O RETORNO
Ana Claudia dos Santos

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CAPÍTULO 3


Natasha, em dois meses, conseguiu conquistar a todos em Hogwarts. Alunos lhe ofereciam presentes, os outros professores estavam sempre oferecendo ajuda e elogiando seu progresso, todos faziam questão de verificar se ela estava bem, e faziam de tudo para que ficasse melhor ainda. Há muito tempo Natasha não se sentia assim, tão querida e admirada. Estaria perfeitamente feliz não fosse por dois motivos. O primeiro era o fato de que apesar de passar as noites na biblioteca, e pesquisando a fundo tudo o que podia sobre o assunto, ela ainda não conseguira achar um antídoto, ou uma cura, ou qualquer coisa que aniquilasse a doença que sabia viria a ter um dia. Ela sempre soube. Sempre fora a diferente em casa, a única que se parecia com sua mãe. Também fora a única a ir para a Grifinória, enquanto seu pai e todos os seus irmãos e irmãs foram sorteados para a Sonserina. E tinha aquele peso no coração, algo que sempre lhe disse, desde que ouviu a estória de sua família pela primeira vez, que era ela quem carregava no sangue a sina que se manifestava de geração em geração. Poderia acontecer de um de seus irmãos também manifestar a doença, porém. Não era de todo impossível que Bress adoecesse... Era 12 anos mais novo do que ela. Só de pensar nisso seus olhos se encheram de lágrimas, pois Bress era seu irmãozinho querido, o caçulinha do qual ela ajudou a cuidar.

O segundo motivo que estragava sua felicidade tinha o nome de Severo Snape. Ela bem sabia o que tinha acontecido. Os sintomas tinham sido claros, principalmente no começo, quando a poção fez mais efeito. Por algum motivo ele se sentia ameaçado com sua presença. Natasha tinha suas suspeitas. Desde aquela tarde na cabana de Hagrid ela tinha tido algo como uma visão. Ela, Natasha, se parecia muito com uma antiga aluna de Hogwarts. Nunca havia suspeitado, até então, que além de Tiago Potter, mais um rapaz na escola havia se apaixonado por Lílian.

Mas porque o fato de Snape praticamente nunca olhá-la nos olhos e senpre se dirigir a ela com a frieza de um iceberg a afetava tanto? Natasha não sabia. Sabia apenas que no começo, no auge do espanto, quando percebeu que ele tomava a Poção Cor Vetato regularmente ela até se sentiu aliviada (não queria surpresas com o amor, fizera de tudo para evitar se apaixonar por quem quer que fosse, até na época de escola, quando escondia seu rosto atrás de óculos, e só usava os cabelos presos). O alívio, porém, se transformou em frustração, à medida em que a poção ia fazendo menos efeito e a personalidade estranha e fascinante de Snape tinha voltado ao normal. Ele conseguira dirigir os efeitos apenas para ela. E isso, Natasha não sabia como, a tinha magoado profundamente. A mágoa, porém, estava se transformando em raiva, um sentimento que nunca tivera em seu coração.

Ela sentou-se na mesa, esperando Snape voltar da reunião com Dumbledore. Tinha uma dúvida a respeito de um ingrediente, finalmente ela tinha uma esperança, achava que poderia funcionar. Ao ouvir o barulho de passos que já conhecia de cor, seu coração começou a bater mais forte.

Ele entrou e ao perceber a sua presença rapidamente desviou os olhos para os livros que carregava.

- Pois não, Miss Rice? Seja breve por favor, estou muito ocupado esta noite, já está tarde e amanhã é um dia particularmente exaustivo para mim.

- Não, Prof. Snape, eu não serei breve.

Snape a olhou, espantado. Natasha porém percebeu um brilho em seus olhos, e notou que talvez a poção estivesse começando a falhar. Ele pareceu perceber isso também pois mais uma vez desviou o olhar, e parecia constrangido, além de contrariado. Mas isso durou apenas poucos segundos. Foi com frieza e sarcasmo que retrucou:

- Então agora a mocinha além de me roubar classes já se acha no direito de me enfrentar...

- Professor... - interrompeu ela, aflita. - O senhor tem que me ouvir. É muito importante.

Mais uma vez ela percebeu o brilho em seus olhos. Ele sentou-se, colocou as mãos embaixo do queixo e falou: - Pois não...

Ela não sabia como começar.

- Bom... O senhor sabe como minha mãe morreu?

Snape tinha uma vaga idéia, mas balançou a cabeça negativamente.

- Desde muito tempo, na família de minha mãe, alguém adoece de repente. Geralmente, mas não sempre, a doença escolhe um em cada geração. Minha mãe foi a escolhida. Com ela porém, a doença se arrastou, e eu achei que pudesse descobrir a cura a tempo. Como o senhor sabe, eu falhei...

A voz de Natasha foi enfraquecendo. Snape olhou-a nos olhos, ela desviou o olhar.

- Acontece que isso se repete sempre, e não irá parar nunca. E... bom.. eu tenho meus motivos para achar que isso pode vir a acontecer comigo, e também com Bress, meu irmãozinho. Por isso concordei com Dumbledore em vir trabalhar com o senhor. Sabia de sua reputação como mestre em Poções. E confiei na sorte e na biblioteca de Hogwarts para encontrar uma solução para o problema de minha família. Dumbledore sabe de tudo...

Snape a olhava agora de uma maneira estranha. Ela se levantou e caminhou-se para o canto da sala, perto da estante de ingredientes.

- Achei ontem uma referência ao cactus dominatus, uma erva sobre a qual nunca ouvi falar, e pensei... bem, pensei que talvez pudesse ajudar. É a única esperança que tenho em muito tempo. E queria sua ajuda... - ela pronunciou as últimas palavras como que suplicando.

Ouviu a voz grave de Snape perguntar: - Eu preciso antes saber como a doença se manifesta.

Ela respirou fundo. Olhou fixamente para a estante, de costas para ele, como para tomar coragem.

- Os primeiros sintomas são a perda de sono. A pessoa passa a dormir somente duas ou três horas por noite. Depois de algumas semanas não consegue mais dormir. Nunca mais conseguirá dormir. Depois... depois a pessoa começa a esquecer, esquece quem é, e... é horrível... a pessoa começa a sumir devagar, como se fosse se apagando... Geralmente dura meses, mas com minha mãe durou anos. Tudo com ela foi devagar.. ela foi sumindo, devagar... - a voz de Natasha estava bastante alterada. - Mas eu espero que comigo passe bem rápido - sussurrou baixinho.

Ela não podia mais falar. Chorava silenciosamente. Percebeu que Snape levantara e se encaminhava até ela. Sentiu a respiração dele atrás de si, mas não conseguia parar de chorar. Fechou os olhos. Ele acariciou seus cabelos, e parecia que o chão tinha desaparecido. Ele afastou seus cabelos, devagar, e beijou-a na nuca. Ela sentiu o coração parar. Ainda de olhos fechados virou-se, a respiração ofegante. Ele a beijou na testa. E abrindo os olhos ela percebeu que ele também chorava.

Mas de repente, ele se afastou, como que entrando num transe, murmurando palavras desconexas. Ela ficou parada ali, enquanto ele se dirigia à porta, sem olhar para trás. Natasha sentia todo seu corpo pulsar junto com seu coração. Subitamente, ela correu para a porta, barrando o caminho. Ele a olhou assustado. E como se não pudesse resistir por muito tempo, a abraçou, tão forte que ela pensou que não ia poder nunca mais respirar, até que ele segurou seu rosto com as duas mãos, ainda chorando, e a beijou, longa e docemente. E enquanto eles se beijavam, e as mãos de Snape percorriam seu corpo, e ela, entorpecida de desejo, consentia, e quando ele a carregou para seu quarto, sem pronunciar qualquer palavra, somente olhando bem no fundo dos seus olhos... enquanto tudo isso acontecia, ela sabia que nunca seria de mais ninguém. Ali, naquele momento, ela sabia que seria dele para sempre, para sempre. Além da vida e além da morte.

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Os cabelos de Natasha cobriam uma grande parte da cama, e cheiravam a jasmim. Snape passara a noite acordado, observando-a dormir. Jamais pensou que o amor que sentisse por ela, algo que se instalara nele desde aquela vez em que a viu na sala de Dumbledore, nunca imaginou que esse amor fosse capaz de superar uma das poções mais fortes que conhecia. Olhando aquele anjo deitado em sua cama, ele não sabia o que pensar e o que fazer com o sentimento que se avolumava dentro de si. Era um misto de dor, desejo febril e ternura. Ela flutuava levemente, apenas dois centímetros acima do nível da cama, como quando fizeram amor. Snape tremeu ao lembrar disso. Como ela pôde entregar-se a alguém como ele? O que fizera para merecer isso? Ele, que só trazia ódio no coração, tivera nos braços a criatura mais doce que já conhecera. Ela sorria ao dormir. Ele acariciou seus cabelos. Em certo momento ela suspirou, espreguiçando-se, e abriu os olhos, morna e feliz. Os olhos de um verde vivo, redondos como bolas de gude, eram como o sol. Todo o calor de que ele precisava vinha deles.

Snape levantou-se, relutante. Ela, ainda desorientada, sentou-se, murmurando:

- Bom-dia...

- Bom-dia - respondeu sem olhá-la, enquanto se vestia. - É melhor apressar-se, ninguém pode saber que você dormiu aqui.

- Eu entendo... - disse ela docemente, enrolando-se em um lençol. Parecia que só agora percebia que estava sem roupas.

Ele olhou-a nos olhos e uma onda de calor percorreu seu corpo. Sentou-se na cama, ao seu lado e puxou-a para si. Afundou o rosto em seus cabelos, para depois enchê-la de beijos.

- Quero que você saiba de uma coisa - falou de repente, sério.

- O quê?

- É bastante improvável que aquela erva seja o que você procura.

Ela suspirou, e o brilho de seus olhos se intensificou.

- Não faz mal. Um dia, eu tenho certeza, vamos encontrar o ingrediente certo, a receita certa - falou, com voz rouca.

"Vamos" ela disse... Ela incluira ele em seus planos...

Natasha deslizou para fora da cama, ainda enrolada no lençol e apanhou suas roupas no chão, corando um pouco. Parecia uma criança, tão pequena, tão frágil...

- Ouça - disse Snape, num tom seco e profundo que a assustou. - Jamais deixarei você adoecer, está me ouvindo? Jamais. Nem que eu tenha que ir até o inferno a procura da cura, você não vai morrer como sua mãe.

Os olhos negros de Snape estavam cheios de dor. - Você confia em mim, não confia?

Natasha beijou-o na testa. Sim, ela confiava nele. Ela o amava tão profundamente que nada agora importava mais do que esse amor. Parecia que, enquanto amasse assim, estaria segura, e nada a afetaria.

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Rony chegou esbaforido, o rosto suado, com dificuldade para respirar. Mione, espantada, perguntou:

- O que aconteceu? Você parece que viu um lobisomem.

- Onde está Harry? - perguntou ofegante.

- Deve estar vindo, hoje teve treino de Quadribol, porquê? Você não vai me contar o que aconteceu?

Rony sentou-se na biblioteca. Tinham combinado fazer o dever de casa de Defesa Contra as Artes das Trevas juntos, novamente. Na verdade quem fazia o dever era Hermione, e eles só copiavam. Ela desaprovava esse tipo de coisa mas era a única forma de evitar os pesadelos à noite.

- E Neville?

- Neville está na ala do hospital com Madame Pomfrey. Comeu um sapo de chocolate estragado...

Harry entrou na biblioteca, animado.

- Falta uma semana para irmos a Hogsmeade!!! Já estava com saudades de lá... - suspirou contente. Hogsmeade era uma vila totalmente de bruxos, cheia de lojas maravilhosas.

- Harry, Rony viu alguma coisa, e não quer contar...

- O que foi Rony?- perguntou Harry curioso.

- Eu, bem... eu ia contar sim. É que ainda estou em choque.

- Mas o que aconteceu? O que foi que você viu?

- Bom, eu estava procurando uma passagem secreta no terceiro andar, da qual Fred tinha me falado. Mas quando eu estava quase chegando lá, vi Madame Nor-r-ra. Então entrei por uma porta de ferro, e fui dar num corredor escuro... E... bem... eu a vi lá...

- Quem? - perguntou Mione desconfiada.

- Miss Rice - desabafou Rony, corando.

Harry teve um pressentimento estranho. Rony continou:

- Ela estava, estava com alguém... estavam escondidos...

- Quem? Por favor, Rony, conta essa estória direito - resmungou Hermione.

- Snape!!!

- Como assim Snape? Você quer dizer... eles... os dois... estavam juntos? É isso? - Hermione arregalou os olhos.

- Eles estavam se beijando!! - falou Rony, com cara de quem queria vomitar. - Ainda bem que eles não me viram, era capaz de Snape me matar...

Seguiu-se um silêncio horrível.

Harry não queria acreditar. Rony tinha se enganado, não era possível, não era possível. Durante todo esse tempo Natasha Rice tinha sido mais que uma amiga. Harry já se acostumara a procurá-la nos momentos difíceis. Harry se sentia traído. Ela não poderia ter arranjado uma pessoa melhor? Severo Snape??

- O que será que ela viu nele? - murmurou Hermione, pensativa. Não parecia tão chocada quanto os garotos, porém.

- Ele deve tê-la enfeitiçado - rosnou Rony.

- Será? Não, não acredito... Miss Rice sabe muito de magia, saberia se precaver - retrucou Hermione, e, ainda com um ar pensativo no rosto, murmurou: - Snape!! Quem diria... Ele deve ter seus encantos secretos.

Rony deu uma risadinha.

Mas Harry não queria mais ouvir sobre esse assunto. Ajeitou os óculos, irritado.

- E então? A gente vai ou não vai fazer o dever de casa??? - desconversou.





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