Deives Ferreira Castilho
Licenciatura em Física
Universidade Federal de Uberlândia - UFU


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O PARADOXO DA MEDIDA

A chamada interpretação de Copenhagem, apesar de seus efeitos estranhos, é realmente o ponto de vista "oficial" entre os físicos profissionais. Na aplicação prática da mecânica quântica o físico raramente se choca com problemas epistemológicos. Tanto quanto as regras quânticas se aplicam sistematicamente, a teoria proporciona tudo o que dela se pode esperar; isto é, prediz corretamente os resultados de medidas reais - o qual é, além do mais, a ocupação dos físicos-. Entretanto, alguns físicos não se tem contentado com isso, porque no mais profundo da interpretação de Copenhagem parece existir um paradoxo devastador.

De importância capital para o ponto de vista de Bohr é que podemos geralmente falar com sentido dos atributos físicos de um sistema somente depois de que se tem feito uma medida (uma observação) específica. Claramente, isto proporciona um estado físico crucial e especial à medida. Como temos visto, a especificação do contexto da medida requer afirmações particulares acerca do tipo e da localização do aparelho. Isto fica implícito que todos podemos estar de acordo sobre o significado que se dá a frases como "um contador Geiger colocado a dois metros da fonte". O problema aparece quando perguntamos de onde se coloca a linha divisória entre um sistema quântico e uma peça de um aparelho microscópico. Além do mais, os contadores Geiger são por sua vez feitos de átomos e sujeitos ao comportamento quântico.

Segundo as regras da mecânica quântica, um sistema quântico pode evoluir temporariamente de duas maneiras completamente distintas. Se o sistema pode ser considerado isolado, seu desenvolvimento temporal vem descrito pelo que os matemáticos chamam uma operação unitária. Em termos mais físicos, um desenvolvimento unitário corresponde a algo como o seguinte: Suponha-se que o estado do sistema consiste em várias figuras ondulatórias superpostas (ver Fig. 19). As diferentes ondas componentes interferirão continuamente entre si e produzirão uma figura complexa e mutante, análoga às ondulações da superfície de um tanque. De fato, a descrição desta evolução quântica é muito parecida à de qualquer outro sistema do tipo ondulatório.

Em contraposição a isto, suponha-se agora que se faz um certo tipo de medida. O efeito é dramático. De repente desaparecem todas as ondas que contribuíam à figura salvo uma, deixando somente a figura dada por esta única onda que corresponde à "resposta". Cessam os efeitos de interferência e a figura ondulatória subsequente fica totalmente transformada (um exemplo disto se deu na pag. 21). Tal evolução tipo-medida da onda é irreversível. Não podemos desfazê-la e restaurar a complexa figura ondulatória original. Matemáticamente, esta transição é "não-unitária".

Como podemos compreender estes dois modos de comportamento diferentes de um sistema quântico? Obviamente, a troca brusca que ocorre quando tem lugar uma medida tem de estar relacionada com o fato que o sistema quântico se acopla a um aparelho de medida com o qual interage. Já não está isolado. O matemático J. von Neumann procurou provar para um sistema modelo que um acoplamento assim terá certamente os efeitos mencionados. Entretanto, encontramo-nos mais uma vez com o paradoxo fundamental da medida. O aparelho de medida é feito de átomos e, portanto, sujeito às regras do comportamento quântico. Na prática não notamos nenhum efeito quântico em instrumentos macroscópicos porque os ditos efeitos são pequenos. Não obstante, se a mecânica quântica é uma teoria consistente, os efeitos quânticos devem estar presentes, não importa quão grande possa ser o aparelho. Poderíamos então escolher em considerar o sistema acoplado, objeto medido mais aparelho de medida, como um sistema quântico único e grande. Mas, supondo que o sistema combinado possa considerar-se isolado de outros sistemas ulteriores, as mesmas regras da mecânica quântica se aplicam agora aos maiores, incluindo a regra de desenvolvimento unitário.

Por que isto é um problema? Suponha-se que o sistema quântico original se achava em uma superposição de dois estados. Recorde-se, por exemplo, o caso da luz polarizada a 45º com respeito ao polarizador, na qual o estado incidente é uma superposição de dois estados possíveis do fóton, um paralelo e outro perpendicular ao polarizador. O propósito da medida é ver se o fóton atravessa o polarizador ou fica bloqueado por este. O aparelho de medida terá dois estados macroscópicos, cada um deles correlacionados com um dos dois estados de polarização do fóton. O problema é que, de acordo com as leis da mecânica quântica aplicadas ao sistema combinado, o aparelho passa agora a estar em uma superposição de estados! Certamente, se o dispositivo se designa adequadamente, qualquer efeito de interferência causado pelo solapamento (interferência) destes dois estados será minúsculo. Mas, em princípio, os efeitos estão aí, e somos forçados a concluir que o aparelho está agora na classe de estado limbo indeterminado que temos chegado a aceitar para elétrons, fótons, etc.

Von Neumann concluiu que deve arbitrar-se que o aparelho de medida tenha levado a cabo realmente um ato de medida irreversível somente quando ele também está sujeito a uma medida e, em conseqüência, requerido a "tomar uma decisão" (denominado teoricamente o colapso da função de ondas em auto estado particular). Mas agora caímos numa regressão infinita, pois este segundo dispositivo de medida requer assim mesmo outro dispositivo que o "colapse" em um estado de velocidade concreta e assim sucessivamente. É como se o acoplamento de um aparelho a um sistema quântico capacitara à superposição tipo fantasma de estados quânticos para invadir-se o laboratório!! Esta capacidade que temos de por objetos macroscópicos em uma superposição quântica demonstra de modo dramático a peculiaridade da teoria quântica.

O Paradoxo do gato de Schrodinger

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