Nos 500 Anos de Entreguismo
Pensemos na Oportunidade de Avaliar
nossa Nação
e Fazermos a Nossa Verdadeira
História
Artigo de Barbosa Lima Sobrinho
Presidente da Associação Brasileira
de Imprensa
publicado em 13 de fevereiro de 2000 no Jornal
do Brasil
Governo do Varejo O Povo é quem Paga as Contas Esquerda e Direita Bancarrota Desencanto da Globalização Roberto Marinho Muito Além da Rede Globo Globalização e Neoliberalismo: A Intentona Capitalista Rede Globo, o Império de Roberto Marinho Holística Ecologia Profunda, Ecologia Social e Eco-Ética "Além do Cérebro" Maquiavel e Roberto Campos A Economia Mecanicista: Uma Crítica Neoliberalismo X Humanismo, o quadro de uma Era A ONU, João Paulo II e outros apontam a farsa de FHC Dom Luciano Mendes de Almeida aponta a política excludente de FHC FHC, o Exterminador do Futuro A OAB e a CNNB contra FHC Karl Marx Falsas Maravilhas Delírio Neoliberal O Golpe da Internacionalização da Amazônia O Encanto das SerpentesNesta fase de comemorações dos 500 anos de descobrimento do Brasil, tenho dúvidas a
quem se deve dar os parabéns. A Portugal, à Espanha ou à Inglaterra e aos Estados
Unidos? Afinal, nesse período de meio século quem lucrou mais com o país? Se o alvo
das atenções somos nós, acredito que os verdadeiros beneficiários são outros. A
verdade é que durante décadas, séculos, sustentamos o fausto das metrópoles como
Portugal e Espanha e, por vias diversas, engordamos as receitas tanto da Inglaterra
como de seu sucessor, os Estados Unidos. Com raras interrupções de tempo, não
fizemos mais que oferecer, servilmente, ao mundo nossas riquezas, do pau-brasil ao
café, em troca de migalhas insuficientes para nossa formação de capital e para nos
colocar no rol das grandes potências.Essa trajetória de servilismo teve suas pausas ocasionais como durante as grandes
guerras mundiais, ou por nosso próprio esforço através de governos identificados com o
nacionalismo econômico, no caso de Artur Bernardes e no do segundo período de
Getúlio Vargas. No mais, vivemos dependendo de surtos, ou modismos, que são na sua
grande maioria, infelizmente, descrentes do valor nacional e enaltecedores do capital
externo [compreenda-se aqui o que tentam nos empurrar goela a baixo, como inevitável,
alguns dos auto-intitulados experts nacionais, como Roberto Campos e outros articulistas
neoliberais da Revista Veja, por exemplo].Recentemente, em artigo aqui publicado, assinalei que a atual onda de entreguismo
neoliberal estava chegando ao seu fim, não só por indícios de escassez de bens a serem
entregues, como também por já estarem aparecendo as primeiras reações contrárias, nos
mais diversos setores da nossa realidade política-econômica. Reações, inclusive, da
própria elite que no início do processo era tão fervorosa defensora dessa entrega,
apoiando-se em desculpas inconsistentes, inclusive de que esse era o único rumo
possível no mundo moderno no processo de globalização, uma espécie de espelho
contra o qual entregamos nossas riquezas, como os índios na fase da descoberta
entregavam seu ouro.Não sei a razão pela qual parece tão difícil compreender equações simples como, por
exemplo, a de que quanto mais transformarmos empresas nacionais em estrangeiras,
estaremos também até mesmo pressionando a inflação através da remessa de lucros
que essas multinacionais irão remeter para o exterior. Não seria melhor que esses lucros
ficassem aqui, aumentando nossa poupança, em vez de, trocados por dólares, virem a
contribuir ainda mais para o fantasma da inflação?Num dos seus últimos números, a revista Veja (26/1/00) [a sujíssima Revista Veja, como
bem fala o lúcido repórter Hélio Fernandes] faz uma apologia dessa desnacionalização, em
matéria de capa de várias páginas, com argumentos que podemos encontrar nas
publicações liberais do século 19. Não trata da remessa de lucros e muito menos de que
estamos oferecendo a riqueza do nosso mercado interno para favorecer as
grandes potências. Também não fala na pressão inflacionária, tratando a entrada de
dólares como se esses viessem para cá sem objetivos de voltar, cada vez em número
maior. Um problema para o próximo governo, uma armadilha para incautos, semeando-se
nova grande crise no horizonte.Oliveira Lima, nosso famoso historiador pernambucano, já nos dizia há quase um século
que os japoneses relutavam de todas as formas em aceitar que empresas estrangeiras
fossem se instalar no Japão. Sabiam eles, há tanto tempo, que o interesse do lucro fugiria
do seu país, tirando a oportunidade dos nacionais. Escrevi um livro sobre esse exemplo
japonês onde a conclusão única e possível é de que o capital só pode ser constituído em
casa, com acumulação nacional. Não há outra possibilidade.Agora o Brasil vive uma mudança cíclica de curso. Começam a aparecer declarações de
políticos, empresários e até de banqueiros contra essa política de desnacionalização que,
segundo eles, chegou ao limite do aceitável. Que a sua continuidade provocará a perda
do controle monetário e, por conseqüência, a independência econômica e, logo, política.
Parece que a próxima venda do Banespa a estrangeiros os assusta e até une políticos de
posições divergentes, desde o sr. Aloizio Mercadante até o sr. Delfim Netto. Este último
chega a afirmar, em entrevista ao Jornal do Commercio, que "só no Brasil é que por
vezes se adota uma postura tão desarmada num tema estratégico como esse, a defesa do
capital nacional no sistema financeiro. Nem Portugal, nem Espanha, nem Itália, nem
França, nem os EUA, meca do liberalismo, deixam de adotar suas precauções, de
dificultar o quanto possam a transferência de controle de seus ativos financeiros...
Ninguém se iluda: os bancos estrangeiros cuidam de interesses externos, ditados na
matriz. No que estão aliás mais do que certos, do ponto de vista deles, pois não são
instituições de caridade. Quem anda parecendo uma instituição de caridade, por sinal, é o
Brasil." E, mais adiante, ao fim dessa matéria, completa ele: "A verdade é que quando se
desenha uma multinacional brasileira, as multis de verdade se mobilizam para evitar, e
dobram o governo. E a verdade (repete) é que não há player global, não há potência
econômica, sem bancos e empresas competitivas internacionalmente. Quem não acordar
para isso a tempo está condenado a virar colônia."Ainda acredito que se possa salvar alguma coisa. De sua parte, se o Congresso foi quem
deu ao Executivo esse cheque em branco para a privatização e desnacionalização da
economia brasileira, só esse mesmo poder pode e deve pedir a prestação de contas por
todo esse descalabro, inclusive através de uma nova CPI. Só o Legislativo, apoiado pela
opinião pública, ainda pode evitar um desastre econômico maior, que, nas palavras do
professor Bresser Pereira, seria "de gigantescas proporções, cujas contas os netos do
meu neto estariam condenados a pagar". É, pois, urgente agir. Enquanto há tempo.Barbosa Lima Sobrinho
Presidente da Associação Brasileira de ImprensaOutros Textos de Interesse: