Ultimo Alento

21/01/02

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Ultimo Alento

 

Teresa, moça humilde, viera da roça muito pequena.Com a morte do pai teve que mudar para a cidade. Na escola conhecera Pedrinho e se enamorara. Foi paixão de adolescente que brotara com toda a força da juventude. Os beijos roubados por Pedrinho eram seu grande segredo. Nem bem atingira os dezoito anos e se casaram. Nove meses depois e ali estava o primeiro filho. Outros vieram, assim pouco tempo depois lá estava ela com seus três filhos. No início tudo fora difícil, mas graças a luta dos dois conseguiram vencer. Pedrinho enricara e ela mais descansada já podia fazer algo para si. Dedicara a vida ao marido e aos filhos. Agora, pensava, era a sua vez.  Foi assim que encontrou uma maneira de se realizar. Junto com um grupo de amigos passou a escrever contos e crônicas. Extravasava assim seus sentimentos.

Carlos era o membro mais velho do grupo e foi nele que Teresa encontrou maior afinidade. Extasiava-se ouvindo suas poesias. Durante anos estes encontros culturais foram a  razão de viver de Teresa, já que Pedrinho, iludido pela riqueza, não mais se importava com ela.

Teresa sentia-se frustrada. O namoradinho de infância e agora seu marido, era um estranho.

Uma noite, enquanto escrevia distraída em seu escritório ouviu a campainha tocar. Seu coração acelerou, um pressentimento lhe passou pela cabeça. Algo de  mal havia acontecido: — Com quem?  Sentia ao seu redor uma força invisível como a lhe querer dizer algo. Foi até a porta, trêmula, angustiada. Nunca se sentira assim. — Que a esperava? Um mensageiro trazia a notícia: — Carlos morrera!

No canteiro de seu jardim uma linda rosa vermelha, aveludada, desabrochava. Teresa, inconscientemente, apanhou aquele símbolo de paixão e dirigiu-se à casa de Carlos.

Na  sala  repleta  de flores a família chorava silenciosamente. No caixão a figura serena de Carlos transmitia paz.

Teresa não via, mas pressentia ao seu lado uma força invisível que dizia amorosamente:

— Neste meu sono eterno eu a vejo ao meu lado. Calada, triste, sofrendo... Eu a vejo, quero lhe falar mas você não pode me ouvir. Se ao menos partilhasse de minha crença, talvez pudesse perceber que eu apenas descanso, durmo, ou melhor, meus olhos fechados descansam mas minha alma está atenta, acompanhando todos os seus movimentos pela sala onde meu corpo é exposto à visitação pública.

Meu coração estava fraco. Não agüentou ao amor tão grande que passei a sentir por você logo que a vi.

Semblante calmo, sorriso  espontâneo, olhar meigo  e confiante, ingênuo, me atraiu no primeiro instante. A idade avançada apenas me fez mais sensível e observador. Meus cabelos brancos e o peso dos anos não impediram que eu me apaixonasse logo que a vi e a desejasse com a força dos vinte anos. Além do mais possuíamos as mesmas afinidades, gostávamos das mesmas coisas. Éramos duas almas gêmeas de poetas, de artistas. Porém que abismo nos afastava! A diferença de idade, de cultura, de ambiente social e principalmente havia entre nós , dois seres inocentes, nossos companheiros. Você nunca seria capaz de uma traição. E eu? Não sei, talvez fosse capaz de abandonar tudo pelo seu amor. Que ventura tê-la em meus braços. Acariciar seu rosto moreno, sua pele macia, seus longos cabelos castanhos. Poder beijar seus lábios rubros, que sinto serem doces como o mel. Seria tamanha ventura que atrevi-me a sonhar com este milagre. A vida, madrasta e cruel, ao mesmo tempo que não deixou que minh’alma envelhecesse fez com que meu corpo alquebrado conhecesse o verdadeiro amor tarde demais. Já não é possível para mim desfrutar desta paixão. Sinto agora, como sentia em vida, meu coração rebentar de dor, não a física, mas a emocional, por não poder apertá-la em meus braços. Levo comigo esta paixão e o segredo que meus olhos sempre teimavam em denunciar mas que meus lábios conseguiram guardar para sempre. Agora vejo-a ao meu lado, junto com minha esposa e filhos. A minha volta muitas flores com seus perfumes adocicados. Vejo que você chora. Percebo uma lágrima que corre pela sua face. Sinto ímpeto de acariciá-la  e consolá-la mas meu corpo está hirto, frio e imóvel. Já não consigo mover minhas mãos até seu rosto adorado. O que você não percebe e não sabe é que eu estou jovem, alegre, forte e vivo, ao seu lado e a leve brisa que julga sentir é um cálido beijo que deposito em seu rosto aveludado, querendo enxugar a gota de orvalho que vejo rolar de seus olhos.

Querida, não pudemos nos pertencer neste mundo, mas minha crença me diz que algum dia estaremos juntos.

Agora levo para o meu leito frio e solitário a rosa vermelha que você depositou bem perto de meu coração. Este coração imperfeito e fraco que entregou-se totalmente a você, neste amor platônico mas mesmo assim eterno.

A angústia que Teresa sentia até aquele momento deu lugar a uma calma imensa. Não sabia como, mas algo lhe tocara. Uma certeza, tudo dizia-lhe que ali na presença da morte não estava o fim mas sim o grande começo. Secou as lágrimas e com um sorriso despediu-se do amigo

 

Elaine Ventureli Caldas

 

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Este site foi atualizado em 21/01/02