O
RETORNO
Ana
Claudia dos Santos
CAPÍTULO 4
Natasha se aproximou do caldeirão de Harry, verificando sua poção. A partir daquela semana ela iria assumir as aulas também do quarto e do quinto ano. Harry reparou como ela estava bonita e parecia feliz. Snape não poderia ser assim tão mau. Aliás, pouco a pouco todos os alunos de Hogwarts foram notando que Severo Snape estava bastante mudado. Até ele, Harry, tinha de admitir que a mudança tinha sido para melhor. Não que Snape não continuasse o perseguindo, isso ele iria fazer sempre, tão acostumado estava. Também não perdia uma oportunidade para tirar pontos da Grifinória, seu hobby preferido. Mas parecia mais acessível, menos raivoso, principalmente com Neville Longbottom.
- Hermione, sua poção está perfeita. Eu mesma não faria melhor! Dez pontos para a Grifinória. Mione sorriu, contente.
- Bom, eu não vou passar dever de casa dessa vez, mas gostaria muito que vocês estudassem a matéria para a próxima aula.
Natasha tinha um jeito de lidar com os alunos que os deixava encantados. Simas e Dean pareciam enfeitiçados, murmurando que iriam rever a matéria diariamente. Enquanto os alunos saíam, ela sentou-se na mesa, contemplando o livro de poesias que recebera de Neville. Abriu o livro aleatoriamente, e leu algumas linhas:
"Fecharei meus olhos e encontrarei o êxtase/Porque sonhar contigo é o que me resta agora".
Natasha fechou o livro rápido, com uma expressão de preocupação em seu rosto. Havia quatro noites que não dormia direito. A noite passada só conseguira dormir uma hora. Não havia tido coragem de contar a Severo. Se sentia um pouco fraca também, nauseada. Talvez, talvez fosse só uma fase, a excitação dos últimos dias poderia ter influído em seu sono... Um pouco de Poção do Sono resolveria, certamente. Abaixou os olhos porém, triste. A quem ela estava tentando enganar? Conhecia muito bem esses sintomas. E o que mais a assustava era a rapidez com que foi perdendo o sono. Ainda semana passada dormira tanto que acordou de olhos inchados. E de repente o sono se foi. Se estivesse certa... Natasha fechou os olhos como que para afastar um pensamento de sua mente. Sacudiu a cabeça para trás, avolumando os cachos de seus cabelos. Tinha que ser forte e contar a ele o que estava acontecendo. Mas só de pensar nisso, sentiu seu coração pesar.
Ouviu passos em direção a porta. Seria ele? Era Hermione.
- Miss Rice, a professora Sprout quer falar com a senhora. Disse que era a respeito de um fungo, que você saberia do que se trata.
Sim, ela sabia, sabia que mais uma vez suas esperanças tinham sido em vão. Se realmente o fungo tivesse alguma serventia, Sprout teria vindo correndo ao seu encontro. Natasha acompanhou Mione pelos corredores, conversando animada. Quanto menos pensasse no assunto, melhor. Estavam já no segundo andar, quando Natasha sentiu-se estranha. Por um momento, enxergou tudo escuro. Segurou-se em Hermione, apenas a tempo de murmurar "Madame Pomfrey". E desmaiou.
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O desmaio durara apenas alguns minutos. Mas quando Natasha acordou, não se recordava do que tinha acontecido. Lembrava apenas que lia uma poesia no livro que ganhara de um aluno. O que estava fazendo aqui na ala do hospital? Começou a suar frio. Não era possível, o que tinha acontecido? Forçou-se a se lembrar, mas quanto mais tentava mais nervosa ficava. Estava doente. Iria morrer.
Madame Pomfrey se aproximou de Natasha, com um ar sério, examinando-a. Natasha não conseguia falar, estava tão fraca. Ficou o tempo todo tentando se lembrar de como tinha vindo parar ali.
- Abra bem seus olhos, querida.
O que Madame Pomfrey viu em seus olhos, Natasha não sabia. Só sabia que não poderia ser boa coisa pois imediatamente Madame Pomfrey levantou-se, um olhar estranho em seu rosto.
- Fique aqui quieta, e tente descansar. Eu já volto.
Ficar quieta era tudo que podia fazer. Mas não podia parar de pensar. Ela estava começando a esquecer as coisas. Parecia ironia. Sempre pedira a Deus que quando chegasse sua hora tudo acontecesse bem rápido. E porquê justamente agora? Duas lágrimas grossas escorriam em seu rosto. Virou-se e viu que Minerva McGonagall a olhava, séria e preocupada.
- Poppy, me deixe a sós com ela, por favor.
Sentou-se em um banquinho ao lado da cama.
- Você está em condições de me responder a algumas perguntas, Miss Rice?
- S-sim - murmurou Natasha. - Madame Pomfrey acaba de me contar. Natasha, eu ainda me lembro do seu espanto quando o chapéu seletor a escolheu para a Grifinória. E me lembro de quando você saiu de Hogwarts ao se formar, você me procurou umas horas antes e me disse que tinha ficado muito feliz por ter pertencido a Grifinória, lembra-se?
Ela não lembrava. Mais lágrimas escorriam pelo seu rosto. Aonde McGonagall queria chegar?
- Eu preciso que você confie em mim, querida. Preciso saber quem foi.
Natasha se espantou. Quem foi? O quê.. Não, não poderia ser...
- Foi Severo Snape?
Ela estava grávida! Isso explicava porque se sentia nauseada, e explicava o sono incontrolável que sentira semanas antes, antes de... Mas Minerva McGonagall ainda esperava por uma resposta.
- Eu... nós... nós nos casamos há três semanas.
Ela lembrava, ela lembrava de tudo. Então a doença não podia estar tão adiantada... Ela estava bem, ela estava bem...
- Como? - perguntou Minerva espantadíssima. - Casaram-se?
- Sim...em Hogsmeade, às escondidas...
- Mas porquê? Mas isto não está certo. E... bem... Madame Pomfrey me disse que provavelmente você deve estar de dois meses, e se vocês...
McGonagall parou de falar de repente. Uma expressão de horror tomou conta de seu rosto. Correu para a porta e gritou:
- Poppy, Poppy, chame Dumbledore, depressa. Natasha olhava como que para o nada. E seu rosto, pálido e inexpressivo, parecia estar fora de foco.
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Hermione, após socorrer Natasha, correu para contar a Harry e Rony o que tinha acontecido. Só os encontrou depois de muito tempo, quando eles se encaminhavam para a aula de Divinação, com a Professora Trelawney.
- Hermione, você não deveria estar na aula de Aritmancia? - perguntou Rony.
- Vocês não sabem o que aconteceu! Miss Rice, ela desmaiou enquanto nós íamos para a sala da Professora Sprout. Ela ainda está no hospital. Eu fiquei esperando mas Madam Pomfrey me enxotou de lá. Eu vi a Professora McGonagall indo para lá e...
- Miss Granger...
Era Snape. Ele havia ouvido tudo. Mione nunca o tinha visto tão alterado. Snape encaminhou-se em direção a ela.
- O que estava dizendo, garota? Miss Rice desmaiou?
Ele falava alto, descontrolado. Mione ficou bastante assustada mas confirmou tudo. Imediatamente Snape encaminhou-se para a ala do hospital. No caminho, porém, ouviu uma voz atrás de si.
- Severo.
Era Dumbledore.
- Senhor... eu...soube que Miss Rice está se sentindo mal e...
- Severo, venha agora à minha sala. Precisamos conversar.
Dumbledore parecia cansado, e profundamente triste.
- Mas...
- Agora, Severo.
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Snape acomodou-se em uma cadeira. Lembrou-se do dia em que Natasha viera ver o irmãozinho, logo após a morte de seu pai. Tanta coisa acontecera desde então...
- O que eu tenho para lhe dizer é extremamente importante. Por isso eu quero que você me escute sem fazer perguntas.
- Sim, senhor - Snape estava branco e suava frio. Não estava gostando nada da expressão de Dumbledore.
- Primeiramente, sei que você e Miss Rice casaram-se às escondidas há algumas semanas.
Snape se espantou. Havia alguma coisa que Alvo Dumbledore não sabia?
- Severo, provavelmente Natasha lhe contou sobre uma estranha doença que atacou sua mãe. Talvez ela tenha lhe contado que seu avô materno também teve a doença. Com seu avô tudo durou menos de um mês, enquanto que sua mãe levou anos lutando, o que mobilizou toda a família. Mas Natasha não lhe contou, porque não sabia, qual a origem dessa doença. Eu mesmo, até bem pouco tempo, desconhecia a estória. Foi por acaso, conversando em uma roda de amigos, bem longe daqui, que cheguei à verdade. Uma estória muito triste.
Snape abaixou a cabeça, os olhos negros fixados no chão. Dumbledore continuou:
- Há cerca de oitocentos anos atrás, um ancestral de Natasha foi amaldiçoado, por uma traição. A bruxa que lançou a maldição usou de magia negra antiga, um feitiço tão forte que atravessou gerações. Então Severo, como você já deve ter entendido, nenhuma poção ou encantamento pode quebrar essa maldição. Não adiantou nada Natasha ter se esforçado para salvar a mãe, ela nunca conseguiria. É espantoso que a família até hoje desconheça essa estória... Mas dado a alguns sintomas da doença... bom...
Os pensamentos de Snape se descontrolavam. Então não havia remédio para sua Natasha? Mas maldições podem ser quebradas, pensou.
- Agora, me ouça com atenção, Severo - prosseguiu Dumbledore. - Eu tenho duas notícias a lhe dar. Uma, é que sua mulher está esperando um filho.
O rosto de Snape parecia petrificado. Ele não sabia onde colocaria tanta felicidade. Pensou que fosse explodir, e já começara a se formar um esboço de sorriso em seu rosto quando percebeu o olhar grave de Dumbledore. Havia ainda uma notícia...
- A outra, é que Natasha já está sentindo os sintomas da maldição.
- Eu tenho que vê-la - gritou Snape.
- Severo, não adianta, ela não reconhece ninguém.
Snape parou a caminho da porta. Tremia como se estivesse com febre alta.
- Ela vai morrer? Não vai dar tempo dela dar à luz a criança?
- Provavelmente não - falou Dumbledore. - A não ser...
A não ser o quê? O que o velho Dumbledore estava escondendo?
- Eu ainda não terminei de contar a estória, sente-se.
Snape controlou-se como pôde e sentou-se novamente. Dumbledore agora o olhava com carinho.
- Primeiro, uma curiosidade. A bruxa que lançou a maldição, há oitocentos anos, ela é sua ancestral, Severo. Ela se apaixonou, foi traída, e num acesso de fúria jogou um feitiço que só poderá ser quebrado com um... bem, com um sacrifício.
Snape tinha um olhar estranho, e toda a sua dor transparecia em seu rosto.
- Um sacrifício de vida... - sussurrou Snape.
- Exatamente - falou Dumbledore.
Durante algum tempo, ambos ficaram calados. Até que Snape levantou-se.
- Eu, eu preciso vê-la... mas antes...
E saiu sem se despedir. Dumbledore mordeu os lábios. Fizera a coisa certa. Eles tinham direito a saber a verdade. Todos tinham direito a saber a verdade. Quanto ao que fazer com ela, isso dependia da consciência de cada um.
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