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TEORIA DOS JOGOS E DA COOPERAÇÃO (MAY, E. 'Ben Franklin leva Xeque-Mate de Lady Howe', sec.XIX)
História e Conceitos Básicos
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TEORIA DOS JOGOS E DA COOPERAÇÃO PARA FILÓSOFOS

SEÇÃO I

» 1ª Unidade: História e Conceitos Básicos

  • Antecedentes históricos, principais obras e autores
Por Antônio Rogério da Silva

Jogo Real de UrJogos de tabuleiro, dados, cartas ou, em geral, jogos de salão divertem a humanidade desde a formação das primeiras civilizações. Escavações feitas em sítios arqueológicos localizados na região do Oriente Médio conhecida como Mesopotâmia encontraram em túmulos de nobres e membros da família real da antiga cidade de Ur, importante centro da civilização sumeriana, por volta de 3000 a.C., um jogo de tabuleiro que passou a ser conhecido como Jogo Real de Ur - provável antecessor dos jogos da família do moderno gamão. A se acreditar nas lendas indianas, a atividade lúdica, além de entreter seus praticantes, também serviria como simulação alegórica de batalhas ou deliberações que as pessoas têm de fazer ao longo de sua vida cotidiana - o xadrez e o já mencionado gamão seriam exemplos disto. Por colocar as pessoas em situações nas quais vencer ou perder dependem das escolhas feitas adequadamente logo no início das partidas, os jogos se mostraram como excelente ferramenta para o desenvolvimento da personalidade e da inteligência das crianças.

Entretanto, apesar desse aspecto pedagógico, os jogos raramente eram considerados objetos de estudo sério. Foi a curiosidade do nobre Cavaleiro de Méré e inveterado jogador, Antoine Gombaud (1607-1684), que, em 1654, incentivou o filósofo francês Blaise Pascal (1623-1662) a iniciar correspondência com outro brilhante matemático francês, Pierre de Fermat (1601-1665), no intuito de solucionar com maior rapidez o problema dos pontos, num jogo de dados que fora interrompido, e cujo dinheiro das apostas teria de ser dividido justamente de acordo com as probabilidades iguais de ganho de cada jogador, caso o jogo tivesse continuado até o final. A resposta fornecida por ambos ao problema de Gombaud revelou as regras matemáticas que subjazem aos jogos de azar, desenvolvendo a teoria da probabilidade que de um modo independente, outro genial matemático e famoso trapaceiro, o italiano Girolamo Cardano (1501-1576), havia iniciado antes. Contudo, a solução encontrada por Pascal e Fermat só foi publicada mais tarde através do primeiro livro exclusivo sobre teoria da probabilidade, chamado Sobre o Raciocínio em Jogos de Azar, do físico e astrônomo holandês Christian Huygens (1629-1695), lançado em 1657. Isso porque, na metade do século XVII, mesmo a matemática era considerada uma atividade amadora de eruditos que não deveria ter consequências sérias para as vidas dos demais mortais.

Não obstante, além dos jogos de azar - dados e roleta -, que foram cruciais para o desdobramento da teoria da probabilidade, jogos de estratégia, aqueles que não dependem apenas da sorte, mas oferecem alternativas para que os jogadores possam escolher qual a melhor linha de ação que deve adotar para atingir um resultado esperado, tendo em mente o que a outra parte fará - pôquer e damas -, também são passíveis de formalização matemática por intermédio de simplificações que permitem a simulação de cada tipo de jogo, constituído por regras bem definidas. A Teoria dos Jogos trata, portanto, de sistematizar matematicamente, através dos modelos de jogos, as situações que envolvem duas ou mais pessoas, cujas decisões por uma estratégia de ação adequada influenciarão o resultado da interação e o comportamento subsequente das partes interessadas.

Em 1730, a matemática já havia alcançado um respeito considerável, devido ao sucesso dos trabalhos do filósofo inglês Isaac Newton (1642-1727). Nesta época, o suíço Daniel Bernoulli (1700-1782), membro de uma ilustre família de matemáticos, já podia ser visto como um solucionador de problemas profissional, contratado para ensinar sua matéria em diversas cortes européias. Em São Petersburgo, Rússia, ele pôde conceber a noção de utilidade como um valor de incremento inversamente proporcional à quantidade inicial. Isto é, tendo em vista o comportamento dos jogadores, haveria uma medida subjetiva de satisfação que explicaria a reação das pessoas em situações de risco, nos termos de maximização de sua utilidade. Circunstância que só dois séculos depois, receberia uma formulação moderna pela mão do matemático francês Émile Borel (1871-1956), na forma do teorema minimax. Usando a noção de estratégias mistas - que aplicam as estratégias puras a uma taxa de variação proporcional aos ganhos -, em 1927, Borel conseguiu resolver jogos com duas pessoas que tivessem até cinco opções de estratégias a sua escolha. Uma solução geral, entretanto, só viria a ser alcançada pelo matemático húngaro John Von Neumann (1903-1957), em 1928, consolidando as bases de uma moderna Teoria dos Jogos, em que o conceito de utilidade é fundamental.

Outro conceito chave dessa teoria começou a ser trabalhado pelo filósofo e economista francês Antoine Augustin Cournot (1801-1877). Em suas análises sobre os casos de duopólio, Cournot formalizou uma versão restrita do conceito de equilíbrio que iria ser generalizada, no século seguinte, por John Forbes Nash Jr. em trabalhos que tornaram a Teoria dos Jogos pertinente a situações em que um lado pode vencer sem precisar, necessariamente, derrotar o adversário. Cenários que filósofos como o inglês Thomas Hobbes (1588-1679), o escocês David Hume (1711-1776) e o suíço Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) descreveram de modo intuitivo em suas respectivas obras: Leviatâ (1651), Tratado da Natureza Humana (1739) e Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens (1755).

Hobbes descreveu, de modo bastante criativo, a solução cooperativa a qual podem chegar agentes racionais motivados apenas pelas satisfação imediata de seus interesses, em conflito no estado de natureza. Dada a simetria e fragilidade de cada um dos que se enfrentam na natureza, apenas a busca da cooperação poderia atender os anseios de todos os envolvidos, preservando a paz necessária para realização de seus projetos pessoais. Contudo, de modo espontâneo, ninguém abriria mão de lutar pela posse de todos os meios indispensáveis para sua sobrevivência se seus potenciais rivais não fizessem o mesmo (1). Hume, por sua vez, imaginou a situação vivida por dois fazendeiros que vêem ameaçadas as suas safras pela dificuldade de convencerem um ao outro a colaborar nas suas respectivas colheitas, considerando que ambos são naturalmente egoístas e não nutrem simpatias mútuas (2). Enquanto Rousseau imaginou o contexto de caçadores que dependem da atuação de vários participantes, a fim de que se obtenha caça suficiente para todos, embora seja provável esperar a deserção daqueles que tenham a oportunidade de, individualmente, capturar uma presa menor, mas que os satisfizesse a ponto de estimular o abandono do grupo (3).

Inspirações como estas não são exclusivas da literatura moderna ou contemporânea, ou de uma concepção de indivíduo típica apenas da modernidade. No tempo em que Hammurabi (século XVIII a.C) reinava sobre toda Mesopotâmia, a coleção de sentenças que este rei babilônico mandou gravar em estelas de pedra negra e publicar em frente a seus monumentos já difundia a noção de direito, fundada na reciprocidade, que ainda hoje serve de lastro às leis contemporâneas. Suas célebres sentenças "olho por olho; dente por dente" (4) estão subjacentes às tradições judaicas, cristãs e todas as demais que propuseram variações da Regra de Ouro (fazer ao outro o que se quer que faça a si mesmo).

Sobre outro aspecto, em A Vida dos Doze Césares (c. 120), Caio Suetônio Tranquilo (69-141) narrou uma atitude que frequentemente Caio Júlio César (101-44 a.C.) tomava para evitar a deserção de seus soldados. César, quando pressentia que uma batalha seria difícil de prever a vitória, afugentava todos os cavalos, incluindo o seu próprio, com o objetivo de impedir a fuga dos menos corajosos, obrigando todos a lutarem com afinco, já que não teriam outra opção disponível (5). Solução semelhante a que Hernán Cortés (1485-1547) tomou quando fez destruir os barcos que poderiam servir de meio para fuga de seus soldados, antes da iniciativa de derrubar o império asteca, forçando os descontentes a se unirem a ele, pois estavam em território hostil, sem qualquer outra saída. Mas antes de todos, o estrategista chinês Sun Tzu (séc. V a.C.) já recomendava em seu manual A Arte da Guerra (500 a.C.):

Lance suas tropas em situações das quais não há saída; seus homens preferirão enfrentar a morte a desertar. E, uma vez que estiverem prontos para morrer, você não poderá tirar menos do que o máximo de seus oficiais e soldados (SUN TZU. A Arte da Guerra, cap. 11, p. 91).

Em ocasiões como estas, onde sempre pode haver conflito de interesses entre duas ou mais partes capazes de deliberarem sobre uma ação que implique numa reação recíproca consequente, a Teoria dos Jogos tenta encontrar uma formulação passível de ser tratada de modo tão rigoroso quando possível, a fim de apontar respostas factíveis.

Concorrência

Até que John von Neumann e Oskar Morgenstern (1902-1977) publicassem o livro que deu origem a esse novo ramo da matemática, diversos economistas e matemáticos, além dos já mencionados, contribuíram com conceitos e teoremas que mais tarde foram incorporados, como por exemplo a regra de Thomas Bayes (1702-1761) para calcular a probabilidade de um evento ocorrer a partir de uma informação dada e o teorema de Ernst Zermelo (1871-1953) sobre a existência de uma estratégia vitoriosa em jogos de informação perfeita e soma zero (em que um só ganha se outro perde). Essa distribuição inicial dos conceitos espalhada por vários países e autores ao longo da história moderna dificultou a identificação de um marco histórico nítido para fundação da Teoria dos Jogos. Os quatro artigos que Borel publicou no início do século passado, introduzindo a noção de estratégias mistas e solução minimax, serviram então para reivindicação desta prerrogativa, por parte de autores franceses, em favor de seu ilustre compatriota (6).

Não obstante, o polivalente Herbert Alexander Simon (1916-2001), por sua vez, embora tenha preparado a versão preliminar de seu Comportamento Administrativo (1945) antes de surgir Theory of Games and Economic Behavior (Teoria dos Jogos e Comportamento Econômico, 1944), abriu mão de qualquer mérito de ter descoberto um novo conceito de jogos estratégicos, abordado em seu livro sob a ótica do homem administrativo, ao invés do homem econômico enfocado por von Neumann e Morgenstern. Segundo Simon, o caráter administrador procuraria "'contemporizar' ao invés de 'maximizar', (...) [realizando] suas escolhas sem precisar de examinar previamente todas as possíveis alternativas de comportamento, e sem ter de certificar-se de que essas são de fato todas as alternativas que se lhe oferecem"(7). Se a versão do homem administrativo, lançada por Simon tivesse prevalecido, não seria necessário levar em conta todas as relações dos objetos envolvidos para deliberação, como quer a Teoria dos Jogos. Bastaria apenas o apoio regras empíricas simples que não sobrecarregassem o cálculo para uma escolha razoável, ao invés de uma forte formação matemática que, por vezes, é alvo de crítica por parte de psicólogos e antropólogos.

Para a Teoria dos Jogos que prevaleceu, entretanto, todo processo de deliberação parte da noção de um agente cuja racionalidade instrumental mínima, típica do homem econômico, visa tão somente maximizar os ganhos de seus esforços, encarando o mundo real em toda sua complexidade de relacionamento. Em Theory of Games and Economic Behavior, von Neumann e Morgenstern estabeleceram, como parâmetros de sua teoria, os jogos de duas pessoas com soma zero, em geral, cooperativos, isto é, quando jogados com mais de dois jogadores e com a permissão de transferência de utilidade interna às coalizões que forem constituídas. Por conta disso, produziram uma consistente axiomatização da teoria da utilidade que foi amplamente aplicada nos diversos domínios econômicos e fora destes.

No entanto, por mais inspirada e detalhada que fosse a prova do teorema minimax e a formalização dos jogos de soma zero, a Teoria dos Jogos surgiu incompleta, ao deixar em segundo plano os jogos de soma variável e os não-cooperativos. Cedo, matemáticos brilhantes trabalharam para preencher as lacunas deixadas. John Nash procurou generalizar o teorema de minimax de von Neumann para todo tipo de jogo - soma zero ou variável, com n-pessoas. A solução encontrada foi batizada de "ponto de equilíbrio", como se fosse um repouso natural nas ocasiões em que nenhum jogador poderia melhorar sua posição, mudando de estratégia, sem que piorasse os resultados dos demais envolvidos. Nash conseguiu provar que, para qualquer tipo de jogo, existe pelo menos um ponto de equilíbrio que pode ser encontrado usando estratégias mistas, como uma variação na proporção em que são aplicadas as estratégias originais, puras. Com isso, ao lado do teorema minimax, o equilíbrio de Nash tornou-se um dos alicerces fundamentais da Teoria dos Jogos, pois permitiu que os jogos não-cooperativos, que envolvem cooperação e competição pudessem ser tratados, além dos chamados cooperativos - aqueles nos quais os jogadores podem usar a comunicação e fazerem acordos que forcem a colaboração dos demais.

A elegância e precisão das provas matemáticas de von Neumann e Nash, apesar de formarem uma base teórica sólida, não impediram os pesquisadores interessados em obter contra-exemplos que consolidassem a Teoria dos Jogos, a prepararem experimentos laboratoriais que pudessem ou não confirmar na prática aquelas teses duras acerca da racionalidade dos agentes. Em janeiro de 1950, os laboratórios da corporação estadunidense Rand tinham em seus quadros matemáticos astutos do porte de Melvin Dresher e Merrill Flood que prepararam uma experiência que se tornou histórica, a fim de verificar se pessoas de "carne e osso" seriam capazes de encontrar as estratégias em equilíbrio previstas pela teoria. Por cem vezes, realizaram os testes com a participação do matemático John Williams, chefe de departamento da Rand, e do economista Armen A. Alchian, da UCLA, que interagiam entre si. Entretanto, em vez de buscarem suas estratégias dominantes e pararem num ponto de equilíbrio, eles optaram por cooperar mais vezes, do que trair o outro. Este famoso experimento ficou conhecido, depois, como Dilema dos Prisioneiros, graças à história contada pelo canadense Albert William Tucker (1905-1995) - que fora orientador de Nash - em um seminário para psicólogos, na Universidade de Stanford (8).

Na versão de Tucker, dois suspeitos de terem cometido um crime grave são presos e interrogados separadamente. Na tentativa de incriminá-los, o inspetor encarregado da investigação, de modo reservado, oferece a cada um as opções de confessar o delito e entregar o comparsa, ou ficar calado. Caso um dos suspeitos denunciasse o outro que ficasse calado, o denunciante obteria a liberdade, por colaborar com a justiça, enquanto seu colega arcaria sozinho com a pena máxima. Se ambos permanecessem em silêncio, pegariam uma sentença mais branda pelo crime leve que os levaram à prisão em flagrante. Contudo, se os dois se delatassem mutuamente seriam punidos com uma mesma condenação: menor do que a máxima, mas maior do que a pena leve. Por conta disto, a única estratégia que domina todas as outras é a da confissão mútua, uma vez que, independente da reação do outro, o melhor que cada um faria por si mesmo é confessar o crime grave, ao contrário de se expor à possibilidade de ficar mais tempo na cadeia pagando a maior pena. Tal previsão, contradita pela experiência na Rand, mostrava a existência de algum problema na concepção de racionalidade concebida, pois, em vez de buscar resultados mais favoráveis para si, os jogadores tendiam a escolher a cooperação para maximizar seus ganhos, sem buscar, aparentemente, o equilíbrio Nash. Ao saber disso, Nash atribuiu a falha na experiência ao fato dos jogadores interagirem em "um grande jogo de movimentos múltiplos", lamentando a ineficiência deles em comportarem-se mais racionalmente (9).

Por outro lado, o conceito de utilidade - que não é exclusivo da Teoria dos Jogos, mas pertence ao domínio próprio da economia - foi alvo de fortes questionamentos em dois aspectos: primeiro, devido a suposta impossibilidade de se medir coisas incomensuráveis; depois, pela duvidosa manutenção de uma racionalidade capaz de preservar a intransitividade e substituição das preferências, bem como a atenção às probabilidades objetivas em detrimento das subjetivas. O economista francês Maurice F. Charles Allais, em seu artigo "Le Comportement de L'Homme Rationnel Devant Le Risque" ("O Comportamento do Homem Racional Diante do Risco", 1953), atacou a manutenção rígida do conceito de racionalidade para todo tipo de situação. Em sua pesquisa, Allais constatou que, diante do risco e ou incerteza, os agentes racionais assumiam uma perspectiva subjetiva da probabilidade de um evento acontecer, sem atentar para estatísticas objetivas. Além do mais, não preservavam a independência de suas escolhas, quando na substituição de alternativas irrelevantes. Fatores psicológicos que influenciavam decisivamente os processos deliberativos, virtualmente, impediam qualquer tentativa de formalização.

Em verdade, as críticas relevantes de Allais, embora fossem direcionadas à noção de utilidade adotada pela teoria econômica estadunidense, atingiram aspectos da Teoria dos Jogos, que tem elementos comuns a esta. Nesse contexto, os ataques diretos que a Teoria dos Jogos começava a receber, em parte, arrefeceram o entusiasmo inicial da primeira metade do século XX. Testes empíricos mostravam que ingredientes de ordem psicológicas impunham algumas restrições e exigiam novas técnicas de abordagem aos teóricos.

Limites e Superação

Enquanto problemas práticos persistiam, outros autores ajudavam a desenvolver e aplicar a Teoria dos Jogos em diversos setores do conhecimento. Em 1955, Richard Bevan Braithwaite (1900-1990) lançou o primeiro livro de filosofia a tratar desta teoria, chamado Theory of Games as a Tool for the Moral Philosopher (Teoria dos Jogos como uma Ferramenta para o Filósofo Moral), onde propôs um princípio equitativo, segundo orientação fornecida por uma "fronteira de eficiência". Outros filósofos, como o canadense David Gauthier que desenvolveu toda uma teoria contratualista da moral fundada na Teoria dos Jogos, em Morals by Agreement (Moral por Acordos, 1986), reconheceram o novo instrumento de análise que lhes surgia. Martin Hollis (1938-1998), por sua vez, com o auxílio da Teoria dos Jogos procurou atacar a noção limitada que vê a razão instrumental incompatível com a confiança, buscando na reciprocidade e no bem comum as bases iluministas de racionalidade e identidade comprometidas com o relacionamento local e o universalizável (10).

Peter Sellers encarna Dr. StrangeloveNos anos que se seguiram à II Guerra Mundial, os modelos matemáticos de jogos serviram de orientação para o desenvolvimento e teste de estratégias militares empregadas durante a Guerra Fria. O que fez com que Von Neumann e outros "teóricos dos jogos" inspirassem o caricato personagem principal do filme Dr. Strangelove (Dr. Fantástico, 1963), de Stanley Kubrick (1928-1999), interpretado por Peter Sellers (1925-1980). O apelo anti-militarista da maioria da população mundial, naquela época, somado aos problemas inerentes à teoria emergente, mas incompleta, lançou uma sombra sobre os propósitos nebulosos dos pesquisadores desta área. Apesar de sua "má fama", diversos novos conceitos foram criados no sentido de aproximar a teoria da realidade vivida pelas pessoas nos seus conflitos cotidianos. Estudos de jogos repetitivos, com várias rodadas seguidas; estocásticos, cujos pagamentos sofrem variação numa porcentagem fixa; novos modelos de jogos, como a Batalha dos Sexos; e as representações de jogos na forma extensiva, de árvores com nós e ramos que esquematizam os movimentos tomados, e estratégica, com matrizes onde figuram a lista de estratégias de cada jogador e seus resultados cruzados em células individuais, são alguns exemplos dos muitos aspectos desenvolvidos depois de 1950.

Em 1960, Thomas C. Schelling descreveu os efeitos da comunicação implícita e do chamado ponto focal para deliberação em jogos de motivação mista, intermediários à competição irrestrita e à pura colaboração. Mais uma vez, destacou-se os temas psicológicos e culturais que não eram passíveis de uma abordagem meramente matemática. Ao longo dessa década, outros dois autores - que, em 1994, dividiriam o prêmio Nobel de economia com John Nash -, Reinhard Selten e John C. Harsanyi (1920-2000), propuseram, respectivamente, o conceito de perfeito equilíbrio de subjogo como refinamento do equilíbrio de Nash e uma distinção precisa dos compromissos, onde eles são obrigatórios e quando não são plenamente factíveis; bem como a teoria dos jogos de informação incompleta, para jogadores que têm de se valer da probabilidade, a fim de encontrarem uma solução.

Em 1972, John Maynard Smith (1920-2004), biólogo evolucionista inglês, introduz a idéia de estratégias evolutivamente estáveis (EEE, ou ESS, sigla de evolutionarily stable strategy) em uma teoria dos jogos evolucionários que transformou a biologia em uma das disciplinas que mais empregam a teoria dos jogos na análise dos problemas trabalhados. Em 1979, Daniel Kahneman - psicólogo israelense que ganhou o prêmio Nobel de economia de 2002 -, ao lado de seu colega e compatriota, Amos Tversky (1937-1996), publicou a Teoria das Perspectivas (Prospect Theory) como uma resposta aos desafios e críticas feitos por Allais, anos antes, sobre as condições psicológicas dos conceito de utilidade e racionalidade adotados pela Teoria dos Jogos.

Os problemas que Nash havia percebido nos jogos repetidos foram aprofundados na teoria de Maynard Smith, cujo principal livro, Evolution and the Theory of Games (Evolução e a Teoria dos Jogos), fora lançado em 1982, e na Teoria da Cooperação de Robert Axelrod, iniciada em 1984 no seu The Evolution of Cooperation (A Evolução da Cooperação). Daí em diante, a Teoria dosJogos deixa de ser assunto exclusivo de economistas e matemáticos, passando a ser discutida abertamente por cientistas das mais diversas áreas do conhecimento. A biologia evolutiva destacou-se, mas também a psicologia, a neurologia e alguns filósofos mais avançados foram atraídos pelos jogos e sua capacidade de modelar o comportamento de agentes (racionais ou não) envolvidos numa interação e interessados nos resultados que os favoreçam preferencialmente.

Estágio Atual

Muitas correntes, além daquelas apontadas aqui, derivaram da Teoria dos Jogos e não é exagero dizer que milhares de artigos nos mais diversos campos têm sido publicados todos os anos. Depois que Axelrod popularizou os torneios com simulações de estratégias para o Dilema do Prisioneiro Iterado (DPI), uma nova abordagem completamente diferente da tradição filosófica surgiu para avaliar a cooperação e o modo de interação entre agentes com um grau mínimo de racionalidade. Desde então, começou-se analisar como a cooperação, paradoxalmente, poderia emergir mesmo entre sujeitos egoístas, interessados, primeiro, em satisfazer seus desejos imediatos de sobreviver e reproduzir.

Qualquer que fosse o cenário, determinista ou indeterminista, simultâneo ou alternado, se constatou que o entendimento mútuo poderia ocorrer, desde que aplicada a estratégia adequada para cada situação. Outros modelos de jogos criados mostraram isso mais de perto. No jogo conhecido como Ultimato, pode-se perceber com nitidez a necessidade da atuação do comportamento equitativo para a solução alcançada. N'outro modelo, chamado de Bens Públicos, o papel da punição e de um agente institucional são detectados no sentido de fazer valer os compromissos estabelecidos. A tais atributos - equidade e função do Estado -, que são centrais na filosofia política e na ética, acrescenta-se ainda o elemento discursivo, que em alguns jogos falados, não cooperativos, podem levar ao refinamento da solução, quando vários equilíbrios estão disponíveis.

A simulação por meio de jogos tornou-se ainda um elemento essencial na concepção de um programa de pesquisa, chamado Vida Artificial, que amplia as fronteiras da Inteligência Artificial a todo sistema de interação dos seres vivos. Do comportamento dos vírus a grandes impérios da história, o ciclo de "origem-escalada-apogeu-declínio" é reproduzido várias vezes em computadores, com objetivo de desvendar o programa que subjaz à evolução, de um modo geral. Tamanha diversidade de aplicações impede que o assunto tratado por este curso adote uma gama tão ampla da maneira detalhada que mereceria o fenômeno interdisciplinar da Teoria dos Jogos. Para os propósitos deste curso, pretende-se focar a apresentação nos conceitos e princípios básicos da Teoria dos Jogos e da Cooperação, nos pontos de interesse direto aos filósofos práticos (ética e política), destacando, na primeira seção, o papel da comunicação e, na segunda, o método da simulação e os jogos onde se emerge a equidade e o papel de instituições, como o Estado.

Notas
1. Veja HOBBES, Th. Leviatã, I part., cap. XIV, pp. 78/9.
2. Veja HUME, D. Treatise of Human Nature, III, part. II, seç. V, pp. 287/8.
3. Veja ROUSSEAU, J. J. Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens, II part., p. 261.
4. Veja BOUZON, E. O Código de Hamurabi, § 196 a § 200, pp. 181/2.
5. Veja SUETÔNIO TRANQUILO, C. A Vida dos Doze Césares, p. 38.
6. Em Games and Decisions, Luce e Raiffa citam o economista Maurice Fréchet como um dos autores desta proposta. Veja LUCE, R.D. & RAIFFA, H. Games and Decisions, cap. 1, p. 2.
7. SIMON, H. A. Comportamento Administrativo, pp. XXVIII-XXIX.
8. Veja NASAR, S. Uma Mente Brilhante, cap. 12, p. 147.
9. NASAR, S. Op. cit, cap. 13, p. 149.
10. Veja HOLLIS, M. Trust within Reason.

A seguir: A Estrutura do Jogo: Conceitos e princípios

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