Lendo o que tem sido postado nas ultimas semanas sobre pirataria, a
impressão
que fica é que só temos dois caminhos: gastar dezenas de
milhares de reais em software legal ou roubar software. Sinceramente, acho
que esta dicotomia não ajuda em nada. Parece-me até que os
pirateiros gostam que a discussão se encaminhem assim, porque fica
mais fácil dizer: "ai, eu sou um coitadinho sem dinheiro, não
posso pagar tudo isso, então só me resta roubar mesmo"...
Mas a verdade não é essa, como quero mostrar com este
texto.
Antes, vale um lembrete. Se um moleque sem grana entra na lan destes
mesmos pirateiros, buga um máquina e joga de graça, eles
não acham que o carinha tá certo. Infelizmente, isto é muito
comum no Brasil: a lei só vale quando nos ajuda. O cara jogou
de graça na minha lan? Porrada nele. Eu quero usufruir de graça
do trabalho de centenas de pessoas? É que eu sou coitadinho, não
tenho dinheiro. Contra esta cultura DESONESTA NA ESSÊNCIA, infelizmente,
não dá pra lutar.
Não sou nenhum D. Quixote: quem tem má índole nem
precisa ler o resto deste artigo, porque na base já não
há espaço para o convencimento. São moinhos. Minha
esperança é que aquelas pessoas que inteligentemente tenham
percebido que a vida em sociedade precisa de regras que valham para todos
- e também que a falha dos outros não justifica a nossa
falha - possam encontrar algum apoio para manter-se na leicom economias
inteligentes.
Além disso, pirataria é anti-econômico. Dizem que
tem muito pirata porque os softwares são caros. Mas também é verdade
que são caros PORQUE tem muito pirata. E também são
caros por causa dos impostos, que são um outro problema sério.
E ainda a pirataria está sempre envolvida numa rede criminosa,
o que piora ainda mais a situação. Esquecer tudo isso,
comprar software pirata e fingir que o problema é dos outros,
dos ricos, do governo... é negar-se a ser cidadão, que é o
mínimo que se espera de alguém que quer dizer-se empresário.
De toda forma, a questão da compra de software para lan house
não é simplesmente gastar uma fortuna ou roubar. Quem trabalha
no nosso ramo tem que entender bem a lei e as alternativas para poder
fazer o que quer com segurança. Vocês já imaginaram
um engenheiro civil que se recusa a estudar "Resistencia dos materiais"?
Ou um piloto que se recusa a ler os manuais de operação
do avião que ele vai pilotar? O mesmo acontece com o empresário
que não quer conhecer os detalhes complexos de seu negócio.
Por isso, primeiro, vamos esquecer esse negócio de que é muito
caro ficar legal. O que é muito caro, de forma legal, é ter
WINDOWS E TODOS OS JOGOS DO MUNDO, todos os softwares do mundo, instalado
em TODAS AS MAQUINAS. Mas não precisamos isso. Nosso negócio
não é informática, é entretenimento. Um cinema
não coloca todos os filmes ao mesmo tempo - ele promove alguns
por vez. Da mesma forma, a lan deve escolher e PROMOVER alguns jogos,
evidentemente buscando agradar os clientes, mas focando no que vale mais
a pena. Isto não é apenas para economizar no software, é também
para aumentar a clientela. Promovendo jogos, você lidera seu negócio
e não é liderado pelas circunstâncias. Você deve
estar atento ao que pedem os clientes, mas com cuidado. O cliente quer
CONHECER algum jogo, mas isso não garante que colocá-lo
na lan vai dar resultado. Coloque um demo primeiro, promova com a galera
e, se valer a pena, promova o FULL.
Em outras palavras, temos mais é que FOCAR os esforços.
Querer agradar o mundo inteiro não dá certo. Para alguns,
apenas o acesso a internet e os programas livres de browser, office e
messenger, são suficientes. Ainda conheço lans que vivem
só de CounterStrike 1.5. Que custa menos de 30 reais por máquina.
Além disso, existem muitos jogos baratos e free. Alguns, inclusive,
que te geram uma renda extra, como o GunBound e o Ragnarok, se vc estiver
num bairro de classe média ou alta (e tiver a empresa legalizada).
A pergunta que vc tem que fazer é: eu preciso MESMO ter este
jogo instalado? Muitas vezes, mesmo com alguns pedidos dos clientes,
a resposta será NÃO. Ora, se não compensa pagar
pelo jogo (ou seja, se ele não aumenta justificavelmente seu faturamento),
porque compensa colocar pirata - que, além de também não
aumentar seu faturamento, ainda coloca seu negócio em risco?
Mesmo que você queira ter muitos jogos disponíveis, ainda é possível
reduzir o custo de comprá-los. Poucos softwares precisam estar
em todas as máquinas. Você pode estimar mais ou menos quantas
licenças são necessárias e instalar apenas aquela
quantidade. É verdade que dá um pouco de trabalho para
administrar isso, mas nada impossível. Com o tempo, a turma se
acostuma e já entra escolhendo a máquina. É claro
que pode dar alguma espera, mas a minha experiência diz que o garoto
vai em outra máquina até a que ele quer estar liberada,
o que faz o ele gastar duas vezes...
E isso ainda permite, por exemplo, que você tenha máquinas
diferentes, algumas apenas para Office e Internet, mais baratas, e outras
para jogos. Dependendo da sua audiência e do seu espaço,
você ainda dá mais conforto para seus clientes.
Quanto ao Windows, não tem jeito. Tem que comprar OEM, legalmente
(e não com aquele link maluco do Fábio), mas é caro
mesmo. A alternativa é usar o Linux. Eu andei dando uma olhada
e cheguei a conclusão que é uma boa opção.
Não vou fazer a transição agora, porque já comprei
mesmo os Windows, mas sugiro que vocês olhem com carinho, porque
vale a pena. Se vc tem máquinas só para Office e Internet,
não tenha dúvida: use o Linux. Para jogos, faça
um teste antes, com os jogos que vc quer ter. Cada vez mais, os fabricantes
de jogos estão lançando versões Linux também.
Mas as versões Windows também rodam. Talvez um pouco mais
lento, mas sinceramente, pela economia que representa, vale a pena. Em
pouco tempo, creio, não vai ter diferença.
Sobre a lei, a questão a ser entendida é que ela também
não é um bicho-de-sete-cabeças. Nem todas as recomendações
que eu dei aqui estão 100% de acordo com a interpretação
estrita da lei. Aliás, como disse no começo, a interpretação
estrita serve apenas a quem quer fugir das responsabilidades: como cumprir
a lei é MUITO difícil, posso esquecê-la totalmente.
Um exemplo simples: a licença do CounterStrike proíbe
seu uso comercial. Acontece que você consulta TODOS os distribuidores
e eles não tem uma licença que permita este uso. Mesmo
assim, eles fazem promoção para lan house, dão entrevista
por aí dizendo que o jogo é um sucesso nas etc.... Ora,
o cara não permite o uso comercial e faz promoção
para lan house? Não tem cabimento. Na letra fria da lei, se vc
compra a licença comum e instala na lan, está errado. Mas
juiz nenhum do mundo vai sentenciar você, porque o vício
ocorreu na origem, no comportamento do revendedor.
O uso de demos também não está 100% na lei. Mas
vale a mesma coisa: não existe demo comercial, nem existe licença
comercial. É fácil argumentar, em caso de autuação,
que se um usuário doméstico tem direito a uma demonstração,
muito mais direito tem alguém que pretende comprar diversas unidades.
Evidentemente, este é um argumento um pouco mais fraco que o anterior,
mas ainda assim defensável - e, com certeza, facilitará a
confecção de um acordo, ao invés de uma multa.
Em suma, os aspectos legais de um negócio sempre implicam em
um certo risco. Porque a lei é sempre interpretativa. Mas o que
não se consegue interpretando uma lei é justificar que
vc não precisa seguí-la de forma alguma - instalar pirata é indefensável
sobre este ponto de vista.
Já escrevi muito. Espero a contribuição, complementação
ou eventual correção de outros colegas. Mas espero ter
demonstrado que o argumento "uso pirata porque original é muito
caro" é simplesmente falacioso, de mau caráter mesmo.
Quem seguir o que está escrito aqui conseguirá economizar.
Agora, quem acha razoável não pagar NADA por usufruir da
propriedade do outro, nunca vai se convencer a ter um pouco de trabalho
para ficar legal. Só que devia colocar o preço de sua hora
a ZERO também. Porque nossa hora é exatamente a mesma coisa: é o
que cobramos para outros usarem nossa propriedade.