VERSIONES 19
Año del Tigre - Abril/Mayo de 1998
Director, editor y operador: Diego Martínez Lora.
Versiones se elabora desde la ciudad de Vila Nova de Gaia, Portugal
Teosófico e outros poemas
Teosófico
Perdi-me no templo
era muito novo
hoje me contemplo
mais perto do povo
Se tive razão?
Mas isso que importa
quando a presunção
bate à nossa porta
Mas quero saber
ao fim e ao cabo
se o termo do "ser"
é morte onde acabo
Curiosidade
se existe um Além
se a Felicidade
é nossa também
Por muito que pense
ninguém me responde
nada me convence
não se sabe aonde
Já desesperado
e muito aflito
não mudo de estado
malgrado meu grito
Se Deus me responde
no fundo de um poço
é Voz que se esconde
e som que não ouço
Porto 8-11-96
Arco-Íris
Já nos perdemos a contar estrelas
insaciados de um perfume de urze
vestidos de amarelo nas tojeiras
e cada espinho lacerando a vida
Assim a Natureza a consumir-nos
e a convidar-nos ao nascer da noite
a descobrir a origem do regato
por entre pedras lisas coleante
Há sempre uma promessa por cumprir
no silêncio lunar e no mistério
do vento a confundir vagas ideias
Só uma truta entre nós e as águas
me faz acreditar no arco-íris
e na força da cor das nossas almas.
(Porto, 04-12-96)
Saudade
Saudade folha morta envolta em bruma
pedaço de vontade entristecida
vaga de mar a rebentar em espuma
breve morrer bem agarrado à vida
Inconsequência sem razão alguma
no recordar penosa recaída
numa febre de mal que se consuma
intermitente sem lograr saída
Contudo há quem a veja no seu seio
a fulminar-se em laivos de insensato
aproximando a dor à realidade
de ter nascido um sonho de permeio
sem querer acordar o gosto grato
que lhe transmite a névoa da saudade
(Porto,02-01-97)
Confusão
No espaço de um abraço
resta o desejo de um beijo
e o sol queimando o lençol
A felicidade é escassa
e ao cortar-nos no seu gume
como lume nos trespassa
embora gema de frio
no que sobra de um vazio
na dependência da ausência
de um amigo que se afasta
sem o aviso de um sorriso
numa boca quase gasta
pelo espaço
o beijo
o abraço
o desejo
o sol
o vazio
o lençol
este frio
a dependência
o aviso
a ausência
de um sorriso
Atenção
à solidão
Porto, 18-08-97
Recordação antiga
Vivendo o tempo aconchegado em líquenes
enquanto cobras se enroscavam visgo
alastrado alabastro vivo humano
bifidamente tateando espaços
entre humidades e florestas virgens
estarei sempre no local exacto
hipnotizada toutinegra envolta
na incompleta magia do teu corpo
cujo sangue me aquece e o nervo livre
se acaba por perder em tais encantos
Passeio pelo branco dos lençois
acreditando nada mais ser outra
vez inocente caminhar sem fim
pela saudade antiga de nós dois
Porto, 23-12-97
Desencontro
Não abras a janela a luz magoa
ao desnudar-nos corpos de blasfémia
a noite é mais discreta como fêmea
insidiosa amante outra pessoa
Amámos a mentira como boa
companheira da sombra e da boémia
até na semelhança a irmã gémea
duma verdade quase dita à-toa
Verdade ou mentira tanto faz
se as nossas mãos se encontram num murmúrio
de desespero a tactearem nada
O nosso desencontro é incapaz
de ser a chama excelente augúrio
daquela convivência inacabada...
(Porto, 8-1-98)
Espera
Existirá sempre entre nós um muro
tijolos de silêncios
um gesto começado
a veloz maneira de fugir
aos compromissos e murmúrios vagos
Olhar-nos-emos através da lama
na esperança de um galo de cristal
nos reflectir a música
enquanto a luz nos queima
e a noite faz voltar as penas
como compassos a marcarem passos
indefinidamente estranhos sons
As aves da memória já são longe
na verdade impossível de aceitar
Estou na chuva a suspirar alguém
que não me chega nem por certo vem
pelos caminhos do deserto
do meu olhar distante
na sua fome e sede de Beleza
Mas continuo à sua espera e quero
o renascer desse sorriso
a alimentar-me o gosto de viver.
Porto, 20-01-98
Poente
Havia um branco de neve
onde o teu olhar abria
uma promessa de breve
sentido de nostalgia
O sol desfez o projecto
uma possível balada
nascida desse objecto
um olhar beijando o nada
Ficou da neve o lençol
amarfanhado na cama
a noite apagou o sol
diamante de quem ama
Porto, 09-03-98
Rapsódia
Quando sem ti
sem ter dinheiro
sem ter tabaco
sem ter amor
sem ter ninguém
desesperei
fiquei sem nada
de madrugada
ouvi um mocho
chamar por mim
abria a noite
dormia a lua
e vagueei
pela calçada
da rua escura
ia sem nada
pemsando em ti
não ter-te aqui
minha flor rubra
sangue-alvorada
rosa vermelha
ciúme velho
beijo perdido
no além do mar
cais sem sentido
seco areal
de um ser perdido
em Portugal
(Porto, 27-03-98)
Herança
Nem só de fome morre o homem nu
que também parte de ignorância cheio
daqueles que passaram como tu
sem respeitar-lhe a vida e o seu anseio
Corpo de barro ou carne pouco importa
se nele é impossível ver-se a alma
o sofrimento espera quase morta
ao ser-matéria onde nada acalma
A lágrima incomoda por salgada
o sorriso é idiota sem o pão
por isso a Humanidade é deserdada
restando a cada homem - solidão
(Porto, 28-03-98)
Apontamento
Uma açucena a florir-te o rosto
aberto num sorriso de inocência
faz-me pensar no ramo que foi posto
junto ao altar no branco da credência
Mágicas flores a anunciar o gosto
angelical em pura concorrência
com a suave nota de composto
conjunto de seráfica incidência
Quisera o jardim onde colhesses
como beijos sedentos de ternura
os meus desejos transformando preces
nesse milagre de um suspiro teu
criando o ambiente de doçura
que deve ser igual ao próprio céu
(Porto, 21-04-98)
Meditação
Como na noite a sombra se ilumina
e vai guardar serena junto a ti
um frio gume de boémia fina
que brilla em nós mas já não é daqui
O sortilégio imenso de uma bruma
a esfumar a magia da manhã
promíscua nos lençóis de branca espuma
por culpa de um luar de fé pagã
E nesta ligação de fumo e calma
algo se perde e voa como a luz
a incerteza certa da minha alma
e a sua consciência em contra-luz
Porto, 28-04-98
(*Renato de Caldevilla, poeta e jornalista português. Mora no Porto
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