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Manifesto
a favor da legalização do aborto
Quando
discutimos a legalização ou não
do aborto é preciso antes de tudo refletir
o porquê de algumas mulheres quererem
engravidar e ter filhos e outras não
os desejarem.
Ter filhos:
- casal quer ter emoção de criar
um ser, por amor desejam ter filhos e isso os
realiza;
- a mulher tem na maternidade a esperança
de obter o reconhecimento do seu valor na sociedade,
pois esta a discrimina e oferece-lhe poucas
oportunidades para sua auto-realização,
além de mistificar a maternidade como
uma missão suprema (rebaixa a mulher
ao nível de um animal irracional, que
só serve para procriar e cuidar da cria),
fazendo com que fique frustrada se não
tiver filhos;
- em algumas regiões do país,
ter filhos significa mais uma força de
trabalho, para ajudar a sustentar a família;
- mulheres dependentes financeiramente desejam
ter filhos para que estes as sustentem quando
ficarem mais velhas, pois a previdência
é uma palhaçada e o medo de ficarem
sozinhas e pobres as fazem desejar ter filhos;
- mentalidade comum: ter filhos para "prender"
homem e salvar casamento. Cultura que favorece
pouco o desenvolvimento harmonioso das relações
afetivas faz com que este pensamento seja comum.
Não ter filhos:
A mulher pode achar que não é
o momento certo, ou já teve os filhos
que gostaria de ter ou simplesmente não
quer tê-los. Abaixo segue-se alguns motivos:
- não querem ter mais filhos, para que
estes não passem pelas privações
que os já nascidos passam, pois a fome
e a miséria são mais comuns do
que imaginamos, sendo vistos em qualquer esquina.
- pela falta de creches com atendimento adequado
às crianças e por ser os serviços
de saúde e saneamento precários
para grande maioria da população,
mulheres têm medo de ter filhos que fiquem
abandonados, sejam levados à delinqüência
e ao crime e sofram de doenças;
- mulheres solteiras e/ou adolescentes que não
possuem emprego e dependem financeiramente da
família não querem ter filhos
para não entrar em conflito com esta
e sociedade em geral (porque é foda estar
grávida com 14,15,16 anos e ir à
escola, contar à sua vó e seu
pai, deixar de sair com seus amigos por estar
grávida...), onde ainda predomina a hipocrisia
do duplo padrão de moralidade, o homem
garanhão e a mocinha virgem, doce e pura.
- não quer "estragar o corpo"
com uma gravidez, pois a mulher é vista
como um objeto sexual na nossa sociedade, tem
medo de ser rejeitada se ficar gorda e feia;
- quer ter mais tempo de contribuir para a construção
da sociedade de forma produtiva, trabalhando,
pois como na maioria dos lares é a mulher
que cuida dos filhos, tê-los significa
pouquíssimo tempo para engajar-se em
seus afazeres profissionais;
- não se sentir preparada faz com que
mulheres desejem não ter filhos, pois
a sociedade em geral responsabiliza a mãe
pelo desenvolvimento psicológico e pelas
realizações ou frustrações
do filho, mas muitas não tiveram base
de amor e respeito em seus lares;
- querem aproveitar a vida, tudo o que ela pode
lhes dar. Resultado de uma sociedade narcisista,
individualista e de uma economia de produção
de supérfluo que cria um consumo desenfreado.
Diante
destes motivos não podemos julgar se
desejar ter filhos é bom ou ruim, porque
estes desejos estão ligados diretamente
com a sociedade em que vivemos, seus valores,
suas morais e toda forma como está organizada.
O fato é que esta sociedade julga-se
como proprietária do útero da
mulher e acha-se no direito de decidir sobre
sua vida, pois apesar do discurso de que abortar
é tirar uma vida e blá, blá,
blá, é a mulher que sofre as conseqüências
de ter um filho não desejado, é
ela e não o estado que vai ter que sustentá-lo,
educá-lo, alimentá-lo, é
ela que pode não se realizar profissionalmente,
é ela que pode se tornar uma mulher frustrada
e triste e criar um filho marginalizado... O
estado dá poucas ou nenhuma condição
para as mulheres terem/criarem filhos, a vida
com um filho é muito mais dura, tem que
se aceitar qualquer emprego para sustentar a
criança e deixa-se para trás ideais
e lutas, pois as creches são poucas e
ruins, o estado não ajuda de nenhuma
forma a mãe que eles querem tanto que
a mulher seja, comprar fraldas, remédios,
comidas, pagar escola (porque as públicas
são uma piada)... , então me vem
a frase da madre Teresa de Calcutá "se
vocês não querem seus filhos, os
dêem para mim", então você
gera uma criança nove meses para dá-la
a uma instituição que fará
o mesmo que você com poucas condições
faria, e aí você cumpriu o seu
papel de procriadora!?
Questão
legal:
O aborto para a justiça, só é
assim considerado se for feito nas primeiras
19 semanas após a última menstruação,
depois é considerado como infanticídio
e é julgado como tal (isto porque a medicina
atual já pode manter o feto vivo fora
da gestante com o auxílio de uma incubadora
a partir da 19.º semana). Aborto é
considerado como crime segundo a lei n.º
48/95 de 15 de março de 1984 e é
punido tanto quem fez o aborto (com ou sem consentimento
da mulher) quanto a mulher que der consentimento
para que nela se pratique. Não é
punível a interrupção da
gravidez efetuado por médico, ou sob
sua direção, em estabelecimento
de saúde oficial ou oficialmente reconhecido
e com o consentimento da mulher grávida,
quando, segundo o estado dos conhecimentos e
da experiência da medicina:
a) não houver outro meio para salvar
a vida ou a saúde da gestante, e for
realizado nas primeiras 12 semanas de gestação;
b) houver seguros motivos para prever que o
feto virá a sofrer, de forma incurável,
de grave doença ou malformação,
e for realizada nas primeiras 16 semanas de
gravidez; ou
c) se a gravidez resultou de crime contra a
liberdade e autodeterminação sexual,
for realizada nas primeiras 12 semanas de gravidez
e for precedido do consentimento da gestante.
Apesar da luta pela legalização,
esta lei estúpida continua a suprimir
o direito da mulher em relação
a sua vida e ao seu corpo, fazendo com que milhões
de mulheres por ano abortem em condições
precárias correndo risco de vida, o aborto
é a quarta causa de mortalidade materna
no país, responsável por 10% dos
óbitos... A questão do aborto
também é uma questão de
saúde pública! A legalização
ao contrário do que afirmam alguns, não
faria com que aumentasse sensivelmente o número
de abortos já feitos, a situação
atual é hipócrita porque o fato
é que já se fazem milhões
(um em cada três brasileiros teve/tem
envolvimento direto com a prática do
aborto) de abortos por ano no Brasil e não
é querer fazer drama ou impressionar
a mídia, é fato e portanto não
há como discutir; o que leva uma mulher
a fazer aborto é o desejo de não
ter filhos (qualquer um dos citados neste texto),
mas o que reduz a possibilidade de uma opção
por abortar são as condições
de vida que, de modo algum, são melhoradas
pela proibição do aborto, nem
ficariam piores com a sua legalização,
e por trás desse argumento está
uma posição terrivelmente autoritária,
o que é inaceitável em pessoas
que costumam se opor ao autoritarismo ("legalizar
seria obrigar as mulheres a abortar") em
seus discursos: impor as mulheres filhos que
elas não desejam ter porque a sociedade
não lhes dá condições
para criá-los. Além disto as mulheres
que hoje não abortam, não o fazem
por questões de credo/ideais o que não
seria abalado com a legalização,
pois o que muda com a legalização
são as condições em que
o aborto é realizado (porque as mulheres
com condições financeiras vão
a clínicas ótimas, mas as que
não possuem dinheiro recorrem a métodos
que colocam suas vidas em risco - a não-legalização
mantém mais um privilégio para
as classes mais favorecidas); e não as
convicções de cada mulher, a igreja
e os moralistas deveriam confiar mais nos ensinamentos
transmitidos às suas fiéis, se
elas acreditam continuarão a acreditar
e não farão aborto. É importante
acrescentar que a discussão que se tem
freqüentemente com a igreja católica
é terrivelmente estúpida, porque
não dá para se discutir fé,
nem fatos e sim conseqüências, o
grande problema é que a igreja insiste
em querer controlar a vida de todos, não
se contentando em controlar a vida de seus fiéis,
deveria-se deixar de lado credos, porque nem
todos são católicos e cristãos,
e como vivemos em um país onde a prática
religiosa é livre a lei tem que ser também
livre destes pormenores faz aborto quem quer
e acredita que um amontoado de células
não é um ser, e quem acredita
ser não o faz e pronto.
Portanto, o estado não pode nos impor
filhos pois ele não nos dá condições
de criá-los, é a mulher que deve
decidir sobre seu futuro e seu corpo. Nós,
feministas lutamos pela transformação
do quadro de saúde, lutamos pelo acesso
gratuito e eficaz (num país onde a distribuição
de renda é terrivelmente desigual e o
salário mínimo não tem
poder de compra, anticoncepcionais em geral
são caros e tornam-se supérfluos
em relação a comida, moradia,
que são mais importantes e urgentes para
a grande parte da população. Camisinhas
distribuídas nos postos de saúde,
muitas vezes quando testadas, apresentam ineficiência),
a anticoncepcionais e ginecologistas de todas
as mulheres e a melhoria das condições
de vida para nós e para os filhos que
desejamos ter, e deixamos claro que o aborto
seria o último recurso para as mulheres
que não conseguirem evitar a gravidez,
como de fato já é, mas lutamos
antes de tudo pela educação sexual
(doenças, métodos anticoncepcionais...),
pois ainda há muitas historinhas, "mitos"
e ignorância por grande parte da população.
Questão
moral:
Esta questão esbarra inevitavelmente
nos credos de cada um e principalmente nos ensinamentos
da igreja católica, mas questões
de fé não são discutíveis,
e não me sinto no direito de discutir
este assunto com carolas e padres porque fé
é fé, eu só gostaria de
deixar claro que a igreja dominou a educação
e a política do Brasil por muito tempo
(e ainda influencia muito, infelizmente, porque
mostra a contradição da liberdade
de culto, quem não é católico
tem que engolir seus credos) e é a principal
causa da repugnação que a maior
parte da população têm em
relação ao aborto, para muitos
é assassinar alguém ou é
pecado e não sei mais o quê, isto
realmente não importa porque cada um
acredita no que quiser, mas só para fim
de reflexão: milhões de mulheres
fazem aborto por ano, isto é fato, e
posso afirmar que muitas delas são católicas,
então apesar de ter repugnação
ou ser contra a legalização ou
julgar as mulheres que abortam, estas religiosas
abortam por motivos diversos, então volto
no ponto principal da questão moral,
que esta é uma questão pessoal
antes de tudo... O incrível é
que quando se trata de um aborto espontâneo
não ocorre a ninguém perguntar
se o feto era ou não era um ser humano
e tudo se passa sem necessidade de funeral,
certidão de óbito e etc., legisladores,
médicos e padres que são contra
o aborto foram a favor da lei que permite a
retirada de órgãos de alguém
com morte cerebral, avançando os limites
da morte, mas à mulher é mantida
uma lei em incompatibilidade com os direitos
do homem: para proteger a dita "vida humana"
do feto viola-se o direito da mulher de dispor
do seu próprio corpo, o respeito pela
vida privada. É importante acrescentar
que para a grande maioria das mulheres eliminar
um óvulo não fecundado em cada
ciclo ou um óvulo fecundado no início
da gravidez, faz pouca diferença, isto
é, só pensam ter uma criança
viva no ventre quando percebem seu volume e
seus movimentos (4.º ou 5.º mês
de gravidez). Portanto deveria-se deixar para
cada mulher a decisão de ter ou não
um filho, o que seria uma decisão pessoal
de acordo com suas convicções.
Algumas
considerações finais:
cansei de ouvir um monte de gente falando que
abortar é "matar alguém,
assassinar um ser" e blablabla, e tudo
isso cansa porque são opiniões
baseadas em fé, não tem nada de
científico ou filosófico ou político,
é tudo muito teólogo irritante,
dentro do próprio meio científico
ainda há a discussão de quando
um amontoado de célula, que só
está vivo por causa de outro ser, é
um ser vivo. Há doutores, que estudaram
anos, que ficam 14h dentro de um laboratório
que não conseguem afirmar uma coisa dessas,
tipo esses religiosos "abortar é
igual a matar uma criança de 3 anos".
Putz dá até preguiça de
conversar com alguém que não consegue
diferenciar um amontoado de células que
não têm organização,
de um ser humano formado que tem um organismo,
que possui um metabolismo e etc, pra mim são
loucos que estão comparando um copo com
uma criança, uma matéria bruta
com um ser vivo.
Então ta, se é para me irritar
então vamos lá! Essa coisa de
assassinar é muito forte, muito exagerar
para impressionar, coisa para tentar sensibilizar.
Ta queridinho, seu super-romantismo-chato não
ta colando, vamos discutir fatos, ta? É
fato que toda essa baboseira tem a ver com a
nossa educação católica-cristã,
mesmo que você ou eu não freqüentemos
a igreja, nossa sociedade é basicamente
católica, tanto que têm uma cidade
para nossa senhora e um padre que ganha milhões
fazendo shows "louvando o senhor".
Essa parte você consegue entender, né?
Ta, então deixa eu contar no que essa
hierarquia católica chata se baseia para
condenar o aborto.
O conceito mais importante é o pecado
original, que considera a falta de adão
e Eva como uma mácula hereditária,
que só pode ser resgatada através
do batismo; a mãe batizada teria condições
de ser salva mas isso jamais poderia ocorrer
com o feto e, desse ponto de vista, seria ainda
pior do que o assassinato porque privaria uma
alma da salvação eterna (obs:
que salvação????).
Mas é muito importante notar que a posição
da igreja católica a respeito deste assunto
tem apresentado variações ao longo
da história e nas diferentes sociedades
e, mesmo hoje, podem ser observadas em seu seio
muitas posições/opiniões
divergentes. Já no século III,
Tertuliano, um dos primeiros teóricos
do cristianismo, admitia o aborto terapêutico.
Após o concílio vaticano II, houve
e há tentativas de liberalização
em relação aos valores ligados
à reprodução de um modo
geral, mas não se concretizaram oficialmente.
Em 1968, Paulo VI optou por uma posição
mais rígida, contrária inclusive
à maioria dos pareceres da comissão
pontifical escolhida para estudar o assunto.
Em certas instancias a igreja se pronunciou
efetivamente pela vida da mãe. O tribunal
do santo ofício proibiu em 1902 até
a remoção da trompa, em casos
de gravidez ectópica ou tubária,
que praticamente em todos os casos termina nos
primeiros meses de gravidez com rompimento da
tromba e hemorragia interna. Essa posição
terrivelmente extremada foi parcialmente revista
e, posteriormente, a igreja passou a permitir
a operação usando uma argumentação
sutil: a lei do "duplo efeito". Na
gravidez tubária, a cirurgia visa à
remoção de um órgão
doente, cujo rompimento é inevitável,
seu efeito direto é a retirada da tromba
que coloca a mulher em perigo. A morte do feto
é apenas um efeito indireto e, portanto,
admissível segundo esse raciocínio.
Na doutrina tradicional católica, o problema
gira em torno da alma e não do corpo
e por isso todo o debate se concentra na questão:
em que momento a alma entra no corpo? Ou seja,
desde quando ela pode ser considerada uma pessoa?
Eu disse, o problema sempre é "quando
podemos considerar o feto como uma pessoa?",
até consigo ouvir um cara que conheci
falando: "vi uns vídeos uma vez
que mostravam abortos, parecia até que
o feto fazia cara de triste", aí
eu falei zuando "tinha música também?"
e ele disse "é, colocaram uma música
mó bonita de fundo, quase chorei".
O que a imagem não faz, né? Vou
fazer um vídeo de estupros ou mostrar
como as células se multiplicam rápido
no útero, como uma bactéria, invadindo...
Ter um ser indesejável dentro do corpo
é como estar doente! Mas voltando à
igreja... Nos estados unidos existe o movimento
"católicos a favor do aborto".
Doncel, um padre jesuíta americano, explica
a posição desses católicos:
estão baseados no maior teólogo
da igreja, são Tomás de Aquino,
que há muitos séculos já
sustentava que não existe um ser humano
no ventre durante as primeiras etapas da gravidez.
Sua teoria de animação tardia
tornou-se a posição oficial da
igreja desde o concílio de Trento (1545-63)
até 1869, quando pio IX a modificou no
sentido atual.
A filosofia tradicional católica sustenta
que o que faz de um organismo um ser humano
é a alma espiritual e que esta começa
a existir no momento de sua infusão no
corpo. Durante séculos de filosofia e
teologia católicas, manteve-se o conceito
de que a alma humana era infundida no corpo
só quando este último tomava forma
humana e começava a possuir órgãos
básicos humanos. Antes desse tempo, o
embrião está vivo, mas como uma
planta ou um animal está vivo: alcançou
o nível fisiológico, mas não
o nível espiritual da existência;
ainda não é uma pessoa humana.
Está no útero se desenvolvendo
em direção à humanização.
São Tomás e os grandes pensadores
medievais eram a favor dessas idéias
porque sustentavam a teoria do hilomorfismo,
segundo o qual a alma humana está para
o corpo assim como a forma está para
a estátua em si. A forma da estátua
não pode existir antes que exista a estátua,
da mesma maneira o hilomorfismo sustenta que
a alma humana pode existir somente em um corpo
humano real. Os pensadores medievais sabiam
que este organismo em desenvolvimento se converteria
num corpo humano, e que, portanto, virtualmente,
potencialmente era um corpo humano. Mas não
admitiam que uma alma humana real pudesse existir
num corpo humano virtual. No concílio
de Viena de 1312, a igreja católica adotou
oficialmente a concepção hilomórfica
da natureza humana e, por séculos, sua
lei proibiu aos fiéis batizar qualquer
nascido prematuro que não mostrasse pelo
menos certas formas ou traços humanos.
Mas, já no século XVII, essas
idéias começaram a ser abandonadas
devido a informações científicas
errôneas. Como resultado de "maus
microscópicos e vivas imaginações",
alguns pesquisadores viram um homúnculo,
um diminuto ser humano, daí resultando
a teoria da pré-formação,
segundo a qual os indivíduos se encontravam
completamente pré-formados no interior
dos gametas e portanto o desenvolvimento orgânico
simplesmente consistia no incremento gradual
de tamanho de organismos e estruturas que estariam
totalmente presentes desde o início.
Se isso fosse realmente verdade, a hipótese
da existência de uma alma humana desde
o princípio não seria compatível
com a concepção hilomórfica
do ser humano. Com o desenvolvimento científico,
a teoria da pré-formação
foi substituída pela teoria da epigênese,
que sustenta que o organismo não está
pré-formado microscopicamente desde o
início, mas desenvolve suas partes por
meio de um processo complexo de crescimento,
segmentação, diferenciação
e organização. E, apesar da teoria
da epigênese ter eliminado a hipótese
do homúnculo, a igreja católica
continuou a sustentá-la, devido a influência
do dualismo cartesiano: tanto a alma como o
corpo é uma substância completa;
a alma converteu-se no arquiteto e construtor
do corpo, assim como o arquiteto existe antes
que se coloque a primeira pedra do edifício,
também pode haver uma alma humana real
desde o primeiro momento da concepção.
Este tipo de filosofia está claramente
em conflito com a doutrina hilomórfica
do ser humano, solenemente apoiada pela igreja
católica no concílio de Viena,
apesar disso permaneceu na opinião católica
por várias razões, conforme analisa
o padre doncel, uma das razões é
a dificuldade de se determinar com segurança
absoluta quando o embrião ou o feto se
converte em pessoa humana. Argumenta-se que,
como não se sabe quando está presente
a alma humana, também não se pode
saber com certeza quando ainda não está
presente. Esta suposição é
falsa, pois quando não se sabe quando
um fator está presente, sabe-se muito
bem quando ainda não está; ninguém
pode dizer com certeza quando uma criança
é capaz de tomar sua primeira decisão
moral livre, mas todos estamos bastante seguros
de que, durante os primeiros meses ou anos de
sua vida, um bebê humano ainda não
é um agente moral livre.
Outra suposição falsa é
a suposta existência de um ser humano
desde a concepção, pois apresenta-se
como uma impossibilidade metafísica.
A embriologia nos diz que cada célula
da mórula (agregação de
células resultantes da 1.ª segmentação
do ovo fecundado) é virtualmente um ser
humano, mas daí não se segue que
cada uma dessas células possua uma alma
humana; gêmeos idênticos provêm
de um ovo fecundado por um espermatozóide
e este ovo se divide em dois numa etapa inicial
da gravidez e dá origem a dois embriões.
Neste caso, aqueles que acreditam na existência
de um ser humano dede a concepção
terão que admitir que uma pessoa possa
dividir-se em duas pessoas, o que é uma
impossibilidade metafísica. Por todas
essas razões, o padre doncel conclui
que o embrião certamente não é
uma pessoa humana durante as primeiras etapas
da gravidez, justamente nos meses em que é
possível fazer um aborto seguro. Diante
desses "porquês" fica um pouco
mais fácil de construir uma visão
mais ampla e critica deste assunto, evitando
cair em frases vazias do tipo "é
pecado", se alguém quer enfiar a
cabeça num buraco e aceita qualquer coisa
como verdade não há meio de estabelecer
uma comunicabilidade, porém há
os que questionam as tais "verdades".
Questionar apenas já ajuda. Talvez nunca
saberemos se um monte de células é
um ser ou não, o importante de tudo isso
é perceber que a vida real da mãe
vale muito mais do que uma vida potencial, e
quando digo vida, digo do psicológico,
social, econômico; humano para mim é
permitir que todos usufruam suas liberdades,
é permitem que menos crianças
nasçam para ficarem na rua, para sofrerem
abusos e serem privadas e marginalizadas, humano
é permitir que a mulher se realize ao
seu modo, humano é permitir que uma escolha
pessoal seja parte do exercício da liberdade
incondicional que adquirimos ao nascer, humano
é dispor do seu próprio corpo!
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