36 - "As pessoas boa-praça estão em paaz" (Tim Maia)

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Alexandre Matias
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boicote
Pode dar mais certo do que você imagina

Outro dia fui comer um lanche na padaria aqui perto de casa e, depois de me entregar a escolhida coxinha, o atendente me perguntou o que eu ia beber pra acompanhar: "Vai de Coca ou tá contra a guerra?". A pergunta me fez cair o queixo. Imediatamente começamos a conversar comércio e política internacional, manifestações públicas contra a guerra e manipulação de notícias. O vocabulário corriqueiro não diminuía a complexidade dos temas discutidos. Eram quatro da tarde, o movimento era fraco, e havia muito o que ser conversado.

Tiago - esse era seu nome, eu tinha que perguntar, né? - pontuava seu discurso com os chavões-dogma destes tempos ("Bush é um idiota", "Esse Rumsfeld é um mercenário", "a guerra é pelo petróleo, claro", "Blair é um lambe-botas", "os caras tavam achando que iam chegar lá e apavorar", "Não tem esse papo de Saddam..."), mas o que me impressionou foi a seqüência de frases do início ao papo.

- Vai de Coca ou tá contra a guerra?
- Que papo é esse...
- Ah, tá ligado que tem um monte de gente que não tá comprando Coca, né?
- Tou, tou ligado... Mas por quê?
- É, eu também ficava me perguntando, "que mané, tem nada a ver!", mas aí você vai vendo as pessoas pararem de comprar e falarem disso. Eu vejo isso direto. O cara vem, compra e fala que não quer Coca por causa da guerra.
- Todo mundo acha que fazendo a sua parte, algo pode acontecer...
- E não é isso que é cidadania, que tanto falam? Cê tá ligado que o McDonald's abaixou o preço no dia seguinte da guerra, né?

Não, não tava. Era muita informação vindo de um só cara, numa situação em que o que você menos espera é muita informação. E é algo que eu tenho percebido cada vez mais. Deve ter alguma coisa a ver com a surpreendente politização que tem tomado conta do planeta, que encontra reflexos nos protestos ditos "antiglobalização", na reação à política americana pós-11 de setembro e até na eleição do Lula. Mas, enfim, o fato é que a atmosfera que ficou pesada depois que este flato político chamado Bush resolveu espalhar pelo planeta o aroma que exala no vácuo entre suas orelhas. E este peso obrigou as pessoas, até as mais simples, a começar a fazer comparações e paralelos que sequer supunham anteriormente. E lá estava eu, conversando com o sujeito da padaria sobre política internacional e... boicote.

Como supus, claro que alguns risonhos risonharam meu convite à guerra anticonsumo contra os senhores da guerra. Os argumentos iam de ingênuo pra baixo, com pérolas como "como se o computador e os programas que as pessoas usam não fossem americanos" ou "você fala o tempo todo de música americana e inglesa...". O primeiro argumento mostra um completo desconhecimento da realidade: como se a maioria dos computadores e programas não fosse feita na Ásia (mais especificamente na China). O segundo é o assunto deste texto.

Estamos viciados em cultura anglo-norte-americana. Nos deram na mamadeira, tatuaram no DNA, é difícil (para uns, impossível) largar. Vivemos num universo filmado por Spielberg e colorizado por Disney, com efeitos especiais da Industrial Light & Magic, Paul Newman e Julia Roberts nos papéis prinicipais, com trilha sonora dos Beatles, Frank Sinatra e Elvis Presley. Um mundo James Bond, com gangues de Scorsese, milionários de Miami, prostitutas de Beverly Hills, monarcas pop, bad boys de Los Angeles, outsiders londrinos e caipiras do norte da Inglaterra ou do meio dos EUA, cercado por insignificantes repúblicas de bananas. Esse é o universo que todo planeta consumiu nos últimos 50 anos, estivesse você sob monarquia, ditadura, regime comunista ou autoridade tribal. A cultura em inglês foi o carro-chefe da aceitação do imperialismo americano pelo resto do planeta. Mas a bomba-relógio colocada pelos Beatles (o prazer da descoberta) na equação da cultura pop já explodiu e hoje buscamos (e encontramos) em outras culturas, referências e tendências muito mais interessantes do que as apresentadas

O inglês norte-americano cumpriu sua função: uma língua limitada (em sua versão britânica) foi reduzida ainda mais a um nível de pura onomatopéia e conseguiu tornar-se a língua mais falada do mundo e colocar o mundo para se conversar entre si. Este é seu grande trunfo (e o de qualquer pretensa língua universalista): permitir que pessoas de outros idiomas conversem entre si. Aliás, não é inglês a língua mais falado no mundo, mas sim o inglês mal-falado. Bad english é o idioma oficial do planeta.

A guerra do Iraque, mais do que os outros eventos citados no meio do quarto parágrafo, uniu uma parte considerável da humanidade em compaixão ao povo iraquiano. Ao ver civis sendo bombardeados naturalmente, todo o mundo (ou ao menos a parte boa dele) colocou-se no lugar dos conterrâneos de Saddam e pensou: "Podia ser aqui". E ao ver que gente de todo o planeta se reconheceu no Iraque, começa a acontecer um reconhecimento geral - África, América Latina, Europa, Ásia, Oceania, México e Canadá se reconhecendo como possível próximo alvo da truculência norte-americano.

Mas mais importante do que qualquer tipo de antiamericanismo, este movimento global é um movimento pró-tolerância. A ascensão desenfreada do capitalismo provocou um aumento na ansiedade e na insegurança das pessoas, além de provocar um reacionarismo e um conservadorismo generalizado, que trava totalmente a capacidade de evolução do indivíduo, que passa a temer tudo aquilo que é novo e diferente, aquilo que não é ele. Temos medo de tudo que não é nós mesmos por culpa da previsibilidade imposta pelo capitalismo. E, para não deixar claro que estamos com medo, menosprezamos, subjugamos, somos intolerantes.

Isto é o mais importante neste movimento antiguerra. Mais do que parar uma megachacina disfarçada de filme de Hollywood, esta onda pró-paz está fazendo o planeta perceber o óbvio: que antes de sermos estrangeiros, negros, patriotas, gente boa, judeus, machistas, asiáticos, mães solteiras, chiques, flamenguistas, ricos, evangélicos, nobres, senhoras, budistas, classe média, favelados, plebeus, crianças, bandidos, palmeirenses, arianos, adolescentes, católicos, casados, ciganos, mau caráter, iogues, desquitados, esnobes, mocinhos, solteiros, gays, velhos, pobres, heteros, flamenguistas, vegetarianos, corintianos ou que raio mais possamos ser, somos todos seres humanos, farinha do mesmo saco.

O boicote é só pra avisar aos Estados Unidos e à Inglaterra o mal que eles podem sofrer se não perceberem que estão na contramão da história. Mas lembre-se que estamos viciados: tirar tudo de uma vez pode causar síndrome de abstinência e fazer com que voltemos à fonte com muito mais vontade. Vá aos poucos. Saiba que, ao viciado, o primeiro passo é reconhecer o vício. Eu mesmo não consigo: é só me ler pra saber a influência do pop anglo-ianque no meu dia-a-dia. Mas se eu não consigo tirar filmes e discos (usando a internet, de certa forma, posso, pois vou direto ao assunto, não pago e não dou dinheiro para atravessadores), posso tirar itens de alimentação, combustíveis, vestuário, entre outras áreas.

Por isso, sem afobação. Priorize as prioridades, pense nas conseqüências, disseque a sua rotina. Certifique-se do que você quer fazer e faça. Não fique só ruminando na base do "e se?" ou do "até parece...". As coisas estão mudandos, todo mundo pode sentir e vivemos uma época em que estar sintonizado é muito importante. Lembre-se que você só precisa de uma semana pra se adaptar a qualquer situação, a qualquer mudança. Conte sete dias consumindo menos americanismos e veja se consegue ficar mais sete dias. Uma semana de cada vez e, assim, talvez possamos ser a última geração de americanófilos. Ou ao menos, a penúltima...

talagadas
Random tidbits sobre porranenhuma

Protesto em tempo real
A idéia surgiu num café da manhã aqui em casa: parar o mundo inteiro no mesmo fuso horário. Uma manifestação em massa, em tempo real. Imaginem só. Mais gente deve ter tido essa idéia, não é possível. Comecei a fuçar sobre isso e a mexer os pauzinhos pra pôr isso em prática. Qualquer novidade, eu aviso.

Zira
E a Al-Jazeera seria o canal perfeito pra veicular algo chave na hora desse protesto. Consagraria "A Ilha" (que nome adequado) como o principal veículo de credibilidade mundial do momento e linkaria todo o planeta ao redor de uma empresa árabe, fato, creio, inédito...

Salomônico
Vocês já repararam em um detalhe nesta cobertura da guerra do Jornal Nacional? Há uma vinheta, que entra meio de sopetão entre as notícias, com o mapa do Iraque e algumas cenas de guerra, que sempre precede imagens de agências internacionais. Prestem atenção: Fátima Bernardes lê o texto nas imagens sobre o lado norte-americano (até demais) e William Bonner fala em cima das imagens da Al-Jazeera.

Aliado de coalizão é rola
Agora, speak serious, esse papo de chamar o bombardeio anglo-estadunidense de "coalizão" é muito eufemismo... E o que dizer dos pamonhas que se referem aos débeis mentais como "aliados", fazendo referência à "liga da justiça" da Segunda Guerra Mundial? Manipulação de mídia é pouco.

Edição de idéias
E nem precisamos ir muito longe para saber o quanto a cobertura de guerra tem sido manipulada. Basta observar os termos usados para descrever determinadas coisas: "fogo amigo" não dá a idéia de falta de estratégia ou de amadorismo militar das tropas inglesas e americanas... "Inteligência" é outro, usado sem parar por pessoas que, certamente, não sabem seu real significado. "Missão de paz", "democracia", "liberdade", "direitos civis"... Pode prestar atenção: termos estéreis escondem verdades duras e violentas.

Mingana
Outro exemplo desse pente fino ideológico foi sublinhado por um dos tiozinhos que a Globonews entrevista diariamente: "Reconstrução do Iraque após a guerra é um mero eufemismo para exploração das riquezas mineiras iraquianas...". Não lembro o nome do cara, mas foi na mosca.

Newspeak
Traduzido porcamente como "novilíngua" (o "news" é de "notícias", tanso), o termo que entitula esta nota foi cunhado por George Orwell no seu mais que premonitório 1984. "Newspeak" é a linguagem dos jornais e telejornais, tão densa e complicada que torna-se literalmente ininteligível - e de propósito. Pra citar um exemplo óbvio, quantos de vocês lêem tranqüilamente cadernos de economia? (Nah, não precisa mentir, não tem ninguém olhando - e ninguém vai ter achar mais legal porque você saca de economia... Acho mais provável o oposto). Mas mais do que um senhor escritor de ficção científica, Orwell é um dos mais conscientes analistas políticos do século 20 e em seu ensaio Politics and the English Language de 1946 (três anos antes da publicação de 1984), ele já falava em newspeak mesmo antes de cunhar o termo. Segue um trechinho, aí embaixo:

O tal trecho
"Em noss tempo, o discurso e o texto políticos amplamente defendem o indefensável. Aldeias indefesas são bombardeadas pelo ar, seus habitantes forçados a fugir para o campo, o gado é metralhado, as casas são queimadas com balas incendiárias: a isto se chama de pacificação. Milhões de trabalhadores rurais são expulsos de suas fazenda e mandados para a estrada com apenas aquilo que podem carregar: isto é chamado de transferência de população ou retificação de fronteiras. Pessoas são aprisionadas sem julgamento por anos, ou mortas com tiros na nuca ou mandadas para morrer em campos de concentração no Ártico: isto é chamado de eliminação de elementos indesejáveis. Tal fraseologia é requerida quando se quer nomear algo sem evocar as imagens deste. Considere por exemplo um tranqüilo professor inglês defendendo o totalitarismo russo. Ele não dirá explicitamente 'Eu acredito em matar oponentes quando você consegue bons resultados nesta prática'. Ele provavelmente dirá algo parecido com isto:

"Enquanto se admite livremente que o regime soviético exibe certas características que humanitaristas tendem a deplorar, devemos, acho, concordar que uma certa redução do direito à oposição política é inevitavelmente concomitante à períodos de transição, e que o rigor com que o povo russo tem sido submetido pode ser amplamente justificado na esfera das conquistas concretas".

Quando há uma lacuna entre os objetivos reais e os declarados, a saída instintiva é manipular palavras, como um polvo que solta sua tinta".

Familiar?
O Zé Simão chamava o newspeak brasileiro de "Bestiário Tucanês".

Em outra escala...
A mesma coisa que acontece com as palavras, acontece com as pessoas - e a guerra é o exemplo perfeito disso. Quantos intelectuais, jornalistas, escritores e outras categorias de midiáticos não estão aproveitando esta guerra para si? Veja o Sérgio Dávila, ex-editor da Ilustrada e correspondente da Folha em Nova York... O cara escrevia a coluna NYTV no domingo sobre seriados da Sony, Emmys e Sopranos e... virou um senhor correspondente de guerra (seu Diário de Bagdá, na Folha, é a única coisa produzida pelo jornalismo brasileiro a respeito dessa guerra que merece ser lida - não é pra menos, o cara tá lá...). Outro exemplo é o Datena, que de repórter de campo de futebol da Bandeirantes passou para apresentador de programa policialesco e agora, com a guerra, esbraveja contra as atrocidades do Iraque com a pompa jornalística de, digamos, um Boris Casoy (foi mal, Datena). A guerra pode fazer bem e a mídia sabe disso.

Mea culpa
Até este meu sítio que, em tempos de "paz", falava de amenidades como discos e filmes tornou-se tematizado pelo assunto guerra - e eu fico aqui, crente que posso ser comentarista político ou analista internacional ou crítico de mídia. Já já eu volto ao normal.

Caetaneando
Ou não...

Voltando à vaca fria
O que Guided By Voices, Weezer, Sonic Youth, Teenage Fanclub, Moby, Tindersticks e Delgados têm em comum? Não vou dizer, mas tem gente que sabe.

Peaches
Podem dar como certo a vinda da electro-putinha de botique pro Brasil até o final do ano.

Golpe em casa
Caceta: outro dia o mala do John Perry Barlow tava na Globonews e cogitou uma hipótese que poucos estão cogitando: Bush se reeleger. Não pelo voto, mas por "estado de exceção". Em português claro: dando um golpe.

Adaptação
Já viu? Não? Não agüenta mais ouvir falar de guerra e quer um pouco de lirismo cabeça pop pra chacoalhar os neurônios sobreviventes? Assista.

Falando em cinema
Fui ver O Apanhador de Sonhos (meia bomba, Stephen King reescreve O Enigma que Veio do Espaço) e, no trailer, um dos animatrix: "O Último Vôo de Osíris", feito pelos carinhas da Square (da grife Final Fantasy). É a melhor computação gráfica do mundo, aquém do resultado do próprio longa do FF. A história é bobinha, mas vale pagar o ingresso pra sessão do filme novo do Morgan Freeman (o cara tá tipo um JJJ preto, muito bizarro) só pelo curta. Mas é claro que há quem vai achar que bom mesmo é o Dreamcatcher...

Serviço de utilidade pública
Mais uma vítima da mentalidade mega tucana: a ex-Bird e atual secretária de cultura do governo Alckmin fechou o Museu de Artes Gráficas, pouco mais de três meses após sua inauguraçào. O museu era um dos poucos feitos do poder público em prol da sempre desafada classe dos desenhistas e artistas gráficos. Saiba mais aqui e assine um abaixo-assinado contra o fechamento do museu aqui.

Factóide
Se Think Tank, do Blur, é um disco "difícil", é fácil imaginar porque tem gente que acha que música eletrônica não é música e que música britânica é fresca... É a caravana pró-imbecilização do ouvinte pop...

E o Michael Moore?
É muito engraçado ler neguinho "apresentando" o diretor pro Brasil depois que a TV a cabo brasileira (do mesmo patrão de quem "apresenta") já exibiu dois documentários dele e depois que o cara tornou-se celebridade do momento com o discurso do Oscar. É mais fácil acreditar que o discurso é que tenha apresentado o diretor a certos "formadores de opinião" da mídia impressa brasileira. E segue a caravana...

Então...
Deu pau na minha conexão (e na minha disposição de ficar na frente do computador) e fiquei um tempo sem atualizar essa bodega. Não que prazos, deadlines e periodicidade façam parte da rotina Suja, mas esta edição tava pronta desde a sexta passada. Pra não dizer que eu nunca te dei nada, coloquei textos novos espalhados ao redor. Quais? Aqueles com o enezinho entre parênteses do lado, ué... Sabe ler legenda não?

cut+paste
Citar é fácil

Guerra
Perguntas e respostas que estão sendo publicadas em jornais de todo o mundo e merecem nossa reflexão:
1. Qual a porcentagem da população dos EUA na população mundial?
Resposta: 6%
2. Qual a porcentagem do poder econômico dos EUA na riqueza mundial?
Resposta: 50%.
3. Qual país tem as maiores reservas de petróleo do mundo?
Resposta: A Arábia Saudita.
4. Qual país tem a segunda maior reservas de petróleo do mundo?
Resposta: O Iraque.
5. Quantos somam os gastos militares por ano, em todo mundo?
Resposta: Aproximadamente US$ 900 bilhões.
6. Quanto gasta o Governo dos Estados Unidos, dentro desse total?
Resposta: 390 bilhões de dólares, aprovados pelo Congresso Nacional.
7. Quantas pessoas foram mortas nas guerras realizadas desde a Segunda Guerra Mundial até agora?
Resposta: 86 milhões de pessoas.
8. Quando apareceram armas químicas no Iraque na década de 80, durante a guerra contra o Irã, e depois em 1991, essas armas foram desenvolvidas pelos iraquianos?
Resposta: Não. As fábricas e a tecnologia foram montadas e fornecidas pelo governo dos EUA, em associação com a Grã-Bretanha e empresas particulares daqueles países.
9. O governo dos EUA condenou o uso de gás pelo Iraque na guerra contra o Irã, na década de 80?
Resposta: Não.
10. Quantas pessoas o Governo Saddam Hussein matou usando gás contra a cidade curda de Halabja em 1988, localizada no norte do Iraque?
Resposta: 5 mil pessoas, todos civis.
11. Quantos governos de países do Ocidente condenaram essa ação?
Resposta: Nenhum!
12. Existem provas de ligação entre o Iraque e o ataque de 11 de setembro?
Resposta: Nenhuma.
13. Qual foi o número estimado de mortes de pessoas civis na Guerra do Golfo, em 1991?
Resposta: 35 mil.
14. Quantas baixas o exército iraquiano infligiu às tropas ocidentais durante a Guerra do Golfo, em 1991?
Resposta: Insignificantes.
15. Quantos soldados iraquianos em retirada foram enterrados vivos pelos tanques dos EUA equipados com lâminas de terraplenagem?
Resposta: 6 mil soldados.
16. Quantas toneladas de urânio enriquecido, foram utilizados na munição na Guerra do Golfo, em 1991?
Resposta: 40 toneladas.
17. Qual foi, segundo a ONU, o aumento dos casos de câncer no Iraque entre 1991 e 1994?
Resposta: 700%.
18. O Exército dos EUA destruiu que porcentagem da capacidade militar do Iraque, na guerra de 1991?
Resposta: 80% das forças armadas iraquianas.
19. O Iraque representou uma ameaça à paz mundial nos últimos dez anos ou a soberania de algum país?
Resposta: Não.
20. Quantas mortes de civis o Pentágono prevêem no caso de um ataque em 2003?
Resposta: 10 mil. Mas o responsável pela comissão de direitos humanos da ONU entregou recente relatório ao Governo Bush, prevendo 350 mil civis mortos, um milhão de desalojados, e dois milhões tendendo a migrar para outros países.
21. Quantas dessas mortes serão de crianças?
Resposta: Em torno de 50%.
22. Há quantos anos os EUA realizam ataques aéreos e bombardeios contra o Iraque?
Resposta: 11 anos. Inclusive usando armas químicas e biológicas, como denunciou no Fórum Social Mundial 2003 a Irmã Sherine, da congregação dos Dominicanos. Relatórios da ONU indicam que foram utilizados nesse período em torno de 9 mil toneladas de explosivos nos ataques ao Iraque.
23. Qual era a mortalidade infantil no Iraque em 1989?
Resposta: 38 para cada mil nascidos vivos.
24. Qual era a mortalidade infantil no Iraque estimada em 1999?
Resposta: 131 por mil nascidos vivos; aumento de 345%.
25. Qual a estimativa de iraquianos mortos entre 1991 até outubro de1999 devido às sanções da ONU?
Resposta: 1,5 milhão e cerca de 50% de crianças.
26. Quantas resoluções da ONU contra Israel os EUA vetaram desde 1992?
Resposta: 30.
27. Qual valor da ajuda anual do governo dos EUA para o governo de Israel?
Resposta: US$ 5 bilhões, como credito para compra de armas nos Estados Unidos.
28. Quantos países do mundo possuem armas atômicas?
Resposta: Apenas oito: Estados Unidos, França, Rússia, China, Inglaterra, Índia, Paquistão e Israel
29. Quantas ogivas nucleares o Iraque possui?
Resposta: Nenhuma.
30. Quantas ogivas nucleares os EUA possuem?
Resposta: Mais de 10 mil.
31. Quantas ogivas nucleares Israel possui?
Resposta: Mais de 400. O físico nuclear Israelense Modechai Vanunu, que trabalhou nas plantas nucleares e denunciou pela primeira vez ao mundo na década de 80, foi seqüestrado, conduzido aos tribunais e condenado a 30 anos de prisão, onde se encontra até hoje. Por essa razão, recebeu o Premio Nobel alternativo de 1992.
32. Alguma vez Israel permitiu inspeções de armas pela ONU?
Resposta: Não.
33. Qual porcentagem dos territórios palestinos está sob controle de colônias de judeus implantadas depois de 1991 pelos governos direitistas de Israel?
Resposta: 42% do território palestino da Cisjordânia.
34. A invasão desse território por colonos trazidos pelo governo de Israel está respaldada em alguma convenção internacional?
Resposta: Não. São completamente ilegais, há inclusive resoluções da ONU para sua devolução. E há forte oposição dos partidos progressistas de Israel.

Nasce um pária internacional
Se há alguma coisa óbvia na história da guerra, é que pouca coisa pode ser prevista.
No Iraque, a força militar mais espantosa da história humana atacou um país muito mais fraco, uma disparidade de forças enorme.
Demorará algum tempo até que as consequências disso possam ser avaliadas, ainda que de forma preliminar. Todos os esforços precisam ser dedicados a minimizar os danos, e a fornecer ao povo iraquiano os imensos recursos que lhe serão necessários para reconstruir sua sociedade, depois de Saddam, à maneira que preferirem, e não como lhes ditarem governantes estrangeiros.
Não existe motivo para duvidar da opinião quase universal de que a guerra no Iraque só fará aumentar a ameaça de terror, o desenvolvimento e uso de armas de destruição em massa, por motivos de vingança ou dissuasão.
No Iraque, o governo Bush está tentando realizar uma "ambição imperial", ou seja, em termos claros, assustando o mundo inteiro e fazendo dos Estados Unidos um pária internacional.
A intenção declarada da atual política norte-americana é afirmar um poderio militar que seja supremo no mundo, para além de qualquer desafio. As guerras preventivas norte-americanas poderão ser combatidas da maneira que se quiser, guerras preventivas, e não de preempção. Quaisquer que possam ser as justificativas que existam para uma guerra de preempção, elas não se sustentam no caso das guerras preventivas, uma categoria muito diferente: o uso da força para eliminar uma ameaça forjada.
Essa política abre caminho a uma disputa prolongada entre os Estados Unidos e seus inimigos, alguns dos quais criados pela violência e pela agressão, e não só no Oriente Médio. Quanto a isso, o ataque norte-americano ao Iraque é uma resposta às preces de Bin Laden.
Para o mundo, o que está em jogo na guerra e no período que a seguirá tem importância quase suprema. Para selecionar apenas uma das muitas possibilidades, a desestabilização no Paquistão pode levar à entrega de "armas nucleares perdidas" a uma rede mundial de grupos terroristas, talvez revigorada pela ocupação militar do Iraque. Outras possibilidades, não menos sombrias, são fáceis de imaginar.
Mas a perspectiva de um desfecho mais benigno continua a existir a começar pelo apoio mundial às vítimas da guerra, da brutal tirania e das mortíferas sanções contra o Iraque.
Um sinal promissor é que a oposição à invasão, tanto antes quanto depois que ela fosse consumada, é inteiramente sem precedentes.
Em contraste, 41 anos atrás, este mês, quando o governo Kennedy anunciou que pilotos norte-americanos estavam bombardeando e metralhando alvos no Vietnã, quase não houve protestos. E eles não atingiram um nível significativo ainda por alguns anos.
Hoje, há um movimento de protesto contra a guerra em larga escala, dedicado e baseado em princípios, nos Estados Unidos e em todo o mundo. O movimento pela paz agiu vigorosamente antes mesmo que a nova guerra do Iraque tivesse começado.
Isso reflete o progresso constante, nos últimos anos, da intolerância à agressão e às atrocidades, uma das muitas mudanças desse tipo que afetaram todo o mundo. Os movimentos ativistas dos últimos 40 anos exerceram efeito civilizatório.
Agora, a única maneira de os Estados Unidos atacarem um inimigo muito mais fraco é montar uma imensa ofensiva de propaganda retratando-o como a encarnação do mal, ou até mesmo como ameaça à nossa sobrevivência mesma. Esse foi o cenário que Washington defendeu com relação ao Iraque.
Mesmo assim, os ativistas pela paz estão em posição muito melhor agora para impedir um novo recurso à violência, e isso é uma questão de extraordinária importância.
Uma grande parte da oposição à guerra de Bush se baseia no reconhecimento de que o Iraque é apenas um caso especial da "ambição imperial" declarada vigorosamente na Estratégia de Segurança Nacional apresentada em setembro passado.
Para que tenhamos alguma perspectiva, em nossa situação atual, pode ser útil que relembremos episódios de história recente. Em outubro passado a natureza das ameaças à paz foi dramaticamente sublinhada em uma conferência de cúpula realizada em Havana no 40º aniversário da crise dos mísseis de Cuba, à qual compareceram participantes chave de Cuba, da Rússia, e dos Estados Unidos.
O fato de que tenhamos sobrevivido à crise foi um milagre. Aprendemos que o mundo foi salvo da devastação nuclear por um capitão de submarino russo, Vasili Arkhipov, que cancelou a ordem de disparar mísseis nucleares, quando submarinos russos foram atacados por destróieres norte-americanos perto da linha de "quarentena" imposta por Kennedy.
Se Arkhipov tivesse concordado com o disparo, o lançamento nuclear decerto teria criado uma troca de ataques que poderia "destruir o hemisfério norte", como advertira Eisenhower.
A assustadora revelação vem em momento particularmente adequado, dadas as circunstâncias: a raiz da crise dos mísseis era o terrorismo internacional para promover a uma "mudança de regime", dois conceitos que estão nos pensamentos de todos hoje em dia.
Os ataques terroristas norte-americanos contra Cuba começaram pouco depois que Castro assumiu o poder, e foram vigorosamente reforçados por Kennedy, até o momento da crise dos mísseis e depois.
Os novos estudos demonstram com brilhante clareza os riscos terríveis e imprevistos de ataques contra um "inimigo muito mais fraco", com o objetivo de promover uma "mudança de regime", riscos que podem em breve condenar-nos todos, não é exagero dizer.
Os Estados Unidos estão desbravando novos e perigosos caminhos, diante de oposição mundial quase unânime.
Há duas maneiras para que Washington responda a ameaças que são, em parte, engendradas por suas ações e proclamações surpreendentes.
Uma delas é tentar aliviar as ameaças por meio de alguma atenção a queixas legítimas, e algum respeito à ordem mundial e suas instituições.
A outra seria construir ainda mais espantosos aparelhos de destruição e domínio, de modo que qualquer desafio que se perceba, por mais remoto que pareça, possa ser esmagado gerando novos e ainda maiores desafios.

Give Peace a Chance
Ev'rybody's talking about Bagism, Shagism, Dragism, Madism, Ragism, Tagism
This-ism, that-ism, is-m, is-m, is-m.
C'mon
Ev'rybody's talking about Ministers,
Sinisters, Banisters and canisters
Bishops and Fishops and Rabbis and Pop eyes,
And bye bye, bye byes.
All we are saying is give peace a chance
All we are saying is give peace a chance

Como as notícias serão censuradas nesta guerra
Os media empresariais americanos já manifestam a sua aprovação ao método de cobertura das forças americanas que os militares tencionam autorizar na próxima Guerra do Golfo. Trata-se agora de incorporar os rapazes da CNN, CBS, ABC e The New York Times entre os marines e a infantaria dos EUA. O grau de censura vai aumentar. Já não é preciso que o Pentágono ande a fazer cortes nos despachos do repórteres. O novo sistema do 'script approval' (aprovação do original) imposto pela CNN — uma instrução aos seus repórteres para enviarem todas os seus textos a responsáveis anónimos em Atlanta a fim de garantir o saneamento adequado — sugere que o Pentágono e o Departamento de Estado não terão de se preocupar com o assunto. Nem os israelenses.
Na verdade, a leitura do novo documento da CNN intitulado "Memorando da política de aprovação do original" ("Reminder of Script Approval Policy") é de cortar o fôlego. "Todos os repórteres a preparar conjuntos de originais devem submete-los à aprovação", diz ali. "Os conjuntos não podem ser editados até que os originais tenham sido aprovados... Todos os conjuntos originados fora de Washington, LA (Los Angeles) ou NY (New York), incluindo todas as redacções internacionais, devem ser encaminhados à ROW em Atlanta para aprovação".
A data desta mensagem extraordinária é 27 de Janeiro. O "ROW" é uma fiada de editores de originais em Atlanta que podem insistir em mudanças ou "equilíbrios" no despacho do repórter. "Um script não está aprovado para ir para o ar a menos que esteja adequadamente marcado como aprovado por um administrador autorizado com duplicado para o gabinete de cópia... Quando um script é actualizado ele deve ser re-aprovado, preferivelmente pela autoridade que o aprovou originalmente".
Notem-se as palavras chaves aqui: "aprovado" e "autorizado" . O homem ou a mulher da CNN no Kuwait ou Bagdade — ou Jerusalém ou Ramallah — pode conhecer o pano de fundo da sua história; na verdade, eles conhecerão muito mais sobre isso do que as "autoridades" em Atlanta. Mas os chefes da CNN decidirão o carácter (spin) da história.
A CNN, naturalmente, não está sozinha nesta forma paranóide de reportar. Outras redes dos EUA operam igualmente sistemas anti-jornalísticos. E não se trata de falha dos repórteres. As equipes da CNN podem vestir roupas militares — você os verá vestidos assim na próxima guerra — mas eles tentam revelar alguma coisa da verdade. Da próxima vez, contudo, eles vão ter ainda menos possibilidade.
Para onde este odioso sistema conduz é evidente a partir de uma intrigante conversação no ano passado entre o repórter da CNN na cidade ocupada de Ramallah, no West Bank, e Eason Jordan, um dos dirigentes de topo da CNN em Atlanta.
A primeira queixa do jornalista foi acerca da história do repórter Michael Holmes sobre os condutores de ambulância do Crescente Vermelho que são repetidamente alvejados pelas tropas israelenses. "Nós arriscámos nossas vidas e andámos com condutores de ambulância... durante um dia inteiro. Testemunhámos a partir da nossa janela na ambulância que estávamos a ser alvejados por soldados israelenses... A história recebeu a aprovação de Mike Shoulder. A história passou duas vezes e então Rick Davis (um executivo da CNN) matou-as. A razão alegada foi que não tínhamos uma resposta do exército israelense, apesar de termos declarado na nossa história que Israel acreditava que os palestinos estavam a contrabandear armas e pessoas procuradas nas ambulâncias".
Os israelenses recusaram-se a dar uma entrevista à CNN, apenas uma declaração escrita. Esta declaração foi então inserida dentro do script da CNN. Mas foi rejeitada outra vez por Davis, em Atlanta. Só quando, depois de três dias, o exército israelense deu uma entrevista à CNN é que Holmes pôde passar a sua história — mas com a desonesta inclusão de uma linha dizendo que as ambulâncias foram apanhadas em "fogo cruzado" (isto é, que palestinos também atiraram a partir das suas próprias ambulâncias).
A reclamação do repórter era demasiado óbvia. "Desde quando nós submetemos uma história de reféns aos caprichos de governos e exércitos? Foi-nos dito por Rick que se não conseguíssemos um israelense na camara não teríamos o material no ar. Isto significa que governos e exércitos estão indirectamente a censurar-nos e estamos a representar exactamente como eles querem".
A relevância disto é demasiado óbvia na próxima Guerra do Golfo. Acabaremos por ver um oficial do Exército americano a negar tudo o que os iraquianos disserem se alguma reportagem do Iraque tiver de ir para o ar. Veja-se outra das queixas do correspondente de Ramallah no ano passado. Num material acerca dos danos a Ramallah após a incursão maciça de Israel em Abril último, "já mencionámos logo na abertura da nossa peça que Israel diz que esta a fazer todas estas incursões porque quer destruir a infra-estrutura de terror. Mas, obviamente, isto não era o suficiente. Fomos instruídos pelo ROW (em Atlanta) para repetir esta mesma ideia três vezes na mesma peça, apenas para assegurar continuávamos a justificar as acções israelenses..."
Mas o sistema do "script approval" que desfigurou a cobertura da CNN ficou pior. Numa nova e ainda mais sinistra mensagem datada de 31 de Janeiro deste ano, o staff da CNN foi informado de que um novo sistema computadorizado de aprovação de scripts permitirá "aprovadores autorizados de scripts marcarem os scripts (ou seja, a reportagens) de um modo claro e padronizado. Os EPs (executive producers) de scripts clicarão no botão colorido APROVADO a fim de mudarem a sua cor para vermelho (não aprovado) ou para verde (aprovado). Quando alguém faz uma alteração no script depois da aprovação, o botão mudará para amarelo". Alguém? Quem é este alguém? Ninguém disse isso aos repórteres da CNN.
Mas quando nos recordamos que após a Guerra do Golfo de 1991 a CNN revelou que havia permitido a "recrutas" do Pentágono estagiarem na sala de notícias da CNN em Atlanta, eu tenho as minhas suspeitas.

De volta à Idade Média
Em meio ao oceano de cartazes na marcha de um milhão por Londres (número oficial; extra-oficial: dois milhões), uma das placas dizia: "Bush quer bombardear a lei"; outra anunciava: "Os EUA estão criando as Nações Desunidas"; outra clamava: "Salvem a Terra, mandem Blair e Bush a uma missão em Netuno".
Afora os slogans pacifistas que a ocasião exigia, a passeata pululava de mensagens alertando que, para além dos horrores da guerra, pairam as ameaças de uma ruptura irreversível das instituições multilaterais. Depois da desregulamentação dos mercados e das garantias da legislação social, estaríamos assistindo agora à desestruturação da ordem internacional. Soem os alarmes!
De fato há muito mais em jogo do que se encontra circunscrito pelas fronteiras do Iraque. Livro recente do historiador Michael Howard, ex-professor de Oxford e Yale e um dos fundadores do International Institute for Strategic Studies, ajuda a refletir sobre a questão. O título é esclarecedor, "The Invention of Peace and the Reinvention of War" (Profile Books, 2002). Parte de conclusão surpreendente de Sir Henry Maine, em seu clássico sobre direito internacional (1888), de que "a guerra parece ser tão antiga quanto a humanidade, mas a paz é uma invenção moderna".
Nos tempos antigos e medievais, para governantes e elites de orientação belicosa, os breves períodos de paz é que pareciam anomalia. A guerra lhes era tão natural quanto as tempestades, predatórias, mas também inevitáveis. Só com os filósofos iluministas surgiria a idéia de que os confrontos militares são catástrofes provocadas pela cobiça dos poderosos. A gestão racional das sociedades deveria portanto restringir as causas, o impacto e o efeito das guerras. A idéia seria criar tribunais internacionais autônomos para a resolução dos conflitos, dotados de mecanismos de consenso e estabilização.
Foi Kant quem concebeu a idéia de uma Liga das Nações. A longo prazo, o objetivo era erradicar a guerra, como uma obsolescência típica de tempos primitivos.
Se nesse sentido a paz foi deveras uma invenção moderna, sua implementação porém levou mais tempo. Os acordos de Versalhes, após a Revolução e as guerras napoleônicas, criaram um sistema informal de consultas entre governos que pacificou a Europa por um século até a Grande Guerra. O fim do conflito em 1918 assinalou o declínio europeu e a ascensão dos EUA como potência mundial.
O país foi o primeiro a ter constituição e aparato institucional inspirados nos preceitos iluministas. Não surpreende que tenha encabeçado a criação da liga após a Primeira Guerra e a Organização das Nações Unidas após a segunda. Malgrado seus defeitos, não há como negar que a ONU funcionou como câmara de descompressão de tensões internacionais na turbulenta segunda metade do século 20.
Por mais insatisfeitos que estivéssemos com os limites da ONU, agora, vislumbrando a possibilidade do seu declínio, sentimos como é apavorante encarar um mundo sem instância com autoridade para gerar mediação, consenso e concórdia. O que aponta parece ser a reinvenção da guerra como componente intrínseco de uma nova ordem, em que uma cultura bélica recoberta de simbolismos religiosos e preconceitos inconfessáveis se sobrepõe à herança do iluminismo. De volta à Idade Média, prenunciada pela volta da caça às bruxas.
Esse retrocesso cultural ou essa manobra reacionária, como quer que se a conceba, tem fonte clara. Dentre os vários "thinking tanks" que vicejaram nos meios conservadores, empenhados no impeachment de Bill Clinton, ganhou destaque o núcleo duro chamado Project for the New American Century.
Sediado em Washington, reunia conselheiros políticos que se destacaram no círculo áulico da administração Bush sênior. Gente como Dick Cheney, Donald Rumsfeld, Jeb Bush, Richard Perle, Paul Wolfowitz, que viriam a se tornar, como se sabe, homens-chaves do governo Bush junior. Um dos membros era Zalmad Khalilzad, articulador das lideranças iraquianas no exílio e um dos principais candidatos ao suposto governo de transição no Iraque libertado.
O objetivo básico dessa corrente é a construção do que chamam de "dominação de espectro pleno". Ou seja, a idéia de que no século 21 os EUA se tornem militarmente invencíveis. Daí a iniciativa de levar adiante o projeto "Guerra nas Estrelas" e o empenho em desenvolver uma nova geração de armas nucleares, com tecnologia de exclusivo domínio americano. Levado às últimas consequências, esse projeto deixaria os EUA na posição de ditar a política mundial pela convicção da superioridade inquestionável de seu destino manifesto e pelo seu ilimitado poder de coerção.
Para parte significativa dos americanos e para a população mundial, esse projeto revela os riscos impensáveis do unilateralismo e a necessidade de se reajustar os desequilíbrios de poder atualmente vigentes na ONU e no Conselho de Segurança.
O que essa crise revela é tão medonho, que faz soar o alarme. Em tempos sombrios como estes, as maiorias que amam a vida, a liberdade e a paz entendem e atendem ao apelo das luzes.

INTERESTING ANALYSIS OF THE BOOING AT MICHAEL MOORE'S OSCAR SPEECH
As the Bush War escalates, so does the intensity of propaganda cranked out by the corporate media. Voices that counter the onslaught of disinformation are desperately needed. Thus this hastily-constructed "Media MASH UNIT" is dedicated to providing life support to the first casualty of war: TRUTH.
THE "MYSTERIOUS MICROPHONE" PLOY
Although we have all now witnessed the wonders of visual "movie magic" in the editing of news footage (remember the missing protestors in the footage of the presidential inauguration?), a new, more insidious bit of "magic" is gaining favor with propagandists. I like to call this technique the "mysterious microphone" ploy, because it is a mystery how what the ear hears live and the network microphones transmit up can be so different! During the speeches given during the massive protest in Washington, D.C. before the war was declared, to hear C-SPAN 's audio coverage, there was often barely a ripple of response by the audience to the speakers. Of course, those present know that the applause and cheering from the crowd that punctuated the speeches was thunderous. But the audience at home, unaware of the live reality, would swear that the activists were playing to a subdued and/or small crowd.
When Michael Moore delivered his blast of the Bush Reich at the Oscars, he was, in reality, given a standing ovation and hearty applause. But, to hear the soundbyte presented on the network news, you'd never know it. All you can hear are boos...which, in fact, came from about five people, from eyewitness accounts.
Conversely, when Bush so much as smirks at a public affair, to hear the "mysterious microphones" tell it, every person in the place thunderously cheers and applauds. So when you combine the mysterious microphone effect with skillful editng you can, quite effectively, lie through your teeth.
Example: The network coverage of Moore (all 3 seconds of it) shows Moore briefly, then, while cutting to a handful of stony-faced people, cranks up the volumne on the five booers. The result: a totally false statement: Moore's speech was met by boos and grim silence, not by enthusiasm and a standing ovation

Michael Moore's statement at Oscars
"We live in the time where we have fictitious election results that elect a fictitious president," Moore said. "We live in a time where we have a man who's sending us to war for fictitious reasons, whether it's the fiction of duct tape or the fiction of orange alerts."Applause gave way to some boos, as the orchestra began playing to cue the filmmaker to leave the stage."We are against this war, Mr. Bush. Shame on you, Mr. Bush. Shame on you," Moore shouted.
While Moore received a STANDING OVATION, only a few booed probably Charlton Heston, Bruce "Please send me to Iraq, Mr. Bush" Willis, and Arnold "testosterone-challenged" Swharzenneger.
'When asked by reporters why he made the remarks, he answered: "I'm an American."
"Is that all?"
"Oh, that's a lot," Moore responded. He dismissed the jeers he received, telling reporters: "Don't report that there was a split decision in the hall because five loud people booed."

Desconfie das notícias
No Vietnã a mídia difundiu a verdade e ajudou a derrotar os EUA. Washington aprendeu a lição, muito melhor que as ditaduras vulgares. No lugar da precária tentativa de neutralização via censura, incorporou a mídia às Forças Armadas.
Uniformizados e subordinados à hierarquia militar, os 'repórteres' na frente de batalha divulgam palavras e imagens selecionadas pelos planejadores da guerra.
Fora da frente de batalha, a CNN e a Fox News veiculam para o mundo 'notícias' plantadas pelo Pentágono. Na primeira noite da ofensiva, quando se esgotava o prazo do ultimato norte-americano, a 'notícia' era a suposta fuga de Tariq Aziz, o vice-primeiro-ministro iraquiano.
Para desmentir a versão fantasiosa, Aziz apareceu diante da mídia em Bagdá e foi rastreado até uma instalação no subúrbio onde se reuniria com a cúpula do regime. Essa instalação tornou-se o primeiro alvo dos mísseis e bombas de precisão americanos, na 'Operação Decapitação'.
Há uma guerra na mídia global e outra no Iraque. Existem pontos em comum entre ambas, mas a segunda é muito mais complexa e sutil que a primeira. De fato, a operação norte-americana não aguardou o fim da valsa diplomática na ONU, iniciando-se há mais de um mês, quando forças especiais se infiltraram no norte, oeste e sul do Iraque.
Olhe para as imagens como uma seleção parcial da realidade. Desconfie de todas as notícias. Boatos e rumores sobre morte, ferimento ou fuga de Saddam Hussein, seus filhos e altas figuras do regime podem ser verdadeiras, mas provavelmente são plantadas. A ofensiva da informação está em curso.
No Iraque, não há uma guerra de verdade, mas um massacre. Do ponto de vista de Bush, a ameaça não são as Forças Armadas iraquianas, desmoralizadas e abandonadas, mas a opinião pública mundial. Por isso, o Plano A consistia na mudança de lado de figuras-chave do aparato militar e de segurança interna do Iraque, com a decomposição do regime.
Esse plano fracassou, empurrando Washington ao Plano B, que começou com o bombardeio de 'choque e pavor' sobre Bagdá e prossegue em operações terrestres e aéreas destinadas a abrir caminho até as portas da capital do Iraque.
Não há combate sério pelo controle do território. A rota para Bagdá aberta, aplainada, desértica é o corredor ideal para as forças norte-americanas. Reunir blindados para barrar esse avanço representaria suicídio imediato. As tropas iraquianas seriam trucidadas por mísseis e bombas lançados de lugares bem distantes do campo de visão.
A resistência, esporádica, só pode retardar por horas ou dias a 'onda de aço' dos invasores. Mas esse intervalo tem significado político: todos os dias Bush perde um pouco mais a guerra pelos 'corações e mentes' no mundo e mesmo nos Estados Unidos.
Washington ainda se esforça pelo desmantelamento político do regime. Tudo indica que forças especiais estejam agora em Bagdá, sabotando, definindo alvos e negociando com oficiais militares iraquianos. Bombas, dinheiro e promessas. A garra do leão e a astúcia da raposa. A ordem é tentar, a todo custo, evitar a deflagração do Plano C.
O Plano C é o sítio a Bagdá e, em seguida, a penetração na metrópole. A geografia faz diferença. A cidade não é o deserto. Na cidade, quase todos os gatos são pardos. Os alemães se afogaram em Stalingrado, e os russos, em Grozni, a capital da Tchetchênia.
Bagdá não será Stalingrado ou Grozni, pois a população do Iraque não identifica Saddam Hussein com a pátria. Mas Saddam Hussein concentrou na capital as tropas da Guarda Republicana, único elemento das Forças Armadas em condições modestamente operacionais. Lá, pode acontecer uma guerra de verdade.
Bush não está preparado para uma guerra de verdade. Suas forças vencerão no teatro militar do Iraque, mas serão derrotadas no campo de batalha político das cidades árabes, européias e norte-americanas.
Daqui para a frente, todas as manobras táticas americanas estarão voltadas para evitar esses desdobramentos. Inclusive o noticiário da mídia global.

Consumers Against War
People in the whole world are holding their breath. Once again we are forced to witness a cruel and illegal war of aggression.
Bush and his government have dismissed every objection, they have ignored UN resolutions and the protest of the people in the whole world, as they have been obsessed with their aim: taking hold of the oil wells in Iraq.
People in the whole world are holding their breath - if they keep on doing it for too long they will suffocate.
LET'S THERFORE TAKE A DEEP BREATH AND THEN CRY OUT LOUD!
Let's go on protesting and demonstrating! Let's go on boycotting American products and thus the American economy, which is responsible for this war. Let's show America that we won't take this breach of international law! Let's put up a united front of independent and self-confident people, whose protest cannot be ignored!

matias
psychedelic
breakfast

Três considerações pela manhã

R&S: Guerra fria
SSU: Justo o contrário
MG: Primeiro de abril é um estado de espírito

p&r
Tecla daí que eu teclo daqui

O B*Scene não é uma surpresa daquelas que dão gosto, mas uma revista eletrônica sobre cultura que fazia falta na internet brasileira. Não tenta reinventar o jornalismo cultural, não segue a agenda dos cadernos de cultura e não cai em modismos e armadilhas da moda. Enfim: um site correto, com bons textos, boas pautas, bons colaboradores. Em tempos de opiniões aos borbotões, nada como um chão firme para se pisar. Conversei com a Bárbara Lopes, um das editoras do site, sobre o mesmo.

Fale sobre o começo do site.
A idéia inicial é minha e da Katia Abreu. A Katia vinha do Quadradinho, que tinha acabado. Nós passamos por um outro site, que não deu certo, e resolvemos montar uma coisa do jeito que a gente queria - com pautas mais elaboradas e texto mais bem cuidado. Com algumas idéias iniciais, nós chamamos as pessoas, o Alex Antunes, a Juliana Zambelo, em Recife, o Aquiles Lopes, e em Lisboa, o Mário Lopes. (Sim, uma confraria de Lopes. O Aquiles é meu primo, mas com o Mário eu não tenho parentesco.) O Fabio Camarneiro e o Marcelo Costa entraram em momentos posteriores.

Por que mais um site sobre cultura?
Eu não acho que sejam tantos assim. Bom, existem duas respostas tradicionais pra esse tipo de pergunta: "os que estavam aí não me satisfaziam" ou "eu queria me expressar". As duas são verdadeiras no caso da BScene e, de certa forma, se ligam. As pessoas que escrevem com a gente fazem textos bons e densos, como não é muito comum encontrar nos sites de cultura. Até porque se criou essa coisa de que a internet não se presta a textos longos, que tem que ser tudo rápido e fácil. E a gente decidiu não seguir essas regras.

Fale sobre o mito do "texto curto na internet". Você lê textos inteiros no computador, lê picado, imprime e lê...? E
como é a reação do seu público a isso.
Eu normalmente leio tudo na tela mesmo, de uma vez. Só interrompo por falta de tempo (livros eu leio aos poucos), e imprimo quando acho que vale a pena, quero fazer anotações, essas coisas. No começo, algumas pessoas diziam que não tinham conseguido ler tudo e a gente chegou a debater o assunto. Mas os textos do Alex, por exemplo, que estão entre os mais longos, também são os que mais agradam. E não tem como fazer menor. Eu, pessoalmente, às vezes acho que podiam ser maiores.

O BScene pretende mapear algum tipo de producao cultural fora da midia tradicional?
A BScene pretende mapear pelo menos alguns aspectos da produção cultural relevante atualmente. Por relevante, eu quero dizer aquilo que tem qualidade e originalidade o bastante para ser lembrado no futuro. Eu acho que a mídia tradicional está começando a enxergar algumas dessas coisas, o que é ótimo, ainda que sem ver (ou examinar) sua dimensão. A gente parte por uma linha mais de análise, que é menos comum na mídia tradicional.

A mídia tradicional está enxergando essas coisas porque as coisas que ela normalmente vendia faliram?
O trabalho da crítica, diga-se isso a bem dela, nunca (tá, tem algumas vergonhosas exceções) foi seguir o gosto popular, mas procurar as vanguardas. Todo mundo já ouviu que crítico só gosta de filme europeu chato e eu não me lembro de algum crítico elogiando o Paulo Coelho. Claro que se erra muito nessa busca. O que acontece agora é que os limites estão mais tênues, entre underground e mainstream (mais porque economicamente o mainstream esteja em baixa do que o contrário), a cultura de massa a cada dia ganha mais o status de alta cultura. As pessoas, incluindo as que escrevem, estão conhecendo mais coisas. A mídia tradicional começa a ver essas coisas porque está muito difícil não vê-las.

Queria que você falasse um pouco sobre isso: por que a mídia tradicional não dá margem à análise?
Acredito que basicamente pela questão estrutural - um texto analítico ocupa por mais tempo o profissional - e pela questão editorial - o que fazer quando a análise chega a conclusões que se chocam com a política da corporação? e se o estilo de texto foge do previsto, se de repente não parece mais que todos os textos foram escritos pela mesma pessoa? Na lógica industrial da grande imprensa, fica difícil resolver essas coisas.

O que você acha das atuais publicacoes sobre cultura?
Eu leio a Folha e o Estado quase que diariamente. Eu gosto da Ilustrada, mas por mais gente bacana que tenha lá, tem sempre as limitações de espaço e de estilo. O Caderno 2, que antes era acusado de ser pesado, está ficando cada vez mais ralo, uma matéria legível no meio de um monte de notinhas e material de agência. Só aos domingos eles dão um gás, aí fica com cara de Estado, textos sisudões, mas de que eu gosto.
Já com as revistas, a questão é mais problemática. A revista da MTV é uma bobagem, o discurso da "atitude" me irrita, as pautas são fracas, e quase sempre vira peça publicitária da própria MTV. Eu reconheço o esforço do pessoal da Zero, de manter uma revista impressa, o que é difícil. E deu uma melhorada nas últimas edições. Mas acho os textos ruins.
Acho que tem bastante coisa boa sendo feita, mas na maioria de forma desconexa, mantidas por diletantismo. Eu não vejo muita mudança no quadro de algum tempo para cá, exceto pela novidade fantástica dos blogs. A crítica literária, que estava meio de lado, parece ter ganhado um novo impulso. E sobre música e cinema, talvez nunca tenha havido tanta gente falando. O que é bom, mas corre o risco de virar papo de boteco. Nada contra, só que isso não supre o vácuo dos textos de fôlego, de visões originais, etc.

Mas o que, pra você, é mais revolucionário nos blogs: a praticidade da ferramenta ou a multiplicidade de opiniões?
É a praticidade da ferramenta (junto com o descompromisso) que permite a multiplicidade de opiniões. Aliás, a facilidade faz com que as pessoas passem a ter uma opinião, para poder tirar proveito da ferramenta. E como se de repente, no jardim da infância, distribuíssem pela primeira vez papel e lápis de cor.

Quem você destaca neste meio?
Eu gosto do Rio Fanzine e da coluna do Arthur Dapieve no Globo. Tem o no mínimo, em que o Dapieve também escreve. Aí, nessa linha de imprensa mais séria, tem a única revista que eu acho que vale a pena citar: a Carta Capital, que sem ser especializada, faz um trabalho legal na seção de cultura. Na internet, eu destacaria o Esquizofrenia e a coluna do Juliano Zappia no Omelete. O nosso parceiro português Disco Digital é bem bacana, mas o melhor site em língua portuguesa é o Fraude. Dos estrangeiros, eu gosto da Salon e dou sempre uma olhada no Pitchforkmedia. (Eu não vou citar o Trabalho Sujo que a gente não trabalha na base da bajulação)

O BScene tem intencao de ser impresso?
Acho que todo jornalista pensa na "tão sonhada revista própria", é um fetiche quase ver seu nome e suas palavras em tinta. E eu até vejo uma certa vocação no site para migrar pro papel. Mas é complicado, a gente não comprou nem o domínio pro site ainda. A intenção existe, mas nada muito concreto por enquanto.

O que as pessoas deveriam estar lendo, ouvindo e assistindo?
Tem muita coisa de qualidade sendo feita, e eu tenho essa fantasia de que nós deveríamos ouvir, ler e ver coisas diferentes uns dos outros. Porque é muito triste um mundo (como é o nosso) em que todo mundo frui as mesmas coisas. O cenário se fragmentou, vamos tirar proveito disso. Além do mais, eu me sinto incapaz de dizer a alguém o que fazer.
Mas para não parecer que eu estou fugindo da pergunta, eu vou citar algumas coisas que me agradam. Em música, saiu recentemente um disco chamado Tempo De Amor, de Smokey & Miho. Smokey é Smokey Hormel, guitarrista do Beck, e Miho é Miho Hatori, do Cibo Matto e do Gorillaz. O disco é de músicas do Baden Powell com Vinícius de Morais. Em literatura, eu ando meio por fora dos lançamentos. Então vou mencionar um clássico: O Jogo Da Amarelinha, de Julio Cortázar, que é maravilhoso. E em cinema, eu gostei bastante do Solaris.

Planos pro futuro, etc...
A gente quer firmar a BScene, ampliar o número de colaboradores, abordar algumas áreas ainda ignoradas, como teatro e artes plásticas... E tem também um projeto de uns seminários e debates sobre jornalismo cultural e internet, em fase de amadurecimento.

resenhol
Discos, discos, discos...

BSC - Bonsucesso Samba Clube
"Ai, um docinho agora...". O que está acontecendo Nordeste? Mais do que qualquer outra parte do país, este naco de estados promove uma revolução que desrespeita limites entre ritmos e gêneros musicais. Tem a ver com a afrociberdelia de Chico Science, mas vai muito mais além e engola eletrônicos ortodoxos (os coletivos Pragatecno, Soononmoon e Undergroove), a impressionante cena de Maceió (Wado, Mopho, Sonic Júnior, Xique Baratinho, Santo Samba), focos nítidos em Natal, João Pessoa e Aracaju (Musa Junkie, Zeferina Bomba, Bugs, Vitais, Lacertae, Escurinho), a Salvador eletrônica (Tara Code, André T, Rebeca Matta, O Cumbuca), a renascença cearense (Cidadão Instigado, Alcalina, Forma Noise, Karine Alexandrino, Realejo Quartet) e o Pernambuco pós-mangue beat. Deste último, vem o segundo disco do Bonsucesso Samba Clube que, mais do que uma excelente surpresa, é um disco sólido, consciente de suas qualidades e sem pudores quando o assunto é ousadia. Fazendo a ponte com o pessoal do Instituto (que, aos poucos, vem fazendo um trabalho de divulgação musical desta cena, papel que a imprensa especializada cada vez mais deixa de lado), o grupo lança BSC, e, como quase todas as bandas citadas acima, fica difícil resumir a música em texto: há as mesmas medidas de samba, funk, dub, MPB e eletrônica, teclados classudos, soluções de timbres consideráveis e muito, muito suinge. As letras de Roger Man, o vocalista, continuam esparsas, quase abstratas, mas o instrumental está mais seguro, coeso e firme, com uma produção exemplar. Já é candidato a disco do ano e, se eu fosse você, não esperava: peça o disco na gravadora deles.

Mondo Topless - Monokini
Se o kitsch retrô funciona para bandas em todo o planeta, por que não funcionaria com uma brasileira? Temos elementos cool cults que estão impregnados em nosso inconsciente mas são lembrados muito vagamente. É verdade o adágio que reza a falta de memória brasileira. Mas desde os anos 90, isso tem mudado: hoje há sites sobre brinquedos e guloseimas fabricados no Brasil, Charles Gavin personifica um movimento martelado por gerações de jornalistas e músicos (o relançamento de discos históricos da MPB), a Globo começa a cogitar lançar DVDs de novelas clássicas e programas importantes, como TV Pirata e Armação Ilimitada. Ainda é muito pouco, mas já é um começo. O Monokini, de São Paulo, faz parte deste movimento e, apesar de referências gringas explícitas (Stereolab, Cardigans, Pizzicato Five, Cibo Matto, além da toda Europa ocidental nos anos 60 e a safra jazz lounge americana da mesma década), resgatam timbres e construções sonoras que muitos brasileiros faziam melhor que seus pares de outros países. Gente que vai desde a bossa pop de arranjadores fodões (Sérgio Mendes, Walter Wanderley, Lafayette, Ed Lincoln) até as bandas lado B da Jovem Guarda, o flerte do gênero com o samba (via Erasmo e Wanderléia) e a safra 70 de cantores com nome em inglês. Resumindo: tecladões cavernosos, guitarras psicodélicas, percussão desembestada e uma vocalista (Fabiana Karpinski, fria e sensual como uma aeromoça dando dicas de segurança antes do vôo partir) montônica e de timbre fino. Podiam ser ainda mais brazucas (sem perder o aspecto "internationale" que eles tanto frisam), talvez interessasse ainda mais na gringa. Mas isso é palpite: Mondo Topless é bom do jeito que é, mesmo soando derivativo. Disco de festa em casa, pra deixar rolando quando chegam as visitas. Pede pra banda pelo site deles.

emblog
Pensando com a cabeça dos outros

Duas idéias interessantes e uma exótica:
Não ajudo a pagar a guerra: boicote aos produtos de empresas estadunidenses.
Como usuários de computador podem boicotar os eua: boicote focado em alternativas para usuários de computador.
Rebelião menstrual: Já que os eua querem sangue, prega o envio de absorventes usados às embaixadas dos estadunidenses.
Cynthia Semiramis, às 16:47

As guerras são uma ótima forma de medir os progressos das tecnologias de comunicação e descobrir quais as tendências para os próximos anos. Infelizmente, a qualidade da cobertura parece cada vez pior - e mais desonesta. Pelo menos existem algumas alternativas.
Leitura do Dia

Beba Guaraná
"Boicote a produtos dos EUA por causa da guerra ganha força
BERLIM (Reuters) - Nada de Coca-Cola, Budweiser, Marlboro, whisky do Tennessee ou mesmo cartões American Express -- um número cada vez maior de restaurantes da Alemanha está tirando tudo que for norte-americano de seu cardápio, em protesto contra a guerra no Iraque."
A ignorância estadunidense é tão grande que o maior grito de guerra deles contra os países que foram contra a invasão do Iraque ultimamente é "não precisamos deles". O raciocínio é: o maior consumidor internacional de produtos franceses e alemães é os EUA. Sendo assim parar de comprar produtos de lá vai afetar sua economia.
Muito justo. Mas eles esquecem de um detalhe: a economia americana é de superávit. Eles vendem mais do que compram, faz parte de ser o "líder do mundo". Se todo mundo fizer birra e parar de comprar um do outro quem mais sofre é quem depende de exportação. E mais: os EUA exportam coisas industrializadas e caras e importam itens básicos como comida. Na hora do aperto, da guerra comercial, o que vale mais? Ter pão ou um Pentium IV?

Cris Dias

Batata Frita
taumm
paundaunpandandan tondandanrandan
paundaunpandandan tondandanran
paundaunpandandan tondandanrandan
paundaunpandandan tondandanran
toumm tarandam doum doum dan
O ladrão de bicicleta estava mal
estava mal!
paundaunpandandan tondandanrandan
paundaunpandandan tondandan
paundaunpandandan tondandanrandan
paundaunpandandan tondandanr
toummtarandam doum doum dan
O vizinho era careta dedurou
dedurou!
paundaunpandandan tondandanrandan
paundaunpandandan tondandan
paundaunpandandan tondandanrandan
paundaunpandandan tondandan
toummtarandam doum doum dan
o juiz um boa praça cooperou
cooperou
paundaunpandandan tondandanrandan
paundaunpandandan tondandan
paundaunpandandan tondandanrandan
paundaunpandandan tondandan
toummtarandam doum doum dan
desta vz batata-frita se deu bem
se deu bem!
paundaunpandandan tondandanrandan
paundaunpandandan tondandan
paundaunpandandan tondandanrandan
paundaunpandandan tondandanran
toummtarandam doum doum dan
as pessoas boa praça estão em paz
estão em paz!
Tchuna

frasoutono
Uma estação de aspas legais

»  "Pobre é muito mais barato!", Millôr
»  "All art is quite useless", Oscar Wilde
»  "Change will do you good", Gang of Four

marchwaters
Se The Wall fosse um mês

»  "Pick Up the Pieces", Wilson das Neves
»  "Baba (DJ PM Só Love Extended Mix)", Kelly Key
»  "Sambadrome", Funk'N'Lata
»  "Don't Make Me Wait", Bomb the Bass
»  "Kisses on the Wind", Neneh Cherry
»  "Feelings", Karine Alexandrino
»  "I Beg Your Pardon", Kon Kan
»  "Freestyle Love", Stereo Maracanã
»  "African Rhythms", The Oneness of Ju-Ju
»  "Dreadlock Holiday", 10cc
»  "Europpean Son", Velvet Underground
»  "Mexe que Mexe", Furacão 2000
»  "White Rabbit", Jefferson Airplane
»  "Out of Time", Blur
»  "Jorge Maravilha", Chico Buarque
»  "I Want it All", Trans AM
»  "As Tortas e as Cucas", Júpiter Maçã
»  "Carpet Crawlings", Genesis
»  "September 13th", Eumir Deodato
»  "Dig a Pony", Beatles
»  "Aux Arms Et Caetera", Serge Gainsbourg
»  "Tere Sahn", Chico Correa
»  "More Bounce to the Ounce", Roger + Zapp
»  "Hey Dee Jay", DJ Omena
»  "Pop Star", João Penca & seus Miquinhos Amestrados
»  "Shake Up (Jaddle Remix)", Grand Unified

* Depois eu ponho na ordem
e zipo tudo em algum lugar

hitofdasummer2003
Óculos escuros e cabelos ao vento *

»  "Roadhouse Blues", Doors
»  "Ball of Confusion", Temptations
»  "Rainmaker", Grenade
»  "Good Day", Jimi Tenor
»  "Diabos", Wado
»  "See You", Depeche Mode
»  "O Tolo dos Tolos", Ira!
»  "Addicted to Love", Robert Palmer
»  "Na Pista", Casino
»  "Snip Snap ", Goblin
»  "Walking on Thin Ice", Yoko Ono
»  "Medicine Man", Playgroup
»  "Cross-Eyed and Painless", Talking Heads
»  "Argent Trop Cher", Tarace Boulba
»  "Highagain", Stereo Maracanã
»  "Say Hello to Angels", Interpol
»  "19 Rebellions", Asian Dub Foundation + Edy Rock
»  "We Rock Hard", Freestylers
»  "Faz Tempo", Nação Zumbi
»  "Catete Beats", Gerador Zero
»  "Astawesalehu", Lemma Demissew
»  "Uptown Top Rankin", Althea & Donna
»  "Things Are Getting Better", N*E*R*D
»  "Pasta Al Burro", Bugo
»  "Mysteries of Love", Fingers Inc.
»  "Walking on Sunshine", Katryna & the Waves

* Idem, ibidem

carrossel
"Estamos envoltos por som"

»  Beatles
Hail, Hail Rock'n'roll

»  Cat Power
You Are Free

»  Plastina Mosh
Juan Manuel

»  Blur
Think Tank

»  Anvil FX
Miolo

»  Pipodélica
Simetria Radial

»  Cure
Concert

»  Superbug
Baby, Baby

»  Toni Tornado
Toni Tornado

»  Chico Buarque
Os Saltimbancos

»  X
Los Angeles

50 de 2002
Aos poucos eu vou
colocando as resenhas

  1. In Search of... - N*E*R*D

  2. Nação Zumbi - Nação Zumbi

  3. Blazing Arrow - Blackalicious

  4. The Private Press - DJ Shadow

  5. The Eminem Show - Eminem

  6. Ciclo da De.Cadência - Cidadão Instigado

  7. Cinema Auditivo - Wado

  8. Deadringer - RJD2

  9. Playgroup - Playgroup
    O Roxy era uma boate nova-iorquina que queria reinventar o princípio da disco num ponto de vista entre o electro, a new wave, o hip hop e a world music. O Playgroup é como um parque temático musical sobre o Roxy. Sem soar retrô.

  10. Nada Como Um Dia Após o Outro Dia - Racionais MCs

  11. Fantastic Damage - El-P
    O papa da Def Jux não está pra brincadeira e transforma seu disco solo em um combate entre as forças do bem e do mal - embora quase nunca saibamos quem é quem. Entre robôs que dançam break e gangues de rua ciborgues, o produtor chega a apenas uma conclusão: que a fusão homem-máquina vai nos dar uma dor-de-cabeça dos infernos.

  12. Mind Elevation - Nightmares on Wax

  13. Start Breaking My Heart - Manitoba

  14. Geogaddi - Boards of Canada

  15. Angles Without Edges - Yesterday's New Quintet

  16. Antigamente Quilombos Hoje Periferia - ZÁfrica Brasil
    Equilíbrio hip hop, atitude HC, sagacidade homem-fumaça: o rap de São Paulo aos poucos ganha novos contornos...

  17. EP - Casino

  18. In Between - Jazzanova

  19. Murray Street - Sonic Youth

  20. All of the Above - J-Live

  21. Walking With Thee - Clinic

  22. Contraditório? - DJ Dolores

  23. Scorpio Rising - Death in Vegas

  24. Evil Heat - Primal Scream

  25. Sea Change - Beck
    Beck divide-se entre discos coloridos e monotônicos - estes últimos tendem a cair pro folk. E se One Foot in the Grave era azul escuro e Mutations era cinza-furta-cor, Sea Change mistura uma sépia quase classicista com um violeta lúdico, psicodélico, mas cético. Sinal de maturidade ou apenas mais uma máscara?
  26. Concrete Dunes - Grandaddy

  27. Outubro ou Nada! - Bidê ou Balde
    O grupo gaúcho larga de vez a jovem guarda e volta às suas raízes (indie) rock, cobrando parentesco com a safra Strokes, Hives e Interpol, mas sem esquecer que o DNA do rock brasileiro carrega Ultraje a Rigor e Léo Jaime nos cromossomos.

  28. As Heard on Radio Soulwax, Pt. 2 - 2 Many DJ's

  29. Are You Passionate? - Neil Young

  30. Amanhã É Tarde - Fellini
    A maturidade fez a dupla Cadão e Thomas perder um tanto da espontaneidade ingênua que era um dos charmes do grupo. Mas com ela, veio uma segurança musical inédita, colocando o Fellini ao lado de seus contemporâneos europeus. Para exportação.

  31. Out of Season - Beth Gibbons & Rustin Man

  32. Yoshimi Battles the Pink Robots - Flaming Lips

  33. Kittenz and thee Glitz - Felix da Housecat

  34. Handcream for a Generation - Cornershop
    Música de protesto para a geração pós-disco, o grupo indo-britânico  propõe que a rave é a uma passeata psicodélica que caminha memeticamente.

  35. Coleção Nacional - Instituto
    A intenção original era montar um coletivo sem fronteiras com o mais instigante pop nacional. Mas a megalomania do Instituto peca ao tratar, como coadjuvantes, pesos pesados como BNegão, Zero Quatro e Kid Koala - erro semelhante ao Orquestra Klaxon, de Max de Castro. Mas o grupo paulistano tem o tutano musical que falta ao filho de Simonal e, mesmo com solavancos (o dub do final é insuportavelmente vazio), o disco de estréia funciona. Resta enxugar a gordura e mirar o alvo.

  36. Combatente - Stereo Maracanã

  37. Original Pirate Material - The Streets

  38. Déjà-Vu - Metrô

  39. Gerador Zero - Gerador Zero

  40. Life On Other Planets - Supergrass

  41. I Might Be Wrong - Radiohead
    Depois de dois discos "difícies" (ou seria melhor dizer "vagos"? - Kid A tem momentos brilhantes, mas Insomniac dá sono), Thom Yorke e sua tchurma voltam ao ponto progressivo (Floyd + Genesis) de sua carreira e retomam as faixas da fase cabeça como se tivessem parado em OK Computer. Um best-of (sem eletrônica) da fase eletrônica.

  42. Hate - Delgados

  43. Title TK - Breeders

  44. Panzertúnel - Objeto Amarelo

  45. The First Album - Miss Kittin & The Hacker
    Nojenta, vulgar, barata... A Madame Hollywood se esforça pra baixar o nível em tom blasé e bases de funk carioca minimal. Electro? Azedo demais pra rotularmos disso. Tente algo como "coluna social muderninha em dias de ressaca".
  46. Now You Know - Doug Marstch

  47. Come with Us - Chemical Brothers

  48. Disco novo - Kiko Zambianchi
    Um pouco de rock anos 80, um pouco das melodias do Teenage Fanclub, um acabamento Gallagheriano. Tudo que o Astromato devia ter tentado, se quisesse ir para a rádio.

  49. Yankee Hotel Foxtrot - Wilco

  50. Everyone Who Pretended to Like Me Is Gone - Walkmen
    Um dos poucos clones do Radiohead que não lembram o Toto.

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»  Illuminatus Trilogy - Robert Anton Wilson & Robert Shea
»  On Liberty - John Stuart Mill (capítulos 1, 2, 3, 4 e 5)
»  The Raven - Edgar Allen Poe (tradução de Machado de Assis)
»  Devil's Dictionary - Ambrose Bierce
»  Tao Te King - Lao Tsé
»  Contact - Carl Sagan
»  A Clockwok Orange - Anthony Burguess
»  A República - Platão
»  Contos Fluminenses - Machado de Assis
»  On the Road - Jack Kerouac
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