Enquanto há tempo

Nos 500 Anos de Entreguismo
Pensemos na Oportunidade de Avaliar nossa Nação
e Fazermos a Nossa Verdadeira História

Artigo de Barbosa Lima Sobrinho

Presidente da Associação Brasileira de Imprensa
publicado em 13 de fevereiro de 2000 no Jornal do Brasil

         Nesta fase de comemorações dos 500 anos de descobrimento do Brasil, tenho dúvidas a
     quem se deve dar os parabéns. A Portugal, à Espanha ou à Inglaterra e aos Estados
     Unidos? Afinal, nesse período de meio século quem lucrou mais com o país? Se o alvo
     das atenções somos nós, acredito que os verdadeiros beneficiários são outros. A
     verdade é que durante décadas, séculos, sustentamos o fausto das metrópoles como
     Portugal e Espanha e, por vias diversas, engordamos as receitas tanto da Inglaterra
     como  de seu sucessor, os Estados Unidos. Com raras interrupções de tempo, não
     fizemos mais  que oferecer, servilmente, ao mundo nossas riquezas, do pau-brasil ao
     café, em troca de migalhas insuficientes para nossa formação de capital e para nos
     colocar no rol das grandes potências.

         Essa trajetória de servilismo teve suas pausas ocasionais como durante as grandes
     guerras mundiais, ou por nosso próprio esforço através de governos identificados com o
     nacionalismo econômico, no caso de Artur Bernardes e no do segundo período de
     Getúlio Vargas. No mais, vivemos dependendo de surtos, ou modismos, que são na sua
     grande maioria, infelizmente, descrentes do valor nacional e enaltecedores do capital
     externo [compreenda-se aqui o que tentam nos empurrar goela a baixo, como inevitável,
     alguns dos auto-intitulados experts nacionais, como Roberto Campos e outros articulistas
     neoliberais da Revista Veja, por exemplo].

         Recentemente, em artigo aqui publicado, assinalei que a atual onda de entreguismo
     neoliberal estava chegando ao seu fim, não só por indícios de escassez de bens a serem
     entregues, como também por já estarem aparecendo as primeiras reações contrárias, nos
     mais diversos setores da nossa realidade política-econômica. Reações, inclusive, da
     própria elite que no início do processo era tão fervorosa defensora dessa entrega,
     apoiando-se em desculpas inconsistentes, inclusive de que esse era o único rumo
     possível no mundo moderno no processo de globalização, uma espécie de espelho
     contra o qual entregamos nossas riquezas, como os índios na fase da descoberta
     entregavam seu ouro.

         Não sei a razão pela qual parece tão difícil compreender equações simples como, por
     exemplo, a de que quanto mais transformarmos empresas nacionais em estrangeiras,
     estaremos também até mesmo pressionando a inflação através da remessa de lucros
     que essas multinacionais irão remeter para o exterior. Não seria melhor que esses lucros
     ficassem aqui, aumentando nossa poupança, em vez de, trocados por dólares, virem a
     contribuir ainda mais para o fantasma da inflação?

         Num dos seus últimos números, a revista Veja (26/1/00) [a sujíssima Revista Veja, como
     bem fala o lúcido repórter Hélio Fernandes] faz uma apologia dessa desnacionalização, em
     matéria de capa de  várias páginas, com argumentos que podemos  encontrar nas
     publicações liberais do século 19. Não trata da remessa de lucros e muito  menos de que
     estamos oferecendo a riqueza do nosso mercado interno para favorecer as
     grandes potências. Também não fala na pressão inflacionária, tratando a entrada de
     dólares como se esses viessem para cá sem objetivos de voltar, cada vez em número
     maior. Um problema para o próximo governo, uma armadilha para incautos, semeando-se
     nova grande crise no horizonte.

         Oliveira Lima, nosso famoso historiador pernambucano, já nos dizia há quase um século
     que os japoneses relutavam de todas as formas em aceitar que empresas estrangeiras
     fossem se instalar no Japão. Sabiam eles, há tanto tempo, que o interesse do lucro fugiria
     do seu país, tirando a oportunidade dos nacionais. Escrevi um livro sobre esse exemplo
     japonês onde a conclusão única e possível é de que o capital só pode ser constituído em
     casa, com acumulação nacional. Não há outra possibilidade.

         Agora o Brasil vive uma mudança cíclica de curso. Começam a aparecer declarações de
     políticos, empresários e até de banqueiros contra essa política de desnacionalização que,
     segundo eles, chegou ao limite do aceitável. Que a sua continuidade provocará a perda
     do controle monetário e, por conseqüência, a independência econômica e, logo, política.
     Parece que a próxima venda do Banespa a estrangeiros os assusta e até une políticos de
     posições divergentes, desde o sr. Aloizio Mercadante até o sr. Delfim Netto. Este último
     chega a afirmar, em entrevista ao Jornal do Commercio, que "só no Brasil é que por
     vezes se adota uma postura tão desarmada num tema estratégico como esse, a defesa do
     capital nacional no sistema financeiro. Nem Portugal, nem Espanha, nem Itália, nem
     França, nem os EUA, meca do liberalismo, deixam de adotar suas precauções, de
     dificultar o quanto possam a transferência de controle de seus ativos financeiros...
     Ninguém se iluda: os bancos estrangeiros cuidam de interesses externos, ditados na
     matriz. No que estão aliás mais do que certos, do ponto de vista deles, pois não são
     instituições de caridade. Quem anda parecendo uma instituição de caridade, por sinal, é o
     Brasil." E, mais adiante, ao fim dessa matéria, completa ele: "A verdade é que quando se
     desenha uma multinacional brasileira, as multis de verdade se mobilizam para evitar, e
     dobram o governo. E a verdade (repete) é que não há player global, não há potência
     econômica, sem bancos e empresas competitivas internacionalmente. Quem não acordar
     para isso a tempo está condenado a virar colônia."

         Ainda acredito que se possa salvar alguma coisa. De sua parte, se o Congresso foi quem
     deu ao Executivo esse cheque em branco para a privatização e desnacionalização da
     economia brasileira, só esse mesmo poder pode e deve pedir a prestação de contas por
     todo esse descalabro, inclusive através de uma nova CPI. Só o Legislativo, apoiado pela
     opinião pública, ainda pode evitar um desastre econômico maior, que, nas palavras do
     professor Bresser Pereira, seria "de gigantescas proporções, cujas contas os netos do
     meu neto estariam condenados a pagar". É, pois, urgente agir. Enquanto há tempo.

   Barbosa Lima Sobrinho
  Presidente da Associação Brasileira de Imprensa

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