Se os homens engravidassem

"Se os homens engravidassem o aborto seria legal". A frase foi recuperada da campanha pró-aborto das feministas francesas na década de 70. Embora possa soar um tanto demodé, o resgate das palavras de ordem do passado foi uma opção. "a idéia da campanha é radicalizar de novo", explica a ativista Sonia Corrêa, uma das organizadoras da "campanha 28 de setembro", que inclui manifestação na cinelândia, no rio janeiro, na próxima sexta-feira, 27, onde as ongs feministas vão chamar atenção para um tema considerado praticamente amaldiçoado no debate político nacional. Capaz de provocar a ira dos religiosos, a defesa do aborto legal é bandeira tão antiga que dá a impressão de ser velha. Considerando a situação das mulheres, o tema não caducou - apenas caiu no limbo da hipocrisia nacional. A estimativa é que sejam realizados, por ano, no Brasil, entre 750 mil e 1 milhão de abortos clandestinos. Para as mulheres de classe média e alta, a opção do aborto está onde sempre esteve, no lucrativo negócio das clínicas clandestinas. Lucrativa também é a rede de distribuição de citotec, medicamento abortivo de venda proibida em farmácias, mas que em muitas favelas cariocas está à venda na mesma rede de distribuição das drogas. Para as mulheres pobres, a (falta de) escolha é começar um processo de aborto doméstico, sentir-se mal e procurar um hospital do sus em busca de socorro. As complicações decorrentes do abortamento são a quarta causa de mortalidade materna e uma das recordistas de internação nos hospitais da rede pública. Ao ser atendida no hospital, a mulher que fez aborto deveria ser encaminhada para algum tipo de orientação sobre anticoncepção. Afinal, cerca de 80% das mulheres brasileiras usam algum método anticoncepcional ou fizeram esterilização. É para as 20% restantes que o sistema deveria oferecer atendimento. Ao perdê-la quando tem alta do hospital sem nenhum tipo de ajuda, o sistema de saúde renova as chances de recebê-la novamente como paciente. O que justifica o círculo vicioso? Segundo Sonia Correa, a legislação que faz do aborto uma prática ilegal tem como resultado alimentar o preconceito e impedir que o problema seja tratado de forma "humanitária, eficaz e objetiva". Foi como pesquisadora que ela ouviu mulheres de acari associarem as condições de tratamento em hospitais públicos à violência urbana. "isso no rio de janeiro. Quanto menor a cidade, maior o preconceito e maior o estigma", lembra ela. As mais prejudicadas são as mulheres mais jovens e as mais pobres - o maior índice de aborto tardio, realizado depois do terceiro mês de gestação, está na faixa etária de 14 a 18 anos. Quanto mais tardio, mais arriscado e mais traumático. Apesar de tantos argumentos, a descriminalização do aborto caminha lentamente e recua com freqüência. A força da oposição vem das forças religiosas, mas não apenas. Desde o início do governo de George w. Bush os eua adotaram posição conservadora em relação ao tema. Na áfrica do sul, na conferência Rio+10, se aliaram aos arquiinimigos islâmicos para alterar o texto do documento oficial no parágrafo que fala de aborto. Ficou valendo a ressalva de que os países devem prover serviços de saúde reprodutiva "de acordo com valores religiosos e culturais". Ou seja, os países estão em guerra, mas no que diz respeito ao aborto, eua e islâmicos se encontram. Por essas e outras - alianças entre religião e governo se repetiram na década de 90 nas principais conferências internacionais que trataram de direitos da mulher -, a campanha da descriminalização do aborto este ano bate na tecla do estado laico. O tema é pertinente em todos os países da América latina onde a campanha se reproduz, como Chile, México e Peru. "queremos viver numa democracia, não numa teocracia", defende Sonia.como é muito difícil trazer para as ruas a questão do estado laico, o que o slogan "se os homens engravidassem, o aborto já seria legal" consegue chamar atenção para uma questão que também não está resolvida na sociedade brasileira - a idéia de que reprodução e anticoncepção são "coisa de mulher". Pesquisa realizada no núcleo de estudos de população da unicamp ("os homens, esses desconhecidos - masculinidade e reprodução") ouviu homens, universitários, de classe média e alta de São Paulo e, mesmo num ambiente tão seleto, registrou frases como esta: "ela optou pela laqueadura porque aí nessa questão dos filhos eu sempre achei que a mulher tem que decidir". Para os homens, mostra o estudo, cuidar de uma gravidez indesejada é problema da mulher.a campanha tenta reverter esta lógica ao trazer de volta as palavras de ordem das feministas francesas e afirmar: "se os homens engravidassem, o aborto seria legal". A simples hipótese de que a resposta a esta pergunta seja sim já obriga a pergunta: seria?

23.set.2002
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