O RETORNO
Ana Claudia dos Santos

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CAPÍTULO 2

Ele olhou pela janela, seus olhos, atraídos como que por um ímã, pousaram ansiosos naquela figura frágil caminhando sob o sol. Certamente ela iria visitar Hagrid. Ele sentiu seu coração descompassar. Era um sentimento tão enebriante, como uma droga, e ele não sabia se lutava contra aquilo, ou se simplesmente se deixaria levar. Engoliu em seco. Nunca a teria para si, nunca. Esse pensamento só fez aumentar o seu desejo. Mas já se sentia derrotado. Assim mesmo, algo dentro dele parecia querer viver de um sonho. "Mesmo que seja somente um sonho, não importa..." Mas não era possível, não deveria se deixar dominar novamente.

Ela caminhava sob o sol, como que flutuando. Em certo momento, teve a sensação de estar sendo observada. Não tinha coragem de olhar para ter certeza, e tentou abafar um sentimento de culpa. Estava ali para aprender, pesquisar, extrair de tudo e todos qualquer coisa que pudesse ajudá-la. "Qualquer coisa, tem que haver algo, não é possível que eu passe a vida inteira buscando". De repente, em um impulso, ela olhou para cima e o que viu não a surpreendeu nem um pouco. Abaixou os olhos. Ela se sentia pequena diante de um monstro, sem coragem de enfrentá-lo, covarde demais para lutar. Como era possível que em tão pouco tempo suas opiniões, projetos e idéias tenham sido contaminados assim? Caminhou com mais rapidez para se sentir mais forte, mais objetiva, menos ela mesma.

Ele forçou um sorriso. Era uma menina. E sempre fugiria dele, como rato de gato. Mas quando os olhos deles haviam se encontrado, ele descobriu que não poderia mais viver sem a sensação de plenitude e doçura que ela lhe transmitia. Tão pouco tempo, em dias apenas, e parecia que ela fazia parte dele, parecia que ele sempre a conhecera. "Seria um feitiço?" pensou depressa, o coração batendo forte. Depois riu de si mesmo, algo que raramente acontecia. Que moça seria louca a ponto de querer enfeitiçá-lo?

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Caminhando rápido, ela chegou finalmente na cabana de Hagrid, os cabelos esvoaçando, as faces coradas. Bateu rapidamente na porta. Hagrid apareceu imediatamente:

- Entre, entre, eu e Canino temos muitas visitas hoje - grunhiu, feliz.

Natasha reparou que três alunos da Grifinória estavam aboletados na cabana de Hagrid.

- Você já os conhece, não? São Harry, Rony e Hermione, o trio imbatível de Hogwarts - disse Hagrid.

- Claro - respondeu Natasha sorrindo.

Harry e Rony olharam um para o outro, pensando a mesma coisa. Teria Hagrid planejado esse encontro? E qual seria o objetivo dele? Hermione, porém, parecia achar a coisa mais natural do mundo o fato de Hagrid ter convidado a assistente de Snape para um chá. E não perdeu tempo para começar a falar:

- Miss Rice, eu estava agorinha mesmo comentando como a aula de Poções essa semana foi maravilhosa!

O rosto de Natasha se iluminou.

- Ah, querida, o Professor Snape é muito inteligente, ele tem um dom todo especial para ensinar, eu estou muito contente de prestar assistência a alguém tão talentoso - disse suavemente, os olhos brilhando.

Rony fez cara de quem duvidava da sanidade mental da moça, mas resolveu permanecer calado. Harry controlou a vontade de rir da expressão do amigo, no fundo ele mesmo achando que Natasha ou era inocente demais, ou estava representando, "fazendo de conta" que Snape era tão maravilhoso assim, só para que não sentissem pena dela.

Hermione também pareceu surpresa, mas continuou conversando, toda tagarela.

- Me tornei monitora da Grifinória esse ano. Soube que a senh... quero dizer, você foi monitora também, isso está certo?

- Sim, eu fui monitora. Não cheguei a ser Chefe dos Monitores, mas tenho um irmão, Ciaran, e uma irmã, Pandora, que foram Chefe dos Monitores, ambos sempre foram mais inteligentes e aplicados do que eu - falou Natasha, modestamente.

- À que casa eles pertenceram? - perguntou Harry, de súbito.

Natasha parecia ter achado a pergunta engraçada, mas respondeu prontamente:

- À Sonserina, porquê?

- Nada, nada.

Harry deixou de prestar atenção à conversa. Tinha noção de que Rony estava comentando algo sobre Carlinhos, mas seu pensamento estava longe. Uma dúvida não saía de sua cabeça. Sabia que seu pai pertencera à Grifinória, então parecia lógico que sua mãe também tivesse pertencido, por isso nunca questionou a esse respeito. Mas, seria possível que sua mãe tivesse pertencido à Corvinal ou à Lufa-Lufa??? Ou, pensou Harry nervoso, à Sonserina? Como era possível que Natasha fosse aluna da Grifinória e três de seus irmãos pertencessem à Sonserina? Natasha Rice era mesmo estranha... Nem por um momento ela olhou sua cicatriz, ou fez qualquer pergunta a esse respeito. Era tão meiga e foi tão atenciosa na aula, mas ao mesmo tempo parecia esconder alguma coisa, parecia ter medo de algo.

- Harry!- sussurrou Hermione, cutucando-o.

- Ah? Ah, sim - respondeu Harry à uma pergunta que só agora chegava aos seus ouvidos, como um eco. - Eu sou apanhador do time.

- Eu era goleira - disse Natasha, pegando um quadradinho de chocolate. - Mas nunca fui realmente boa. Tenho uma irmã que jogou pela Inglaterra, mas por pouco tempo. Era apanhadora.

- Verdade? - gritou Rony. - Qual o nome dela?

- Cybele, Cybele Rice. Ela teve que parar de jogar para me ajudar a cuidar de mamãe - ao dizer isso os olhos de Natasha ficaram como que cheios de nuvens.

Hagrid limpou a garganta, parecendo meio sem graça, e falou a primeira coisa que veio à sua cabeça:

- Harry, sabe com quem que Natasha se parece? Com sua mãe! Natasha você está muito parecida com a mãe de Harry.

A moça sacudiu a cabeça, como que voltando à realidade.

- Mesmo? Ah, Hagrid, pára com isso, Lílian Potter sempre foi famosa pela beleza. E eu..

- Hagrid tem razão - interrompeu Harry, num impulso. - Seus olhos são muito parecidos com os dela..., quero dizer..., pelo que vi nas fotos - falou, triste.

Natasha parecia ter ficado sem graça pois nada respondeu. Ou então, pensou Harry, o quadradinho de Hagrid tinha grudado seus maxilares. Hermione percebeu que o clima estava meio pesado e disse, com voz esganiçada:

- Bom, temos que ir, não é meninos? Temos um montão de dever-de-casa, e esse ano é muito importante, não podemos perder tempo.

Rony revirou os olhos, mas não disse nada, talvez por respeito à Natasha, que parecia encantada com Hermione.

E saíram, deixando Hagrid e a assistente de Snape a sós.


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Era a única solução, pensou Snape. Sabia como ninguém que a última coisa que precisava era se apaixonar tolamente por uma guria avoada. Prepararia hoje mesmo a poção, e estaria a salvo. Teria que enfrentar os efeitos colaterais, óbvio. Mas valeria a pena. Nessa altura da vida não aguentaria outra decepção.

A partir da semana que vem, Miss Rice já deveria ensinar sozinha as turmas do primeiro ao terceiro ano. Assim ele teria mais tempo para preparar as aulas de Defesa Contra as Artes das Trevas. Finalmente os alunos de Hogwarts saberiam o que são as Artes das Trevas. Vampiros? Lobisomens? Feitiços mortais? Havia muito mais horror no mundo da magia, e Severo Snape achava que todos os bruxos deveriam ter acesso à magia negra pura, sem disfarces. Porque só depois de conhecer a fundo a escuridão é que se entende a luz. Começaria amanhã, com as turmas mais adiantadas, os ensinamentos que achava necessários.

Pensou em Natasha. Seu coração afundou um pouquinho. Mas estava resolvido. Natasha... apesar de seu ar distraído e etéreo, ela aprendeu rápido demais. Snape não sabia se ficava orgulhoso ou apavorado. Em breve perderia o posto de professor de Poções, se a danada continuasse indo tão bem. Em menos de uma semana já sabia organizar as aulas, tinha noção de tempo, e apesar de meiga tinha pulso forte. E como sabia preparar uma poção!! Com mãos de fada, os ingredientes na medida exata, e precisão milimétrica. Mas Snape sabia o porquê desse fascínio que a moça tinha por essa matéria. Tinha tentado durante anos salvar a mãe de uma misteriosa doença. Ele não sabia exatamente os sintomas mas sabia que era fatal. E que Natasha, dentro de seus limites financeiros, tinha procurado uma receita para combater o mal. Severo pensou na agonia que essa moça devia ter passado, na responsabilidade, no desespero e na sua desilusão...

Mas bastava, precisava se livrar daquele sentimento, levantou-se e foi procurar a receita, tinha guardada em algum lugar, onde foi mesmo que tinha colocado?

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Hermione, Rony e Harry e todos os demais alunos da Grifinória, saíram da aula de DCAT, na sexta-feira, totalmente calados. Teria sido assim todas as aulas que Snape até agora tinha dado, inclusive para os alunos de primeiro ano?

- Tenebroso... - exclamou Simas Finnigan, num desabafo.

Pouco a pouco eles foram voltando ao normal.

- Pensei que aquela aula não acabaria nunca - disse Rony arregalando os olhos.

Harry ainda não conseguia falar. Tinha imaginado que a aula dessa sexta ia ser horrível, mas não dessa maneira. Por nenhum momento Snape levantou a voz. Aliás, o tom monótono com que explicou algumas das maldades mais horripilantes das Artes das Trevas fez com que a aula se tornasse mais estranha ainda. Nenhum ponto fora tirado da Grifinória. Snape parecia que tinha deixado a alma dentro do armário. Um zumbi teria estado mais animado.

- Acho que vou deixar para fazer o dever de casa no final de semana - falou Hermione baixinho. - Fazer um trabalho sobre feitiços de escalpelação agora não vai me deixar dormir... Que coisa horrível.

Os três rumaram à sala comunal, onde se encontraram com Fred e Jorge.

- Está na cara que vocês acabaram de ter aula de DCAT com o Prof. Snape - falou Fred, dando risadas. - Estão brancos como o Nick-quase-sem-cabeça!!!

- Não brinca, Fred - disse Rony. - Aquela aula não foi brincadeira. Acho que ninguém vai conseguir dormir hoje à noite.

- A nossa ontem não ficou atrás. E o pior é que Snape agora está fazendo a linha Professor Binns. Parece um robô - argumentou Jorge.

- Eu também notei isso - disse Hermione. - Ele está muito estranho! Aliás, ele já estava estranho na aula de Poções, mas eu pensei que era por causa da Miss Rice.

- Por falar nisso, os sortudos do primeiro ao terceiro ano vão ter Poções somente com ela, se livraram do Snape, pelo menos nessa matéria - suspirou Fred. - Vai ser duro aguentar o ano todo tendo Snape em dobro, duas vezes por semana!!!

Harry concordava plenamente. E desejou do fundo do coração ainda ser um aluno do segundo ano. Desde quarta-feira não tinha parado de pensar nela. A simpatia natural que ela lhe inspirava, somado ao fato dela se parecer com sua mãe, despertou em Harry um sentimento de ternura pela moça. Harry queria que Natasha fosse sua irmã. Quando esbarrava em Bress Rice não conseguia deixar de sentir um pouco de ciúme. Mas também sentia pena de Bress. Como ele, era orfão, e deveria ter sido horrível saber do sofrimento da mãe, e logo depois a morte do pai.

- Vamos jogar xadrez, Harry???- gritou Rony, mais animado.

- Claro, mas dessa vez será que você poderia me deixar ganhar? - respondeu Harry com ironia.

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