Romantismo
 

- Castro Alves -

"A praça! A praça é do povo
Como o céu é do condor,
É o antro onde a liberdade
Cria águias em seu calor.
Senhor!... pois quereis a praça?
Desgraçada a populaça
Só tem a rua de seu....
Ninguém vos rouba os castelos,
Tendes palácios tão belos...
Deixai a terra ao Anteu."
.........................................................
"República!... Vôo ousado
Do homem feito condor!
Raio de aurora inda oculta
Que beija a fronte ao Tabor!
Deus! por qu' enquanto que o monte
Bebe a luz desse horizonte,
Deixas vagar tanta fronte,
No vale envolto em negror?!..."
(Castro Alves).

  Antônio Frederico de Castro Alves nasceu a 14 de março de 1847, no município de Curralinho (atual Castro Alves), Bahia. Inicia os estudos na Bahia, seguindo depois para Recife, junto com o irmão, José Antônio. No Recife vive experiências que marcam profundamente sua vida: os primeiros sintomas da doença pulmonar; o início de seu romance com a atriz portuguesa Eugênia Câmara; o desequilíbrio mental do irmão. O suicídio de seu irmão ocorre em 1864, mesmo ano em que o poeta inicia seu curso jurídico. Retorna para a Bahia em 1867, onde a apresentação do drama "Gonzaga ou A Revolução de Minas" traz a consagração popular para o poeta e para Eugênia.
  Vai para São Paulo junto com o amigo Rui Barbosa e Eugênia Câmara. A 7 de setembro, na sessão magna comemorativa da Independência, declama pela primeira vez o poema "Navio Negreiro". Ao final do ano, fere acidentalmente o pé com uma arma de fogo que carregava a tiracolo durante uma caçada. Em 1869 amputa o pé e retira-se na Bahia, lá ocorre o agravamento da doença pulmonar.
  No dia 6 de julho de 1871, às 15h30min, falece o poeta, junto a uma janela banhada de sol, como era seu último desejo.
  Castro Alves, educado pela literatura de Victor Hugo, tem horizontes mais amplos que os poetas das gerações românticas que o antecederam; apresentava-se interessado não somente pelo "eu"(como todo romântico, cultivou também o egocentrismo), mas também pela realidade que o cercava, num processo de universalização, cantou o amor, a mulher, a morte, o sonho, a República, o abolicionismo, a luta de classes, a igualdade, os oprimidos. Em sua vida boêmia, teve muitos amores, amou e foi amado por várias mulheres, mas, como lembra Jorge Amado em seu "ABC de Castro Alves", a maior de todas as suas noivas foi a Liberdade.
  Apesar de mostrar tendências realistas em sua temática, o poeta é perfeitamente romântico na forma, entregando-se a exageros nas metáforas, comparações grandiosas, antíteses e hipérboles, típicos do condoreirismo.
  Sua poesia lírico-amorosa evolui da idealização para uma concretização das virgens sonhadas pelos românticos (agora existe uma mulher sensual, de carne e osso, individualizada em Eugênia Câmara).
  A liberdade, o condor voando nos picos andinos, o povo na praça, é isto que vai marcar a poesia social de Castro Alves, denunciadora das grandes desigualdades.
  Tornou-se célebre por sua obra sobre a escravidão (sendo conhecido como "O Poeta dos Escravos"), é nos versos sobre os escravos que se encontra admiravelmente fundida a efusão lírica e a eloqüência condoreira, como atestam os poemas "Vozes d' África", "Canção do Africano", "Saudação a Palmares", "Tragédia no Lar" (de grande carga dramática) e "Navio Negreiro".
  - Obras:
- Poesias - "Espumas flutuantes" (1870); "A Cachoeira de Paulo Afonso" (1876); "Os Escravos" (1883).
- Teatro - "Gonzaga ou A Revolução de Minas"(1875) - drama histórico.

O "adeus" de Teresa

A vez primeira que eu fitei Teresa,
Como as plantas que arrasta a correnteza,
A valsa nos levou nos giros seus...
E amamos juntos... E depois na sala
"Adeus" eu disse-lhe a tremer co' a fala...

E ela, corando, murmurou-me: "adeus."

Uma noite... entreabriu-se um reposteiro...
E da alcova saía um cavaleiro
Inda beijando uma mulher sem véus...
Era eu... Era a pálida Teresa!
"Adeus" lhe disse conservando-a presa...

E ela entre beijos murmurou-me: "adeus!"

Passaram tempos... séc' los de delírio
Prazeres divinais... gozos do Empíreo...
... Mas um dia volvi aos lares meus.
Partindo eu disse - "Voltarei!... descansa!..."
Ela, chorando mais que uma criança,

Ela em soluços murmurou-me: "adeus!"

Quando voltei... era o palácio em festa!...
E a voz d' Ela e de um homem lá na orquesta
Preenchiam de amor o azul dos céus.
Entrei!... Ela me olhou branca... surpresa!
Foi a última vez que vi Teresa!...

E ela arquejando murmurou-me: "adeus!"

(Castro Alves).