Deives Ferreira Castilho
Licenciatura em Física
Universidade Federal de Uberlândia - UFU


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A NATUREZA DA REALIDADE

O resultado do teste mencionado acima é muito mais que um simples esclarecimento de um assunto técnico entre duas teorias rivais do micromundo. O debate concerne a nossa concepção do universo e da natureza da realidade.

Antes dos dias da mecânica quântica, a maioria dos cientistas ocidentais supunham que o mundo ao nosso redor goza de uma existência independente. Isto é, consiste em objetos como mesas, cadeiras, estrelas, átomos, que estão simplesmente "por aí afora ", ainda que os observemos ou não. Segundo esta filosofia, o universo é uma coleção de tais objetos existentes independentemente, que juntos formam a totalidade das coisas. Naturalmente, tem-se que admitir que uma observação que chegamos de um objeto leva consigo alguma interação com ele, o que implica que sofrerá inevitavelmente alguma perturbação. Entretanto, esta é considerada como uma perturbação incidental sobre algo que já possui uma existência concreta e bem definida. Certamente, em princípio, a perturbação necessária para medir algo poderia se fazer arbitrariamente pequena e, em qualquer caso, poderia ser calculada com todo detalhe, de modo que depois da medida poderíamos deduzir exatamente o que havia ocorrido ao objeto observado. Se este fora o caso de verdade, não vacilaríamos em dizer que o objeto tinha realmente um conjunto completo de atributos dinâmicos como posição, momento, spin e energia antes e depois da observação do mesmo. Os átomos e os elétrons seriam então simplesmente "coisas pequenas", diferindo das "coisas grandes", tais como bolas de bilhar, somente em matéria de escala. Salvo isso, não há diferenças qualitativas em sua categoria dentro do real.

Esta descrição do mundo é atraente porque é a que se dá melhor com o nosso sentido comum de entender a natureza. Einstein a chamava de "realidade objetiva" porque o status dentro da realidade dos objetos externos não depende das observações conscientes de um indivíduo. (Em contraste com os objetos em nossos sonhos, que são partes da realidade subjetiva). Mas é precisamente esta visão de sentido comum da realidade que Bohr desafiou com a filosofia que acompanha à interpretação de Copenhagem.

A posição de Bohr, como já se tem dito, é que não tem sentido descrever um conjunto completo de atributos de algum objeto quântico antes de ter realizado sobre ele um ato de medida. Assim, por exemplo, em um experimento de polarização de fótons não podemos simplesmente dizer qual polarização tem um fóton antes que tenhamos feito uma medida. Mas depois da medida podemos certamente atribuir um estado de polarização definida ao fóton. Similarmente, se nos enfrentarmos com a escolha de medir a posição ou o momento de uma partícula, não podemos dizer que a partícula possui valores específicos destas quantidades antes da medida. Se decidirmos medir a posição, acabamos com uma partícula em um lugar. Se, em lugar dela, escolhermos medir o momento, obteremos uma partícula com um movimento. No primeiro caso, depois de acabar a medida, a partícula simplesmente não tem um momento; no último caso não tem uma localização.

Estas idéias podem ser ilustradas com a ajuda de um exemplo simples (veja a Fig 08). Considere uma caixa em que se introduz um único elétron. Na ausência de observações, o elétron tem a mesma probabilidade de estar em qualquer parte da caixa. A onda mecânico quântica que corresponde ao elétron, portanto, estende-se uniformemente por toda a caixa. Suponha-se agora que um anteparo impenetrável é introduzido na metade da caixa, dividindo-a em duas câmaras. Obviamente, o elétron pode somente estar ou na uma câmara ou na outra. Entretanto, até olharmos e vermos em qual, a onda seguirá estando em ambas as câmaras. Após a observação, o elétron se revelará em uma câmara particular. Nesse mesmo instante (segundo as regras da mecânica quântica) a onda desaparece

bruscamente da câmara vazia, inclusive se a câmara permaneceu fechada durante o processo!!! É como se, antes da observação, houvessem dois nebulosos elétrons "fantasmas" que habitam cada uma das câmaras e esperam uma observação que converta um deles em um elétron "real" e que, simultaneamente, causa o completo desaparecimento do outro.

Este exemplo também ilustra claramente a não-localidade da mecânica quântica. Suponha-se que se separam as duas câmaras, A e B, e se levam a uma certa distância uma da outra (digamos um ano-luz); então A é inspecionada por um observador que encontra a partícula. Instantaneamente, a onda quântica em B desaparece, inclusive ainda quando está a um ano-luz de distância. (Deve repetir-se, entretanto, que isto não pode ser usado para enviar sinais mais rápidos do que a luz, devido à natureza imprevisível de cada observação).

Em geral, um sistema quântico se encontrará em um estado que consiste numa coleção (talvez um número infinito) de estados quânticos superpostos. Um exemplo simples de uma superposição assim foi dado mais acima e consistia em duas amostras ondulatórias desconexas, uma em cada câmara. Um exemplo mais típico é o do experimento de Young da dupla fenda, onde as ondas procedentes de ambas fendas de fato se juntam e interferem entre si.

Temos já encontrado esta classe de superposição anteriormente, ao discutir a luz polarizada que atravessa um polarizador orientado obliquamente. Se a onda luminosa incidente forma 45º com o polarizador, podemos considerá-la como formada por duas ondas de igual intensidade combinadas coerentemente com polarizadores perpendiculares entre si, como se tem mostrado na Fig 02. A onda paralela ao polarizador será transmitida, a outra será bloqueada. Poderíamos considerar a um estado quântico que contém um fóton polarizado a 45 com respeito ao polarizador, como uma superposição de dois "fantasmas" ou fótons "potenciais", um com polarização paralela, o que capacita a passar através do polarizador, e outro com polarização perpendicular, o que o impede de passar. Quando finalmente se faz a medida, um desses dois "fantasmas" é promovido a fóton "real" e o outro desaparece. Suponha que a medida mostra que o fóton passa através do polarizador. O fóton fantasma que é paralelo ao polarizador antes da medida se converte então no fóton real. Mas não podemos dizer que este fóton existia realmente antes da medida. Tudo o que se pode dizer é que o sistema estava em uma superposição de dois estados quânticos, nenhum dos quais possuía um estado privilegiado.

O físico John Wheeler gosta de contar uma deliciosa parábola que ilustra muito bem o estado peculiar de uma partícula quântica antes da medida. A história tem a ver com uma versão do jogo das 20 perguntas.

Então chegou a minha vez, o quarto a sair da sala de modo que os outros quinze convidados de Lothar Nordheim pudessem confabular em segredo para se chegar a um acordo sobre a palavra difícil. Estive fora por um tempo incrivelmente grande. Quando finalmente fui readmitido, encontrei que todos estavam sorrindo, sinal de brincadeira ou conspiração. Entretanto, pensei em tentar descobrir a palavra. "É animal?" "Não". "É mineral?" "Sim". "É verde?" "Não". "É branco?" "Sim". As respostas chegavam rapidamente. Então a partir daí as perguntas precisavam de mais tempo para ser respondidas. Era estranho. Tudo o que eu queria dos meus amigos era simplesmente um sim ou um não. Entretanto, o perguntado pensava e pensava, sim ou não, não ou sim, antes de responder. Finalmente tive fortes suspeitas de que a palavra poderia ser "nuvem". Sabia que tinha somente uma oportunidade para dizer a palavra. Aventurei-me: "É nuvem?" "Sim", disseram, e todos caíram em gargalhadas. Explicaram-me que não havia nenhuma palavra no começo. Haviam concordado em não chegar a um acordo sobre nenhuma palavra. Cada um dos perguntados poderia responder como quisesse, com o único requisito de que devia ter em mente uma palavra compatível com a sua própria resposta e com as dadas anteriormente, pois de outro modo perderiam se eu cumprisse o meu intento. A versão surpresa do jogo das vinte perguntas era, portanto, tão difícil para meus colegas como era para mim.

Qual o simbolismo da história? O mundo, uma vez criado, existe "mesmo", independente de qualquer ato de observação. Considerávamos o elétron no átomo como possuidor de posição e momento definidos. Quando eu entrava, pensava que na sala havia uma palavra definida. Realmente, a palavra foi desenvolvida passo a passo mediante as perguntas que eu fazia, como a informação acerca do elétron se faz existente pelo experimento que o observador escolheu realizar; isto é, pelo tipo de equipamento de registro que este coloca. Se eu houvesse feito perguntas diferentes ou as mesmas perguntas em ordem diferente, haveria acabado com uma palavra diferente, assim como o experimentador teria concluído uma história diferente dos fatos do elétron. Entretanto, o poder que eu tinha de trazer à existência em particular a palavra "nuvem" era somente parcial. Uma importante parte da seleção reside nos "sim" e "não" dos colegas da sala. De modo semelhante, o experimentador tem uma influência substancial acerca do que sucederá ao elétron mediante a escolha dos experimentos que realizará sobre este, "as perguntas que fará à natureza"; mas ele sabe que existe uma certa imprevisão acerca do que um qualquer dos seus experimentos averiguará, acerca de qual "resposta dará a natureza", acerca do que sucederá quando "Deus joga os dados". Esta comparação entre o mundo das observações e a versão surpresa do jogo das vinte perguntas é muito incompleta, mas contém o ponto decisivo. No jogo, nenhuma palavra é uma palavra até que essa palavra é promovida à realidade pela escolha das perguntas formuladas e respostas dadas. No mundo real da física quântica, nenhum fenômeno elementar é um fenômeno até que seja um fenômeno registrado.

A visão da realidade da escola de Copenhagem é, portanto, decididamente rara. Significa que um átomo ou um elétron ou qualquer outra partícula não pode ser dita existir por si mesma na acepção completa, de sentido comum, da palavra.

Isto, naturalmente, coloca com urgência a pergunta: O que é um elétron? Se não é algo de "externo", existente por direito próprio, por quê podemos falar tão confiadamente acerca dos elétrons?

A filosofia de Bohr parece relegar os elétrons e outras entidades quânticas a um estado bastante abstrato. Por outro lado, se vamos simplesmente adiante e aplicamos as regras da mecânica quântica como se o elétron fosse real, então, parece que obtemos os resultados corretos; podemos dar respostas a todas as perguntas físicas bem formuladas, como quanta energia tem um elétron atômico, e obter acordo com os experimentos.

Um cálculo típico que envolve elétrons consiste na computação da vida média do estado excitado de um átomo. Se sabemos que o átomo está excitado no instante t1 , então a mecânica quântica capacita-nos a calcular a probabilidade de que em algum instante posterior t2 já não o está. Assim, pois, a mecânica quântica nos proporciona um ALGORITMO para relacionar duas observações, uma em t1 e a outra em t2. O chamado "átomo" entra aqui como um modelo que capacita o algoritmo para predizer um resultado específico. Nunca observamos diretamente o átomo durante o processo de desexcitação. Tudo o que sabemos acerca dele está contido nas observações de sua energia em t1 e t2. Claramente, não necessitamos supor acerca do átomo nada mais que o necessário para obter resultados satisfatórios para nossas predições de observações reais.

A filosofia segundo a qual a realidade do mundo está enraizada nas observações é semelhante ao conhecido como positivismo lógico. Parece, talvez, alheio a nós porque, na maioria dos casos, o mundo segue comportando-se COMO SE tivesse uma existência independente. Somente quando testamos fenômenos quânticos esta impressão parece como insustentável. Inclusive então, em seu trabalho pratico, muitos físicos continuam pensando sobre o micromundo da maneira do senso comum.

A razão para isto é que muitos dos conceitos matemáticos puramente abstratos empregados se tornam tão familiares que assumem um ar espúrio de realidade por próprio direito. Isto também acontece na física clássica. Considere o conceito de energia, por exemplo. A energia é uma quantidade puramente abstrata, que se introduz na física como um modelo útil com o qual podemos abreviar os cálculos complexos. A energia não se pode ver nem tocar, entretanto, a palavra é agora tão cotidiana que a gente considera a energia como uma entidade tangível com uma existência própria. Na realidade, a energia é meramente uma parte de um conjunto de relações matemáticas que conectam de um modo simples as observações de processos mecânicos. O que sugere a filosofia de Bohr é que palavras como o elétron, fóton ou átomo tem de se considerar do mesmo modo - como modelos úteis que consolidam na nossa imaginação o que realmente é só um conjunto de relações matemáticas que conectam várias observações.

O Paradoxo da Medida

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