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ANOS AO SERVIÇO DA PAROQUIA DE AVANCA
ENTREVISTA com o P. José Henriques
(retirado do Jornal "Noticias de Avanca")
0 Padre José Henriques veio para Avanca há 10 anos. Teve pela frente uma longa tarefa ligada ás obras do Centro Paroquial e Igreja, bem como intervenções significativas nas capelas de Santo Ant6nio, S. Sebastião, S. Ana e Nossa Senhora da Carmo, Mas para além das obras foi necessário pôr a funcionar o Centro Paroquial que neste momento tem 7 valências e atinge cerca de 300 utentes, com uma despesa mensal que ronda 11 a 12 mil contos. Tendo o sacerdote uma missão de ordem espiritual a pastoral deve ocupar o centro da vida dum pároco. 0 P José Henriques tentou faze-lo, procurando dar apoio aos vários sectores da pastoral. Houve a coragem de denunciar o não cumprimento da testamento de Júlio Neves. Sobre estas e muitas outras questões que quisemos interrogar o P José Henriques por estes 10 anos de presença em Avanca.
NOTICIAS DE AVANCA - Vai fazer 10 anos no dia 24 de Setembro, que veio para Avanca como pároco. Gosta mesmo de estar em Avanca?
P. José Henriques – Quando o Senhor Bispo me mandou para Avanca eu iria para qualquer freguesia. A primeira vez que o Senhor Bispo me falou era para ir para a Gafanha da Nazaré. Mais tarde é que me falou em ir para Avanca. Aliás, se na altura o Senhor Bispo me desse a escolher, eu teria escolhido a Gafanha da
Nazaré por ficar mais perto de Aveiro. Conhecia mal Avanca. Sabia das dificuldades que existiam em Avanca ligada ä construção do Centro Paroquial. Eu estava disposto a trabalhar fosse onde fosse. Quando vi pela primeira vez o Centro Paroquial fiquei com alguns receios. Com o andar dos tempos as coisas mudaram. Impressionou-me a grande generosidade do povo de Avanca, a pouco e pouco, me apercebi da grandeza da alma dos avancanenses e posso dizer que tenho gostado muito do povo de Avanca.
N.A. - Nunca teve receio de não ter meios para fazer face a tantas obras? Quanto custaram as obras feitas nestes 10 anos?
P.J.H. – É verdade que o povo de Avanca estava já bastante saturado com as obras do Centro Paroquial. Foi também necessário enfrentar soluções diferentes em relação a electricidade, pagando-se novos projectos, em relação a esgotos etc. Se eu não tivesse nenhuma experiência de obras não saberia como encarar o assunto. Se não gostasse de obras seria mesmo muito duro enfrentar a situação. Quando na minha chegada disse que as obras poderiam ser feitas em três anos, eu não tinha uma certeza. Mas como gostava de obras pareceu-me que isso podia acontecer É verdade que das primeiras atitudes que foi necessário tomar foi modificar o projecto de electricidade que previa um posto de transformação de 630 KWA. Com o decorrer das obras outras opções se tomaram concretamente a criação de Creche e Infantário e depois o Lar para idosos que não estava previsto. A Creche e Infantário e o Lar para idosos, ocupa grande parte do espaço do Centro Paroquial. Porque existiam uns quartos começou-se a pensar em fazer um mini-lar para fazer face a alguns casos mais prementes. Mas o Lar de 12 passou para 20, para 25, 30, 40 e 45. Claro que isto foi fruto de adaptações sucessivas. As próprias estruturas de apoio tiveram que sofrer adaptações sucessivas. A Lavandaria foi ampliada duas vezes a criação da valência do Lar para pessoas Idosas e o pensasse em ter uma Creche e Infantário exigira por isso novas estruturas, muito mais espaço. 0 custo destas obras todas, feita por administração directa foi de cerca de 200 mil contos. E tenho consciência de que o que está feito no Centro Paroquial se fosse feito doutra maneira custaria 500 mil contos ou mais. Só para dar um exemplo: a maioria dos azulejos custaram 375$00 o metro, mas se fossem comprados em circunstâncias normais custariam à volta de 1000$00 o metro. Com a loiça sanitária e muitas outras coisas passou-se o mesmo.
N.A. - Houve alguma vez em que desanimou perante as dificuldades das obras? Qual foi o maior problema que teve que enfrentar?
P.J.H. - Os maiores problemas relacionam-se com 3 coisas: modificar o projecto de electricidade, modificar esgotos que corriam ao contrário e a vedação das humidades no Auditório. Até posso dizer que isto terá sido o maior problema que tive que enfrentar e houve uma altura que não sabia o que havia de fazer. 0 auditório que tinha placa, tela e telha metia muita água sobretudo no palco. Tentaram-se várias soluções: meter uma grande caneja ao meio para captar as águas, evitando assim que as águas se juntassem todas na parte mais baixa, mas não resolveu. Mesmo divididas ao meio as águas, ainda são muito grandes e o telhado tem pouca inclinação. Cheguei a pensar substituir as telhas de barro por lusalite que não precisa de tanta inclinação, era outra solução muito cara e não era estética. Depois experimentou-se com uma tinta própria isolar a tela o que na verdade resultou. Foi para mim, posso dizer, a solução mais difícil que me preocupou muito. Também pensei que se fosse necessário em vez das telhas de barro substituir por outro tipo de cobertura, não só era caro, mas também desagradável desfazer o que estava feito. Enfim o problema resolveu-se com menos custos mas não sei até quando o problema ficará resolvido. As humidades são um problema sério as pessoas que fazem obras sabem os problemas que têm. Fazer estas obras todas foi motivo de algumas arrelias, mas isto eu sabia que ia encontrar. Depois de ver as coisas feitas já ficava contente e compensava todas as arrelias anteriores, A cobertura da entrada para o auditório também me preocupou. Havia membros da direcção que achavam que já não se devia fazer mais obras. Só depois de algumas reuniões se conseguia ultrapassar o problema. Lembro-me que uma noite a pensar como deveria de ser as obras nem dormi. Reconheço no entanto que foi uma coisa muito boa mesmo esteticamente.
N.A. - Mas sente-se realizado ao fazer obras? Não lhe parece que elas ocuparam muito do seu tempo, faltando-lhe depois para a vida pastoral?
P.J.H. - E verdade que nos primeiros anos estive ao alto com os empregados e todo o tempo que tinha livre era para estar com eles. Nessa altura, nem férias tinha e a minha vida era demasiado cheia.
A paróquia e as obras absorviam-me completamente. Eu por vezes digo que se não gostasse de obras dava em tolo, pois por vezes são demasiados os empreendimentos que é preciso realizar e em tudo há contrariedades. Mas eu sinto-me mais realizado ainda ao acompanhar os jovens ao visitar os idosos, ao viver as celebrações, ao atender as pessoas. Quando ás vezes ouço alguns dizer que eu tenho vocação de arquitecto, eu penso que nós padres por vezes fazemos de tudo: de arquitectos, de engenheiros, de empreiteiros, de mestres, de serventes, de desentupidores de esgotos, de patrões, de contabilistas, de pastores. Não gosto que me digam que tenho vocação de arquitecto, pois de todas as coisas que faço e que me realiza mais é ser padre. Faço tudo o resto por necessidade e penso que tenho poupado dinheiro à paróquia resolvendo alguns problemas destes.
N.A. -Não o preocupa os problemas econ6micos do Centro Paroquial no futuro. Há pessoas que dizem que num futuro pr6ximo a paróquia pode vir a ter falta de dinheiro para fazer face aos custos quer da Igreja, quer das capelas, quer do Centro Paroquial. E já uma estrutura com custos muito altos.
P.J.H. - Há dois casos a considerar. 0 Centro Paroquial que tem uma entidade jurídica independente, com uma direcção e com custos próprios. Tem que sobreviver por si próprio com as ajudas do Estado e com a participação dos utentes. Se outras obras sobrevivem assim, porque é que estas não hão-de sobreviver? Uma obra como esta não pode acabar nem pode estar dependente de alguém. Ela tem que gerir-se por si própria. A Igreja tem outra entidade jurídica. Há uma parte do Centro que está ao serviço da Igreja e o pároco deve suportar as despesas, como o que está relacionado com as salas da catequese e em parte o auditório. A Igreja e as capelas todas são no conjunto uma estrutura grande, mas o povo cristão foi sempre generoso para com as Igrejas e capelas. Aliás quando cheguei à paróquia havia dificuldades económicas. As coisas estão a organizar-se para que haja um suporte económico para encarar as situações. Foi possível fazer as obras e guardar-se dinheiro para poder fazer face a situações futuras. Não me mete medo o futuro neste campo.
N.A. - 0 Centro Paroquial tem neste momento já 7 valências apoiadas pelo governo. Para além das 7 valências o Centro é responsável pelo projecto Inovar Estarreja e promover cursos vários. Esta organização toda não exige uma pessoa a tempo inteiro para poder fazer face às exigências. Quantas são as pessoas que trabalham no Centro e quantos são os utentes?
P.J.H. - 0 Centro Paroquial como obra social que é tenta dar suporte aos problemas sociais. Ora os problemas com os idosos começam a ser complicados. As famílias estão muito dispersas. Entre as pessoas que estão no Lar aqueles que vem cá passar o dia aqueles que estão em suas casas são cerca de 80 os idosos que apoiamos, mas aqueles que nos batem à porta são às centenas de Avanca e de fora.
Quanto ás crianças a Segurança Social marcou-nos o número de crianças que frequentam a Cresce e o Infantário. Por vezes não é possível receber todas as crianças mas penso que os infantários que existem na paróquia e as obras sociais existentes na paróquia dão resposta às carências. Na Cresce e Infantário temos 94 crianças. No A.T.L, é que tem havido uma procura extraordinária. Na medida em que os pais trabalham vai-se tornando necessário que alguém fique com os filhos pois a escola acaba muito cedo. Em números nós temos apoios para 40 crianças, mas neste momento já temos 70 a frequentar o A.T.L. do Centro 70 a frequentar o A.T.L. do Centro e pensamos criar um A.T.L. em Água Levada com cerca de 25 crianças. Portanto o A.T.L. está neste momento superlotado. Para além disso o Centro tem promovido cursos como resposta ao rendimento mínimo e para pessoas desempregadas, cursos estes a que estão ligadas 30 mulheres. Vai começar um novo acordo com a Segurança Social para Intervenção Comunitária em que se tentará resolver os problemas sociais existentes na Paróquia. Vamos por isso ter mais uma Assistente Social para este trabalho. Se os assistidos passam dos 300 é verdade que é preciso pessoal para gerir isto tudo. Os empregados vão já a caminho dos 50 e começa já a ser complicado gerir tudo. Há no entanto sectores no Centro e a gerência pode organizar-se assim por sectores. É verdade que quando há problemas temos que intervir e somos chamados nessas alturas. Será mesmo impossível ao pároco estar em cima de todos os acontecimentos. Há pessoas que estão à frente dos sectores e têm que geri-los. A direcção tem um papel que os estatutos definem e fundamentalmente é esta a minha missão, com os membros da direcção definir o rumo da casa. É verdade que me ocupa algum tempo, pois não posso estar alheio às coisas.
N.A.- Quanto dinheiro já se gastou em obras ao longo destes 10 anos.
P.J.H- Se se juntar o dinheiro gasto no Centro Paroquial e o que se gastou na capela já ultrapassa os 200 mil contos aproximando-se dos 300 mil contos
N.A. - Ainda tem projectos para mais obras na par6quia? Quais são os próximos investimentos?
P.J.H. - Eu estou empenhado em organizar um museu paroquial onde possam estar expostas as obras de arte que a paróquia possui. Tendo andado interessado nisto e penso que será o próximo investimento da paróquia. Penso que será também uma maneira de educar as pessoas para guardar as coisas antigas e há muitas coisas que se estragam e se perdem por as pessoas não saberem.
Gostava que fosse possível fazer-se um pequeno parque atrás do Centro Paroquial, mas só será feito em colaboração com a Câmara Municipal. Tenho também entre mãos um possível alargamento do palco do auditório que servirá também de saída de emergência, mas considero estas obras de gerência normal duma instituição e não obras de grande vulto. Vou também empenhar-me para que a Câmara Municipal faça as casas para os pobres que prometeu ligado ao testamento de Júlio Neves. Não vou desistir..
N.A. - Já que fale nas casas para os pobres do testamento de Júlio Neves como está a situação? Sempre se fazem ou não as casas?
P.J.H. - Neste momento estamos num impasse. Há terrenos, há falta de casas, e não se anda para diante. Estou a ficar aborrecido com a situação. Está-se à espera da revisão do P.D.M. Da maneira que as coisas estão em Estarreja, não se podem fazer casas para pobres porque, para se fazer uma casa e preciso um lote de 500m2, tendo 15 metros de frente. Um terreno assim com viabilidade de construção custa uns milhares de contos. É um terreno onde se pode construir uma vivenda de luxo. Há outras opções que é a construção em altura que é completamente errada para pobres. Há por ai casas que são autênticas barracas. Agora já só se podem construir vivendas. Assim não e possível construírem-se casas para pobres. Do 8 passou-se para o 80. É uma vergonha que os pobres tenham sido esquecidos nesta terra. E nisto todos são responsáveis. As Conferencias Vicentinas, aos grupos Caritas, aos Centros Paroquiais e às paróquias em geral que estão no terreno, vem bater à porta pessoas a pedir casa. Tem que se denunciar esta situação. Não seria possível construir-se em banda continua, casas com dignidade e dimensão necessária para os novos pobres que não têm casa? Qualquer dia começam-se a fazer barracas e depois legalizam-se as casas...
N.A. - No seu trabalho como pastor quais os sectores que gosta mais de trabalhar?
P.J.H. - Eu já disse que gosto de tudo, mas não escondo que são os jovens que me dão mais alegria. As iniciativas com os jovens têm também uma projecção muito grande. Os jovens são os homens do amanhã. Descubro grande generosidade nos animadores de jovens que me encanta. Só ainda não descobri é quem queira dedicar-se a tempo inteiro ao serviço do Reino de Deus, quer no sacerdócio, quer na vida religiosa. A diocese de Aveiro já há muitos anos que não tem padres de Avanca para o seu serviço. Os que vão morrendo não tem continuadores. Seria a maior alegria descobrir alguém, que Deus chama para trabalhar ao serviço da diocese de Aveiro ou da Igreja em geral. A comunidade cristã tem que o merecer e rezar muito.
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