Ultimo
Alento
Teresa, moça humilde, viera
da roça muito pequena.Com a morte do pai teve que mudar para a cidade. Na
escola conhecera Pedrinho e se enamorara. Foi paixão de adolescente que brotara
com toda a força da juventude. Os beijos roubados por Pedrinho eram seu grande
segredo. Nem bem atingira os dezoito anos e se casaram. Nove meses depois e ali
estava o primeiro filho. Outros vieram, assim pouco tempo depois lá estava ela
com seus três filhos. No início tudo fora difícil, mas graças a luta dos
dois conseguiram vencer. Pedrinho enricara e ela mais descansada já podia fazer
algo para si. Dedicara a vida ao marido e aos filhos. Agora, pensava, era a sua
vez. Foi assim que encontrou uma
maneira de se realizar. Junto com um grupo de amigos passou a escrever contos e
crônicas. Extravasava assim seus sentimentos.
Carlos era o membro mais velho
do grupo e foi nele que Teresa encontrou maior afinidade. Extasiava-se ouvindo
suas poesias. Durante anos estes encontros culturais foram a
razão de viver de Teresa, já que Pedrinho, iludido pela riqueza, não
mais se importava com ela.
Teresa sentia-se frustrada. O
namoradinho de infância e agora seu marido, era um estranho.
Uma noite, enquanto escrevia
distraída em seu escritório ouviu a campainha tocar. Seu coração acelerou,
um pressentimento lhe passou pela cabeça. Algo de
mal havia acontecido: — Com quem?
Sentia ao seu redor uma força invisível como a lhe querer dizer algo.
Foi até a porta, trêmula, angustiada. Nunca se sentira assim. — Que a
esperava? Um mensageiro trazia a notícia: — Carlos morrera!
No canteiro de seu jardim uma
linda rosa vermelha, aveludada, desabrochava. Teresa, inconscientemente, apanhou
aquele símbolo de paixão e dirigiu-se à casa de Carlos.
Na sala repleta
de flores a família chorava silenciosamente. No caixão a figura serena
de Carlos transmitia paz.
Teresa não via, mas
pressentia ao seu lado uma força invisível que dizia amorosamente:
— Neste meu sono eterno eu a
vejo ao meu lado. Calada, triste, sofrendo... Eu a vejo, quero lhe falar mas você
não pode me ouvir. Se ao menos partilhasse de minha crença, talvez pudesse
perceber que eu apenas descanso, durmo, ou melhor, meus olhos fechados descansam
mas minha alma está atenta, acompanhando todos os seus movimentos pela sala
onde meu corpo é exposto à visitação pública.
Meu coração estava fraco. Não
agüentou ao amor tão grande que passei a sentir por você logo que a vi.
Semblante calmo, sorriso
espontâneo, olhar meigo e
confiante, ingênuo, me atraiu no primeiro instante. A idade avançada apenas me
fez mais sensível e observador. Meus cabelos brancos e o peso dos anos não
impediram que eu me apaixonasse logo que a vi e a desejasse com a força dos
vinte anos. Além do mais possuíamos as mesmas afinidades, gostávamos das
mesmas coisas. Éramos duas almas gêmeas de poetas, de artistas. Porém que
abismo nos afastava! A diferença de idade, de cultura, de ambiente social e
principalmente havia entre nós , dois seres inocentes, nossos companheiros. Você
nunca seria capaz de uma traição. E eu? Não sei, talvez fosse capaz de
abandonar tudo pelo seu amor. Que ventura tê-la em meus braços. Acariciar seu
rosto moreno, sua pele macia, seus longos cabelos castanhos. Poder beijar seus lábios
rubros, que sinto serem doces como o mel. Seria tamanha ventura que atrevi-me a
sonhar com este milagre. A vida, madrasta e cruel, ao mesmo tempo que não
deixou que minh’alma envelhecesse fez com que meu corpo alquebrado conhecesse
o verdadeiro amor tarde demais. Já não é possível para mim desfrutar desta
paixão. Sinto agora, como sentia em vida, meu coração rebentar de dor, não a
física, mas a emocional, por não poder apertá-la em meus braços. Levo comigo
esta paixão e o segredo que meus olhos sempre teimavam em denunciar mas que
meus lábios conseguiram guardar para sempre. Agora vejo-a ao meu lado, junto
com minha esposa e filhos. A minha volta muitas flores com seus perfumes
adocicados. Vejo que você chora. Percebo uma lágrima que corre pela sua face.
Sinto ímpeto de acariciá-la e consolá-la mas meu corpo está hirto, frio e imóvel. Já
não consigo mover minhas mãos até seu rosto adorado. O que você não percebe
e não sabe é que eu estou jovem, alegre, forte e vivo, ao seu lado e a leve
brisa que julga sentir é um cálido beijo que deposito em seu rosto aveludado,
querendo enxugar a gota de orvalho que vejo rolar de seus olhos.
Querida, não pudemos nos
pertencer neste mundo, mas minha crença me diz que algum dia estaremos juntos.
Agora levo para o meu leito
frio e solitário a rosa vermelha que você depositou bem perto de meu coração.
Este coração imperfeito e fraco que entregou-se totalmente a você, neste amor
platônico mas mesmo assim eterno.
A angústia que Teresa sentia até aquele momento deu
lugar a uma calma imensa. Não sabia como, mas algo lhe tocara. Uma certeza,
tudo dizia-lhe que ali na presença da morte não estava o fim mas sim o grande
começo. Secou as lágrimas e com um sorriso despediu-se do amigo
Elaine Ventureli Caldas