Século XX - Anos 1900

 

Entre 1930-1938, Guaraqueçaba, sede do município, experimenta o período de maior prosperidade: banana e madeira abastecem navios com destino à Argentina e ao Paraguai. As culturas de arroz, cana-de-açúcar, mandioca, milho e feijão vão muito bem, e o retorno econômico-financeiro imprime movimento à cidade, que é agitada com dois jornais, clube músico-literário, telégrafo, concurso de misses, etc.

 

A pé ou em canoa, à procura de áreas férteis , baratas, agricultores vindos do vale do Rio Ribeira (sul São Paulo) chegam e se instalam em Guaraqueçaba nos anos 40, criando as comunidades do Batuva e Pedra Chata. Em seguida chegam colonos de origem alemã, consolidando Serra Negra e a ocupação do Rio Bananal.

 

A partir de 1938 instala-se um processo involutivo. Uma grande crise na economia capitalista, de amplitude mundial, reflete-se na região e provoca dificuldades na economia agrícola, quase toda voltada para a exportação. Reduz-se  drasticamente a demanda pelos produtos regionais e a economia local enfraquece. Essas dificuldades são visíveis principalmente no comércio de banana, um dos mais importantes produtos da região. O reflexo disso, no plano sócio-cultural local, é o fechamento dos jornais, do telégrafo e do clube.

 

Anos mais tarde, em 1964, Padre Mário, sacerdote do município, aproveita a crise para acabar com o carnaval da cidade. Segundo ele - e seus seguidores - esta festa pagã era a responsável pelo retrocesso que Guaraqueçaba evidenciava: em 1936 o corso carnavalesco incluiu motivos religiosos em seu enredo. Como "castigo" não apenas os foliões foram morrendo, como também o movimento e a riqueza do lugar.

 

Nos anos 50, dada a facilidade com que os produtos agrícolas vindos de outras regiões tomam conta do mercado regional, os agricultores de Guaraqueçaba passam a produzir apenas para a subsistência familiar, também atraídos pelos trabalhos mais rentáveis oferecidos pelas fábricas de palmito que começam a se instalar.

 

A partir dos anos 70, a população de Guaraqueçaba começa a sair em direção à Paranaguá: os agricultores vendem suas terras por preços muito baixos e abandonam a atividade agrícola. Muitos são expulsos de suas terras por jagunços das grandes empresas que se instalam na região, favorecidas de um lado pelos incentivos fiscais (crédito subsidiados, redução de impostos, etc.) que o governo federal oferece aos empresários interessados no cultivo do café, reflorestamento de palmito e criação de búfalos e, de outro, pela construção da PR-404, rodovia ligando Guaraqueçaba a Antonina, que, inaugurada em 1970, vem - por "coincidência" - facilitar e favorecer a comercialização dos búfalos, da madeira, do palmito e da banana, atividades incentivadas pelo governo federal.

 

O crescimentos dessas atividades acontece sem que se considerem as características ecológicas da região, provocando sua rápida degradação: contaminação das águas, assoreamento dos rios, esgotamento da fertilidade natural dos solos.

 

Os agricultores expulsos - e suas famílias - se deslocam para outras comunidades do município, áreas de solos não apropriados para lavoura, passando a trabalhar nas grandes propriedades, geralmente no corte do palmito, tentando dar conta da subsistência. Com esse mesmo objetivo, também buscando trabalho e moradia, dirigem-se para as cidades vizinhas, Paranaguá principalmente.

 

A conservação do ambiente e a qualidade de vida da população sofrem. A cultura e o jeito de viver se desestruturam, comprometendo a reprodução da vida social, pois se tem importância nos meios urbanos, a cultura popular adquire um valor diferente no meio rural e nas pequenas comunidades de cujos membros faz parte, estando presente em todos os atos das pessoas, desde o nascimento até a morte.¹

 

É através da cultura que as pessoas rompem o isolamento em que cotidianamente se encontram, nela se comunicam, sentem-se juntas, apoiadas.

 

Igualmente fica comprometida e reprodução de importantes espécies da fauna e da flora regional, o que de novo se reflete, negativamente, na vida da população tradicional quer vive da exploração dos recursos naturais.

 

¹ALVAR. J. ALVAR. J. Guaraqueçaba, mar e mato. UFPR. 1975.