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Cidade dos Sonhos
Um debate esquizofrênico por Guilherme Freitas
A essa altura você já deve ter visto o filme pelo menos uma vez,
discutido cada cena com seus amigos até a exaustão, procurado
resenhas em sites que você nunca tinha ouvido falar, escritas em línguas
com as quais você não tem lá muita intimidade. Você
já deve ter pensado, repensado, sonhado - você já deve
ter tido um pesadelo muito estranho e assustador com uma velha de cabelo azul
deslizando por baixo da porta do seu quarto pra sussurrar pornografia sádica
em espanhol no seu ouvido. Você se aporrinhou até o limite das
suas forças e, ainda assim, ainda tem uma meia dúzia de perguntas
que ficaram sem resposta ( "o que a tia velha estava fazendo lá
quando abriram a caixa azul?", pra ficar numa bem óbvia ). Você
já tentou até assistir o filme com um walkman tocando uma fita
qualquer do Rick Wakeman ao contrário, pra ver se de repente não
batia alguma coisa. Não bateu. Você continua sem entender nada,
pelo menos não tanto quanto acha que deveria.
E aí entra a pergunta crucial: valeu a pena?
***
Um filme é só um filme
Cinema não é só entretenimento; isso é um fato. É também arte e, como em toda arte, a forma é um dos elementos fundamentais. É válido ver diretores modernosos tentando inovar alguma coisa na já tão batida linguagem cinematográfica. Chega a ser interessante até, quando não cai no simples exercício. Mas quando a forma do filme esconde a tal ponto o seu conteúdo, que pra decifrá-lo é preciso apelar pra fontes externas ou, no mínimo, ter um conhecimento refinado de Psicologia, Cognição e Decodificação de Sonhos, então alguma coisa está errada. Um filme é só um filme. E isso significa que ele, a princípio, deve se fazer compreender.
Muito foi dito a respeito de "Cidade dos Sonhos": enquanto uns tentavam desvendar a intrincada trama, relacionando boa parte da história a delírios da personagem principal, outros defendiam o filme como um mera experiência sensorial, uma espécie de seqüência de cenas arquitetada de forma a provocar no espectador reações diversas. Alguns, ainda, desprezavam o filme, amaldiçoando os moderninhos metidos a intelectualóides que ficam discutindo, enquanto bebericam seus copos de café latê, se o mendigo sujo que mora nos fundos da lanchonete é realmente um "símbolo da morte" ou apenas "uma alegoria que representa a angústia interior que todos nós sentimos pelo desconhecido e, em especial, pelos nossos sonhos mais profundos".
O fato é
que, no fundo, estão todos certos. É de se imaginar que, ao
conceber o filme, David Lynch tenha tido a intenção de transmitir
alguma coisa ao espectador. Ninguém seria tão desocupado a ponto
de fazer um filme doido só de sacanagem. Essas coisas custam dinheiro,
você sabe, e Hollywood não tá aí pra ficar jogando
grana fora (tudo bem, quem pagou o filme foi o Canal +, da França,
mas você sabe o que eu quero dizer). Então, vamos pensar um pouco.
Você, que já deve ter se informado sobre tudo a respeito do filme,
sabe melhor do que eu que, a princípio, Lynch estava preparando a história
para ser uma série de televisão. Como o piloto foi recusado,
ele gravou mais cerca de trinta minutos de cenas adicionais e transformou
o programa num filme.
Ora, só isso já pode esclarecer muita coisa a respeito do processo de criação de "Cidade dos Sonhos". Imagine o filme sem trinta minutos. Imagine o filme sem os últimos trinta minutos. É claro que o resto não seria integralmente o piloto que iria ao ar, mas pode-se deduzir que muita coisa ali já existia: os muitos personagens aleatórios, que seriam melhor resolvidos mais tarde (durante os anos que a série provavelmente duraria), as situações complexas, que seguiriam o mesmo rumo; enfim, tudo. Mas, sem a possibilidade de desenvolver a trama a longo prazo, Lynch direciona a história para uma nova perspectiva (o delírio), reorganiza as peças que já tinha, adiciona outras e pronto: tem agora um filme brilhante e complexo, com uma trama cheia de referências e críticas a Hollywood, embaladas numa narrativa radicalmente inovadora. E um baita problema: quem mais vai entender, além dele?
É aí que entram os moderninhos. Que os críticos de cinema, com anos de condicionamento e toneladas de informações privilegiadas sobre o filme, tenham "entendido", não é de se espantar. E mesmo assim, apesar de todos aplaudirem, muitos ainda discordam em suas interpretações. Agora, esperar que você, e que eu, desvendemos aquela maçaroca assim, de cara, é pedir demais. É simplesmente inaceitável que pessoas saiam por aí proferindo teorias próprias (na maioria das vezes baseadas nas tais resenhas em idiomas desconhecidos) sobre uma obra, teoricamente, fechada. Pode até ser uma grande demonstração de sagacidade mas, como sempre, a interpretação de uma obra nesse sentido vai sempre dizer muito mais a respeito de quem está falando do que sobre a obra em si. É um esforço em vão e o fato de que tanta gente tenha pensado tanta coisa tão diferente sobre o filme me parece muito mais um sinal de fracasso do que de sucesso do diretor: ele não conseguiu passar o que queria, pelo menos não pra todo mundo. E isso, a menos que ele não quisesse mesmo passar nada (o que já foi descartado), é uma coisa bem ruim.
Perceba que isso é bem diferente de uma discussão qualquer sobre um filme qualquer. O que está sendo defendido aqui não é a planificação dos roteiros, nem a transformação de todos os filmes em clássicos do "Cinema em casa". Existe uma diferença enorme entre discutir assuntos propostos por um filme e ficar tentando descobrir a sequência certa das cenas ou o nome verdadeiro dos personagens. Se um diretor aborda um determinado tema - sei lá, "loucura", por exemplo - e se ele faz isso bem, então ele está propondo uma questão, e você sai do cinema pensando naquilo e talvez até mude de opinião por causa dele. E isso, quando acontece, é fantástico. Mas quando um filme te propõe um enigma, que esconde todas as questões, e você tem que resolver esse enigma antes de poder pensar em qualquer coisa relacionada ao tema do filme, então isso é perda de tempo, puro preciosismo. Principalmente porque você nunca vai poder saber se resolveu o enigma, a não ser que o diretor venha e te conte, o que não é lá muito provável. Ele deve estar muito ocupado pensando no próximo filme.