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Para entender esse assunto, precisamos dizer algumas palavras sobre cognição. Queremos ressaltar
que o que apresentamos aqui é uma das visões que se tem desse tema. Há outros pontos de vista e
muita coisa precisa, ainda, ser esclarecida.
O termo cognição quer dizer conhecimento. Entretanto, é bom diferenciarmos dois tipos de
conhecimentos: 1- Conhecimento adquirido de leituras, estudos e de explicações dadas por outras
pessoas, que é de emprego mais freqüente. 2- Conhecimento da realidade. Segundo o Dr.
Beyerstein, B. L., a realidade nada mais é do que um rico modelo mental do mundo externo criado
pelo cérebro.
Nosso assunto diz respeito a esse segundo item, ou seja, como o homem representa o mundo, em
outras palavras, como ele tem conhecimento da realidade.
Normalmente as pessoas têm a impressão de que ao ver, por exemplo, uma cadeira, a mente capta,
já pronta, a imagem da cadeira, do mesmo modo que uma máquina filmadora o faz.
Para termos realidade das coisas que nos cercam no meio ambiente, ou mesmo do interior de nosso
corpo, primeiramente captamos os estímulos que chegam até nós, processamos esses estímulos
(pela atividade do pensamento) e formamos o nosso modelo mental.
Como medida econômica, na primeira experiência, arquivamos todo esse trabalho (no que
denominamos memória) para posteriormente, quando vivenciarmos situação idêntica, a evocação de
conteúdos da memória venha facilitar o trabalho do pensamento, ao juntar-se aos perceptos
(conteúdos da percepção), e gerar a imagem definitiva do objeto em questão.

Antes de entrarmos no tema em questão, o tratamento cognitivo comportamental, desejamos fornecer
mais alguns detalhes sobre o sistema cognitivo que está representado na figura acima, de modo
simplificado e acrescido da emoção.
Para tal, achamos importante a conceituação dos termos e das expressões empregadas.
Como as conceituações diferem de autor para autor, escolhemos aquelas que nos pareceram mais
claras e esclarecedoras. Destacamos os conceitos e definições empregadas pelo Dr. Antônio
Damásio que é chefe do departamento de neurologia da Faculdade de Medicina da Universidade de
Iowa e, também, professor adjunto do Instituto Salk de Estudos Biológicos em La Jolla,
Califórnia. Maiores detalhes sobre suas idéias poderão ser encontrados nos livros: O Erro de Descartes
e Mistérios da Consciência da Editora Companhia Das Letras, S. Paulo.
Percepções - são transformações dos estímulos, captados pelos órgãos sensoriais, e que
serão processados na consciência em uma atividade do pensamento, intencional e dirigida.
Representações neurais - também denominadas por Damásio como padrões neurais ou mapas
neurais, são modificações biológicas (modificações microestruturais nas células nervosas e nas
junções entre elas) criadas por aprendizagem num circuito de neurônios.
Imagens - ou padrões mentais, emergem das representações neurais. São estruturas
construídas com os sinais provenientes de cada uma das modalidades sensoriais (visual, auditiva,
olfativa, gustatória, e somato-sensitiva). A modalidade somato-sensitiva inclui várias formas
de percepção: tato, temperatura, dor, muscular, visceral. Muitas dessas imagens estão
inter-relacionadas e o fluxo dessas imagens é denominado por pensamento.
Conceitos - segundo Damásio, consistem na idéia não linguística do que são as coisas, as
ações, os eventos e as relações. Os conceitos são demonstrados por palavras e sentenças.
Pensamento - de acordo com Richard E. Mayer (Cognição e Aprendizagem Humana, EDIPE Artes
Gráficas, 1977, pág. 13) "...uma definição geral de pensamento inclui três idéias básicas:
1-O pensamento é cognitivo, mas é deduzido do comportamento. Ele ocorre internamente, na mente
ou sistema cognitivo, e precisa ser deduzido indiretamente.
2-O pensamento é um processo que abrange certa manipulação de conhecimento no sistema cognitivo,
ou um conjunto de operações nesse sistema.
3-O pensamento é dirigido e resulta num comportamento que 'resolve' um problema ou se dirige em
busca de uma solução..."
"...Outros termos há, usados no estudo do pensamento, tais como indução, dedução e raciocínio
que têm significados mais restritos que os que acabamos de discutir e que podem ser considerados
como sub-conjunto de pensamento..."
"...Indução - refere-se a uma situação em que se dá ao pensador uma série de exemplos de que se
deve 'pular' para criação de uma regra geral".
"...Dedução - diz respeito à situação em que se dá a um pensador de um conjunto de regras gerais,
das quais ele deve extrair uma conclusão geral. A indução e a dedução são tipos de
raciocínio..."
Resumindo e simplificando um tema tão complexo, dizemos que os perceptos são manipulados pelo
pensamento, o qual abrange inúmeras operações, tais como:
Pensamento mágico - esse pensamento descreve o que acontece quando nós
experimentamos dois eventos sucessivos e concluímos que o primeiro causou o segundo, sem que
tenhamos certeza de qualquer ligação provável entre eles. O que propicia esse tipo de pensamento
é a semelhança ou a proximidade entre os eventos. Esse tipo de pensamento também é chamado de
pré-lógico é encontrado entre os primitivos (nos selvagens atuais) e entre as crianças.
Entretanto, também faz parte do pensamento do homem atual.
Pensamento lógico ou reflexivo. - é o que governa a mentalidade e a conduta do homem
civilizado e normal dos nossos dias.
È regido por três princípios fundamentais:
1 - Principio da identidade ou da não-contradição: (A é A e B é B), conseqüentemente,
(se A é A não pode ser B).
2 - Princípio da causalidade: (Não há efeito sem causa), conseqüentemente, (se A é causa de B,
não pode ser, ao mesmo tempo, efeito de B). (As mesmas causas produzem sempre os mesmos efeitos).
(Eliminadas as causas, suprimem-se os efeitos).
3 - Princípio da relação da parte ao todo: (Se A é parte de B, B não pode ser parte de A).
(Nota: as definições de pensamentos lógico e mágico são do livro do Professor Nobre de Melo)
Atenção - é a capacidade de concentração num determinado conteúdo mental em detrimento
de outros.
Reflexão- para alguns, a reflexão é sinônimo de pensamento lógico.
Juízo e raciocínio - são as duas operações intelectuais de que se vale e com que se
exerce, habitualmente, a atividade do pensamento reflexivo ou lógico.
Juizo se define como o ato de consciência, mediante o qual afirmamos ou negamos algo, e
com que podemos aquilatar, outrossim, se alguma coisa é verdadeira ou falsa.
Raciocínio é o ato de consciência que consiste em encadear nossos juízos,uns com os outros,
de maneira tal que o último elo da cadeia se imponha como derivação necessária e inevitável dos
anteriores.
Do ponto de vista psicológico, todo juízo se constitui de conceitos e se exprime ordinariamente
por meio de proposições.
Imagens evocadas pela memória - quando os perceptos estão sendo trabalhados durante a
atividade do pensamento, há insuficiência de conteúdo para compor o modelo mental que nos
dará idéia da realidade. Nesse momento, o material evocado pela memória vem inserir-se na
corrente de percepções para completar o modelo.
Emoção - apesar de não fazer parte do sistema cognitivo, a emoção é, segundo Antônio
R. Damásio, imprescindível para uma racionalização normal. Esta hipótese é amplamente discutida
no seu livro O Erro de Descartes.
APANHADO GERAL SOBRE O SISTEMA COGNITIVO
Fica claro que essa descrição, com base no que foi exposto anteriormente, é apenas um esboço
com a finalidade de explicarmos o caminho, provável, seguido pela mente humana para atingir o
conhecimento da realidade.
As imagens que captamos em nossa mente não são cópias do objeto; em outras palavras, o objeto
não é captado diretamente na sua íntegra como acontece com uma máquina fotográfica ou com uma
filmadora, o que quer dizer que não há uma transferência do "retrato do objeto" para a nossa
mente como pensam muitos. O que captamos pelos órgãos dos sentidos, são as impressões que o
objeto fornece aos referidos órgãos. Essas impressões são transformadas em sinais que vão
promover modificações biológicas (padrões neurais ou mapas neurais) nos circuitos de células
nervosas.
A partir das representações neurais terão origem as imagens (padrões mentais) que
serão processadas pelo pensamento numa atividade criativa.
Nessa criação, com a participação de diversas atividades mentais (atenção, reflexão, juízo,
raciocínio) são elaborados modelos, ainda incompletos, do objeto. Para torna-los mais
representativos do objeto original, são adicionados conteúdos provenientes da memória.
Por outro lado, Damásio defende a tese de que, ao contrário do que outros pensam, uma "dose"
de emoção é imprescindível para o processo de racionalização. Deixamos claro que a emoção não
é componente do sistema cognitivo, é apenas importante para aperfeiçoar sua atividade.
É, pois, nesse campo que o terapeuta vai atuar, já que em diversos distúrbios, que serão
referidos adiante, o paciente apresenta transtornos que o levarão a criar uma visão deformada
da realidade e, conseqüentemente, apresentarão inúmeros sintomas que causarão sofrimento.
Dentre esses sofrimentos, os distúrbios de comportamento são de grande importância.
Terminamos a descrição acerca do sistema cognitivo com essas palavras de Damásio: ..."A função
global do cérebro é estar bem informado sobre o que se passa no resto do corpo
(o corpo propriamente dito); sobre o que se passa em si próprio; e sobre o meio ambiente que
rodeia o organismo, de modo que se obtenha acomodações de sobrevivência entre o organismo e
o ambiente."
CARACTERÍSTICAS DO DISTÚRBIO COGNITIVO COMPORTAMENTAL
O que caracteriza o referido distúrbio é a aberração no modo em que o paciente toma conhecimento
da realidade. Em outras palavras, a realidade do paciente é diferente da realidade padrão dos
indivíduos normais. É fácil concluir que, como conseqüência, seu comportamento será anormal e
diversos sintomas, dependentes do distúrbio apresentado (ver mais adiante), acarretarão grande
sofrimento ao paciente. Desse modo, como o sistema cognitivo está comprometido, ficará
destacada a aberração do pensamento e do comportamento relativo aos cuidados com si próprio e
ao relacionamento com outras pessoas, comprometendo suas atividades em vários campos
(compromissos sociais, diversões, emprego, etc.)
O TRATAMENTO COGNITIVO COMPORTAMENTAL
De acordo com Simon J. Enright, psicologista do Fair Mile Hospital, a aplicação do tratamento
cognitivo comportamental tem sofrido vasta expansão nas últimas duas décadas e a literatura
relacionada continua a crescer em uma velocidade fenomenal.
Cita o emprego desse tipo de tratamento nas seguintes desordens: depressão, desordem do pânico
e agorafobia, estresse pós-traumático, ansiedade generalizada, fobia social, desordem obsessiva
compulsiva, anorexia, hipocondria, esquizofrenia (particularmente a paranóide), desordem da
personalidade, comportamento violento e distúrbio sexual.
Em que consiste esse tipo de tratamento?
Consiste em tentar corrigir as aberrações relacionadas ao sistema cognitivo e as conseqüentes
anormalidades do comportamento.
Para atingir esse alvo, é importante que o terapeuta conheça profundamente o distúrbio
apresentado pelo paciente, já que as condutas são específicas para cada caso em particular.
Enright destaca as principais condutas a serem seguidas.
A) Para os métodos cognitivos:
· Discussão e explanação detalhadas do modelo cognitivo para o paciente.
· Elaboração de um diário monitorando as situações, pensamentos e sentimentos para
conscientização dos mesmos.
· Identificação das conexões entre pensamentos, afeto e comportamento.
· Examinar evidência a favor e contra os pensamentos.
· Treinar os pacientes em desafiar os pensamentos negativos por meio de técnicas de
questionamento e racionalização.
· Aprender a identificar as compreensões disfuncionais sustentando as distorções.
· Treinamento cognitivo em arcar com situações difíceis ou com o uso da imaginação.
B) Para os elementos comportamentais:
· Usar experimentos comportamentais para testar os pensamentos irracionais contra a
realidade.
· Classificar a exposição de situações temerosas em realidade ou em imaginação.
· Um programa de reforço e de recompensa.
· Ensinar habilidades específicas tais como relaxamento.
· Atividade esportiva, ensaio comportamental, modelagem de comportamentos competitivos.
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Resumindo, a principal finalidade do tratamento cognitivo comportamental é, juntamente com o
paciente, tentar identificar os distúrbios relacionados ao conhecimento da realidade,
responsáveis pelos comportamentos anormais e pelo sofrimento, e, trocando idéias com ele,
estimula-lo a encontrar outros modos de agir que possam trazer-lhe benefícios. Também, de grande
valia é o esclarecimento do distúrbio do paciente para seus parentes mais próximos. A ajuda dessas
pessoas é imprescindivel para a melhora do paciente.
Para maiores esclarecimentos, fornecemos alguns sítios sobre esse assunto. Para tal, clique
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