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São
mulheres desgraçadas
Como
Agar o foi também,
Que
sedentas, alquebradas,
De
longe... bem longe vêm...
Trazendo
com tíbios passos,
Filhos
e algemas nos braços,
Nalma
- lágrimas e fel.
Como
Agar sofrendo tanto
Que
nem o leite do pranto
Têm
que dar para Ismael...
Lá
nas areias infindas,
Das
palmeiras no país,
Nasceram
- crianças lindas,
Viveram
- moças gentis...
Passa
um dia a caravana
Quando
a virgem na cabana
Cisma
da noite nos véus...
...Adeus!
ó choça do monte!...
...Adeus!
palmeiras da fonte!...
...Adeus!
amores... adeus!...
Depois
o areal extenso...
Depois
o oceano de pó...
Depois
no horizonte imenso
Desertos...
desertos só...
E
a fome, o cansaço, a sede...
Ai!
quanto infeliz que cede,
E
cai p' ra não mais s' erguer!...
Vaga
um lugar na cadeia,
Mas
o chacal sobre a areia
Acha
um corpo que roer...
Ontem
a Serra Leoa,
A
guerra, a caça ao leão,
O
sono dormido à toa
Sob
as tendas d' amplidão...
Hoje...
o porão negro, fundo,
Infecto,
apertado, imundo,
Tendo
a peste por jaguar...
E
o sono sempre cortado
Pelo
arranco de um finado,
E
o baque de um corpo ao mar...
Ontem
plena liberdade,
A
vontade por poder...
Hoje...
cum' lo de maldade
Nem
são livres p'ra... morrer...
Prende-os
a mesma corrente
-
Férrea, lúgubre serpente -
Nas
roscas da escravidão.
E
assim roubados à morte,
Dança
a lúgubre coorte
Ao
som do açoite... Irrisão!...
Senhor
Deus dos desgraçados!
Dizei-me
vós, Senhor Deus!
Se
eu deliro... ou se é verdade
Tanto
horror perante os céus...
Ó
mar, por que não apagas
Co'
a esponja de tuas vagas
De
teu manto este borrão?...
Astros! noite! tempestades!
Rolai
das imensidades!
Varrei
os mares, tufão!..."
(Quinta
parte do poema "Navio Negreiro" de Castro Alves).
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