess. 2:13 e 14.
Ellen G. White falou do mesmo modo que Paulo ao declarar: "Nosso único motivo de
esperança está em sernos imputada a justiça de Cristo - essa justiça produzida pelo
Seu Espírito a operar em nós e por nós." - Caminho Para Cristo, pág. 54.
Cristo em vós, a esperança da glória. Essa verdade apostólica significa que sem Cristo
habitando em nosso coração não há nenhuma garantia ou esperança de glorificação.
Cristo em nós, contudo, significa mais do que a expectação da glória futura; significa
a participação na glória de Cristo aqui e agora.
Comparada com o fulgor decrescente do rosto de Moisés no Monte Sinai, o cristão tem uma
glória muito superior que começa agora e vai aumentando dia após dia. "E não
somos como Moisés que punha véu sobre a face, para que os filhos de Israel não
atentassem na terminação do que se desvanecia.... E todos nós com o rosto desvendado,
contemplando, como por espelho, a glória do Senhor, somos transformados de glória em
glória, na Sua própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito." II Cor. 3:13, 18.
De que modo podemos contemplar a glória do Senhor a fim de refleti-la aqui e agora?
Contemplar a Cristo significa fixarmos nossos olhos em Jesus, em Sua imagem tal como a
encontramos em Sua palavra e retrada pelos evangelistas do Novo Testamento. Contemplando a
atraente amabilidade do caráter de Cristo, o crente se tornará mudado à Sua imagem por
assimilação moral. Ellen G. white explicou isso com profundas palavras:
"Ao receber Sua justiça imputada, mediante o poder transformador do Espírito Santo,
tornamo-nos semelhantes a Ele. A imagem de Cristo é entesourada, e cativa todo o
ser." - S. D. A. Bible Commentary, vol. 6, pág. 1.098.
"Quando Cristo é mais amado do que o próprio eu, a bela imagem do Salvador é
refletida no crente.... Até que o eu seja posto no altar do sacrifício, Cristo não
será refletido no caráter. Quando o eu está sepultado e Cristo ocupa o trono do
coração, haverá uma revelação de princípios que limpará a atmosfera moral que
circunda a alma. -Ibid.
"A mente está nublada pela malária sensual. Os pensamentos necessitam ser
purificados. De quanto não seriam capazes os homens e as mulheres se compreendessem que o
vigor e a pureza da mente dependem em tudo do trato que dão ao corpo." - Ibid., vol.
7, pág. 909.
"Satanás está tentando ocultar a Jesus de nossa vista, eclipsar Sua luz; porque
quando obtemos um vislumbre de Sua glória, somos atraidos a Ele. O pecado oculta de
nossas vistas os incomparáveis encantos de Jesus." - Ibid., vol. 6, pág. 1.097.
Paulo reconhecia que o rosto de Jesus Cristo refletia a "iluminação do conhecimento
da glória de Deus". II Cor. 4:6. Aqueles que em sua incredulidade não podem ver em
Cristo a imagem de Deus devem estar ainda cegados por Satanás à "luz do evangelho
da glória de Cristo". Verso 4.
Provando o Futuro
Por outro lado, aqueles que foram iluminados e
participaram do Espírito Santo têm realmente provado os poderes do mundo vindouro. Heb.
6:5. Em outras palavras, em Cristo os poderes da glória futura já irromperam nesta era;
esse poder e essa glória podem e devem ser "provados" ou experimentados agora
por aqueles que estão em Cristo. Assim o verdadeiro cristão não somente crê nas
glórias futuras do Céu, mas também já participa delas com deleite e regozo tendo a
Cristo em seu coração.
Paulo vai muito mais longe a ponto de declarar que só participaremos da glória futura de
Cristo se agora tivermos parte em Seus sofrimentos. Tais aflições ele sempre via na
perspectiva das alegrias eternas da glória futura. O Apóstolo nos surpreende com sua
radical avaliação: "Porque para mim tenho por certo que os sofrimentos do tempo
presente não são para comparar com a glória por vir a ser revelada em nós." Rom.
8:18.
Paulo podia fazer uso de expressões tão vigorosas porque ele tinha usufruido o
privilégio especial da parte de Deus de ser "arrebatado ao terceiro Céu . . ao
paraíso" e de ouvir "palavras inefáveis, as quais não é lícito ao homem
referir." II Cor. 12:2, 4. Somente ele podia testificar que as glórias do Céu eram,
como o próprio Deus, indescritíveis, contudo esmagadoramente reais: "Nem olhos
viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus tem
preparado para aqueles que O amam." I Cor. 2:9; comparar com Isa. 64:4.
A glória prometida era tão dramaticamente real para Paulo que ele chamou a todos os seus
anos de provas e tribulações por causa de Cristo de "leve e momentânea
tribulação" que estavam alcançando para ele e seus companheiros um "eterno
peso de glória, acima de toda comparação". II Cor. 4:17.
Quão real e precioso era Cristo para o Apóstolo Paulo! Ele via a realidade de uma
maneira mui simples e completa: "Porquanto, para mim o vi-er é Cristo, e o morrer é
lucro." Filip. 1:21.
A realidade futura tinha para ele muito mais peso do que o presente, e isso determinou sua
atitude em relação ao sofrimento nesta vida.
Isso não significa que as aflições eram totalmente irrelevantes para Paulo. Ao
contrário, ele as via como obreiras, ou instrumentos, permitidas por Deus para o
aperfeiçoamento do seu caráter cristão. Paulo lutou com o Senhor três vezes para que
tirasse um "espinho" de sua carne, uma aflição corporal que muitos acreditam
ter sido sua visão deficiente. Comparar com Gál. 4:15; 6:11. Contudo, a resposta de Deus
foi Não! "A Minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza."
II Cor. 12:9.0 Apóstolo interpretou essa resposta como a maneira de Deus purificá-lo e
protegê-lo: "para que não me ensoberbecesse com a grandeza das revelações".
Verso 7. Assim, Paulo cooperava com o plano de Deus, regozijando-se em perseguições e em
tribulações. "Porque quando sou fraco, então é que sou forte." Verso 10.
Paulo julgava todas as suas dificuldades à luz dos valores eternos e se manteve firme sob
todas as privações por causa do poder invencível do evangelho de Cristo. Tentando
explicar o sublime propósito de suas fadigas, escreveu: "Temos, porém, este tesouro
em vaso de barro, para que a excelência do poder seja de Deus e não de nós. Em tudo
somos atribulados, porém, não angustiados; perplexos, porém não desanimados;
perseguidos, porém não desamparados; abatidos, porém não destruídos; levando sempre
no corpo o morrer de Jesus para que também a Sua vida se manifeste em nosso corpo."
II Cor. 4:7-10; ver também 11:23-29.
Esse nobre objetivo habilitou o fraco Apóstolo a ser espiritualmente vitorioso e
alcançar a plenitude da estatura moral de um homem em Cristo Jesus. Efés. 4:13.
Finalmente ele formulou um dos mais profundos e misteriosos princípios para uma
experiência cristã mais elevada: "Porque vos foi concedida a graça de padecerdes
por Cristo, e não somente de crerdes nEle." Filip. 1:29. (Grifos supridos.)
Paulo via o sofrer e o morrer por Cristo como a mais elevada honra para o cristão. Embora
nem todos sejam chamados ao martírio, Paulo viu ainda que "todos quantos querem
viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos". II Tim. 3:12.
Realmente, a "vida piedosa" é digna de ser vivida, apesar de suas tribulações
e martírio porque é o preparo e qualificação para o reino da glória:
"Através de muitas tribulações [OU, aflições], nos importa entrar no reino de
Deus." Atos 14:22.
Mesmo os santos do Antigo Testamento que pela fé andavam nas promessas de Deus foram em
muitas ocasiões torturados ou martirizados, porque olhavam para o futuro, esperando sua
recompensa na ressurreição. Heb. 11:35-40.
Está escrito acerca de Moisés: "Porquanto considerou o opróbrio de Cristo por
maiores riquezas do que os tesouros do Egito, porque contemplava o galardão." Heb.
11:26.
Abraão já "aguardava a cidade que tem fundamentos, da qual Deus é o arquiteto e
edificador" (Heb. 11:10) e portanto vivia em tendas como um peregrino em terra alheia
(verso 9). Assim todos os crentes dos tempos anteriores a Cristo viveram pela fé até o
fim: "Todos estes morreram na fé, sem ter obtido as promessas, vendo-as, porém, de
longe, e saudando-as, e confessando que eram estrangeiros e peregrinos sobre a terra. Mas
agora aspiram a uma pátria superior, isto é, celestial. Por isso, Deus não Se
envergonha deles, de ser chamado o seu Deus, porquanto lhes preparou uma cidade."
Heb. 11:13, 16. Nenhum daqueles santos entraram naquele pátria celestial, ou Nova
Jerusalém. "Ora, todos estes que obtiveram bom testemunho por sua fé, não
obtiveram, contudo, a concretização da promessa, por haver Deus provido coisa superior a
nosso respeito, para que eles, sem nós, não fossem aperfeiçoados." Heb. 11:39 e
40.
Da mesma forma que Abraão, Isaque e Jacó, todos eles aguardam a ressurreição dos
justos mortos, a qual somente terá lugar por ocasião da segunda vinda de Cristo.
Comparar com S. Luc. 20:37 e 38. Referindo-se a esse momento, Paulo disse: "Porquanto
o Senhor mesmo, dada a Sua palavra de ordem, ouvida a voz do arcanjo, e ressoada a
trombeta de Deus, descerá dos céus, e os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro;
depois nós, os vivos, os que ficarmos, seremos arrebatados juntamente com eles, entre
nuvens, para o encontro do Senhor nos ares, e assim estaremos para sempre com o
Senhor." I Tess. 4:16 e 17.
De modo que os santos tanto do antigo como do novo pacto são ressuscitados e transladados
em glória juntamente na segunda vinda de Cristo. Isso não pode ser nenhum evento secreto
ou invisível:
"Porque o Filho do homem há de vir na glória de Seu Pai, com os Seus anjos, e
então retribuirá a cada um conforme as suas obras." S. Mat. 16:27; comparar com S.
Mar. 8:38.
O plano de Deus para o Seu povo jamais foi arrebatá-los de modo subito e invisível das
tribulações, mas protegê-los em suas provas. S. João 17:15. Muitos foram mortos, sendo
martirizados por causa de sua fé nas promessas de Deus, e muitos outros morrerão, até
que o veredicto divino declaro que já basta. Apocalipse 6:9-11; 20:4. Então os redimidos
sairão finalmente da "grande tribulação" e receberão um lugar de honra no
reino da glória, no qual Cristo "os guiará para as fontes da água da vida. E Deus
lhes enxugará dos olhos toda lágrima". Apoc. 7:9, 14-17.
Todos oserva E. G. White: "De todos os dons que o Céu pode conceder aos homens, a
participação com Cristo em Seus sofrimentos é o mais importante depósito e a mais
elevada honra." - O Desejado de Todes as Nações, 2º edição, pág. 163.
O Dom Apocalíptico da Glória Imortal
Nas Sagradas Escrituras, o homem é uma unidade
indivisível. O Criador fez o homem originalmente do pó da terra e então soprou nos
narizes do corpo perfeito porém sem vida Seu próprio sopro de vida. Como resultado da
combinaçao do Espírito de vida com o corpo inanimado, "o homem passou a ser alma
vivente". Gên. 2:7. Essa primeira declaração bíblica acerca da alma humana nos
ensina claramente que nossa alma vivente não é o Espírito de vida ou uma entidade
distinta do nosso corpo, mas que inclui tanto o corpo como o espírito.
Na morte, tem lugar um processo contrário, quando o pó retorna à terra como era, e o
espírito volta para Deus, de onde procedeu. Somente o Criador é imortal por natureza.
Comparar com I Tim. 6:16.0 veredicto divino é que a alma que pecar, morrerá. Ezeq. 18:4,
20.
Quando o espírito de vida, manifestado no sopro de vida, deixa o corpo por ocasião da
morte, não somente o corpo morre, mas também a alma humana morre ou deixa de existir
como uma alma vivente." Um cadáver humano é chamado na Bíblia Hebraica uma
"alma morta". Núm. 6:6, comparar com 19:11, 13.
A morte não significa para a alma sofrimento ou estado de consciencia fora do corpo, mas
simplesmente o oposto ou ausência de vida. Paulo escreveu: "Porque o salário do
pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus nosso
Senhor." Rom. 6:23.
Nosso nascimento natural e nossa vida já são um dom do Criador. Sal. 139:13. Nosso novo
nascimento com a vida espiritual que com ele se inicia é um dom de Deus em Cristo como
re-Criador. Paulo afirma: "Se alguém está em Cristo, é nova criatura." II
Cor. 5:17.0 crente assim renascido tem o Espírito de Cristo em si e portanto "passou
da morte para a vida", e tenha a vida eterna porque tem o Filho. I S. João 3:14; S.
João 5:24. João testifica: "Deus nos deu a vida eterna; e esta vida estã no Seu
Filho. Aquele que tem o Filho tem a vida; aquele que não tem o Filho de Deus não tem a
vida." I S. João 5:11 e 12.
Porém mais do que isso, Deus promete dar a vida eterna também ao nosso corpo mortal
quando Cristo regressar por ocasião da última trombeta apocalíptica. Paulo desenvolve
essa gloriosa promessa de Deus em três capítulos: Rom. 8, I Cor. 15 e II Cor. 5.
Em Rom. 8 encontramos desdobrada a seguinte esperança de glória: "Se habita em vós
o Espírito dAquele que ressuscitou a Jesus dentre os mortos, esse mesmo que ressuscitou a
Cristo Jesus dentre os mortos, vivificará também os vossos corpos mortais, por meio do
Seu Espírito que em vós habita. A ardente expectativa da criação aguarda a revelação
dos filhos de Deus. Porque sabemos que toda a criação a um só tempo geme e suporta
angústias até agora. E não somente ela, mas também nós que temos as primícias do
Espírito, igualmente gememos em nosso íntimo, aguardando a adoção de filhos, a
redenção do nosso corpo. Porque na esperança fomos salvos. Ora, esperança que se vê
não é esperança; pois o que alguém vê, como o espera? Mas, se esperarmos o que não
vemos, com paciencia o aguardamos." Rom. 8:11, 19, 22-25.
A novidade mais extraordinária dessa passagem é que os cristãos que têm o Espírito
Santo em seu coração ainda "gemem interiormente", exatamente como "toda a
criação" está gemendo desde a queda do homem por causa do "cativeiro da
corrupção". Rom. 8:21. Nós seres humanos somos parte de uma mais vasta realidade
criada; de fato, como filhos e filhas de Deus fomos feitos os representantes deste
planeta, coroados de glória e honra. Sal. 8:3-8. Com a queda do homem, toda a criação
caiu juntamente sob um acúmulo crescente de maldições, de morte e decadência.Gên.
3:17-19; 4:11; 6:11-13.
Por outro lado, quando os seres humanos forem por fim completamente restaurados como
filhos e filhas de Deus, em sua gloriosa libertação da morte, toda a Terra será
finalmente libertada do seu cativeiro de decadência. Rom. 8, 19, 21.
Cristo falou daquele dia como "a renovação de todas as coisas" [literalmente,
regeneração) (S. Mat. 19:28); e Pedro falou dele como os "tempos da restauração
de todas as coisas". Atos 3:21. De modo dramático-poético, Paulo indicou mais
detalhadamente que essa renovação de todas as coisas depende da gloriosa manifestação
da filiação divina do ser humano: "A ardente expectativa da criação aguarda a
revelação dos filhos de Deus." Rom. 8:19. "Na esperança de que a própria
nação será redimida do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos
de Deus." Verso 21.
Os cristãos renascidos aguardam ansiosamente a final "adoção de filhos", a
redenção de seus corpos, "porque na esperança somos salvos". Verso 23 e 24.
A palavra redenção é especialmente significativa para Paulo. Os cristãos são salvos
pela fé em Cristo (Efés. 2:5, 8) porque eles têm "a redenção (apo1utrosin), pelo
Seu sangue, a remissão dos pecados" (Efés. 1:7). em Rom. 3:24, Paulo identifica
essa presente redenção com a justificação pela graça.
Paulo também empregou esse mesmo termo "redenção" para designar a salvação
futura dos cristãos quando eles receberão sua gloriosa herança, da qual o Espírito
Santo no coração é presentemente apenas um "depósito". "E não
entristeçais o Espírito de Deus, no qual fostes selados para o dia da redenção
(apolutroseos)" (Efés. 4:30); "em quem também vós, depois que ouvistes a
palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação, tendo nEle também crido, fostes
selados com o Santo Espírito da promessa. O qual é o penhor da nossa herança até ao
resgate da sua propriedade, em louvor da Sua glória". Efés. 1:13 e 14.
Em Rom. 8:23, Paulo explica mais detalhadamente o que ele entende por aquela redenção
futura quando se refere à "redenção de nossos corpos" (apolutrosin). Para ele
não se trata de redimir a alma do corpo -como era a idéia prevalecente da filosofia
gnóstica - mas a redenção de nosso corpo como entidade física. Essa é a redenção
apocalíptica pela qual os cristãos esperam e aguardam com intenso anelo. Rom.7:14-24;
8:13.
Paulo usa também a expressão "adoção como filhos" (huiothesias), nesse
sentido duplo. A adocão de filhos em Rom. 8:15 e Gál. 4:5 é o dom presente do Espírito
pelo qual chamamos a Deus de "Abba", Pai. Mas em Rom. 8:23 a "adoção de
filhos" é claramente o dom futuro (apocalíptico) da gloriosa revelação dos filhos
de Deus ante o Universo, pelo qual a criação inteira está aguardando com ansiedade.
Assim deparamos com a realidade surpreendente de que Paulo pode dizer no mesmo capítulo
(Rom. 8) que os crentes experimentam agora sua "adoção de filhos"de Deus
através do Espfrito Santo (versos 14-16), embora continuem esperando sua final
"adoção como filhos". Verso 23.
Paulo pode ao mesmo tempo dizer: já estamos redimidos (Efés. 1:7), e ainda não estamos
redimidos (Efés. 4:30; Rom. 8:23).
Como pode alguém explicar essa tensão entre o "já" e o "ainda
não"?
A resposta se encontra na obra de Cristo em favor de nossa redenção. Paulo relacionou
nossa presente salvação com a primeira vinda de Cristo. Nos acontecimentos históricos
da crucifixão, ressurreição e ministério celestial de Cristo, nossa justificação e
santificação estão asseguradas de uma vez por todas. Contudo, nossa futura salvaçao, a
glorificação do nosso corpo, Paulo relacionou com a segunda vinda de Cristo.
Por esse motivo Paulo pode dizer simultaneamente: "Estamos salvos", tendo em
vista a cruz e a ressurreição de Cristo no passado; e "ainda não estamos
salvos", olhando para o futuro regresso de Cristo a fim de redimir nosso corpo.
Insistir unilateralmente em nossa salvação presente ou futura em detrimento uma da
outra, é representar mal a Cristo como nossa salvação. A bem-aventurada segurança e o
gozo de nossa presente salvação em Cristo jamais devem ser minados ou eclipsados pelo
temor do juizo final de Deus. Realmente, não há esperança de glorificação a não ser
para aqueles que têm experimentado a reconciliação, justificação e santificação.
Todavia, os cristãos que pensam que a perfeição da glorificação já ocorreu, vivem em
uma falsa confiança própria. Para aqueles que foram enganados por essa ilusão gnóstica
o grande Apóstolo Paulo escreveu:
"Não que eu o tenha já recebido, ou que tenha já obtido a perfeição; mas
prossigo para conquistar aquilo para o que também fui conquistado por Cristo Jesus.
Irmãos, quanto a mim, não julgo havê-lo alcançado; mas uma coisa faço:
esquecendo-me das coisas que para trás ficam e avançando para as que diante de mim
estão, prossigo para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo
Jesus. Todos, pois, que somos perfeitos, tenhamos este sentimento; e, se porventura
pensais doutro modo, também isto Deus vos esclarecerá. Todavia, andemos de acordo com o
que já alcançamos." Filip. 3:12-16.
"Assim, pois, amados meus ...desenvolvei a vossa salvação com temor e tremor;
porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a Sua boa
vontade." Filip. 3:12 e 13.
A glorificação ainda se apresenta diante de todos os cristãos como um dom da graça
divina para todo aquele que tem esperado por ela no temor do Senhor. O selo final da
aprovação divina não será colocado sobre os que são justos aos próprios olhos ou que
confiam em si mesmos, mas antes sobre aqueles que têm um coração contrito e um
espírito humilde, que pela operação do Espírito Santo sentem sua necessidade de Deus e
imploram interiormente a plenitude de Sua santa presença. Ezeq. 9; Apoc. 3:14-22; Rom.
7:14-25. Podemos dizer com E. G. White: "Aqueles que desconfiam de si mesmos, que se
humilham diante de Deus e purificam sua alma pela obediência à verdade - esses estão
recebendo o molde celestial e estão se preparando para receber o selo de Deus em suas
testas." -Testimonies for the Church, vol. 5, pág. 216. Esses crentes não vivem na
falsa segurança de um espírito jactancioso. Vivem sua vida santificada na bendita
confiança nas promessas de Deus que não falharão para aqueles que conservam o seu pacto
com Deus numa relação de fé e obediência.
Paulo não temia morrer, nem se sentia inseguro quanto ao seu destino: "Combati o bom
combate, completei a carreira, guardei a fé. Já agora a coroa da justiça me está
guardada, a qual o Senhor, reto juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas
também a todos quantos amam a Sua vinda." II Tim. 4:7 e 8.
"Todavia não me envergonho; porque sei em quem tenho crido, e estou certo de que Ele
é poderoso para guardar o meu depósito até aquele dia." II Tim. 1:12.
Os santos da velha aliança também se apegavam à certeza da futura salvação em sua
adoração de Yaweh em Seu templo: "Tu me guias com o Teu conselho, e depois me
recebes na glória." Sal. 73:24. "Mas Deus remirá a minha alma do poder da
morte, pois Ele me tomará para Si." Sal. 49:15.
Em ambos os salmos se usa o verbo hebraico laqach, (tomar, arrebatar), que é o termo
técnico para designar a "transladação" em glória. O verbo foi empregado para
a transladação corporal, ou a glorificação, de Enoque e Elias (Gên. 5:24; Heb. 11:5;
II Reis 2:1, 9-11) e para a ascensão de Jesus Cristo (em seu equivalente grego: S. Mar.
16:19; Atos 1:2, 11, 22; I Tim. 3:16).
A experiência de Enoque é a condiçao básica para se receber a imortalidade:
"Andou Enoque com Deus." Gên. 5:24.0 salmista descreveu essa condição:
"Tu me guias com o Teu conselho." Sal. 73:24.
Essa condição se refletirá nos crentes cristãos que aguardam a bem-aventurada
esperança: "Porquanto a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens,
educando-nos para que, renegadas a impiedade e as paixões mundanas, vivamos no presente
século, sensata, justa e piedosamente, aguardando a bendita esperança e a manifestação
da glória do nosso grande Deus e Salvador Jesus Cristo." Tito 2:11-13.
Ainda que o Espírito Santo possa habitar no coração dos crentes, contudo ainda
permanece na subjugada porém pecaminosa natureza humana do cristão uma tendência que
continua a resistir às instruções e ao poder do Espírito Santo, a escolher o próprio
caminho, a servir ao próprio eu em vez de servir à vontade revelada de Deus. A batalha
entre nossas tendências carnais que apelam para o próprio eu e o Espírito Santo não
têm fim para os que vivem deste lado da eternidade, até mesmo quando o cristão vive uma
vida vitoriosa. Gál. 5:16 e 17. "Aquele, pois, que pensa estar em pé, veja que não
caia." I Cor. 10:12.
O relato da queda do Rei Salomão e da confiança própria e queda de Pedro são sérias
advertências para todos os crentes. I Reis 11; S. Mat. 26:33-35. E adverte Ellen G.
White: "Enquanto a vida durar, é necessário guardar-nos contra as afeições e
paixões com um propósito firme. Há corrupção interna, há tentações externas, e
onde quer que a obra de Deus avance, Satanás planeja arranjar de tal modo as
circunstâncias que a tentação venha com subjugante poder sobre a alma. Não podemos
estar seguros um só momento, a menos que estejamos apoiados em Deus, a vida escondida com
Cristo em Deus." - S. D. A. Bible Commentary, vol. 2, pág. 1.032.
Os crentes possuem em sua vida e corpo a plenitude do Espírito apenas como "as
primícias do Espírito" (Rom. 8:23) ou com "um depósito (arrabon) garantindo
nossa herança". Efés. 1:14. Paulo fala mais distintamente dessa herança como sendo
nosso corpo glorificado, que Deus concederá aos crentes fiéis "para que o mortal
seja absorvido pela vida". II Cor. 5:4. "Ora, foi o próprio Deus quem nos
preparou para isto, outorgando-nos o penhor do Espírito." II Cor. 5:5.
Novamente Paulo descreve a presença do Espírito Santo em nosso coração como o
"depósito" (arrabon), ou primeira prestação, de um pagamento, penhor,
garantia, fiança, que garante a divina glorificação, ou transladação do nosso corpo,
para uma casa não feita por mãos, eterna, nos Céus". II Cor. 5:1. Em tal corpo o
Espírito Santo terá pleno e perfeito domínio. Esse corpo glorificado será a
"colheita" apocalíptica da qual o Espírito Santo em nosso presente corpo
mortal é as "primícias". Rom. 8:23.
Paulo desenvolve mais extensamente o tema do corpo glorificado em I Cor. 15. Como
assinalou acertadamente G. E. Ladd: "O argumento básico de I Cor. 15 é dirigido
contra o ponto de vista grego da sobrevivência da personalidade fora de qualquer forma de
existência corporal." - A Theotogy of the New Testament, pág. 465.
O Apóstolo revela que nosso presente corpo mortal, mesmo o dos cristãos espiritualmente
maduros, não estão aptos para entrar no eterno reino de Deus: "Isto afirmo,
irmãos, que carne e sangue não podem herdar o reino de Deus, nem a corrupção herdar a
incorrupção. Eis que vos digo um mistério: Nem todos dormiremos, mas transformados
seremos todos, num momento, num abrir e fechar dolhos, ao ressoar da ultima trombeta. A
trombeta soará, os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados.
Porque é necessário que este corpo corruptível se revista da incorruptibilidade, e que
o corpo mortal se revista da imortalidade." I Cor. 15:50-53.
O corpo imperecível é o dom apocalíptico de glória imortal que Deus dará ao Seu povo.
Os cristãos devemos desenvolver em nosso corpo mortal um caráter perfeito sob a
orientação do Espírito Santo. Mas ainda continuaremos tendo neste mundo um corpo
perecível "natural" (psuchikon) até a morte. Versos 42-44. Não que o corpo em
si seja intrinsecamente pecaminoso. Não, o Criador não fez corpos pecaminosos. Mas após
a queda, o corpo tornou-se um instrumento do nosso eu egoísta, de "nossa
carne", de nossa natureza humana caída. O corpo, ou a carne, não são em si
pecaminosos. Mas porque o eu egoísta utiliza-se do corpo para seus propósitos egoístas,
o corpo é denominado por Paulo "o corpo do pecado". Rom. 6:6. Somente o milagre
divino da ressurreição corporal (ou transformação) revestirá os crentes de um
imperecível e imortal corpo "espiritual" (pneumatikon). I Cor. 15:42-44. Não
mais o corpo instigará o eu egoísta, o fraco e intemperante eu a desviar-se de sua
função. Não mais será o corpo um instrumento do pecado.
Este corpo espiritual não é um espírito desencarnado, nem um fantasma constituído só
de pneuma (espírito); o corpo ressuscitado é um corpo real e tangível que serve como um
organismo perfeito para a habitação do Espírito Santo.
Na Bíblia, a personalidade humana não pode existir à margem da existência corporal. Se
o corpo mortal ou carne morre, o ser humano só pode viver novamente se o Criador fizer um
corpo para ele. II Cor. 5:1-5.
Enquanto o corpo "natural", mortal é "semeado em desonra" (na
sepultura), o corpo espiritual "ressuscita em glória" (1 Cor. 15:42) e portanto
apto para a vida eterna. Paulo comparou esse corpo glorificado com o corpo de Cristo
ressurgido, que também "transformará o nosso corpo de humilhação, para ser igual
ao corpo da Sua glória Filip. 3:21.0 corpo ressuscitado de Cristo não era absolutamente
um espírito descarnado, porém tão real e tangível como era conhecido antes da
crucifixão. S. Luc. 24:37, 43. Como o corpo de Cristo ressuscitado, assim também nosso
corpo ressurreto conservará os traços específicos de nossa personalidade individual.
Abraão, Isaque e jacó, por exemplo, estarão todos presentes em pessoa no reino dos
céus e serão imediatamente reconhecidos, porque eles também ressuscitarão dos mortos.
S. Luc. 20:37 e 38.
Apesar das diferenças, alguma continuidade básica entre nosso presente corpo e o novo
corpo permanece, assim como a continuidade da semente e da planta que nasce dela. I Cor.
15:35-38. Ellen G. White faz esta intrigante observação:
"Nossa identidade pessoal é preservada na ressurreição, embora não sejam as
mesmas partículas de matéria ou sbstância material que foram para a tumba. As
maravilhosas obras de Deus são um mistério para o homem. O espírito, o caráter do
homem, volta para Deus, a fim de ser preservado. Na ressurreição, cada homem terá seu
próprio caráter. Deus em seu devido tempo chamará os mortos, desenvolvendo-lhes o
fôlego da vida, e fazendo os ossos secos viverem. Eles se levantarão com a mesma forma
que tinham, porém isentos de doença e de todo defeito. E viverão novamente, conservando
os mesmos traços individuais, de sorte que os amigos se reconhecerão." - S. D.A.
Bible Commentary, vol. 6, pág. 1.093.
Enquanto seguirmos com nosso corpo atual, natural e débil, não podemos ainda pôr-nos
fora do alcance das paixões e inclinações que instigam e tentam ao pecado até mesmo um
crente vitorioso, como Ellen G. White declara: "Não podemos dizer: 'Estou sem
pecado' enquanto este corpo vil não for mudado e transformado à semelhança de Seu corpo
glorioso." - Signs of the Times, 23 de março de 1888.
Paulo pôs limite ao ilimitado entusiasmo e alegria exuberante de alguns cristãos mal
informados, tirando uma conclusão muito realista da natureza de nosso presente corpo
"natural". Somente quando "nós" formos "transformados ... num
momento, num abrir e fechar dolhos, ao ressoar da última trombeta", e o corpo mortal
se revestir de imortalidade, então o pecado, no sentido do "aguilhão" do
estímulo pecaminoso (isto é, a tentação) será totalmente erradicado de nós.
Paulo resumiu a lição moral de tudo isso em uma afirmação muito significativa: "O
aguilhão da morte é o pecado, é a força do pecado é a lei." I Cor. 15:56.
Em outras palavras, até o dia do toque final da imortalidade, os cristãos renascidos
têm de contar com os impulsos pecaminosos de sua natureza humana, rejeitando-os
basicamente; em consequência precisam aceitar a lei de Deus como norma ética vigente
para a sua conduta e caráter cristão, e não mero sentimento. Rom. 7.
A Culminação do Plano da Redenção
Os dois capítulos finais da Bíblia estão
relacionados com os dois primeiros capítulos de Cenesis. Embora o Paraíso tenha sido
perdido por causa de Adão, será restaurado por Cristo. O eterno propôsito de Deus para
a raça humana logo alcançará seu objetivo por Seus filhos fiéis de todos os tempos -
Deus virá morar com eles para sempre e estabelecerá Seu trono neste planeta. Então o
eterno concerto de Deus estará consumado para sempre: "Eis o tabernáculo de Deus
com os homens. Deus habitará com eles. Eles serão povos de Deus e Deus mesmo estará com
eles. E lhes enxugará dos olhos toda lágrima, e a morte já não existirá, já não
haverá luto, nem pranto, nem dor, porque as primeiras coisas passaram." Apoc. 21:3 e
4.
A humanidade não pode criar o parsíso, nem por programas políticos nem por suas boas
obras. O homem não pode acabar com a morte ou erradicar o pecado ou Satanás. Mas todas
essas esperanças se converterão em realidade quando Aquelé que está assentado sobre o
trono do Universo proclamar:
"Eis que faço novas todas as coisas." Apoc. 21:5. E Deus acrescenta Sua
certeza: "Estas palavras são fiéis e verdadeiras." Verso 5.
A Cidade Santa, prometida a Abraão, finalmente descerá do Céu como a Nova Jerusalém,
ou habitação de Deus. Isso será o Céu na Terra, porque o Céu é, por defirnção, a
presença de Deus e de Jesus Cristo . Estamos agora no "inverno do cristão" com
seus ventos gelados de afiiçao. "Mas num futuro próximo, quando Cristo vier, os
sofrimentos e os suspiros terminarão para sempre. Isto será o verão do cristão. Todas
as provações terão findado, e ali não haverá mais enfermidade ou morte". - E. G.
White, S. D. A. Bible Commentary vol. 7, pág. 988.
Como no Paraíso perdido, assim no Paraíso recuperado a árvore da vida será
necessária. Apoc. 22:1, 2, 14. Mesmo na glória imortal os santos devem reconhecer sua
dependência de Deus quanto à vida, comendo do seu fruto doador de vida como o antídoto
da morte.
Adão e Eva perderam seu direito à vida por causa de sua desobediência voluntária à
vontade de Deus. Cristo nos devolve o direito à árvore da vida pelos méritos de Sua
obediência e pela virtude transformadora de Seu Espírito. "Porque, como pela
desobediência de um só homem muitos se tornaram pecadores, assim também por meio da
obediência de um só muitos se tornarão justos." Rom. 5:19.
O propósito do plano divino de salvação é transformar uma vez por todas os seres
indignos e rebeldes em filhos dignos e obedientes. Cristo não morreu em vão: "Ele
verá o fruto do penoso trabalho de Sua alma, e ficará satisfeito." Isa. 53:11. Quem
terá "direito" à vida imortal?
"Bem-aventurados aqueles que lavam as suas vestiduras, para que lhes assista o
direito à árvore da vida, e entrem na cidade pelas portas." Apoc. 22:14.
"Bem-aventurados aqueles que lavam as suas vestiduras no sangue do Cordeiro, [ou, que
guardam os Seus mandamentos] para que tenham direito à árvore da vida, e possam entrar
na cidade pelas portas." Apoc. 22:14, Versão Almeida Revista e Corrigida.
As condições de acesso à árvore da vida expressas nessas duas diferentes versões,
são realmente uma só, porque lavar as "vestiduras" simbolicamente representa
obter um caráter santo e agir corretamente. Apoc. 19:8. Essa santidade moral só é
obtida mediante o poder purificador do sangue do Cordeiro. Apoc. 7:14. Na Nova Terra, onde
quer que morem os remidos, haverá santidade universal. Ali não haverá mais sumos
sacerdotes nem dignitários chamados "Santos ao Senhor". Exo. 28:36-38.
Na Nova Jerusalém, todos e todas as coisas serão consagradas a Deus e purificados, como
predisseram os antigos profetas:
"Naquele dia será gravado nas campainhas dos cavalos: Santo ao Senhor; e as panelas
na casa do Senhor serão como as bacias diante do altar; sim, todas as panelas em
Jerusalém e Judá serão santas ao Senhor dos Exércitos." Zac. 14:20 e 21.
"Assim diz o Senhor Deus: Nenhum estrangeiro que se encontra no meio dos filhos de
Israel, incircunciso de coração ou incircunciso de carne, entrará no Meu
santuário." Ezeq. 44:9.
A condição para ter participação na árvore da vida está declarada surpreendentemente
no tempo presente.. Apoc. 22:14. Isso mostra que a des crição da glória futura não é
só para nossa informação, mas acima de tudo para motivar-nos à obediência e à
santidade agora, para caminharmos habitualmente com Deus agora, para sermos vencedores
aqui e agora. Comparar com Miq. 6:8. Essa santidade prática será a linha de demarcação
entre os redimidos e aqueles que deverão estar "fora" da Nova Jerusalém. Apoc.
22:15; comparar com 21:8.
Escreva João: "Ao vencedor, dar-lhe-ei que se alimente da árvore da vida que se
encontra no paraíso de Deus." Apoc. 2:7. "O vencedor herdará estas coisas, e
Eu lhe serei Deus e ele Me será filho." Apoc. 21:7.